{"id":12699,"date":"2018-01-04T12:28:06","date_gmt":"2018-01-04T14:28:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12699"},"modified":"2018-01-04T12:28:06","modified_gmt":"2018-01-04T14:28:06","slug":"esferas-de-dyson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/01\/esferas-de-dyson\/","title":{"rendered":"Esferas de Dyson."},"content":{"rendered":"<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de pelo menos alguns setores da sociedade humana com a preserva\u00e7\u00e3o do nosso planeta \u00e9 recente, muito recente. Na maior parte da hist\u00f3ria da esp\u00e9cie, o ser humano trabalhou com a ideia de que os recursos ao seu dispor eram basicamente infinitos. Hoje em dia a hist\u00f3ria \u00e9 bem outra, mas\u2026 ser\u00e1 que o futuro vai ser assim?<!--more--><\/p>\n<p>Com base no que j\u00e1 sabemos sobre o Universo l\u00e1 fora, escassez tende a ser o menor dos nossos problemas com o passar dos s\u00e9culos. Com exce\u00e7\u00e3o de vida, recursos n\u00e3o faltam nos nossos arredores. Sejam elementos radioativos, metais, combust\u00edveis e mesmo \u00e1gua, os asteroides, luas e planetas do Sistema Solar tem quantidades inimagin\u00e1veis capazes de sustentar a exist\u00eancia de quadrilh\u00f5es de seres humanos por bilh\u00f5es de anos, f\u00e1cil f\u00e1cil.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o existe um asteroide feito de carne bovina voando por a\u00ed, evolu\u00edmos o suficiente para n\u00e3o precisar mais desse tipo de material \u201csecund\u00e1rio\u201d jogado por a\u00ed para tirarmos proveito do recurso. O ser humano saiu da categoria de ca\u00e7ador e coletor para criador, precisando apenas de um local adequado para gerar esse tipo de recurso. O que normalmente exige energia para transforma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria-prima. E se precisamos de energia, tem um reator nuclear muitas vezes maior que o nosso planeta emitindo-a sem parar por outros bilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta nada ter tantos recursos dispon\u00edveis se n\u00e3o podemos ir busc\u00e1-los, refor\u00e7ando a preocupa\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o do ambiente aqui no nosso planeta. Mas, pra falar a verdade, o futuro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o sombrio assim se conseguirmos sobreviver mais uns duzentos ou trezentos anos\u2026 porque considerando o ritmo dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que estamos alcan\u00e7ando desde o s\u00e9culo XX, \u00e9 de se esperar que a \u201cescapat\u00f3ria\u201d para os c\u00e9us esteja se aproximando rapidamente. Uma civiliza\u00e7\u00e3o tende a ficar cada vez mais voraz no consumo de mat\u00e9rias-primas e energia com o passar do tempo, e mesmo que estiv\u00e9ssemos cuidando do nosso planeta exemplarmente, logo a Terra n\u00e3o daria mais conta do nosso apetite.<\/p>\n<p>A tecnologia que j\u00e1 temos permite, com algum esfor\u00e7o, sair do planeta e manipular rudimentarmente os recursos dispon\u00edveis no sistema solar. Praticamente todo sat\u00e9lite tem pain\u00e9is solares, nossas sondas j\u00e1 conseguem fazer feitos como pousar em cometas\u2026 e desde que n\u00e3o tenhamos muita pressa pra chegar, praticamente todo o local pode ser alcan\u00e7ado com nossos sistemas de propuls\u00e3o atual. At\u00e9 argumento que sem grandes preocupa\u00e7\u00f5es com seguran\u00e7a, j\u00e1 \u00e9 trivial mandar pessoas para Marte e al\u00e9m. Ainda \u00e9 muito caro, mas ningu\u00e9m precisa inventar algo totalmente revolucion\u00e1rio para dar conta desse recado.<\/p>\n<p>Como basicamente todas as tecnologias que mudam o paradigma de funcionamento da humanidade (medicina, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, transporte e comunica\u00e7\u00e3o), o segredo \u00e9 alcan\u00e7ar um ponto onde a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 suficientemente barata para que as pessoas possam consumir em massa. Quando alcan\u00e7amos esse ponto, a tecnologia na \u00e1rea explode com o enorme incentivo comercial. Mais pessoas se interessam pela \u00e1rea, mais recursos s\u00e3o disponibilizados para pesquisa e desenvolvimento, maior a vontade de tornar tudo ainda mais econ\u00f4mico para aumentar a base consumidora. Isso aconteceu com todas as \u00e1reas citadas acima, e nada sugere que o desenvolvimento espacial seja diferente.