{"id":14018,"date":"2018-10-17T12:00:07","date_gmt":"2018-10-17T15:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=14018"},"modified":"2018-10-17T11:34:42","modified_gmt":"2018-10-17T14:34:42","slug":"sindrome-de-stendhal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/10\/sindrome-de-stendhal\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome de Stendhal"},"content":{"rendered":"<p>Final de ano chegando, n\u00e9 gente bonita?  N\u00e3o, n\u00e3o vou falar de praia, ver\u00e3o ou boa forma. Quero bater um papo com voc\u00ea que vai viajar, principalmente se estiver indo \u00e0 Europa. Leia este texto com aten\u00e7\u00e3o, tomara que voc\u00ea n\u00e3o precise, mas ele pode te ajudar ou ajudar algu\u00e9m que esteja com voc\u00ea em uma viagem.<!--more--><\/p>\n<p>Pense na seguinte cena: uma pessoa entra em um museu. Repentinamente, come\u00e7a a sentir taquicardia, tontura. Um angustia enorme toma conta e se transforma em uma crise de p\u00e2nico, o est\u00f4mago come\u00e7a a doer. A coisa progride, se torna mais desconcertante, at\u00e9 que a pessoa come\u00e7a a ter alucina\u00e7\u00f5es, assustando a aqueles que est\u00e3o ao seu lado. Ela v\u00ea coisas, escuta coisas que n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1. Todos ficam em p\u00e2nico. A pessoa fica tonta e desmaia. Parece um relato sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, mas acontece mais do que a gente imagina. Desfavor Explica: S\u00edndrome de Stendhal.<\/p>\n<p>Sim, algumas pessoas colapsam quando ficam diante de obras de arte grandiosas. N\u00e3o \u00e9 uso de drogas, n\u00e3o \u00e9 loucura, \u00e9 um mal real que acomete estas pessoas e deve ser levado a s\u00e9rio, apesar do inusitado da situa\u00e7\u00e3o. Vamos ver o que diabos \u00e9 isso e como ajudar uma pessoa que seja acometida por esta S\u00edndrome.<\/p>\n<p>O primeiro relato sobre a doen\u00e7a foi feito pelo escritor Marie-Henri Beyle (que usava o pseud\u00f4nimo Stendhal), em 1817, no livro\u00a0\u201cN\u00e1poles e Floren\u00e7a: uma jornada de Mil\u00e3o ao Reggio\u201d Ele foi v\u00edtima desta s\u00edndrome quando visitou a Bas\u00edlica de Santa Croce, ao ver os afrescos do pintor Giotto. Precisou sair rapidamente dali e demorou um tempo at\u00e9 se recuperar.<\/p>\n<p>\u00c9 como se fosse um overload de est\u00e9tica, um transbordar de beleza, uma fascina\u00e7\u00e3o tamanha que desequilibra o corpo todo, principalmente o emocional. A pessoa pode ter desde rea\u00e7\u00f5es leves, como uma taquicardia e uma euforia leve que pode ser extravasada em inexplic\u00e1veis l\u00e1grimas (aconteceu comigo quando vi o teto da Capela Sistina, sentei e chorei copiosamente por 20 minutos) ou pode ter rea\u00e7\u00f5es mais pesadas, como desmaios e alucina\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>At\u00e9 bem pouco tempo, esse tipo de rea\u00e7\u00e3o era tratada como um faniquito. A coisa s\u00f3 come\u00e7ou a ser levada a s\u00e9rio quando a psiquiatra italiana Graziella Magherini encontrou evid\u00eancias de que o surto emocional que estas pessoas sofriam era uma patologia. Nas d\u00e9cadas de 80 e 90 Graziella era a respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o de sa\u00fade mental do Hospital de Santa Maria Nova, em Floren\u00e7a. Ela percebeu que pessoas afetadas por um dist\u00farbio ps\u00edquico repentino apareciam de forma recorrente na emerg\u00eancia do hospital e resolveu tentar entender qual era o denominador em comum entre eles.<\/p>\n<p>Curiosamente, todos come\u00e7aram a ter o surto quando expostos a obras de arte famosas, geralmente pessoas que vinham de um pa\u00eds estrangeiro. Em todos os casos as pessoas sa\u00edram saud\u00e1veis de suas casas, sem ter qualquer problema psicol\u00f3gico relevante e, quando expostas \u00e0s obras de arte, equil\u00edbrio psicol\u00f3gico simplesmente desaparecia. Isso fez com que ela e uma equipe de m\u00e9dicos do hospital pesquisem o problema durante dez anos para investigar se de fato havia algo ali.<\/p>\n<p>Examinaram pessoas que visitaram a cidade de Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, e que tiveram as mesmas rea\u00e7\u00f5es que Stendhal ao observar obras de arte e conclu\u00edram: \u00e9 real, \u00e9 uma doen\u00e7a, acontece um numero de vezes suficiente para que se coloque um nome. Estava oficializada a S\u00edndrome de Stendhal.