{"id":14653,"date":"2019-01-30T10:00:37","date_gmt":"2019-01-30T12:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=14653"},"modified":"2019-01-30T03:12:46","modified_gmt":"2019-01-30T05:12:46","slug":"uncanny-valley","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/01\/uncanny-valley\/","title":{"rendered":"Uncanny Valley"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea tenha escutado a express\u00e3o em algum momento da sua vida. Uncanny Valley traduz para o portugu\u00eas como Vale da Estranheza, e significa o estranhamento que a imagem de uma figura quase humana causa na maioria das pessoas. Mas, que estranhamento \u00e9 esse, e&#8230; por que \u00e9 um vale?<!--more--><\/p>\n<p>Neste caso, uma foto vale mesmo por mil palavras. Observe as tr\u00eas imagens a seguir:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-01.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"600\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14658\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-01.jpg 1200w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-01-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-01-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-01-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Mesmo se voc\u00ea nunca ouviu falar de Uncanny Valley at\u00e9 hoje, instintivamente j\u00e1 entendeu o que est\u00e1 acontecendo. Criei um padr\u00e3o de tr\u00eas figuras femininas sem cabelo. Na primeira foto da esquerda para a direita, um rob\u00f4 extremamente estilizado. Uma bola de pl\u00e1stico com dois olhos e uma boca, pode-se argumentar que est\u00e1 mais para infantil do que feminino, mas o importante aqui \u00e9 que obviamente n\u00e3o \u00e9 um ser humano, mas mesmo o cora\u00e7\u00e3o mais gelado aqui no desfavor n\u00e3o consegue negar que \u00e9 uma figura simp\u00e1tica. A terceira foto \u00e9 a de uma atriz famosa, com a qual voc\u00ea pode simpatizar ou n\u00e3o pessoalmente, mas registra com tranquilidade no nosso c\u00e9rebro, mesmo com o estilo de cabelo incomum. Muita gente at\u00e9 vai achar ela bem bonita nessa foto.<\/p>\n<p>Agora, a foto do meio&#8230; tem algo de errado ali. Claramente n\u00e3o \u00e9 um ser humano, mas em tese tem quase todas as caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para receber o t\u00edtulo. Numa escala de similaridade com um ser humano, tem milh\u00f5es de pontos a mais que a primeira foto, mas eu garanto que voc\u00ea se sentiu muito mais confort\u00e1vel com o rob\u00f4 claramente rob\u00f4 do que por esse androide semi-realista. Pode parecer \u00f3bvio que \u00e9 assim que as coisas funcionam pela velocidade na qual o seu c\u00e9rebro categorizou as imagens, mas se pensarmos apenas no que deveria gerar um senso de conforto e empatia no c\u00e9rebro humano, a foto do meio deveria ser menos bizarra que a primeira.<\/p>\n<p>Oras, somos programados de f\u00e1brica com diversos mecanismos para reconhecer outros seres humanos e depositar neles nossa confian\u00e7a e afeto. Em tese, at\u00e9 um ser humano que voc\u00ea acha repulsivo deveria ter mais efeito sobre voc\u00ea do que qualquer outra forma da natureza. A curva de carisma de qualquer figura deveria come\u00e7ar no menos humano e ir subindo at\u00e9 chegarmos numa imagem perfeitamente humana. \u00c9 gen\u00e9tica, \u00e9 qu\u00edmica, \u00e9 biologia, \u00e9 o que deveria acontecer. Mas&#8230; n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>O grau de simpatia que vemos em outros seres de acordo com sua humanidade come\u00e7a neutra (ao ver algo como uma pedra), tem um salto impressionante quanto mais humana a forma se parece, e de repente, desaba. Para s\u00f3 depois voltar a ficar agrad\u00e1vel quando a figura se parecer muito com um ser humano. Essa faixa onde a estranheza toma conta forma um vale entre as duas montanhas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-02.