{"id":12869,"date":"2018-02-14T08:00:16","date_gmt":"2018-02-14T10:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12869"},"modified":"2025-11-04T20:12:44","modified_gmt":"2025-11-04T23:12:44","slug":"eutanasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/02\/eutanasia\/","title":{"rendered":"Eutan\u00e1sia."},"content":{"rendered":"<p>Lilith encomendou um texto sobre Eutan\u00e1sia, e disse que tinha que vir dentro de uma coluna Flertando com o Desastre. O tema j\u00e1 passeou pelas nossas p\u00e1ginas algumas vezes e eu sempre deixei minha posi\u00e7\u00e3o clara. Mas, talvez n\u00e3o com o carinho necess\u00e1rio\u2026 vamos estabelecer o ponto central do texto de hoje: eutan\u00e1sia \u00e9 uma pr\u00e1tica humanit\u00e1ria que defende a vida acima de tudo. N\u00e3o deveria ser pol\u00eamica, nem um pouco.<!--more--><\/p>\n<p>Em termos simples, eutan\u00e1sia \u00e9 o ato de terminar a vida de uma pessoa para evitar que ela sofra de forma continuada. Evidente que n\u00e3o falaremos sobre uma pessoa aleat\u00f3ria matando outra porque acha que vai ajudar, estamos falando sobre profissionais de sa\u00fade bem treinados realizando o procedimento de forma tranquila e indolor em pacientes em estado de sofrimento continuado comprov\u00e1vel e de acordo com a vontade da pessoa ou daqueles que podem tomar essa decis\u00e3o por ela.<\/p>\n<p>Mas mesmo dentro de regras bem definidas e um grau de confiabilidade razo\u00e1vel no processo, ainda existe um dilema moral poderoso. N\u00e3o \u00e9 objetivo deste texto fazer pouco desse dilema, afinal, decidir pela pr\u00f3pria morte ou a de uma pessoa querida marca pontos em todas as escalas do que configura uma decis\u00e3o complexa para uma pessoa: \u00e9 definitiva, envolve diretamente as pessoas ao seu redor, gera um risco de arrependimento e querendo ou n\u00e3o, mata uma pessoa! Frequentemente nos vemos confusos sobre o restaurante que vamos, \u00e9 o terror da escolha errada elevado ao cubo.<\/p>\n<p>Totalmente compreens\u00edvel que quem esteja dentro de uma situa\u00e7\u00e3o dessas sinta-se terr\u00edvel para tomar a decis\u00e3o. Mas ser uma decis\u00e3o terr\u00edvel n\u00e3o deveria ser a base para uma pol\u00eamica. Vejam bem, algo pol\u00eamico, pelo menos da forma como eu enxergo, deveria ser algo sobre o qual existam pelo menos duas interpreta\u00e7\u00f5es conflitantes bem fundamentadas. O debate entre esquerda e direita em pol\u00edtica \u00e9 uma pol\u00eamica, pessoas podem falar sobre isso com uma complexidade enorme se quiserem. Dados e mais dados sobre a vida real podem ser trazidos e analisados para gerar mais e mais discuss\u00f5es. Pol\u00eamicas s\u00f3 tem longevidade \u00e0 medida que se transformam quanto mais pessoas participam dela.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia realmente muda quanto mais pessoas s\u00e3o for\u00e7adas a tomar um partido? Novas experi\u00eancias trazidas de fora modificam significativamente o objeto argumentativo dessa suposta pol\u00eamica? Meu ponto aqui \u00e9 que n\u00e3o. No caso da eutan\u00e1sia, a pol\u00eamica n\u00e3o existe de fato. Os lados n\u00e3o tem a capacidade de evoluir a pr\u00f3pria discuss\u00e3o, n\u00e3o importa quanta coisa joguem pra cima dela. Via de regra, quando um tema dif\u00edcil pode ser reduzido a uma escolha pessoal cujo impacto acontece basicamente s\u00f3 dentro da vida dela, fica muito dif\u00edcil polemizar.<\/p>\n<p>O que um grupo de defensores e detratores da eutan\u00e1sia faz realmente pela pessoa que tem que decidir se ela ou uma pessoa querida vai morrer? Como essas opini\u00f5es podem modificar a experi\u00eancia no final das contas? Ou voc\u00ea termina uma vida, ou voc\u00ea permite o sofrimento continuado. N\u00e3o tem muito para onde escapar, quando as coisas chegam nesse ponto, vai polemizar pra qu\u00ea? Na hora de uma decis\u00e3o pessoal dessas, a pessoa n\u00e3o tem que redefinir significados da vida, tem que ter um m\u00ednimo de seguran\u00e7a que est\u00e1 tomando a decis\u00e3o com maior valor agregado.