{"id":13491,"date":"2018-07-01T16:30:54","date_gmt":"2018-07-01T19:30:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=13491"},"modified":"2018-07-01T18:23:50","modified_gmt":"2018-07-01T21:23:50","slug":"simulacros-e-simulacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/07\/simulacros-e-simulacoes\/","title":{"rendered":"Simulacros e Simula\u00e7\u00f5es."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Simulacros e Simula\u00e7\u00f5es.<\/h2>\n<p>De repente voc\u00ea acorda e sente que as coisas do seu quarto mudaram ligeiramente de lugar. No in\u00edcio \u00e9 apenas uma desconfian\u00e7a, mas logo seu c\u00e9rebro aciona um alarme de p\u00e2nico ao perceber que os c\u00f4modos da casa tamb\u00e9m mudaram. Tentando entender o que est\u00e1 acontecendo, voc\u00ea vai ao banheiro e lava o rosto. A \u00e1gua corrente te faz sentir vontade de usar a privada, mas uma for\u00e7a superior parece te manter im\u00f3vel no lugar, por mais que voc\u00ea tente se mexer. Um estranho barulho de clique ao longe te liberta da imobiliza\u00e7\u00e3o e finalmente voc\u00ea pode fazer suas necessidades b\u00e1sicas. Outro clique e toda a realidade ao seu redor segue em um estranho cotidiano que corre alheio \u00e0 sua pr\u00f3pria vontade. Ao final do dia, voc\u00ea sente que sua vida n\u00e3o faz sentido, que tudo est\u00e1 passando depressa demais e que voc\u00ea se sente impotente diante dessa for\u00e7a superior que parece controlar sua vida independente do que voc\u00ea fa\u00e7a. Ent\u00e3o voc\u00ea dorme um sono sem sonhos. Em outro lugar, em outro tempo, em outro universo, um jovem em uma tela de computador fica a observar o personagem de uma simula\u00e7\u00e3o dormir seu sono sem sonhos. Parece roteiro de filme ou s\u00e9rie, mas \u00e9 exatamente esse tipo de intera\u00e7\u00e3o que foi escrita por Jean Baudrillard em seu livro Simulacros e Simula\u00e7\u00f5es, publicado em 1981. Para entender melhor a subst\u00e2ncia da filosofia deixada pelo fil\u00f3sofo, antes \u00e9 necess\u00e1rio ter um pequeno embasamento sobre semi\u00f3tica. <!--more--><\/p>\n<p>A semi\u00f3tica \u00e9 uma ci\u00eancia que estuda os signos e teve seus fundamentos criados a partir dos estudos de Charles Sanders Pierce e Ferdinand de Saussare. A ci\u00eancia identificou tr\u00eas tipos de signos: o \u00edcone, o \u00edndice e o s\u00edmbolo. O \u00edcone \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o visual de um objeto e mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade sensorial ou emotiva entre o signo, a representa\u00e7\u00e3o do objeto e o objeto em si, como fotos, pinturas, desenhos ou esses pequenos quadradinhos que vemos constantemente nos nossos celulares e computadores. O \u00edndice \u00e9 uma parte representada de um todo e dessa forma \u00e9 um signo mais subjetivo, como por exemplo, um desenho de pata de cachorro te far\u00e1 imaginar que tipo de cachorro deixou aquela marca. J\u00e1 os s\u00edmbolos s\u00e3o abstratos e dependem de uma s\u00e9rie de conven\u00e7\u00f5es para que sejam compreendidos, como por exemplo as letras do alfabeto ou os n\u00fameros.<\/p>\n<p>Como podem perceber, os signos que nos rodeiam s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es da realidade que precisam ser compreendidas. Por isso, quando esses signos s\u00e3o verbalizados, eles precisam ter um significante e um significado para que sejam socialmente aceitos. O significante \u00e9 o elemento tang\u00edvel do signo, ou seja, voc\u00ea apontar para uma cadeira e falar &#8220;isso \u00e9 uma cadeira&#8221;. O significado \u00e9 o conceito abstrato do signo, ou seja, eu te pedir para imaginar uma cadeira sem ter uma refer\u00eancia visual. Voc\u00ea vai criar uma imagem mental dessa cadeira, voc\u00ea sabe como \u00e9 uma cadeira, mas a cadeira que voc\u00ea imagina com certeza \u00e9 diferente da cadeira que eu ou que outras pessoas imaginam. Para Plat\u00e3o, essa realidade abstrata do significado era chamada de mundo das ideias. No mundo das ideias todas as coisas s\u00e3o perfeitas por manterem seus conceitos primordiais, ou seja, independente da cadeira que