{"id":14143,"date":"2018-11-02T13:00:47","date_gmt":"2018-11-02T15:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=14143"},"modified":"2018-11-02T05:49:30","modified_gmt":"2018-11-02T07:49:30","slug":"igualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/11\/igualdade\/","title":{"rendered":"Igualdade."},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o prendi o cinto.\u201d<\/p>\n<p>A frase passou pela sua cabe\u00e7a de Karin no segundo entre o tranco habitual da reentrada atmosf\u00e9rica e a fria e dura realidade do ch\u00e3o met\u00e1lico da cabine. Os estabilizadores l\u00e1 fora entram em a\u00e7\u00e3o, permitindo seu retorno ao compartimento da cama. O colchonete fino cheirava mal e parecia sempre \u00famido, mas depois de quatro meses de viagem num velho cargueiro do tempo das coloniza\u00e7\u00f5es, qualquer coisa macia j\u00e1 era um alento.<!--more--><\/p>\n<p>Deitou-se com o rosto virado para o lado oposto ao terminal, n\u00e3o queria saber quanto tempo tinha de cama ainda, muito menos ver a cara feia de Tesenya latindo ordens para a equipe antes do estritamente necess\u00e1rio. Mesmo com o bra\u00e7o ainda dolorido por aparar a queda minutos antes, a gravidade terrestre sempre gerou um efeito tranquilizador nela, facilitando o sono. N\u00e3o importa o quanto tentem regular a nave, a realidade \u00e9 inimit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando o corpo todo relaxa e a consci\u00eancia come\u00e7a a adentrar o mundo dos sonhos, o alarme dispara. Nesse trabalho, o sono nunca \u00e9 o suficiente. Como de costume, logo ap\u00f3s o som estridente do despertador, a voz \u00e1spera de Tesenya inunda o ambiente:<\/p>\n<p>\u201cPouso em dez! Quem n\u00e3o estiver no deck em 15 vai para a limpeza do tanque s\u00e9ptico pelo resto da miss\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Karin veste a roupa protetora ainda meio grogue, revisando v\u00e1rias vezes as juntas para garantir que n\u00e3o esqueceu nada aberto. A imagem de Jae sendo esfregada at\u00e9 ficar em carne viva pela equipe de descontamina\u00e7\u00e3o ainda assombra suas mem\u00f3rias, dois anos depois do ocorrido. Pior que o sofrimento \u00e9 o risco de n\u00e3o ser mais chamada para as miss\u00f5es, ainda mais com a imensa dificuldade de um emprego fixo nas col\u00f4nias. Ela confere mais uma vez o fechamento das luvas antes de sair da cabine.<\/p>\n<p>Veterana de quase quatro anos na fun\u00e7\u00e3o, conquistou o privil\u00e9gio de dormir sozinha, o que passa longe de ser a realidade da maioria de suas companheiras de trabalho. O corredor escuro fica pontuado pelas luzes vindas das portas que v\u00e3o se abrindo, duas a tr\u00eas garotas saindo de dentro de cada uma delas. Um grupo de mais de cem delas segue em fila rumo aos gigantescos elevadores de carga que d\u00e3o acesso ao deck da nave. Toneladas de metal cada vez mais enferrujado deslizam com dificuldade para abrir passagem no n\u00edvel inferior.<\/p>\n<p>O som dos alarmes da nave atacam seus ouvidos, seguido pelo inconfund\u00edvel chacoalhar da aproxima\u00e7\u00e3o do ch\u00e3o. Karin sabe exatamente onde se posicionar para evitar o pior do impacto, segurando-se nos condu\u00edtes do sistema de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda da sa\u00edda do elevador 3. As novatas n\u00e3o gozam da mesma experi\u00eancia e ficam bem no meio do gigantesco compartimento de carga, algumas desabando com o impacto da nave em terra firme.<\/p>\n<p>Ela ri. Mas h\u00e1 pouco tempo para curtir o momento, Tesenya logo assume o microfone numa plataforma superior e come\u00e7a seu discurso de sempre:<\/p>\n<p>\u201cBom dia, crian\u00e7as. Espero que tenham dormido bem, porque o dia vai ser longo. L\u00e1 fora existem pelo menos cinquenta naves derrubadas na Guerra com baterias em funcionamento. Elas est\u00e3o demarcadas em seus dispositivos de posicionamento, uma para cada dupla. Sigam sem treinamento, recuperem o material gen\u00e9tico e n\u00e3o se deixem contaminar. Alguma d\u00favida?\u201d<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3timo. Agora voc\u00eas tem quatro horas para fazer seu trabalho. Quem n\u00e3o estiver de volta nesse per\u00edodo fica aqui, entendem? N\u00e3o vamos esperar ningu\u00e9m. Coloquem suas m\u00e1scaras, as portas se abrem em 60 segundos.