{"id":13550,"date":"2018-07-15T17:42:09","date_gmt":"2018-07-15T20:42:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=13550"},"modified":"2018-07-15T17:42:09","modified_gmt":"2018-07-15T20:42:09","slug":"entre-o-bem-e-o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/07\/entre-o-bem-e-o-mal\/","title":{"rendered":"Entre o bem e o mal."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Entre o bem e o mal.<\/h2>\n<p>Quando voc\u00ea toma uma atitude, voc\u00ea pensa se est\u00e1 fazendo algo bom ou ruim? Quantas vezes voc\u00ea l\u00ea o jornal ou assiste a televis\u00e3o e tem a sensa\u00e7\u00e3o de que a criminalidade e a viol\u00eancia est\u00e3o aumentando? Ser\u00e1 que a humanidade est\u00e1 realmente caminhando para um futuro de caos e incerteza? Ser\u00e1 que a linha entre o bem e o mal est\u00e1 t\u00e3o t\u00eanue a ponto de se romper? Ou ser\u00e1 que estamos vendo apenas o que queremos ver? Afinal de contas, o ser humano em sua ess\u00eancia \u00e9 bom ou mal? Perguntas que tem intrigado os fil\u00f3sofos h\u00e1 s\u00e9culos e que at\u00e9 hoje ainda divide opini\u00f5es, principalmente em tempos em que as pessoas parecem se distanciar cada vez mais uma das outras, se fechando em suas pr\u00f3prias opini\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>No Iluminismo, o fil\u00f3sofo Jean-Jacques Russeau defendeu a ideia do bom selvagem. Para ele, a ess\u00eancia do homem \u00e9 boa, mas em constante julgamento da sociedade, o que acaba tornando-o uma criatura m\u00e1. Nessa teoria, o homem passa por tr\u00eas est\u00e1gios: o primeiro \u00e9 seu estado natural, que \u00e9 determinado pelos instintos e pela natureza; o segundo est\u00e1gio \u00e9 o do homem selvagem, que carrega conflitos morais e imperfei\u00e7\u00f5es; o terceiro \u00e9 o homem civilizado, que \u00e9 privado de seus interesses, de sua liberdade e de sua moral. Nesse processo, a bondade vai dando espa\u00e7o a maldade, ao ego\u00edsmo e ao individualismo. Russeau percebeu que o contrato social seria a maneira de preservar a liberdade natural do homem e ao mesmo tempo garantir seu bem-estar na sociedade. Diminuir a desigualdade social e instituir a justi\u00e7a para todos como iguais seriam maneiras de preservar o bem comum, de preservar a bondade inerente das pessoas.<\/p>\n<p>J\u00e1 Thomas Hobbes caracterizou a natureza humana como ego\u00edsta e dominadora. Para ele o homem \u00e9 o lobo do pr\u00f3prio homem e cabe ao Estado criar regras e limita\u00e7\u00f5es para conter essa natureza maligna. Seguindo esse pensamento, o ser humano n\u00e3o \u00e9 um ser social pois seu impulso selvagem o leva \u00e0 brutalidade, sendo que a \u00fanica coisa que inibe essa viol\u00eancia \u00e9 o controle do Estado e a ci\u00eancia de que quebrar as normas de conviv\u00eancia acarretam em puni\u00e7\u00f5es. Quando deixadas livres, ou quando percebem que as normas rompidas n\u00e3o sofrem nenhum tipo de puni\u00e7\u00e3o, as pessoas pouco a pouco voltam ao seu estado primitivo que \u00e9 a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Mesmo sendo antag\u00f4nicas, a opini\u00e3o de ambos tem algo em comum: \u00e9 a vida em sociedade que determina a ess\u00eancia do ser. Sobre isso podemos falar um pouco mais com a ajuda dos trabalhos do psic\u00f3logo Gustave Le Bon e do soci\u00f3logo Karl Marx, que estudaram como as multid\u00f5es se comportam diante de uma determinada situa\u00e7\u00e3o. Para Le Bon, as multid\u00f5es se movimentam de forma irracional e amea\u00e7adora. Para ele, n\u00e3o existe individualidade na multid\u00e3o, j\u00e1 que todos se tornam uma massa com o \u00fanico objetivo de desestabilizar a sociedade. Sendo assim, caberia ao poder destinado aos l\u00edderes a manuten\u00e7\u00e3o da ordem e do controle dessas massas. J\u00e1 Karl Marx defendia que as massas eram organizadas e que surgiam como forma de protesto contra a opress\u00e3o dos l\u00edderes de governo. Para ele, as multid\u00f5es eram um ac\u00famulo de interesses individuais que, quando juntos, se transformavam em uma pot\u00eancia como forma de resist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Para quem estuda comunica\u00e7\u00e3o, a psicologia social \u00e9 essencial para entender como as massas funcionam. Quando um publicit\u00e1rio lan\u00e7a uma campanha, ele espera que um determinado p\u00fablico-alvo seja atingido, mesmo que irracionalmente. O mesmo ocorre com os jornais, que d\u00e3o mais destaque a determinados assuntos visando a vendagem de assinaturas e a conquista de parcerias econ\u00f4micas. Dessa forma a publicidade e o jornalismo trabalham esperando uma rea\u00e7\u00e3o em massa, em que cada vez mais pessoas s\u00e3o influenciadas a comprarem seus produtos ou not\u00edcias apenas porque outras pessoas fazem o mesmo. Por\u00e9m, quando a publicidade ou a informa\u00e7\u00e3o possuem a inten\u00e7\u00e3o de expor um problema social, a rea\u00e7\u00e3o que se espera \u00e9 a da massa pot\u00eancia, com pessoas saindo \u00e1s ruas exigindo mudan\u00e7as ou respostas sobre um determinado assunto. Quando meios de comunica\u00e7\u00e3o ou l\u00edderes de governo utilizam esses tipos de t\u00e1tica de forma proposital, a multid\u00e3o vira massa de manobra.