{"id":14304,"date":"2018-11-27T12:00:23","date_gmt":"2018-11-27T14:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=14304"},"modified":"2018-11-27T02:52:15","modified_gmt":"2018-11-27T04:52:15","slug":"transtorno-dissociativo-de-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/11\/transtorno-dissociativo-de-identidade\/","title":{"rendered":"Transtorno Dissociativo de Identidade."},"content":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 voc\u00ea? Tem certeza? E se al\u00e9m de voc\u00ea, existisse outra \u201cpessoa\u201d a\u00ed dentro que, de tempos em tempos, assume o volante e te joga para o banco do carona, sem que voc\u00ea consiga se lembrar do que esse outro voc\u00ea fez? M\u00faltiplas personalidades n\u00e3o s\u00e3o lenda, histeria ou sugest\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o possess\u00e3o demon\u00edaca, incorpora\u00e7\u00e3o ou um fen\u00f4meno divino. S\u00e3o um problema f\u00edsico e mental, real e comprovado. Desfavor Explica: Transtorno Dissociativo de Identidade.<!--more--><\/p>\n<p>O Transtorno Dissociativo de Identidade, mais conhecido como \u201cM\u00faltiplas Personalidades\u201d ou \u201cDupla personalidade\u201d, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o mental em que um \u00fanico indiv\u00edduo demonstra caracter\u00edsticas de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o mundo. Recentemente ela foi retratada no filme \u201cFragmentado\u201d de M. Night Shyamalan e j\u00e1 ilustrou muitos outros filmes e livros.<\/p>\n<p>\u00c9 reconhecida como doen\u00e7a faz pouco tempo (s\u00f3 foi reconhecido pela Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria em 1980), ou seja, vem sendo estudada com seriedade h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, por isso ainda n\u00e3o se sabe tudo que se gostaria sobre TDI. No passado era tratada como possess\u00e3o demon\u00edaca, bruxaria e outras explica\u00e7\u00f5es pouco t\u00e9cnicas.  \u00c9 uma doen\u00e7a de dif\u00edcil estudo e comprova\u00e7\u00e3o, que ainda encontra resist\u00eancia em parte da comunidade m\u00e9dica.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe com certeza por qual motivo ela \u201cacontece\u201d na vida de uma pessoa, mas, a teoria mais aceita \u00e9 a de que estas diferentes personalidades surgem como mecanismo de defesa para lidar com situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas \u00e0s quais a pessoa foi exposta sem ter estrutura ps\u00edquica para conseguir lidar adequadamente. Essas diferentes personalidades seriam uma ferramenta de defesa, em sua maioria, contra abusos cometidos sistematicamente, na maior parte das vezes, dentro de casa e durante a inf\u00e2ncia do paciente.<\/p>\n<p>O abuso, de qualquer tipo que seja, pode ser insuport\u00e1vel de lidar, ent\u00e3o, a mente \u201cse afasta\u201d (papo t\u00e9cnico: dissocia\u00e7\u00e3o) como mecanismo de defesa, \u201cse desliga\u201d. Mas, algu\u00e9m tem que estar no volante desse carro, ent\u00e3o, como uma fic\u00e7\u00e3o ou medida desesperada, a mente e \u201ccria\u201d uma outra personalidade mais apta para lidar com a situa\u00e7\u00e3o de estresse e abuso. Posteriormente, essa personalidade pode retornar diante da ocorr\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o que lhe remeta a esse evento ou \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de desamparo que o evento desencadeia. \u00c9 como vestir uma armadura, s\u00f3 que na sua personalidade.