{"id":13081,"date":"2018-04-05T08:00:27","date_gmt":"2018-04-05T11:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=13081"},"modified":"2018-04-05T00:24:01","modified_gmt":"2018-04-05T03:24:01","slug":"obsolescencia-programada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/04\/obsolescencia-programada\/","title":{"rendered":"Obsolesc\u00eancia programada."},"content":{"rendered":"<p>Por ser tempor\u00e3o na fam\u00edlia, tenho poucas mem\u00f3rias da casa dos meus av\u00f3s. O tempo que passei por l\u00e1 foi enquanto meu foco de aten\u00e7\u00e3o era bem limitado, como de costume em crian\u00e7as muito pequenas. Mas tem uma coisa que eu lembro bem: uma geladeira azul de formas arredondadas que vivia abrindo para pegar todo tipo de besteira que n\u00e3o podia comer em casa. Ela esteve por l\u00e1 na minha inf\u00e2ncia, e depois foi levada para a casa de parentes (juntos com os av\u00f3s, agora mais velhos e dependentes) e continuou em atividade por pelo menos mais uma d\u00e9cada. J\u00e1 mais capaz de ouvir as coisas que os adultos falavam, descobri que o eletrodom\u00e9stico j\u00e1 tinha cinquenta anos de uso ininterrupto. Em nota relacionada, a \u00faltima geladeira que eu comprei j\u00e1 estava dando problemas menos de cinco anos depois de chegar em casa. Ser\u00e1 que ficamos dez vezes piores na produ\u00e7\u00e3o de geladeiras nesse meio tempo?<!--more--><\/p>\n<p>A resposta \u00e9 simples: sim e n\u00e3o. Ok, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim&#8230; mas a percep\u00e7\u00e3o de que no passado se faziam coisas mais dur\u00e1veis que tanta gente tem \u00e9 mais do que razo\u00e1vel, \u00e9 real. Hoje vamos falar sobre obsolesc\u00eancia programada, isto \u00e9, o ato deliberado de produzir bens de consumo com prazo de validade. O nome complicado vem de \u201cobsoleto\u201d, ou seja, algo que j\u00e1 foi substitu\u00eddo por algo mais novo e supostamente melhor. Aquele seu telefone que s\u00f3 fazia liga\u00e7\u00f5es est\u00e1 obsoleto, mullets est\u00e3o obsoletos\u2026 at\u00e9 mesmo a imparcialidade j\u00e1 parece obsoleta nos dias atuais. E \u00e9 \u201cprogramada\u201d porque as empresas que produzem esses bens de consumo como l\u00e2mpadas, geladeiras e smartphones est\u00e3o fazendo isso de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que produtos que duram muito atrapalham o ciclo de consumo e reduzem o faturamento daqueles que os vendem. Se voc\u00ea compra uma geladeira e ela v\u00ea a terceira gera\u00e7\u00e3o da sua fam\u00edlia abrindo suas portas, \u00e9 uma casa a menos consumindo geladeiras por muitos e muitos anos. A ideia de fazer os produtos com um n\u00edvel de qualidade inferior ao que se pode s\u00f3 para que ele quebre ou se torne problem\u00e1tico num per\u00edodo determinado de tempo n\u00e3o tem um ponto inicial bem definido. Desde que o mundo capitalista \u00e9 mundo, certeza que sempre teve algu\u00e9m fazendo algo do tipo para garantir mais vendas.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o era uma pr\u00e1tica t\u00e3o difundida assim. Durante muito tempo, as pessoas esperavam que qualquer objeto de casa que comprassem durasse o suficiente para ser passado para filhos e netos. Antes da revolu\u00e7\u00e3o industrial, produzir qualquer objeto era um processo artesanal, as coisas tinham mais valor at\u00e9 mesmo pelo tempo que demoravam para ser feitas. Se a oferta de produtos \u00e9 pequena, \u00e9 bom que eles durem\u2026 n\u00e3o tinha estoque o suficiente para garantir o acesso dos consumidores. Quando as ind\u00fastrias surgem e tornam mais eficiente o processo de produ\u00e7\u00e3o, em padr\u00e3o e principalmente em  velocidade, a humanidade ainda n\u00e3o tinha tido tempo para pensar de forma diferente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, durante um bom tempo, o consumidor tinha produtos em grande volume