<\/p>\n<p>Uma pessoa passando por sofrimento extremado ao ponto de n\u00e3o querer mais viver deve ser ouvida com muito cuidado. Porque tem algo muito s\u00e9rio ali. Tem uma decis\u00e3o fundamental sobre a vida dela. Acredito que o maior engano sobre o tema seja acreditar que eutan\u00e1sia seja sobre a morte\u2026 a morte \u00e9 irrelevante nesse contexto. \u00c9 tudo sobre a vida que aquela pessoa est\u00e1 vivendo e uma decis\u00e3o pra l\u00e1 de complicada sobre a viabilidade dela. Se voc\u00ea acredita que todos temos o direito de viver sem sofrimento exagerado, vai entender como eutan\u00e1sia \u00e9 sobre o direito de viver.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 humano fazer uma pessoa viver uma vida de torturas, de isolamento, de viol\u00eancias contra tudo o que acreditamos ser mais valioso na nossa exist\u00eancia. Isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00eamico. N\u00e3o existem informa\u00e7\u00f5es novas que v\u00e3o subverter essa ideia de um m\u00ednimo de valor na nossa exist\u00eancia para ela ser toler\u00e1vel. Vai polemizar que dor excruciante por anos a fio \u00e9 algo aceit\u00e1vel para uma vida humana? Vai polemizar que um filho n\u00e3o pode querer poupar seu pai de um enclausuramento mental sem fim? Nem se voc\u00ea for fundamentalmente favor\u00e1vel \u00e0 tortura vai tender a concordar com isso, afinal, mesmo quem acredita em causar extremo sofrimento em outras pessoas se defende acreditando que isso s\u00f3 deve ser feito com pessoas realmente horr\u00edveis, em retribui\u00e7\u00e3o por crimes j\u00e1 cometidos.<\/p>\n<p>O corpo humano falha por doen\u00e7as, acidentes e tantos outros motivos, ele falha de formas catastr\u00f3ficas para a possibilidade de uma vida minimamente decente. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o deveria ser polemizado. Infelizmente \u00e9. O grau de sofrimento que algumas pessoas causam nas pessoas ao seu redor por ilus\u00f5es de amor \u00e9 assustador nesse mundo. Por exemplo: crian\u00e7as terrivelmente deformadas s\u00e3o mantidas vivas pela for\u00e7a da nega\u00e7\u00e3o dos pais, criando um ser humano que pelo curto tempo que ficar\u00e1 consciente, vai sofrer terrivelmente mais do que qualquer outra crian\u00e7a. Eu mal posso imaginar a tortura mental que \u00e9 ter seu sonho de um filho desfigurado em sofrimento constante. Quando temos muito medo, tendemos a nos apegar a qualquer coisa. Inclusive a crian\u00e7as que v\u00e3o ser torturadas pela vida que tiverem.<\/p>\n<p>Eu trago esse ponto porque existe sim uma conex\u00e3o entre o que parece mover as pessoas que s\u00e3o contra a eutan\u00e1sia, aborto e outras formas de valorizar a vida ao inv\u00e9s do sofrimento: a ideia que existe uma sa\u00edda dolorosa para elas mas que salva uma pessoa querida n\u00e3o pode fincar raiz nessas cabe\u00e7as. Porque a\u00ed elas tem que lidar com o mesmo dilema que mencionei no come\u00e7o do texto, mas j\u00e1 sabendo que tomaram a decis\u00e3o mais dolorida para quem acreditavam estar ajudando. O ego\u00edsmo de manter viva uma pessoa com o corpo e\/ou a mente destro\u00e7ados para n\u00e3o ter que ficar sem ela deve ser uma realiza\u00e7\u00e3o devastadora.<\/p>\n<p>Somos seres sociais, est\u00e1 em cada fibra do nosso ser a necessidade de ter conex\u00f5es com outras pessoas. \u00c9 compreens\u00edvel querer colocar essa necessidade de estar com outra pessoa acima do bem estar dessa pessoa. Uma coisa escrota de se fazer, mas muito humana, visceral. N\u00e3o queremos ficar sozinhos, e quanto mais bate o desespero, mais forte queremos segurar nas outras pessoas que geram significado para nossas vidas. Mesmo que esse agarr\u00e3o machuque. E outra, \u00e9 basicamente imposs\u00edvel passar pela vida sem gerar dor em outras pessoas. De uma certa forma, estamos acostumados que isso vai acontecer, e que por vezes precisamos machucar at\u00e9 pessoas queridas para continuar vivendo.