<\/p>\n<p>Geralmente abusos repetidos, sofridos na inf\u00e2ncia (viol\u00eancia, amea\u00e7as, abuso sexual etc.), quando o ser humano \u00e9 mais vulner\u00e1vel e tem menos estrutura para se defender e lidar com eles, s\u00e3o os principais respons\u00e1veis por esse start. Abandono sem que a crian\u00e7a esteja pronta para lidar sozinha com a vida tamb\u00e9m pode ser uma causa. Por\u00e9m, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que adultos com uma inf\u00e2ncia feliz desenvolvam TDI, geralmente fruto de um grande trauma pontual, coisas como um acidente s\u00e9rio ou um desastre. Quando falamos da mente humana, falamos de tend\u00eancias, n\u00e3o de certezas.<\/p>\n<p>Segundo estudos mais recentes, h\u00e1 uma conflu\u00eancia de fatores f\u00edsicos com fatores psicol\u00f3gicos que podem levar ao TDI.<\/p>\n<p>Fisicamente falando, situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas e de grande estresse levam \u00e0 atrofia de uma parte do nosso c\u00e9rebro (papo t\u00e9cnico: hipocampo e amigdala) e essa atrofia gera uma diminui\u00e7\u00e3o progressiva da capacidade de funcionamento desta parte do c\u00e9rebro. Essa diminui\u00e7\u00e3o seria o principal start para o TDI: quando a situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica se repete, ela fragiliza sistematicamente esta \u00e1rea, at\u00e9 que algo se \u201cquebra\u201d, algo se fragmenta na mente humana e ela passa a funcionar como se fossem v\u00e1rias mentes.<\/p>\n<p>O hipocampo e a amigdala (estruturas que est\u00e3o conectadas) em pessoas com TDI podem ser at\u00e9 20% menores do que em indiv\u00edduos considerados normais. O hipocampo \u00e9 basicamente a sede da mem\u00f3ria humana no c\u00e9rebro (o que explica as crises de amn\u00e9sia sofridas entre personalidades diferentes) e a amigdala, respons\u00e1vel pela percep\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es. Mas as causas deste transtorno n\u00e3o s\u00e3o apenas f\u00edsicas, se voc\u00ea simular esta diminui\u00e7\u00e3o de tamanho em um ser humano, n\u00e3o necessariamente vai obter como resultado o desenvolvimento de TDI. \u00c9 uma jun\u00e7\u00e3o de c\u00e9rebro e mente.<\/p>\n<p>Psicologicamente falando, quando sofremos um grande trauma com o qual n\u00e3o temos estrutura para lidar, algo na nossa personalidade \u201cdesliga\u201d, \u201cse afasta\u201d, \u201cse separa\u201d daquele evento, para preservar nossa vida e sanidade mental. Simplificando grosseiramente, \u00e9 o que a psicologia chama de \u201cdissocia\u00e7\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>\u00c9 muito comum escutar de pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es extremas, como por exemplo, tortura, a viv\u00eancia de sensa\u00e7\u00f5es de dissocia\u00e7\u00e3o, coisas como se afastar do pr\u00f3prio corpo, sentir uma anestesia e at\u00e9 se ver fora do corpo, para n\u00e3o vivenciar aquilo. O problema \u00e9: algu\u00e9m tem que estar no comando, ent\u00e3o, quando a sua personalidade se afasta, n\u00e3o se sabe muito bem como, por mecanismo de sobreviv\u00eancia, se \u201ccria\u201d outra para assumir o volante.<\/p>\n<p>Quando esta combina\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mental ocorre, abre-se uma porta para duas ou mais personalidades coexistirem. Uma vez aberta esta porta, \u00e9 poss\u00edvel que a outra personalidade volte de tempos em tempos, quando uma situa\u00e7\u00e3o qualquer relembrar a condi\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel que tornou necess\u00e1ria sua cria\u00e7\u00e3o. Eventualmente, a vida da pessoa pode passar a ser um grande rod\u00edzio de personalidades, sem que ela se lembre do cada uma disse ou fez.