{"id":12872,"date":"2018-02-15T09:17:21","date_gmt":"2018-02-15T11:17:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12872"},"modified":"2018-02-15T09:17:21","modified_gmt":"2018-02-15T11:17:21","slug":"filmes-b-de-terror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/02\/filmes-b-de-terror\/","title":{"rendered":"Filmes B de Terror"},"content":{"rendered":"<p>Seguindo o cronograma estipulado pela Lilith, hoje vamos falar sobre um g\u00eanero de filme que n\u00e3o \u00e9 muito conhecido no Brasil, mas deveria, pois quem se maravilha com carro aleg\u00f3rico de escola de samba certamente tem algum pacto com a precariedade: Desfavor Explica, Filmes B de terror.<!--more--><\/p>\n<p>Quando falamos em \u201cFilme B\u201d pensamos imediatamente em uma classifica\u00e7\u00e3o por qualidade: todo filme ruim, tosco ou de baixo or\u00e7amento seria um Filme B, algo produzido meio que de sacanagem, com uma inten\u00e7\u00e3o de s\u00e1tira pela ruindade. Mas n\u00e3o \u00e9 esta a defini\u00e7\u00e3o. Tem toda uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s dos Filmes B.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a massiva crise econ\u00f4mica gerada pela queda da bolsa em 1929, nos EUA, a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica se viu obrigada a inovar para continuar atraindo clientes. A crise foi t\u00e3o grande que p\u00fablico do cinema caiu quase que pela metade e um ter\u00e7o dos cinemas fechou as portas. Era preciso trazer o p\u00fablico de volta. <\/p>\n<p>Surgiu ent\u00e3o a ideia de oferecer um pacote ao cliente: pagando um ingresso ele teria direito a ver dois filmes. Por\u00e9m, justamente pela crise, n\u00e3o dava para fazer dois filmes no mesmo n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, o preimeiro filme a ser exibido costumava ser menos elaborado e o filme mais bem feitinho ficava para o final. Assim, os grandes est\u00fadios passaram a dividir suas unidades de produ\u00e7\u00e3o em A, com os melhores atores, mais tempo de dura\u00e7\u00e3o e mais investimentos e em B, filmes com atores, roteiristas e diretores iniciantes, menos tempo de dura\u00e7\u00e3o e maior restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. <\/p>\n<p>Sabe quando voc\u00ea vai a um show e tem que suportar uma banda ruim ou menos famosa que abre o show, para s\u00f3 depois ver o astro principal? Pois \u00e9, era o mesmo esquema. Os filmes da Unidade de Produ\u00e7\u00e3o B, conhecidos como Filmes B, eram exibidos antes, como um aperitivo, para s\u00f3 depois exibir o filme principal.<\/p>\n<p>Esse esquema de oferecer dois filmes pelo pre\u00e7o de um fez muito sucesso e quase todos os cinemas aderiram, o que estimulou uma produ\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de filmes B. Os est\u00fadios come\u00e7aram a fazer vendas casadas: quem quisesse exibir seus Filmes A teria que comprar junto pacotes com os filmes B. Assim, os Filmes B tinham sua venda garantida, sem estar atrelada \u00e0 bilheteria: quem levava o p\u00fablico para o cinema era o filme A. Isso permitia maior liberdade de cria\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o importa o que fizessem nos filmes B, o p\u00fablico seria obrigado a assisti-los.<\/p>\n<p>Nem todo filme B era terrivelmente tosco, por\u00e9m, surgiu uma demanda enorme de algo que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o era feito em larga escala, ent\u00e3o, muitos est\u00fadios se viram obrigados a rodar Filmes B de uma hora para a outra, com baix\u00edssimo or\u00e7amento, chamando novatos que geravam um roteiro ris\u00edvel e cenas grotescas. Mesmo os est\u00fadios que tinham capital, investiam tudo nos filmes A, j\u00e1 que gra\u00e7as \u00e0 venda casada, os filmes B j\u00e1 tinham sua comercializa\u00e7\u00e3o garantida. Assim, a tend\u00eancia era que a maior parte dos filmes B fosse na base do amadorismo e improviso.<\/p>\n<p>Isso fica mais gritante quando falamos de filmes de terror, que geralmente se valem do sobrenatural ou de criaturas fict\u00edcias. Uma hist\u00f3ria de amor voc\u00ea pode filmar com uma ideia na cabe\u00e7a e uma c\u00e2mera na m\u00e3o, um monstro, uma criatura fant\u00e1stica, n\u00e3o. Ent\u00e3o, foi no terror que os Filmes B mostraram maior discrep\u00e2ncia com o cinema convencional, foi onde a falta de recursos e precariedade mais se fez notar.<\/p>\n<p>Para compensar a falta de recursos, muitos abusavam da criatividade e do absurdo nos filmes de terror, na linha \u201cj\u00e1 que vai sair uma coisa ruim por n\u00e3o ter recursos, vou fazer ruim de prop\u00f3sito\u201d. Este mix de sinceridade com n\u00e3o se levar a s\u00e9rio cativou boa parte do p\u00fablico. Era tosco, era meio antiest\u00e9tico, mas era verdadeiro. Sangue feito de calda de chocolate escorrendo, vampiro com a cara pintada com giz, monstro feito com sombra \u00e0 luz de velas, tinha de tudo um pouco.