\u201d<\/p>\n<p>Karin mexe o pesco\u00e7o e alonga os ombros antes de encaixar a m\u00e1scara com o respirador. Uma das novatas se aproxima, sorrindo por detr\u00e1s do visor pl\u00e1stico e apontando para seu localizador. Karin acena com a cabe\u00e7a, reconhecendo sua parceira de miss\u00e3o. A garota parece ainda mais jovem que o habitual, porte franzino deixando muito espa\u00e7o livre dentro do macac\u00e3o. Karin inspeciona o encaixe do pesco\u00e7o da garota e encontra uma fresta.<\/p>\n<p>A contagem regressiva da porta come\u00e7a no sistema de som: \u201cDez.\u201d<\/p>\n<p>Karin aponta para o pr\u00f3prio pesco\u00e7o e aponta de volta para o da sua companheira. A jovem responde com um sinal de concord\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201cOito.\u201d<\/p>\n<p>Karin faz gestos mais agressivos, apontando novamente para a fresta. A jovem parece perceber e come\u00e7a a tatear a \u00e1rea de jun\u00e7\u00e3o do macac\u00e3o com a m\u00e1scara.<\/p>\n<p>\u201cCinco.\u201d<\/p>\n<p>Karin tenta fechar ela mesma o v\u00e3o, mas as grossas luvas diminuem consideravelmente a precis\u00e3o de seus movimentos. Os movimentos da jovem ficam mais desesperados, atrapalhando ainda mais.<\/p>\n<p>\u201cTr\u00eas, dois, um&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A fresta \u00e9 fechada assim que a porta se abre. A luz do Sol invade o local em conjunto com uma brisa que movimenta os trajes das trabalhadoras. Sem delongas, Tesenya d\u00e1 a ordem de evacua\u00e7\u00e3o, e todas as presentes a seguem. Percebe-se claramente a diferen\u00e7a entre novatas e veteranas, com as primeiras andando devagar e olhando em todas as dire\u00e7\u00f5es e as mais experientes seguindo rapidamente em dire\u00e7\u00e3o aos seus objetivos.<\/p>\n<p>Karin nota que o verde est\u00e1 ainda mais verde este ano. A natureza parece ter tomado de volta quase todo o horizonte, sons de insetos e p\u00e1ssaros ainda mais presentes dessa vez. Sua acompanhante come\u00e7a a ficar bem para tr\u00e1s, aparentemente fascinada pela vista. Ela espera alguns momentos para deixar a jovem absorver a paisagem, afinal, \u00e9 bem prov\u00e1vel que essa seja a primeira vez dela vendo a Terra ao vivo e a cores. A compreens\u00e3o logo acaba com um r\u00edspido gesto pedindo a aproxima\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>A novata volta a si e corre para alcan\u00e7ar Karin. Elas seguem pelos escombros de uma cidade tomada pela natureza, paredes desabadas, metais completamente enferrujados e muito lixo pl\u00e1stico pontuando uma paisagem de gramas, ervas daninhas e pequenos arbustos floridos. A cena s\u00f3 muda quando as duas encontram os escombros de uma das naves invasoras. Num raio de mais ou menos dez metros do objeto, nada cresce, a terra nua lavada pelas chuvas de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>A parte frontal da nave parece ter sido completamente destru\u00edda, por um m\u00edssil ou pela queda, o bico afundado no ch\u00e3o, equilibrando a estrutura no ar de forma prec\u00e1ria. A separa\u00e7\u00e3o entre a central de comando e o compartimento de carga continua de p\u00e9, e \u00e9 l\u00e1 que as duas come\u00e7am a trabalhar. Karin acende seu equipamento e come\u00e7a a derreter uma das travas segurando a porta. A jovem auxilia trocando as baterias da ferramenta e retirando do local o excesso de pedras, equipamentos destru\u00eddos e carca\u00e7as de animais que se acumularam com o passar do tempo. De tempos em tempos a nave emite rangidos met\u00e1licos, como se n\u00e3o estivesse gostando do peso de duas pessoas concentrado num espa\u00e7o t\u00e3o pequeno.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mais ou menos duas horas de trabalho, a porta finalmente cede, lan\u00e7ando uma onda de choque pela estrutura da nave ao cair alguns metros at\u00e9 o ch\u00e3o. Dentro do compartimento de carga da nave, as luzes continuam acesas, os pain\u00e9is ainda funcionais e principalmente, um compartimento refrigerado demarcado com um s\u00edmbolo de perigo biol\u00f3gico. A jovem sorri, empolgada. Karin presta muita aten\u00e7\u00e3o para garantir que seus olhos n\u00e3o est\u00e3o pregando uma pe\u00e7a. Em cinco d\u00e9cadas de miss\u00f5es, nunca foi encontrado um banco gen\u00e9tico t\u00e3o bem preservado quanto o que se apresentava diante de seus olhos. Sem sinais de estragos por fora e pain\u00e9is iluminados com dados como se tivesse acabado de sair da linha de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela imagina que talvez esse tenha sobrevivido \u00e0 radia\u00e7\u00e3o. Que talvez aqueles embri\u00f5es fossem vi\u00e1veis, finalmente. Karin pega seu localizador e dedilha uma sequ\u00eancia que nunca fora usada al\u00e9m de treinamentos at\u00e9 ali: um banco de genes em estado perfeito pronto para extra\u00e7\u00e3o. Prioridade m\u00e1xima para todas as equipes de recupera\u00e7\u00e3o, em minutos um time de especialistas estaria ali. A novata segue o protocolo e continua limpando a \u00e1rea, em busca de qualquer superf\u00edcie cortante que pudesse colocar em risco a integridade das roupas de prote\u00e7\u00e3o das trabalhadoras.