<\/p>\n<p>Normalmente h\u00e1 uma personalidade predominante, que passa mais tempo \u201cativa\u201d e outras secund\u00e1rias, que aparecem temporariamente. Quando uma personalidade entra, a outra sai e a consci\u00eancia \u00e9 fragmentada: cada personalidade se lembra apenas do que aconteceu quando ela estava ativa, lembrando nada ou quase nada do que aconteceu quando as outras tomam o seu lugar. \u00c9 mais comum que poucas personalidades se alternem (cerca de 3 ou 4), por\u00e9m h\u00e1 casos onde uma \u00fanica pessoa desenvolveu mais de 60 personalidades diferentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o escolhi este tema por curiosidade m\u00f3rbida. Escolhi porque, no meu entender, o Transtorno Dissociativo de Identidade, apesar de ser um problema sofrido para quem o vivencia, tem um lado muito interessante a ser pensado: \u00e9 a maior prova do alcance do poder da mente humana. <\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o mais valiosa deste texto, que serve para reflex\u00e3o de todos n\u00f3s, vem agora: ao mudar de personalidade, n\u00e3o raro a pessoa muda sua realidade f\u00edsica tamb\u00e9m, o que nos leva para aquela frase que voc\u00eas cansaram de ler este ano: sua mente cria realidade. N\u00e3o por m\u00e1gica ou misticismo, mas por um mecanismo ainda n\u00e3o compreendido e dominado pelos humanos.<\/p>\n<p>Quando incorpora diferentes personalidades, muda o semblante, a voz, a linguagem corporal e at\u00e9 mesmo a for\u00e7a f\u00edsica que a pessoa tem. Mas isso \u00e9 s\u00f3 a ponta do iceberg. Acontecem coisas muito mais surpreendentes, que tornam ineg\u00e1vel o poder da mente e como ela \u00e9 capaz de transformar nossa realidade. Muitos sup\u00f5e que seja sugest\u00e3o ou fingimento, algum tipo de \u201chisteria\u201d, mas a ci\u00eancia j\u00e1 se encarregou de bater o martelo: \u00e9 real.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 comprovado que cada uma das personalidades alternativas tem um \u00fanico perfil de eletroencefalograma, ou seja, simplificando de forma grosseira, cada uma das personalidades tem uma \u201cimpress\u00e3o digital neurol\u00f3gica\u201d pr\u00f3pria, diferente das demais. Isso \u00e9 algo que a ci\u00eancia n\u00e3o esperava que pudesse acontecer, que um c\u00e9rebro se \u201ctransforme\u201d em outro c\u00e9rebro. Mas acontece.<\/p>\n<p>Exames de Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica tamb\u00e9m comprovam que n\u00e3o h\u00e1 qualquer chance de ser um fingimento ou uma fantasia, a mudan\u00e7a cerebral \u00e9 real, em um patamar que n\u00e3o poderia ser emulado pela pessoa: muda toda sua programa\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro. Isso se reflete de forma assombrosa tamb\u00e9m no corpo. \u00c9 um grau de muta\u00e7\u00e3o que interfere em todo o funcionamento do organismo, de forma surpreendente e inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por exemplo, j\u00e1 ocorreram casos comprovados de pessoas cuja personalidade dominante era diab\u00e9tica, mas quando trocava de personalidade, a outra n\u00e3o era, ent\u00e3o, o corpo conseguia lidar perfeitamente bem com a\u00e7\u00facar: a pessoa comia doces e seus n\u00edveis de glicose no sangue continuavam baixos. Este caso foi inclusive retratado no filme \u201cFragmentado\u201d. A mente humana \u00e9 capaz de controlar o funcionamento do corpo em propor\u00e7\u00f5es que n\u00f3s sequer imaginamos. N\u00f3s temos esse controle em algum lugar, s\u00f3 n\u00e3o conseguimos acess\u00e1-lo conscientemente \u2013 ainda.