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, gra\u00e7as ao baixo or\u00e7amento, os diretores tinham pouqu\u00edssimo tempo para rodar os filmes, geralmente quatro ou cinco dias. Isso gerou situa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas, como cenas que n\u00e3o deram certo inseridas no filme na marra ou na gambiarra, pois n\u00e3o havia or\u00e7amento para refaz\u00ea-las. Quase todo filme de terror B tem esse tipo de cena com um defeitinho, basta assistir com aten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>O figurino era bem improvisado, n\u00e3o raro v\u00edamos objetos do dia a dia compondo o traje de monstros ou alien\u00edgenas. Est\u00fadios reciclavam material usado para os filmes A, ent\u00e3o, o pessoal do Filme B tinha que pegar caixas com um monte de figurinos sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com seu roteiro e fazer gambiarras para adapt\u00e1-lo. Nessa tinha vampiro usando salto alto de filme de romance para parecer mais alto, cen\u00e1rio de avi\u00e3o sendo pintado todo de preto e virando tumba, m\u00famia enrolada com tira do vestido de casamento da mocinha do filme A. O pessoal teve que dar show de improviso e reciclagem.<\/p>\n<p>Em 1948 a Suprema Corte americana proibiu esta venda casada de filmes A e B, criando um entrave enorme para o esquema de exibi\u00e7\u00e3o. Foi tamb\u00e9m um golpe duro para os filmes B, uma vez que ele n\u00e3o contavam mais com os filmes A para entrar em exibi\u00e7\u00e3o. Agora eles concorreriam com os filmes A e teriam que lutar pelo seu p\u00fablico. Muitos chegaram a decretar a morte dos filmes B quando isso aconteceu.<\/p>\n<p>As sess\u00f5es duplas acabaram abolidas e algo surpreendente aconteceu: havia um p\u00fablico cativo de filmes B e ele ficou \u00f3rf\u00e3o. Um numero muito maior que o imaginado de pessoas queria filmes B, principalmente os de terror.  Ent\u00e3o, surgiu um mercado voltado exclusivamente para esse tipo de filme. A predile\u00e7\u00e3o geral eram filmes de horror, fic\u00e7\u00e3o, policial ou faroeste. Assim, os filmes B come\u00e7aram a andar por suas pr\u00f3prias pernas, e deixaram de receber esse r\u00f3tulo, pois quando acabou a venda casada e a dupla exibi\u00e7\u00e3o, oficialmente, todo filme estava no mesmo patamar.<\/p>\n<p>Hoje se tratam os Filmes B como algo tosco, uma fonte de riso involunt\u00e1ria, uma produ\u00e7\u00e3o cagada. Por\u00e9m, Filmes B foram muito mais do que isso, tem um lado lindo, m\u00e1gico, promissor deles que ningu\u00e9m aponta. Quando roteiristas e diretores tem poucos recursos, s\u00e3o obrigados a improvisar, a ser criativos, a compensar de alguma outra forma. Isso lhes deu a liberdade necess\u00e1ria para ousar, inventar, inovar. Filmes B trouxeram incont\u00e1veis contribui\u00e7\u00f5es para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, coisas que provavelmente n\u00e3o seriam tentadas em um filme com or\u00e7amento gordo e com press\u00e3o para fazer sucesso. Os Filmes B foram um grande laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o e liberdade criativa. Mais coisa do que voc\u00ea imagina, nos dias de hoje, se inspirou em alguma inova\u00e7\u00e3o de Filmes B.<\/p>\n<p>Um exemplo: no filme de terror \u201cSangue de Pantera\u201d, onde uma mulher vira pantera e mata geral, n\u00e3o havia recursos para mostrar essa transforma\u00e7\u00e3o, nem mesmo para fazer a mulher-pantera. Ent\u00e3o, o filme todo insinua o monstro mas ele nunca aparece, o que causa um suspense enorme e permite que cada um imagine o monstro da forma mais assustadora poss\u00edvel. Esta gambiarra acabou virando recurso, usado em v\u00e1rios filmes famosos. Insinuar pode ser mais assustador do que mostra de forma expl\u00edcita, mas isso s\u00f3 foi descoberto em um Filme B.<\/p>\n<p>O fim da venda casada e da dupla exibi\u00e7\u00e3o em cinemas n\u00e3o foi a \u00fanica pancada que os Filmes B levaram. Tudo ficou mais complicado com a chegada da televis\u00e3o, que roubou p\u00fablico do cinema em geral, j\u00e1 que muita gente preferia ficar em casa vendo TV do que ter que sair a pagar para ir ao cinema. Quando sa\u00eda, geralmente o p\u00fablico optava pelos blockbusters da moda, n\u00e3o sobrava tempo para as excentricidades dos Filmes B. Era precisa fazer algo.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi genial: na d\u00e9cada de 60 resolveram tiraram proveito de sua condi\u00e7\u00e3o de marginalizados e sem regras. Passaram a mostrar nos filmes B aquilo que nem filmes A nem TV podiam mostrar: muito sexo e viol\u00eancia. Pronto, rendeu muito p\u00fablico novamente. Uma combina\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje \u00e9 muito utilizada nos filmes de terror: sexo e\/ou viol\u00eancia vieram para ficar no mix. Nesse ponto, os filmes B de terror conquistaram de vez um p\u00fablico muito especial, os adolescentes.