e todos feitos com a ideia de dura\u00e7\u00e3o em mente. As milh\u00f5es de geladeiras sendo produzidas em massa ainda funcionavam como qualquer outro objeto de eras anteriores: ou dura muito ou \u00e9 uma porcaria. E ainda mais naqueles tempos, n\u00e3o tinha muito mercado para porcaria. Os vendedores tinham poucas chances para esvaziar os estoques e tinham que se garantir muito pela qualidade dos produtos. Mas, no come\u00e7o do s\u00e9culo passado, as f\u00e1bricas come\u00e7am a notar o problema\u2026 produ\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o combina com produtos muito dur\u00e1veis. Eventualmente todo mundo que precisa de um desses produtos vai ter. E eles n\u00e3o v\u00e3o ser trocados por v\u00e1rias d\u00e9cadas. Vai fazer o qu\u00ea com a f\u00e1brica e os vendedores?<\/p>\n<p>Mais ou menos nesse tempo, surge um cartel de produtores de l\u00e2mpadas entre americanos e europeus. O Cartel Phoebus. Naqueles tempos (1924) n\u00e3o existia muita regula\u00e7\u00e3o para as empresas, principalmente para as grandes. Ent\u00e3o, empresas como GE, OSRAM e Philips se juntaram para combinar pre\u00e7os e pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o e vendas de suas l\u00e2mpadas, sem se preocupar muito com esconder as coisas. E esses fabricantes tinham um problema em comum: as l\u00e2mpadas estavam ficando cada vez melhores, com os engenheiros de cada marca lutando ferozmente para entregar o produto com o maior n\u00famero de horas de funcionamento para o mercado. O problema &#8211; como sugeri no par\u00e1grafo anterior &#8211; era justamente esse.<\/p>\n<p>Com l\u00e2mpadas durando milhares e milhares de horas, o tempo entre cada compra estava se tornando dispendioso demais para suas estruturas. Depois de algumas conversas, decidiram que uma l\u00e2mpada deveria durar mais ou menos mil horas em m\u00e9dia. Quem quisesse fazer com maior dura\u00e7\u00e3o que cobrasse o equivalente: se a l\u00e2mpada de mil horas custasse 10, a de duas mil tinha que custar 20. Assim, todo mundo saberia em quanto tempo teriam seus clientes de volta de acordo com o quanto gastassem. L\u00e2mpadas feitas antes disso vinham para o mercado com a ideia de durar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, tanto que nos EUA tem uma l\u00e2mpada produzida em 1901 que est\u00e1 acesa at\u00e9 hoje. Ela se chama L\u00e2mpada Centen\u00e1ria e pode ser vista em tempo real atrav\u00e9s <a href=\"http:\/\/www.centennialbulb.org\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">deste site<\/a>. J\u00e1 o cartel durou bem menos, at\u00e9 o come\u00e7o da segunda guerra mundial, por motivos \u00f3bvios. Mas o estrago j\u00e1 estava feito.<\/p>\n<p>Mais e mais setores produtivos chegavam \u00e0 mesma conclus\u00e3o, e sabendo do que os fabricantes de l\u00e2mpadas fizeram, come\u00e7aram seus movimentos nesse sentido tamb\u00e9m. Algumas ind\u00fastrias aderiram primeiro, outras resistiram um pouco mais, mas eventualmente todas elas come\u00e7aram a trabalhar com esse princ\u00edpio. Um produto tem que ter limite de tempo at\u00e9 ser trocado por uma nova vers\u00e3o, todo o trabalho para aumentar a durabilidade de algo deveria seguir a l\u00f3gica e ser adaptado aos produtos de acordo com o ciclo de compra planejado.<\/p>\n<p>Atualmente, basicamente tudo o que voc\u00ea consome j\u00e1 tem data de expira\u00e7\u00e3o. O seu carro, os seus eletrodom\u00e9sticos, o seu smartphone\u2026 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os iPhones come\u00e7am a dar problemas mais ou menos na mesma \u00e9poca que saem as novas vers\u00f5es. Ali\u00e1s, \u00e9 at\u00e9 um mecanismo mais cruel de invalidar um hardware (as partes s\u00f3lidas do equipamento) atrav\u00e9s de uma atualiza\u00e7\u00e3o de software (as partes que voc\u00ea cutuca para postar bobagens na internet e tirar fotos da sua