voc\u00ea imaginou, a ideia de que aquele objeto \u00e9 feito para se sentar se manteve. Por outro lado, o mundo dos sentidos, que \u00e9 o mundo material, n\u00e3o passa de uma c\u00f3pia imperfeita desse mundo conceitual. E \u00e9 nesse ponto que come\u00e7amos a entender o que s\u00e3o simulacros e simula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o e a populariza\u00e7\u00e3o das tecnologias, principalmente as relacionadas aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, os signos come\u00e7aram a ficar t\u00e3o difundidos, t\u00e3o explorados, que come\u00e7aram a perder seu valor representativo. As representa\u00e7\u00f5es se tornaram simula\u00e7\u00f5es e como tal, n\u00e3o correspondem mais ao que \u00e9 real por estarem distantes do seu signo de origem e quanto mais distante da realidade est\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es, mais elas v\u00e3o se tornando simulacros. No in\u00edcio das produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, por exemplo, assistir a TV, ler o jornal ou ouvir o r\u00e1dio era ter a certeza de que aquilo era um recorte da realidade material e isso dava credibilidade aos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Hoje ocorre o inverso, n\u00e3o temos mais certeza se o que nos \u00e9 mostrado faz parte da realidade ou se h\u00e1 modifica\u00e7\u00e3o do real. Quando n\u00e3o temos mais certeza se o real \u00e9 real, ele se torna hiper-realidade.<\/p>\n<p>Compreender a hiper-realidade defendida por Baudrillard \u00e9 simples, basta procurar no Youtube um v\u00eddeo feito a partir da imagem do <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AmUC4m6w1wo\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">ex-presidente americano Barack Obama<\/a>. Ou os constantes erros de edi\u00e7\u00e3o nas fotos das <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/vida-e-estilo\/beleza\/photoshop-veja-erros-causados-pela-manipulacao-da-imagem,adecfa9c8aa93410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">grandes revistas de moda<\/a>. Com cinemas cada vez mais imersivos, com a realidade virtual cada vez mais presente em nossas vidas e com a rob\u00f3tica trazendo a possibilidade de rob\u00f4s que se parecem com humanos, cada vez mais a hiper-realidade extrapola os meios de comunica\u00e7\u00e3o e se torna uma parte do cotidiano, fazendo com que as pessoas percam sua conex\u00e3o com a realidade material. Um tanto quanto conspirat\u00f3ria, a hiper-realidade determina que existe uma domina\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da simula\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 todo um sistema criador de simulacros que fazem com que aceitemos que estamos sendo enganados. E que todos aqueles que se rebelam contra esse sistema, s\u00e3o marginalizados, tratados como p\u00e1rias, s\u00e3o eliminados para que o sistema dominador continue sua simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A populariza\u00e7\u00e3o das redes sociais \u00e9 uma forma de perceber o quanto a ilus\u00e3o faz parte de nossas vidas, pois a todo momento enganamos a n\u00f3s mesmos e aos nossos espectadores\/seguidores ao demonstrar uma verdade fabricada. Pipocam em nossas telas momentos felizes, viagens a pa\u00edses ex\u00f3ticos, festas, pensamentos filos\u00f3ficos profundos e clamores de auto afirma\u00e7\u00e3o. A ilus\u00e3o \u00e9 tentadora, pois quando nos voltamos ao mundo material, vemos um lugar cinzento, polu\u00eddo, com pessoas desinteressantes. Passamos a procurar na realidade a mesma alegria e exuber\u00e2ncia que encontramos na hiper-realidade, mas n\u00e3o a encontramos. Preferimos ent\u00e3o, por vontade pr\u00f3pria, nos enclausurarmos cada vez mais na ilus\u00e3o, mesmo que ela dependa de dispositivos e telas negras para continuar existindo. Quando a hiper-realidade extrapolar o limite desses dispositivos, perderemos totalmente a no\u00e7\u00e3o da realidade e a domina\u00e7\u00e3o do sistema estar\u00e1 completa.