<\/p>\n<p>Em outro caso ainda mais surpreendente, uma alem\u00e3 de 33 anos, que ficou cega aos 20 anos, em decorr\u00eancia de um acidente (papo t\u00e9cnico: cegueira cortical, um dano cerebral ocasionado pelo acidente, n\u00e3o uma cegueira psicol\u00f3gica) conseguia enxergar perfeitamente quando \u201cincorporava\u201d suas outras personalidades. A parte do c\u00e9rebro da mo\u00e7a respons\u00e1vel pela vis\u00e3o estava morta, e ela conseguia ver quando mudava a personalidade. Isso \u00e9 um ind\u00edcio (n\u00e3o uma prova, um ind\u00edcio) que nossa consci\u00eancia talvez possa se sobrepor ao f\u00edsico a ponto de superar at\u00e9 mesmo a \u201cmorte\u201d de uma parte do seu corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 casos comprovados onde, ao mudar de personalidade, muda tamb\u00e9m a cor dos olhos da pessoa, ou seja, em alguma propor\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o conhecemos, a consci\u00eancia \u00e9 capaz de alterar nosso f\u00edsico de forma percept\u00edvel e inquestion\u00e1vel. N\u00e3o estamos falando da percep\u00e7\u00e3o do interlocutor e sim de exames realizados que indicam a mudan\u00e7a na tonalidade do olho. Ningu\u00e9m explica, mas acontece.<\/p>\n<p>Em outros, o corpo apresenta cicatrizes em uma personalidade que desaparecem quando outra toma o seu lugar. Tamb\u00e9m h\u00e1 casos onde uma personalidade tem alergias e outras n\u00e3o. Mas, talvez o caso mais surpreendente seja o de uma personalidade que tinha c\u00e2ncer, mas, ao trocar para outra, o corpo simplesmente conseguia combater esse c\u00e2ncer e ele desaparecia. Repito: sua mente cria realidade, voc\u00ea \u00e9 que n\u00e3o sabe como acessar esta ferramenta maravilhosa. N\u00e3o \u00e9 fascinante? <\/p>\n<p>Esses casos, combinados com outras informa\u00e7\u00f5es intrigantes, chamaram a aten\u00e7\u00e3o de pesquisadores e ajudaram a criar uma nova \u00e1rea, a \u201cPsiconeuroimunologia\u201d, ou PNI: Psico = Mente, Neuro = C\u00e9rebro, Imuno = Sistema Imunol\u00f3gico, logia = Ci\u00eancia. Ou seja, o estudo de como a mente e o c\u00e9rebro influenciam no sistema imunol\u00f3gico. A proposta \u00e9 avaliar at\u00e9 onde a mente controla nossa sa\u00fade e bem estar, mesmo que de forma inconsciente, sem que a gente perceba. Ou, em bom portugu\u00eas: at\u00e9 onde a mente pode nos adoecer ou nos curar. Os estudos s\u00e3o todos muito interessantes.<\/p>\n<p>\u00c9 uma \u00e1rea recent\u00edssima, mas o pouco que vem pesquisando j\u00e1 aponta para uma dire\u00e7\u00e3o controversa: \u00e9 poss\u00edvel que nossa mente seja respons\u00e1vel por criar doen\u00e7as e, como criadora, ela teria o poder de cur\u00e1-las se a pessoa souber acess\u00e1-la da forma correta. Obviamente a ideia da mente acima da mat\u00e9ria, da mente controlando a biologia, ainda encontra muita resist\u00eancia e esse assunto ainda vai dar muito pano pra manga, mas \u00e9 bom que ao menos se saiba que essa possibilidade existe e vem sendo estudada. \u00c9 um tema complexo que um dia vai ganhar seu texto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Hoje, estima-se que o Transtorno Dissociativo de Identidade afete entre 1 e 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial, por\u00e9m, apenas uma minoria \u00e9 diagnosticada. O Brasil tem um \u00edndice baixo de portadores de TDI nas estat\u00edsticas, mas especialistas acreditam que n\u00e3o seja baixa incid\u00eancia e sim pouco diagn\u00f3stico. <\/p>\n<p>Gra\u00e7as a um sistema de sa\u00fade prec\u00e1rio (onde as pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso ao diagn\u00f3stico) e \u00e0s fortes cren\u00e7as religiosas que dominam o Brasil (fica mais f\u00e1cil explicar como uma incorpora\u00e7\u00e3o, uma possess\u00e3o ou at\u00e9 mediunidade) muitos pacientes morrem sem um diagn\u00f3stico correto. Por sinal, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo, n\u00e3o \u00e9 raro que pessoas com TDI s\u00f3 sejam corretamente diagnosticadas ap\u00f3s passarem metade da sua vida convivendo com este transtorno. \u00c9 que nem sempre s\u00e3o casos gritantes como aparecem nos filmes, pode se apresentar de forma muito mais sutil.