<\/p>\n<p>Com um martelo, a jovem come\u00e7a a dobrar uma das pontas met\u00e1licas que protuberavam da conex\u00e3o entre ponte e compartimento de carga. Depois de algumas dobradas, uma batida mais forte numa das mais resistentes faz com que toda a estrutura emita um gemido enferrujado e comece a tremer. Karin arregala os olhos. Ela j\u00e1 pode ouvir a equipe de extra\u00e7\u00e3o se aproximando. Os compartimentos refrigerados desses modelos de nave do final da Guerra eram notoriamente complexos de retirar sem expor o interior \u00e0 imensa radia\u00e7\u00e3o emitida pelas baterias da nave, exigindo uma equipe especial capaz de retirar todo o compartimento sem abri-lo, fornecendo energia auxiliar o tempo todo. Ela n\u00e3o tinha uma fra\u00e7\u00e3o do conhecimento necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>As duas sentem o primeiro movimento da estrutura rumo ao ch\u00e3o. Instintivamente, Karin coloca o corpo ao redor do compartimento refrigerado, tentando gerar alguma prote\u00e7\u00e3o contra o impacto iminente. A novata adere ao plano a seguir. Uma de cada lado, as mulheres usam seus corpos para mitigar os cinco metros de metal tombando no ch\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>Os restos da nave colapsam de cima para baixo, um setor desmontando e soterrando o inferior. O estrondo da queda pode ser ouvido por todas as outras trabalhadoras na regi\u00e3o. Karin fecha os olhos e sente uma dor profunda na perna. Uma das pontas soltas atravessou n\u00e3o s\u00f3 a roupa de prote\u00e7\u00e3o como a pele e os m\u00fasculos. Abre os olhos e v\u00ea a jovem bem diante de seu rosto, com um buraco enorme no visor da sua m\u00e1scara. Atr\u00e1s, a express\u00e3o de dor e os olhos cheios de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Karin arranca sua m\u00e1scara. N\u00e3o havia mais fun\u00e7\u00e3o para ela. A novata parece fazer muita for\u00e7a para conseguir proferir uma palavra:<\/p>\n<p>\u201cDesculpa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Karin engole seco sua dor, e vendo o desespero da jovem, responde:<br \/>\n\u201cQual o seu nome?\u201d<\/p>\n<p>\u201cNelli.\u201d<\/p>\n<p>\u201cNelli, n\u00e3o foi culpa sua&#8230; a gente salvou os embri\u00f5es&#8230; olha&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A novata observa o compartimento, que parece n\u00e3o ter sofrido nenhuma avaria, continuando com o visor ligado, inclusive.<\/p>\n<p>\u201cMas a gente vai morrer com essa dose&#8230; a gente nunca vai poder ver um dos homens de verdade&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cMe disseram que eles eram uma porcaria mesmo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>As duas riem no limite que a dor permite. Karin percebe a vida se esvaindo do corpo da novata:<\/p>\n<p>\u201cEscuta&#8230; elas n\u00e3o costumam jogar fora as t\u00e3o novas como voc\u00ea. Talvez te salvem&#8230; viu?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 resposta, e n\u00e3o faria diferen\u00e7a por ser uma grande mentira. Todas eram dispens\u00e1veis. Karin sente a cabe\u00e7a ficar leve, o sangramento e a radia\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam fazendo seu efeito. Antes do \u00faltimo suspiro, sua mente vagou para um mundo onde as pessoas podiam ser diferentes dela.<\/p>\n<p>A equipe de extra\u00e7\u00e3o encontrou-a com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu voltei com nada, para dizer que ficou com mais d\u00favidas que respostas, ou mesmo para dizer que n\u00e3o sabia que eu era feminista: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o prendi o cinto.\u201d A frase passou pela sua cabe\u00e7a de Karin no segundo entre o tranco habitual da reentrada atmosf\u00e9rica e a fria e dura realidade do ch\u00e3o met\u00e1lico da cabine. Os estabilizadores l\u00e1 fora entram em a\u00e7\u00e3o, permitindo seu retorno ao compartimento da cama. 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