<\/p>\n<p>Conceito parecidos como esse podem ser vistos em filmes como Matrix, 2001: Uma Odiss\u00e9ia no espa\u00e7o, Ex-Machina ou at\u00e9 mesmo no inocente Wall-E. Em s\u00e9ries como Black Mirror, Philip K. Dick\u2019s Electric Dreams ou Mr. Robot e em livros como 1984, Eu, Rob\u00f4 e Admir\u00e1vel Mundo Novo. Mesmo abordando diferentes pontos de vista, todos eles possuem um ponto em comum: o sistema opressor. O sistema opressor n\u00e3o pensa, n\u00e3o dialoga, n\u00e3o d\u00e1 brechas e nem quebra suas pr\u00f3prias regras, ele apenas segue suas diretrizes. Seja na forma de rob\u00f4s fofinhos que se dedicam em manterem os humanos confort\u00e1veis, seja na forma de telas Big Brother que te vigiam a todo momento, o sistema opressor tirar\u00e1 sua liberdade e te far\u00e1 uma pessoa menos propensa em aceitar as diferen\u00e7as da realidade material. Ao nos tornarmos parte da hiper-realidade, nos tornamos parte do sistema opressor, nos tornamos manipuladores da realidade material e oferecemos apenas ilus\u00e3o uns aos outros.<\/p>\n<p>Por outro lado, o sistema opressor sabe que precisa nos agradar para que continuemos na ilus\u00e3o. Ele nos seduz oferecendo conforto, seguran\u00e7a e a vontade de nos mantermos inertes em nossa zona de conforto. Quem est\u00e1 fora do sistema s\u00e3o sempre os outros, os que devem ser evitados, os que podem a qualquer momento fazer ruir o doce veneno da ilus\u00e3o. Os outros devem ser combatidos ferrenhamente, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para que pessoas se sintam diferentes, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para beleza fora do padr\u00e3o e nem sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. Queremos que a ilus\u00e3o nos complete, que nos traga a t\u00e3o procurada alegria e que acabe com todas as coisas indesejadas, com todas as limita\u00e7\u00f5es mundanas. Queremos a \u00e1gua mais pura e o bife mais suculento, queremos deixar Zion, a cidade prometida de Matrix, para as pessoas maltrapilhas que queiram ficar por l\u00e1.<\/p>\n<p>Por ironia, Baudrillard em visita ao Brasil foi entrevistado pela Folha de S\u00e3o Paulo. Ao ser questionado se o Brasil faz parte dessa hiper-realidade, o fil\u00f3sofo responde:<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o vejo o Brasil como um pa\u00eds hiper-real. N\u00e3o \u00e9 como a Calif\u00f3rnia, a Am\u00e9rica do Norte. Talvez porque o Brasil n\u00e3o possa passar pelo princ\u00edpio de realidade. Portanto, se ele ainda n\u00e3o passou pela realidade, n\u00e3o pode se tornar hiper-real, porque o hiper-real \u00e9 mais que o real, um tipo de confus\u00e3o entre o real e o imagin\u00e1rio. Tem-se a impress\u00e3o de que n\u00e3o existe um princ\u00edpio de defini\u00e7\u00e3o da realidade. \u00c9 bem uma esp\u00e9cie de pa\u00eds de fic\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 o pa\u00eds da semiologia ou da semi\u00f3tica. N\u00e3o sei, mas tenho a impress\u00e3o de que o Brasil est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do jogo da ilus\u00e3o, da sedu\u00e7\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o dual, mas confusa. E que n\u00e3o h\u00e1 essa forma de abstra\u00e7\u00e3o que \u00e9 a hiper-realidade. Enfim, essa forma de transmuta\u00e7\u00e3o no vazio, de perda de subst\u00e2ncia, de refer\u00eancia, de perda de tudo isso. Aqui, \u00e9 claro, tem televis\u00e3o por todo lado, tem imagens&#8230; tem isso tudo. Temos a impress\u00e3o de que \u00e9 uma mat\u00e9ria muito mais bruta, imediata, primitiva, \u00e9 uma mat\u00e9ria da rela\u00e7\u00e3o coletiva&#8221;.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds \u00e9 uma bandalheira t\u00e3o grande que n\u00e3o fazemos parte da realidade, muito menos da hiper-realidade. Somos ilus\u00e3o e n\u00e3o servimos nem de par\u00e2metro para estarmos na simula\u00e7\u00e3o. Somos Zion, a cidade aonde deveria se iniciar a revolu\u00e7\u00e3o, mas que na verdade n\u00e3o passa de uma pedra no sapato do sistema. Somos o pa\u00eds aonde Deus nasceu, mas que de fato n\u00e3o existe. Somos nada&#8230;<\/p>\n<p><strong>Por: Tender<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. Simulacros e Simula\u00e7\u00f5es. 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