<\/p>\n<p>Como a maior parte das pessoas do mundo n\u00e3o tem acesso a obras de arte grandiosas, fica bem dif\u00edcil falar em estat\u00edsticas, uma vez que a doen\u00e7a s\u00f3 se manifesta quando a pessoa entra em contato com elas. O que se sabe at\u00e9 agora \u00e9 disse que as v\u00edtimas desta s\u00edndrome s\u00e3o, geralmente, homens e mulheres solteiros entre 26 e 40 anos. <\/p>\n<p>Em um levantamento recente, chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o que algumas obras de arte t\u00eam mais propens\u00e3o a desencadear a S\u00edndrome de Stendhal do que outras. As campe\u00e3s em dar o start s\u00e3o: Davi, de Michelangelo, Baco, de Caravaggio e os c\u00edrculos do Duomo de Floren\u00e7a, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Como a s\u00edndrome n\u00e3o \u00e9 muito conhecida, as pessoas que sofrem seus efeitos pensam em tudo, menos em uma rea\u00e7\u00e3o psicossom\u00e1tica \u00e0 grandeza das obras de arte. H\u00e1 quem ache que foi envenenado, quem pense que est\u00e1 enfartando ou at\u00e9 quem acredite estar tendo uma crise de loucura. Se isso acontecer com voc\u00ea, n\u00e3o se assuste, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 ficando maluco, acontece com muita gente se levarmos em conta, proporcionalmente, a quantidade de p\u00fablico que visita museus com obras de arte grandiosas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um estopim emocional espec\u00edfico que desencadeie a s\u00edndrome. Graziella Magherini publicou um livro chamado de \u201cS\u00edndrome de Stendhal\u201d onde ela relata alguns casos de pessoas com quest\u00f5es reprimidas que vieram \u00e0 tona atrav\u00e9s da contempla\u00e7\u00e3o das obras de arte, coisas como abandono paterno, homossexualidade n\u00e3o assumida e outros. Por\u00e9m, tamb\u00e9m h\u00e1 casos onde, do nada, sem nenhum motivo aparente, a pessoa surta de uma tal forma que precisa passar a viagem toda em seu quarto de hotel, pois a simples arquitetura renascentista desencadeia uma crise.<\/p>\n<p>A neuroci\u00eancia tem palpite, mas n\u00e3o tem resposta conclusiva. At\u00e9 pouco tempo, se pensava que a percep\u00e7\u00e3o do belo e do feio fosse feita por duas \u00e1reas separadas do c\u00e9rebro, depois, descobriu-se que n\u00e3o, que tudo vem da mesma \u00e1rea, diretamente relacionada com a percep\u00e7\u00e3o visual, ativando apenas neur\u00f4nios diferentes, conforme o est\u00edmulo \u00e9 considerado bonito ou feio. Quanto mais bonito, maior a ativa\u00e7\u00e3o. Quando \u00e9 bel\u00edssimo, estonteante, essa ativa\u00e7\u00e3o, esse est\u00edmulo, pode transbordar e comprometer os neur\u00f4nios ao lado, respons\u00e1veis pelo feio.<\/p>\n<p>Pois bem, h\u00e1 uma teoria que na S\u00edndrome de Stendhal, algum pico emocional muito impactante causa um \u201ccurto circuito\u201d entre esses neur\u00f4nios, h\u00e1 esse \u201ctransbordamente\u201d e aquilo \u00e9 visto como feio e bonito ao mesmo tempo, o que desconcerta o c\u00e9rebro, que entra em parafuso sem saber decodificar o que est\u00e1 acontecendo, causando a sensa\u00e7\u00e3o de pavor e a necessidade de se afastar da obra. Em nome da nossa sobreviv\u00eancia, nosso c\u00e9rebro sempre nos manda correr e nos faz sentir mal-estar quando estamos perto de algo que ele n\u00e3o consegue decodificar se \u00e9 ou n\u00e3o uma amea\u00e7a. Se o c\u00e9rebro n\u00e3o entende, grandes chances que voc\u00ea sinta medo.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho, mas n\u00e3o costuma ser grave. A primeira provid\u00eancia \u00e9 sair do lugar que desencadeou a crise (ou retirar a pessoa que est\u00e1 tendo a crise do lugar) e leva-la para um ambiente mais neutro, mais universal, como por exemplo o quarto de hotel. No geral, isso basta para que a pessoa se recupere rapidamente, em m\u00e9dia, em tr\u00eas dias ela j\u00e1 voltou ao normal. Se for poss\u00edvel, cercar a pessoa de coisas familiares (comidas, programas de tv ou qualquer coisa que lhe remeta seu pa\u00eds ou sua casa) costuma acelerar o processo de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas em alguns poucos casos \u00e9 necess\u00e1rio um empurr\u00e3o com um medicamento, para conseguir despachar a pessoa de volta para o seu pa\u00eds ou para sua casa. S\u00e3o pessoas que j\u00e1 teriam uma porta meio aberta, uma propens\u00e3o para um surto psic\u00f3tico e esse acaba sendo o estopim, com consequ\u00eancias mais graves. Se as alucina\u00e7\u00f5es ou sensa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o persistirem mesmo afastando a pessoa das obras de arte, \u00e9 recomendado que se procure um psiquiatra rapidamente.