<\/p>\n<p>Por exemplo, pessoas normalmente pac\u00edficas, gente boa e bem-humoradas que, de tempos em tempos tem um \u201csurto\u201d de raiva, quando alguma situa\u00e7\u00e3o gera um gatilho que a relembra (ainda que de forma sutil e indireta) do grande trauma que gerou o TDI. N\u00e3o raro vemos pessoas que tem esses surtos de raiva dizendo que \u201cficaram cegos\u201d, que \u201cn\u00e3o vi mais nada na minha frente\u201d. Percebem? N\u00e3o precisa mudar a voz, a cor do olho e o idioma que a pessoa fala, pode ser algo r\u00e1pido e sutil, como um rompante violento que n\u00e3o condiz com o que a pessoa costuma mostrar no seu dia a dia. Outra personalidade assume para \u201cdefender\u201d a pessoa, ainda que por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, faz um show intimidador e vai embora com sua \u201cmiss\u00e3o cumprida\u201d.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o abusa do TDI, relatando casos extremados e muitas vezes estereotipados, que podem induzir medo e preconceito. Desde \u201cO m\u00e9dico e o monstro\u201d at\u00e9 o filme \u201cIdentidade\u201d e o pr\u00f3prio \u201cFragmentado\u201d, somos levados a crer que os portadores de TDI podem ser muito perigosos, o que nem sempre \u00e9 verdade. Tamb\u00e9m presta um desservi\u00e7o aos diagn\u00f3sticos, pois nos levam a acreditar que s\u00f3 casos escabrosos com mudan\u00e7as caricatas s\u00e3o Transtorno Dissociativo de Identidade. Tenham me mente que a arte precisa de sua dose de exagero para ser interessante e que a realidade nem sempre corresponde a isso.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que existe uma zona cinzenta enorme quando falamos nesse tipo de condi\u00e7\u00e3o. Quando falamos da mente humana, no geral, h\u00e1 infinitas nuances: varia\u00e7\u00f5es mais brandas de TDI, outras condi\u00e7\u00f5es parecidas, uma jun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es, uma condi\u00e7\u00e3o nova e totalmente desconhecida&#8230; tudo \u00e9 poss\u00edvel. O que quero dizer \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o vai bater o martelo de um diagn\u00f3stico com um texto superficial de quatro p\u00e1ginas. Mesmo especialistas com d\u00e9cadas de experi\u00eancia podem levar diversas consultas para encontrar um diagn\u00f3stico. E, quer saber? O diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 o mais importante. O mais importante \u00e9 como m\u00e9dico, psic\u00f3logo e paciente v\u00e3o lidar com isso.<\/p>\n<p>Mas, no geral, as pessoas precisam de um diagn\u00f3stico, de um nome, de uma classifica\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 acontecendo com elas. Ent\u00e3o, saiba que o diagn\u00f3stico deve ser feito por um psiquiatra, ap\u00f3s uma cuidadosa investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica do paciente, e, por ser subjetivo, requer muito cuidado e aten\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 recomendado que a pessoa procure mais de um m\u00e9dico, para ter acesso a diferentes perspectivas.