<\/p>\n<p>Por isso, se voc\u00ea ficar vendo um notici\u00e1rio que s\u00f3 mostra viol\u00eancia, ou se conversar com pessoas que d\u00e3o mais import\u00e2ncia a esse tipo de not\u00edcia, come\u00e7ar\u00e1 a ter a sensa\u00e7\u00e3o de que a viol\u00eancia e a desigualdade social est\u00e3o crescendo desenfreadamente. O mesmo ocorrer\u00e1 se voc\u00ea ficar vendo apenas v\u00eddeos motivacionais ou conversar apenas com pessoas mais esperan\u00e7osas, te deixando com um pensamento mais positivo em rela\u00e7\u00e3o aos tempos atuais. Independente de qual lado voc\u00ea estiver, \u00e9 bem poss\u00edvel que nem o bem e nem o mal estejam imperando no mundo, j\u00e1 que ambos caminham conforme as pessoas se relacionam entre si. Claro que existem cidades e pa\u00edses mais violentos que outros, mas em um geral, a viol\u00eancia mundial tende a crescer apenas conforme cresce o n\u00famero de habitantes no mundo. Por\u00e9m, o mesmo ocorre com a bondade.<\/p>\n<p>Pensar no bem e no mal como seres antag\u00f4nicos e distintos se chama manique\u00edsmo. Presente em algumas filosofias religiosas, o manique\u00edsmo defende que o bem e o mal s\u00e3o for\u00e7as absolutas, aonde h\u00e1 um n\u00e3o existe o outro. Esse pensamento religioso foi confrontado por Santo Agostinho, que defendia que as pessoas eram essencialmente boas por serem parte da Obra Divina, mas que podiam se corromper \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es e ao pecado por terem o livre-arb\u00edtrio. Para o Santo, independente do caminho que tomamos, nossa alma continua sendo um elemento de bondade, que sofrer\u00e1 a Justi\u00e7a Divina conforme as decis\u00f5es que tomamos. <\/p>\n<p>No \u00e2mbito da psican\u00e1lise, a dualidade humana \u00e9 mais complexa e foi estudada tanto por Sigmund Freud quanto por Carl Jung. Enquanto um definia a forma\u00e7\u00e3o da personalidade a partir da libido, o outro defendia que a forma\u00e7\u00e3o da personalidade \u00e9 fruto da evolu\u00e7\u00e3o e da hereditariedade. Para Freud, o eu \u00e9 formado a partir de refer\u00eancias familiares e da frustra\u00e7\u00e3o do desejo sexual. J\u00e1 para Jung, a consci\u00eancia \u00e9 a parte central da personalidade, que tamb\u00e9m \u00e9 definida pelo inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. E \u00e9 nesse ponto do inconsciente coletivo que criamos os arqu\u00e9tipos, que s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es sem forma de uma possibilidade de a\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Jung, s\u00e3o atrav\u00e9s dos arqu\u00e9tipos que criamos nosso her\u00f3is e vil\u00f5es, mesmo que com poucas refer\u00eancias plaus\u00edveis para isso. Para entender melhor como isso funciona, imagine uma cena aonde voc\u00ea est\u00e1 andando \u00e0 noite em uma rua escura. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria vem um homem negro, vestindo roupas largas, com a m\u00e3o no bolso e cara de poucos amigos. Essa cena te far\u00e1 pensar que ser\u00e1 assaltado e isso \u00e9 o arqu\u00e9tipo entrando em a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o significa necessariamente que voc\u00ea ser\u00e1 assaltado ou que aquele cidad\u00e3o \u00e9 realmente um bandido. \u00c9 um pr\u00e9-conceito criado a partir do seu inconsciente, que ao resgatar refer\u00eancias pr\u00e9vias, traz ao consciente uma possibilidade do que pode acontecer.<\/p>\n<p>Na psicologia junguiana, somos uma dualidade complexa de luz e sombras, tomando cada decis\u00e3o conforme nossas pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es conscientes, mas que s\u00e3o ativadas a partir de conceitos inconscientes das quais n\u00e3o temos controle. Dessa forma nem o bem nem o mal s\u00e3o absolutos, mas tons cinzentos de nossas pr\u00f3prias personalidades. Sendo assim, in\u00fameras vari\u00e1veis ir\u00e3o determinar se vemos o copo meio cheio ou meio vazio. O mesmo vale se formos encarar o mundo a nossa volta com pessimismo ou com esperan\u00e7a. Tirando pessoas com s\u00e9rios problemas mentais, ningu\u00e9m \u00e9 essencialmente mal. Tirando alguns supostos mestres religiosos que atingiram a plenitude, ningu\u00e9m \u00e9 essencialmente bom. Cabe a cada um de n\u00f3s tomarmos nossas decis\u00f5es, com o cuidado de que podemos estar enganando a n\u00f3s mesmos por causa de nossos inconscientes. Cabe a cada um de n\u00f3s escolhermos se vamos ficar entre o bem e o mal.<\/p>\n<p><strong>Por: Tender<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. Entre o bem e o mal. Quando voc\u00ea toma uma atitude, voc\u00ea pensa se est\u00e1 fazendo algo bom ou ruim? 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