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"600\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14657\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-02.jpg 1200w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-02-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-02-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-02-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Sabemos que essa sensa\u00e7\u00e3o existe, mas&#8230; por que existe? Bom, como quase todo o conhecimento baseado em rea\u00e7\u00f5es humanas a alguma coisa, \u00e9 complicado. Uma pesquisa vai te dar v\u00e1rias ideias do que pode causar isso, mas eu vou ser humildemente arrogante e filtrar pelo o que eu acho mais v\u00e1lido nesse caso. Humilde porque n\u00e3o quero desperdi\u00e7ar seu tempo, arrogante por decidir por voc\u00ea qual a melhor explica\u00e7\u00e3o. Viu como quase tudo o que envolve humanos vira uma bagun\u00e7a de estudar? Mas, voltando ao tema:<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar pelas imagens que claramente n\u00e3o s\u00e3o humanas, mas ganham caracter\u00edsticas humanas. Se voc\u00ea pegar uma pedra do ch\u00e3o, uma daquelas brancas e arredondadas, pode at\u00e9 achar uma pedra bonita, mas seu c\u00e9rebro est\u00e1 registrando s\u00f3 isso mesmo. Se voc\u00ea pega uma caneta e desenhar dois pontos e uma curva formando uma cara sorridente, algo fant\u00e1stico acontece na sua mente: a pedra ganha vida. N\u00e3o que voc\u00ea seja demente de achar que a pedra vai conversar com voc\u00ea ou que v\u00e1 sentir dor se for jogada, mas vira uma chave no c\u00e9rebro e de repente voc\u00ea consegue projetar uma consci\u00eancia ali. Voc\u00ea pode n\u00e3o fazer mais nada nesse sentido com a pedra a parti dali, mas o c\u00e9rebro gostou da brincadeira. Ele vai te entreter na medida que voc\u00ea quiser a partir dali.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a pode come\u00e7ar a brincar com essa pedra, criando aventuras para ela. Um adulto pode resolver falar pela pedra para tirar sarro de outra pessoa pr\u00f3xima, algu\u00e9m pode decidir desenhar \u00f3culos nela, ou mesmo colocar um batom vermelho e dizer que a pedra \u00e9 mulher&#8230; parece a coisa mais banal do mundo, mas \u00e9 um portal para uma das caracter\u00edsticas mais espetaculares da mente humana: n\u00f3s conseguimos projetar outros seres humanos fora da nossa mente para interagir com eles. De certa forma, \u00e9 o mesmo mecanismo com outras pessoas de carne e osso. Quando voc\u00ea tenta prever o que algu\u00e9m vai fazer ou como vai reagir (o que fazemos o dia todo), tem que \u201crecriar\u201d essa pessoa dentro da sua mente e pensar por ela, nem que seja por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo.<\/p>\n<p>Por mais que voc\u00ea ache que eu estou explicando algo complexo aqui, \u00e9 um dos elementos mais naturais da nossa exist\u00eancia. Na pr\u00e1tica, isso \u00e9 a empatia. Voc\u00ea nunca vai estar no lugar de outra pessoa, mas pode imaginar como isso seria e agir de acordo. Somos programados para gerar conex\u00f5es, e conex\u00f5es com outros seres humanos dependem demais de empatia. Por isso, o c\u00e9rebro sempre vai dar um jeito de deixar voc\u00ea brincar de empatia com qualquer objeto inanimado. Reconhecemos rostos humanos com qualquer rabisco ou forma\u00e7\u00e3o que sugira dois olhos e uma boca. A vontade de interagir com outros seres humanos \u00e9 natural e recebe um impulso consider\u00e1vel sobre quase qualquer outra coisa (n\u00e3o essencial) que o c\u00e9rebro faz.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode estar perguntando sobre animais agora, e embora o processo que gere conex\u00e3o entre humanos e outros animais irracionais como o cachorro, o gato ou mesmo p\u00e1ssaros e lagartos beba da mesma fonte, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o ser humano que est\u00e1 agindo, tem outro ser vivo desenvolvendo a rela\u00e7\u00e3o (para o bem ou para o mal). Cachorros s\u00e3o espetacularmente adaptados para gerar conex\u00e3o com humanos, por exemplo. Mas estou saindo pela tangente: \u00e9 outro assunto. Se quiser saber mais, <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/09\/desfavor-explica-a-historia-dos-caes\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">tem um texto da Sally sobre os cachorros e seu trabalho \u00e1rduo para nos conquistar<\/a>.<\/p>\n<p>Voltando ao que depende exclusivamente da nossa mente: a pedra \u00e9 um exemplo extremo, mas quando avan\u00e7amos rumo \u00e0 caracter\u00edsticas mais similares com o ser humano, temos um enorme salto no quanto nos afei\u00e7oamos a elas. Aqui come\u00e7am os desenhos, bonecos, fantasias e tudo mais que bebe da mesma fonte do que nos interessa em outros seres humanos, mas em momento algum tentam enganar nosso c\u00e9rebro que estamos vendo outra pessoa. E aqui, muito do que consideramos agrad\u00e1vel e atraente em outras pessoas j\u00e1 come\u00e7a a valer. A pedra com os rabiscos n\u00e3o tem nada al\u00e9m do que colocamos nela, mas imagine uma personagem como o Wall-E do filme hom\u00f4nimo da Pixar, ou mesmo o E.T. do filme igualmente hom\u00f4nimo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-03.