<\/p>\n<p>Mas as coisas tem limites. Outra parte essencial do que \u00e9 ser humano \u00e9 controlar esses impulsos quando voc\u00ea os conhece. Eu n\u00e3o quero nem imaginar a dor de ter que se cortar fora da vida ou tirar algu\u00e9m pr\u00f3ximo dela diante de uma situa\u00e7\u00e3o limite feito as relacionadas com eutan\u00e1sia. Ningu\u00e9m quer simplesmente largar as pessoas queridas, seja voc\u00ea ou elas que v\u00e3o morrer nesse processo. O instinto \u00e9 do agarr\u00e3o mesmo: \u201cFica aqui! Fica comigo! A gente d\u00e1 um jeito, a gente aguenta!\u201d. Muita gente nunca consegue lidar com a necessidade de controlar esse instinto, porque francamente, \u00e9 dif\u00edcil. Mas, novamente, n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00eamica.<\/p>\n<p>Saber deixar as pessoas irem embora da sua vida \u00e9 uma necessidade. N\u00e3o \u00e9 algo que se possa argumentar por horas em tese. Ou voc\u00ea realiza que gostar de algu\u00e9m tamb\u00e9m significa pagar pre\u00e7os pessoais altos para ver ela melhor, ou voc\u00ea fica preso em rela\u00e7\u00f5es doentias onde o sofrimento continuado \u00e9 aceit\u00e1vel. Tanto no caso da eutan\u00e1sia quanto de aborto de crian\u00e7as extremamente deformadas, n\u00e3o \u00e9 complicado entender a necessidade de segurar essas conex\u00f5es por perto custe o que custar. Mas \u00e9 algo horr\u00edvel de se fazer: \u00e9 gerar sofrimento por ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>E quando essa ideia de ter que deixar ir da sua vida pessoas que est\u00e3o sofrendo demais na configura\u00e7\u00e3o atual realmente assenta na cabe\u00e7a, \u00e9 hora de rever muitas de suas decis\u00f5es e perceber como somos fracos nesse campo. Como em algum momento, agarramos com for\u00e7a numa pessoa que n\u00e3o deveria estar l\u00e1, ou fomos agarrados para o nosso sofrimento com pessoas que acredit\u00e1vamos gostar da gente. Seres humanos fazem mal uns para os outros, \u00e9 o subproduto de tudo o que podemos fazer, inclusive as coisas muito boas.<\/p>\n<p>E reduzindo o tema ao que realmente importa, a vida das pessoas envolvidas na decis\u00e3o da eutan\u00e1sia, com todos esses sentimentos, necessidades e conflitos comuns do ser humano\u2026 n\u00e3o sobra o que polemizar. Pessoas vivem e morrem, fato. O que elas fazem nesse meio termo \u00e9 o que conta, e se voc\u00ea ou uma pessoa muito querida perderam a capacidade de viver com um m\u00ednimo de conforto f\u00edsico e dignidade mental, n\u00e3o existe mais vida. Decidir-se pela eutan\u00e1sia \u00e9 escolher vida sim. \u00c9 n\u00e3o agarrar uma pessoa ou as pessoas ao seu redor com for\u00e7a pelo medo de ficar sem elas, ou para n\u00e3o ter que lidar com seu ego\u00edsmo (compreens\u00edvel, mas doloroso do mesmo jeito), \u00e9 pensar em como aquela pessoa vive e como voc\u00ea pode demonstrar alguma forma de amor por ela.<\/p>\n<p>\u00c9 uma decis\u00e3o pessoal horr\u00edvel. Mas, muitas das coisas mais nobres que podemos fazer tamb\u00e9m s\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que ficou chocado por eu n\u00e3o ter pego o caminho cient\u00edfico, para dizer que se for come\u00e7ar a contar o que mais n\u00e3o \u00e9 pol\u00eamica vai ser dif\u00edcil parar, ou mesmo para dizer que agora eu estou obrigado a definir pol\u00eamica num texto futuro: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lilith encomendou um texto sobre Eutan\u00e1sia, e disse que tinha que vir dentro de uma coluna Flertando com o Desastre. O tema j\u00e1 passeou pelas nossas p\u00e1ginas algumas vezes e eu sempre deixei minha posi\u00e7\u00e3o clara. 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