{"id":13429,"date":"2018-06-17T15:00:52","date_gmt":"2018-06-17T18:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=13429"},"modified":"2018-06-17T11:50:56","modified_gmt":"2018-06-17T14:50:56","slug":"o-existir-e-a-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/06\/o-existir-e-a-depressao\/","title":{"rendered":"O existir e a depress\u00e3o."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>O existir e a depress\u00e3o.<\/h2>\n<p>Certo dia minha irm\u00e3 me emprestou um livro chamado &#8220;Quando Nietzsche Chorou&#8221;, escrito pelo psicoterapeuta Irvin D. Yalom. No livro, o fil\u00f3sofo recebe tratamento do Dr. Josef Breuer, renomado m\u00e9dico austr\u00edaco criador dos fundamentos da psican\u00e1lise. Utilizando personagens reais em sua obra de fic\u00e7\u00e3o, Yalom narra o \u00e1rduo processo de uma desilus\u00e3o amorosa e o constante sentimento de ser incompreendido que atormentavam Nietzsche. Diante de di\u00e1logos inteligentes e lapsos criativos que impulsionam complexos debates filos\u00f3ficos, ao longo da obra ambos os personagens v\u00e3o demonstrando suas fraquezas e o quanto s\u00e3o impotentes diante de suas pr\u00f3prias exist\u00eancias.<!--more--><\/p>\n<p>O fato de existir tem intrigado fil\u00f3sofos ao longo da hist\u00f3ria, n\u00e3o por acaso Ren\u00e9 Descartes diz &#8220;Penso, logo existo&#8221; em seu Discurso do M\u00e9todo, publicado em 1637. A tradu\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m pode ser interpretada como &#8220;Penso, logo sou&#8221;, revela um dos princ\u00edpios do pensamento cartesiano que \u00e9 encontrar a verdade e estabelecer o conhecimento em bases s\u00f3lidas. Para atingir esse objetivo, \u00e9 necess\u00e1rio descartar todas as coisas que levantem o menor sinal de d\u00favida. Duvidar da pr\u00f3pria exist\u00eancia, dos pr\u00f3prios sentidos, da realidade que nos rodeia. Todas as coisas podem ser apenas ilus\u00f5es que nos confundem e a \u00fanica maneira de escapar da d\u00favida \u00e9 a busca pela verdade. A verdade cartesiana nesse sentido \u00e9 implac\u00e1vel, pois ela \u00e9 a procura pela verdade absoluta. Dessa forma, Descartes abriu portas para o in\u00edcio do m\u00e9todo cient\u00edfico e da filosofia moderna.<\/p>\n<p>Nietzsche era contra o m\u00e9todo cartesiano e isso o levou a colocar o Homem como um ser primitivo cuja realidade \u00e9 o mundo em que vive. Em &#8220;Assim falou Zaratustra&#8221;, livro dific\u00edlimo que li logo na sequ\u00eancia por ter ficado intrigado pelo pensamento Nietzschiano narrado por Yalom, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o inverte a metaf\u00edsica e os dogmas religiosos. Defendendo um posicionamento da inexist\u00eancia da alma, do esp\u00edrito ou de qualquer divindade, fica a cargo do Homem definir seus pr\u00f3prios valores, suas pr\u00f3prias vontades e o seu desenvolvimento potencial ao m\u00e1ximo, tornando-se assim um &#8220;Super-Homem&#8221;.<\/p>\n<p>Acredito que foi exatamente a palavra &#8220;Super-Homem&#8221; que me levou a reler algumas das centenas de hist\u00f3rias em quadrinhos da minha cole\u00e7\u00e3o e para minha surpresa foi ali, na arte at\u00e9 ent\u00e3o menosprezada pela alta cultura, que encontrei elementos de como enfrentar a pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 o maior fator depressivo da sociedade moderna. Lendo Superman entendi melhor a filosofia Nietzschiana de um ser que extrapola os limites da humanidade e que tenta a todo custo superar suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, apesar de toda sua for\u00e7a, de todos os seus poderes, Superman \u00e9 um ser solit\u00e1rio por ser um estrangeiro, um incompreendido, um ser que n\u00e3o se enquadra em nenhuma sociedade da Terra.