<\/p>\n<p>A grande d\u00favida daqueles que s\u00e3o acometidos pela S\u00edndrome de Stendhal \u00e9: ap\u00f3s passar pelo hospital, descobrir que \u00e9 S\u00edndrome de Stendhal e n\u00e3o outro mal f\u00edsico, o que fazer? Voltar para casa e abrir m\u00e3o da viagem ou arriscar e continuar vendo outras obras de arte? N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas sobre a \u201creincid\u00eancia\u201d, mas sim, ela pode acontecer, inclusive vendo outras obras de arte que n\u00e3o a que desencadeou a primeira crise. A maior parte das pessoas opta por voltar para sua casa, pois est\u00e1 muito assustada com o evento. Basicamente \u00e9 um risco que a pessoa decide se quer correr.<\/p>\n<p>\u00c9 comum que com a S\u00edndrome de Stendhal venham junto sintomas de outra s\u00edndrome que anda de m\u00e3os dadas com ela: a S\u00edndrome de Davi. A S\u00edndrome de Davi aflora um desejo de vandalismo incontrol\u00e1vel, de atentar contra a obra de arte, de perda dos pr\u00f3prios limites. <\/p>\n<p>A pessoa impulsivamente, sem pensar ou conseguir se controlar, tenta danificar a obra. Acontece muito com o Davi, de Michelangelo, uma est\u00e1tua perfeita e imponente, que gera uma fascina\u00e7\u00e3o extrema, podendo descambar para o descontrole. Ent\u00e3o, da pr\u00f3xima vez que sair not\u00edcia em jornal que algu\u00e9m deu uma marretada em uma obra de arte, n\u00e3o julgue rapidamente, pode ser sido uma insanidade tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Inclusive, aconteceu recentemente. Em 1991, o Davi foi danificado por um cidad\u00e3o chamado Pietro Cannata, que, em um rompante, deu umas marteladas no p\u00e9 da est\u00e1tua. Por sinal, ataques a obras de arte n\u00e3o s\u00e3o incomuns, tem at\u00e9 ranking: atualmente, a obra de arte que mais ataques sofreu foi o quadro \u201cRonda noturna\u201d\u00a0de Rembrandt, exposto no Rijksmuseum de Amsterd\u00e3. Este quadro realmente perturba as pessoas, j\u00e1 sofreu riscos, 13 facadas e foi atacado at\u00e9 com \u00e1cido sulf\u00farico. Talvez seja o jogo de ilumina\u00e7\u00e3o que tem, procurem no Google e me digam se os perturba de alguma forma.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ciente de que a S\u00edndrome de Stendhal existe, se come\u00e7ar a sentir os primeiros sintomas (um estranhamento, taquicardia, euforia, uma sensa\u00e7\u00e3o estranha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de arte, um medo de perder o controle), pe\u00e7a ajuda e se afaste dela. V\u00e1 para um lugar arejado, de prefer\u00eancia a c\u00e9u aberto, respire fundo e se acalme. Caso tenha uma crise pior, procure um hospital para uma avalia\u00e7\u00e3o. Descanse uns dias no quarto do hotel e pense se vale a pena continuar.<\/p>\n<p>Na volta para casa, vale uma conversa com um psic\u00f3logo, pois \u00e9 poss\u00edvel que sentimentos reprimidos, conflitos interiores ou quest\u00f5es mal resolvidas estejam vindo \u00e0 tona e possam atrapalhar a sua vida se n\u00e3o forem elucidadas. E, em hip\u00f3tese alguma se ache maluco, acontece, muito mais do que a gente imagina.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que isso explica muitas das restaura\u00e7\u00f5es toscas que andam fazendo em quadros importantes, para dizer que \u00e9 um nome chique para loucura ou ainda para dizer que finalmente encontrou um lado bom em ser pobre e n\u00e3o ir \u00e0 Europa: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Final de ano chegando, n\u00e9 gente bonita? N\u00e3o, n\u00e3o vou falar de praia, ver\u00e3o ou boa forma. Quero bater um papo com voc\u00ea que vai viajar, principalmente se estiver indo \u00e0 Europa. 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