<\/p>\n<p>At\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s, apenas governos muito ricos e militarizados eram capazes de ir para o espa\u00e7o, mas recentemente j\u00e1 temos empresas privadas entrando no neg\u00f3cio e criando formas mais eficientes de trabalhar com o conceito. A SpaceX j\u00e1 trabalha com foguetes reaproveit\u00e1veis (a parte mais cara do processo) enquanto voc\u00ea l\u00ea este texto. A tend\u00eancia l\u00f3gica \u00e9 que a tecnologia necess\u00e1ria para mandar m\u00e1quinas e pessoas para fora do planeta torne-se cada vez mais eficiente e barata nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, fazendo com que empresas com menos do que bilh\u00f5es para investir tamb\u00e9m tenham sua chance. O acesso \u201cbarato\u201d ao espa\u00e7o n\u00e3o est\u00e1 longe. E o lucro que ele pode gerar tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lua j\u00e1 tem no seu solo elementos altamente rent\u00e1veis que podem ser extra\u00eddos por milhares de anos com opera\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o relativamente simples para a tecnologia atual. Desde que n\u00e3o custe o or\u00e7amento de um pa\u00eds para chegar at\u00e9 l\u00e1, o lucro \u00e9 basicamente garantido. Marte e V\u00eanus n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o distantes assim e tamb\u00e9m tem v\u00e1rios elementos valiosos prontos para serem explorados. Aster\u00f3ides est\u00e3o por todos os lados, alguns deles basicamente cole\u00e7\u00f5es imensas de elementos rar\u00edssimos aqui no planeta, flutuando sem rumo por a\u00ed. Entre Marte e J\u00fapiter h\u00e1 um cintur\u00e3o deles com uma massa combinada de milhares de vezes a do nosso planeta.<\/p>\n<p>E no sentido oposto, indo para o Sol, temos um aumento consider\u00e1vel de energia emanada pela estrela. Mat\u00e9rias primas s\u00e3o valiosas, mas o que realmente define o grau de evolu\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de energia que ela \u00e9 capaz de captar e aproveitar. Para realmente poder transformar toda a mat\u00e9ria que temos ao nosso dispor, precisamos dessa energia. A ideia \u00e9 basicamente se afastar do Sol para buscar material e se aproximar dele para transform\u00e1-la em elementos \u00fateis para n\u00f3s. A posi\u00e7\u00e3o da Terra realmente ajuda nisso.<\/p>\n<p>E como utilizar todo esse potencial? Aqui entra a ideia da Esfera de Dyson, teorizada pelo f\u00edsico e matem\u00e1tico ingl\u00eas Freeman Dyson, uma estrutura capaz de captar e consumir basicamente toda a energia emanada por uma estrela. A vers\u00e3o mais famosa da ideia se baseia numa \u201ccapa\u201d de estruturas que tape toda a luz e calor emitidas pela estrela, n\u00e3o deixando nada escapar para a escurid\u00e3o do espa\u00e7o. Uma civiliza\u00e7\u00e3o muito avan\u00e7ada poderia ter todos seus problemas de energia reduzidos se morasse na casca dessa esfera. Um planeta com atmosfera e campo magn\u00e9tico \u00e9 muito importante para n\u00f3s agora, mas nem de longe \u00e9 condi\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel para a vida humana, ou a vida em geral.<\/p>\n<p>Com tanta energia ao nosso dispor, seria trivial construir m\u00e1quinas e sistemas que transformem a quantidade incr\u00edvel de mat\u00e9ria ao nosso redor no sistema solar em ar, \u00e1gua, comida e eletricidade, por exemplo. Mesmo os elementos mais raros na Terra seriam triviais contabilizando toda a massa de outros planetas, luas e asteroides. Seria basicamente o fim da era da escassez e uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel de paradigma para a humanidade. Construir uma estrutura dessas, cobrindo perfeitamente uma estrela, necessitaria de uma quantidade imensa de mat\u00e9ria-prima que n\u00e3o conseguir\u00edamos aqui na Terra (n\u00e3o sem destruir completamente o planeta), mas se n\u00e3o tivermos d\u00f3 de destruir alguns asteroides ou planetas an\u00f5es para coletar o material, o \u00fanico problema aqui \u00e9 o tempo que isso demoraria.