<\/p>\n<p>O erro mais comum no Brasil \u00e9 que o Transtorno Dissociativo de Identidade seja confundido com esquizofrenia. N\u00e3o \u00e9. A diferen\u00e7a \u00e9 bem simples: em uma compara\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria, na esquizofrenia \u00e9 um coral (todos cantam juntos), no TDI \u00e9 um dueto (quando um canta o outro cala a boca). O esquizofr\u00eanico escuta outras vozes coexistindo com a sua, que interagem entre si, o que n\u00e3o acontece no TDI, que \u00e9 marcado por epis\u00f3dios de amn\u00e9sia e mudan\u00e7a de comportamento sistem\u00e1tica, consistente com diferentes personalidades. <\/p>\n<p>Outro fator que pode dificultar o diagn\u00f3stico \u00e9 o fato do TDI geralmente coexistir com outras condi\u00e7\u00f5es, como depress\u00e3o e s\u00edndrome do p\u00e2nico. Fica mais dif\u00edcil separar os sintomas do que pertence a quem. Se o m\u00e9dico procurar uma \u00fanica condi\u00e7\u00e3o que abarque todos os sintomas n\u00e3o vai encontrar, pois o que se apresenta \u00e9 um mix de sintomas de diversas condi\u00e7\u00f5es juntas.<\/p>\n<p>O TDI n\u00e3o tem \u201ccura\u201d, ou seja, garantia de que nunca mais vai se apresentar na vida da pessoa. Por\u00e9m, a condi\u00e7\u00e3o pode regredir e portador ter uma vida funcional, desde que realize a manuten\u00e7\u00e3o constante (e eterna) necess\u00e1ria. Geralmente o tratamento \u00e9 feito combinando terapia com rem\u00e9dios, com a inten\u00e7\u00e3o de fundir todas as personalidades em uma s\u00f3. Por\u00e9m, a pessoa nunca deve esquecer que ela tem essa \u201cporta aberta\u201d, se n\u00e3o cuidar dessa condi\u00e7\u00e3o de forma permanente, pode ter problemas.<\/p>\n<p>O Transtorno tem maior incid\u00eancia em mulheres, ao que tudo indica, por elas serem mais suscet\u00edveis a abusos, por sua fragilidade f\u00edsica e social. Estima-se que o tempo m\u00e9dio que um paciente leva para conseguir um diagnostico ap\u00f3s o in\u00edcio da percep\u00e7\u00e3o dos sintomas \u00e9, em m\u00e9dia, de sete anos. O objetivo final do tratamento, como j\u00e1 falamos, \u00e9 fundir todas as personalidades em uma s\u00f3, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel conseguir uma vida funcional se o paciente alcan\u00e7ar uma rela\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e de coopera\u00e7\u00e3o entre as personalidades.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea acredita que possa sofrer de TDI, procure n\u00e3o um, mas v\u00e1rios psiquiatras. Psiquiatras que te escutem, que fa\u00e7am uma consulta longa, de pelo menos uma hora, conversando com voc\u00ea e demonstrando interesse no que voc\u00ea diz e te levando a s\u00e9rio. Procure mais de uma opini\u00e3o e, tenha em mente que, o que quer que voc\u00ea tenha, \u00e9 trat\u00e1vel e voc\u00ea pode recuperar sua qualidade de vida, desde que entenda e aceite que \u00e9 necess\u00e1ria uma manuten\u00e7\u00e3o com terapia constante, coisa que, por sinal, todos n\u00f3s dever\u00edamos fazer, com ou sem TDI.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea conhece algu\u00e9m que possa ter TDI, tente salvar essa pessoa da ignor\u00e2ncia, deve ser muito dif\u00edcil ser portador de um transtorno como esse no Brasil. Leve informa\u00e7\u00e3o, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 a melhor ajuda que todos n\u00f3s leigos podemos dar. Pode fazer toda a diferen\u00e7a na vida da pessoa.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer um texto sobre Psiconeuroimunologia, para dizer que isso \u00e9 encosto ou ainda para dizer que d\u00e1 para se safar de muita coisa colocando a culpa em TDI: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 voc\u00ea? Tem certeza? E se al\u00e9m de voc\u00ea, existisse outra \u201cpessoa\u201d a\u00ed dentro que, de tempos em tempos, assume o volante e te joga para o banco do carona, sem que voc\u00ea consiga se lembrar do que esse outro voc\u00ea fez? M\u00faltiplas personalidades n\u00e3o s\u00e3o lenda, histeria ou sugest\u00e3o. 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