genit\u00e1lia). E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Apple que apronta dessas, as outras fabricantes tem isso por regra em seus ciclos de produ\u00e7\u00e3o. Para vender o novo, o velho tem que virar lixo, n\u00e3o \u00e9 mais sobre te oferecer algo mais moderno que te fa\u00e7a querer trocar de celular, \u00e9 sobre fazer o velho ser uma porcaria \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>E \u00e9 totalmente compreens\u00edvel ficar irritado com isso. \u00c9 o nosso suado dinheiro em jogo, ningu\u00e9m gosta de ter que ficar gastando de tempos em tempos s\u00f3 porque as fabricantes querem lucrar de forma previs\u00edvel. Queremos comprar algo e usar at\u00e9 n\u00e3o aguentar mais, certo? Bom, talvez valha a pena fazer uma an\u00e1lise mais imparcial nesse momento (mesmo que seja obsoleto): quando eu disse que ficamos e n\u00e3o ficamos piores na produ\u00e7\u00e3o de geladeiras, estou levando em considera\u00e7\u00e3o que as pe\u00e7as tem data para quebrar, mas tamb\u00e9m que se n\u00e3o fosse isso, pode ser que eu estivesse com aquela geladeira azul em casa at\u00e9 hoje, com todas as limita\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas da primeira metade do s\u00e9culo passado. Ela n\u00e3o tinha freezer, enferrujava, fazia um barulh\u00e3o, polu\u00eda o ambiente, gastava muito mais energia\u2026<\/p>\n<p>Mesmo que a minha geladeira atual n\u00e3o v\u00e1 me acompanhar por muito mais tempo, foram\u2026 tempos modernos. A tecnologia necess\u00e1ria para congelar os alimentos pouco saud\u00e1veis que me sustentam s\u00f3 foi criada porque as empresas produtoras podiam contratar engenheiros e investir em moderniza\u00e7\u00e3o porque tinha gente comprando geladeiras em per\u00edodos cada vez mais curtos. Para um empresa ter capacidade de investir no futuro, precisa ganhar dinheiro no presente.<\/p>\n<p>A obsolesc\u00eancia programada soa errada, mas \u00e9 uma \u00e1rea um pouco mais cinza. Se queremos uma economia em constante movimento, com inova\u00e7\u00e3o e pessoas bem pagas para lev\u00e1-la em frente, h\u00e1 de se considerar o pre\u00e7o que nos cabe como consumidores nesse processo. \u00c9 poss\u00edvel misturar durabilidade e tecnologia, \u00e9 claro, mas provavelmente n\u00e3o no sistema vigente na nossa economia. A n\u00e3o ser que a humanidade seja capaz de garantir uma boa vida para as mentes (caras) que podem nos entregar esse resultado sem a economia de mercado que funciona nos dias atuais, produtos com data de validade providenciam essa capacidade no setor privado.<\/p>\n<p>O que volta a ficar nebuloso quando pensamos nas verdadeiras evolu\u00e7\u00f5es entre vers\u00f5es de produtos como smartphones &#8211; que n\u00e3o precisariam ficar obsoletos em apenas um ano como \u00e9 de praxe no mercado atual, vindo repaginados com pouca ou nenhuma novidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o anterior &#8211; mas que em mercado mais \u201ctradicionais\u201d providenciam evolu\u00e7\u00e3o suficiente para fazer valer essa suposta baixaria das ind\u00fastrias. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de reclamar das empresas, \u00e9 quest\u00e3o de reavaliar todo o sistema capitalista como funciona atualmente. O que fica mais complicado, obviamente.<\/p>\n<p>Pra variar, nada \u00e9 de gra\u00e7a nessa vida.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o tema ficou obsoleto com a decis\u00e3o do STF, para dizer que sempre achou que voc\u00ea que dava azar, ou para dividir hist\u00f3rias sobre geladeiras antigas: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ser tempor\u00e3o na fam\u00edlia, tenho poucas mem\u00f3rias da casa dos meus av\u00f3s. O tempo que passei por l\u00e1 foi enquanto meu foco de aten\u00e7\u00e3o era bem limitado, como de costume em crian\u00e7as muito pequenas. 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