<\/p>\n<p>Superman em sua ess\u00eancia \u00e9 reflexo gr\u00e1fico de Nietzsche que, apesar de sua percep\u00e7\u00e3o do ser superior, era fr\u00e1gil e tinha muitos problemas de sa\u00fade. Ao morrer de s\u00edfilis, deixou como legado a ideologia de que apenas o mais forte sobrevive e que a morte dos fracos \u00e9 uma necessidade para a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Esse pensamento, desencontrado de seu todo, foi uma das m\u00e1ximas utilizadas por Hitler na cria\u00e7\u00e3o do terceiro Reich. Dentre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha passava um per\u00edodo conturbado. Pessoas passavam fome e a economia ia de mal a pior. Nesse cen\u00e1rio, Hitler tentou um golpe de estado e foi preso. Na pris\u00e3o, ditou o livro que ficaria mais conhecido com Mein Kampf, cujo discurso antissemita era fortemente inspirado por ideais similares aos defendidos nas obras de Nietzsche. At\u00e9 que se prove o contr\u00e1rio, tudo n\u00e3o passou de uma interpreta\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a Segunda Guerra Mundial causou a morte de milhares de pessoas e colocou a humanidade em risco de extin\u00e7\u00e3o. A Guerra Fria que veio na sequ\u00eancia amargou ainda mais os anseios da humanidade, a ponto de ter um rel\u00f3gio simb\u00f3lico representando a aproxima\u00e7\u00e3o do apocalipse. Foi nessa \u00e9poca que o Homem, ao sair da Terra tal qual Superman, notou de uma vez por todas o qu\u00e3o insignificante \u00e9 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Se por um lado est\u00e1vamos guerreando pela lideran\u00e7a mundial, por outro est\u00e1vamos no meio de um universo infinito que fazia da humanidade nada t\u00e3o especial assim.<\/p>\n<p>O fato de encararmos o abismo que \u00e9 o infinito tornou o niilismo cada vez mais presente em nosso cotidiano, colocando em xeque a raz\u00e3o da exist\u00eancia humana. Mesmo com o fim da Guerra Fria, a globaliza\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses, o avan\u00e7o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e o crescimento populacional do mundo, a melancolia e o vazio existencial caminharam a passos largos. O sentimento de solid\u00e3o, mesmo que no meio da multid\u00e3o das metr\u00f3poles e das mais diversas formas de comunica\u00e7\u00e3o, faz com que a exist\u00eancia do Homem se torne um fardo.<\/p>\n<p>Nietzsche, t\u00e3o influenciado pelo pessimismo de Schopenhauer, previu a maior mazela de um mundo que grita pelo fim dos limites e pela liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos. Os grilh\u00f5es da exist\u00eancia est\u00e3o se arrebentando, as pessoas se tornaram individualistas a ponto de criarem g\u00eaneros e subg\u00eaneros da pr\u00f3pria esp\u00e9cie. Superman, que j\u00e1 era introspectivo nos quadrinhos, esteve presente em filmes que o transformaram em sua maior fraqueza: ser mais humano que os humanos.<\/p>\n<p>Se estivessem vivos hoje, tanto Nietzsche quanto Descartes se sentiriam inseguros diante da quantidade de exig\u00eancias que s\u00e3o bombardeadas a cada segundo atualmente. Creio que abismado, Descartes diria: &#8220;Se n\u00e3o pensamos, deixamos de existir&#8221;. J\u00e1 o alem\u00e3o, mais soturno, complementaria a frase: &#8220;Matar a Deus n\u00e3o foi o suficiente, precisamos nos matar&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Tender.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. 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