<\/p>\n<p>E tempo, pelo menos pensando na escala do universo, \u00e9 o recurso mais abundante de todos. O Sol vai continuar se comportando bem por pelo menos mais uns 5 bilh\u00f5es de anos, tempo suficiente para um organismo unicelular evoluir at\u00e9 um que pisa na lua do seu planeta\u2026 estaremos seguros. Mas mesmo antes de termos uma capa perfeita dessas, existe outra forma de Esfera de Dyson muito mais eficiente: um enxame de naves ao redor da estrela, deixando vazar sim muita energia, mas considerando quanta o Sol emana por segundo, muito mais do que o necess\u00e1rio para uma popula\u00e7\u00e3o humana de quintilh\u00f5es\u2026 bilh\u00f5es de vezes mais que temos hoje.<\/p>\n<p>E como funcionaria cada uma dessas naves? Teoricamente simples: com prote\u00e7\u00e3o suficiente da radia\u00e7\u00e3o, d\u00e1 pra simular gravidade com a for\u00e7a centr\u00edfuga em grandes habitats rotat\u00f3rios que podem abrigar cidades completas com \u00e1reas rurais para produzir comida e viagens constantes at\u00e9 os asteroides mais pr\u00f3ximos para minera\u00e7\u00e3o. Conhecendo a humanidade, obviamente teremos mega corpora\u00e7\u00f5es trazendo esses elementos periodicamente para a esfera, reduzindo os custos para as naves individuais. E apesar das dist\u00e2ncias gigantescas entre cada uma das naves, a rela\u00e7\u00e3o entre elas vai ser basicamente como viajar de uma grande cidade para outra. Lembrando que o mais dif\u00edcil da viagem espacial atualmente \u00e9 sair da atmosfera terrestre. Quando n\u00e3o tem press\u00e3o atmosf\u00e9rica e gravidade para gastar seu combust\u00edvel numa viagem, ela fica imensamente mais barata e r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Um sistema complexo desses obviamente n\u00e3o est\u00e1 h\u00e1 apenas um ou dois s\u00e9culos de dist\u00e2ncia, mas parece ser o caminho mais claro para o desenvolvimento da humanidade a partir daqui. E no caminho at\u00e9 uma Esfera de Dyson, a escassez vai diminuindo em escala exponencial. Estamos vivendo num pequeno espa\u00e7o de tempo entre abund\u00e2ncias: a primeira quando nossa popula\u00e7\u00e3o e necessidade de mat\u00e9ria-prima e energia eram pequenas demais para a disponibilidade de nosso planeta e a pr\u00f3xima quando elas ser\u00e3o pequenas demais de novo, mas dessa vez para o sistema solar como um todo. E em alguns milhares de anos passaremos de novo por isso, at\u00e9 ficar barato o suficiente a viagem interestelar. E nem precisamos \u201cquebrar a f\u00edsica\u201d com viagens mais r\u00e1pidas que a luz. Com a escassez b\u00e1sica resolvida e habitats externos \u00e0 Terra triviais o suficiente, uma viagem de um ano e de mil anos d\u00e3o basicamente no mesmo. Que diferen\u00e7a faz passar a vida numa nave perto da Terra ou numa nave viajando pelo vazio interestelar?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que devamos esquecer completamente a preocupa\u00e7\u00e3o com a prote\u00e7\u00e3o ambiental, precisamos desse planeta por muito anos ainda, mas o futuro da humanidade n\u00e3o depende e n\u00e3o deveria depender apenas dessa rocha flutuando no espa\u00e7o. Ela \u00e9 um limite f\u00edsico muito restritivo para as possibilidades humanas, e basta um mil\u00eanio ou dois de sossego do consumo humano que a Terra se recupera muito bem, obrigado. O futuro depende de tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ambiental. O nosso, pelo menos.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o desfavor do futuro vai ser reclamar da nave Brasilis, para dizer que o Trump \u00e9 um vision\u00e1rio, ou mesmo para dizer que a humanidade vai se destruir antes disso (n\u00e3o vai, a janela de oportunidade passou cem mil anos atr\u00e1s): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de pelo menos alguns setores da sociedade humana com a preserva\u00e7\u00e3o do nosso planeta \u00e9 recente, muito recente. Na maior parte da hist\u00f3ria da esp\u00e9cie, o ser humano trabalhou com a ideia de que os recursos ao seu dispor eram basicamente infinitos. 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