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80, quando todo mundo mostrava sexo e viol\u00eancia, os filmes B n\u00e3o conseguiram mais se bancar nos cinemas por n\u00e3o ter mais este diferencial. Se reinventaram novamente come\u00e7aram a migrar para VHS. Hoje continuam exclu\u00eddos das salas de cinema, mas presentes em streaming. Os filmes de horror B abriram portas para grandes atores como Jack Nicholson, Tom Hanks, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Jennifer Aniston, Demi Moore e Johnny Depp. O ex-Presidente dos EUA, Ronald Regan, come\u00e7ou em filmes B de faroeste.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 sua irrever\u00eancia e descompromisso com padr\u00f5es sociais, os filmes B se tornaram atemporais. Muitos se tornaram um cl\u00e1ssico e d\u00e9cadas depois continuam apreciados. N\u00e3o \u00e9 de bom tom contar spoilers, por isso vou me ater \u00e0s sinopses de alguns dos que eu considero os mais divertidos filmes B de terror. Leiam e me digam se tem como n\u00e3o amar.<\/p>\n<p>Em \u201cO vampiro da morte\u201d, um cientista se sente tra\u00eddo por seus assistentes e decide se vingar. A forma? Criar morcegos gigantes e trein\u00e1-los para atacar seus inimigos. Em \u201cOs drag\u00f5es negros\u201d um cientista \u00e9 contratado por japoneses para transformar seus rostos em rostos de personalidades famosas americanas. Em \u201cA Dama e o Monstro\u201d um c\u00e9rebro (sim, um c\u00e9rebro aut\u00f4nomo) domina a mente de um cientista para executar um plano de vingan\u00e7a. Em \u201cA volta do homem macaco\u201d cientistas encontram um homem das cavernas e decidem trocar o c\u00e9rebro dele por um mais evolu\u00eddo. Em \u201cA vingan\u00e7a dos zumbis\u201d um cientista fabrica zumbis para o ex\u00e9rcito nazista. Imaginem tudo isso com baix\u00edssimos recursos or\u00e7ament\u00e1rios, tendo que ser filmado de primeira, com atores nem sempre t\u00e3o bons&#8230; Gente, chega a ser comovente como conseguiram espremer um filme em tais condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Falando de produ\u00e7\u00f5es mais recentes, n\u00e3o tem como n\u00e3o citar duas obras de Peter Jackson, que antes de filmar Senhor dos An\u00e9is, molhou os p\u00e9s nos filmes B. Em \u201cN\u00e1usea Total\u201d amigos come\u00e7am a investigar o desaparecimento de pessoas na cidade e descobrem que s\u00e3o alien\u00edgenas donos de uma rede de fast food que serve carne humana matando pessoas para tentar aumentar a produ\u00e7\u00e3o e vencer a concorr\u00eancia. Em \u201cFome animal\u201d uma mam\u00e3e-zumbi d\u00e1 trabalho a seu filho. Tem tamb\u00e9m \u201cPiranhas 3D\u201d, um excesso grotesco do come\u00e7o ao fim, com humor levado a limites inaceit\u00e1veis, daqueles que de t\u00e3o ruim, mas t\u00e3o ruim, acaba virando bom.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m uma categoria interessante: os filmes que nasceram A mas se tornaram B pelo decurso do prazo. Filmes que, na data do seu lan\u00e7amento tinham efeitos especiais aceit\u00e1veis e roteiro ok, mas, com o passar do tempo, ficou t\u00e3o desatualizado que acabou virando Filme B. Um bom exemplo \u00e9 o filme \u201cA Mosca\u201d, que nos apavorou d\u00e9cadas atr\u00e1s, mas hoje se tornou ris\u00edvel. A mem\u00f3ria afetiva no faz querer rever, mas agora com novos olhos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica e at\u00e9 os seriados devem muito aos Filmes B. Quem v\u00ea os filmes de terror B como uma palha\u00e7ada tosca e mal feita deveria olhar novamente. A base para muita coisa bacana que \u00e9 feita hoje em dia vem dali.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que em nossa homenagem vai assistir a um filme B de terror, para compartilhar os melhores que j\u00e1 assistiu ou ainda para sugerir que fa\u00e7amos um v\u00eddeo comentado sobre um deles: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguindo o cronograma estipulado pela Lilith, hoje vamos falar sobre um g\u00eanero de filme que n\u00e3o \u00e9 muito conhecido no Brasil, mas deveria, pois quem se maravilha com carro aleg\u00f3rico de escola de samba certamente tem algum pacto com a precariedade: Desfavor Explica, Filmes B de terror.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12873,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-12872","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-explica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12872"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12872\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}