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"600\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14656\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-03.jpg 1200w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-03-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-03-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-03-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Nenhum deles lembra um ser humano em linhas gerais. O E.T. inclusive \u00e9 muito feio. Mas ambos seguem a mesma l\u00f3gica de ter uma cabe\u00e7a bem definida, uma forma de expressar emo\u00e7\u00f5es (mesmo que rudimentares), grandes olhos que costumam simbolizar honestidade e inoc\u00eancia (crian\u00e7as tem essa caracter\u00edstica), e digo at\u00e9 que a boca pequena ou mesmo inexistente conversa com nossa percep\u00e7\u00e3o moderna de preferir pessoas que escutam mais do que falam at\u00e9 mesmo a mais primal de que animais com bocas pequenas geram um risco menor para os macacos pelados de c\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa faixa onde bons designs conseguem nos fazer ter sentimentos honestos por criaturas que de forma nenhuma deveriam ativar nosso senso de empatia. Em tese, ser humano nenhum deveria chorar pela tristeza do Simba ao perder o pai em Rei Le\u00e3o (opa, spoilers), mas na pr\u00e1tica muito marmanjo j\u00e1 perdeu a linha nessa cena. Se o n\u00famero certo de caracter\u00edsticas humanas estiver presente e o c\u00e9rebro n\u00e3o tiver que lidar com o problema de definir se aquela figura \u00e9 humana de verdade, cria-se um ponto fraco muito explor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer lembrar deste texto como uma viagem nerd para lugares bonitos da mente humana, pula este par\u00e1grafo e vai direto para o pr\u00f3ximo. Ainda est\u00e1 aqui? Bom, temos que falar sobre atra\u00e7\u00e3o sexual tamb\u00e9m. O ser humano desenha e esculpe baixaria desde&#8230; sempre. Se voc\u00ea vive uma vida feliz ignorante desse fato, desculpa: a quantidade de pornografia baseada em desenhos existe nos dias atuais rivaliza com a baseada em pessoas reais. Quer algo pior? Deve ultrapassar logo logo. Homens parecem mais suscet\u00edveis a se sentirem sexualmente estimulados com o mero desenho de uma mulher (ou homem, ou um mix dos dois, ou um cachorro com caracter\u00edsticas sexuais humanas, ou um cavalo que parece uma crian\u00e7a&#8230; eu disse que era pra pular este par\u00e1grafo, n\u00e3o disse?), e isso acontece justamente na grande montanha antes do Uncanny Valley. Esse ponto fraco rende muito dinheiro atualmente, e ainda vai render muito mais nos pr\u00f3ximos anos. Se qualquer imagem tiver as caracter\u00edsticas b\u00e1sicas de atra\u00e7\u00e3o sexual, ela tem potencial real de gerar atra\u00e7\u00e3o sexual, mesmo que n\u00e3o se pare\u00e7a com um humano. Digo mais: hoje em dia os programas de edi\u00e7\u00e3o 3D est\u00e3o muito mais popularizados, mas pornografia baseada em modelos realistas de humanos n\u00e3o \u00e9 nem uma fra\u00e7\u00e3o da baseada em modelos estilizados ou mesmo rabiscos coloridos numa tela. Parecem demais com humanos, sem parecer ainda. Essa pornografia tende a cair inteira dentro do Uncanny Valley atualmente, mas est\u00e1 ficando progressivamente mais realista e atraindo mais e mais pessoas. Se ela escapar do Uncanny Valley, eu honestamente temo por uma queda irrecuper\u00e1vel na fertilidade humana.<\/p>\n<p>Mas vamos logo para o Uncanny Valley. Quando a queda na atratividade das imagens acontece, ela \u00e9 violenta. Num estalar de dedos, o que era agrad\u00e1vel torna-se bizarro. Algumas teorias sugerem que o ser humano reconhece seu substituto artificial e come\u00e7a a temer, mas eu realmente acho esse pensamento muito avan\u00e7ado para o cidad\u00e3o m\u00e9dio. A l\u00f3gica me parece a seguinte: no momento que entramos nesse vale, o c\u00e9rebro \u00e9 obrigado a voltar para a realidade. J\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo o suficiente do que confortavelmente reconhecemos como humano para virar a chave de novo. O que era uma personagem agrad\u00e1vel com elementos de humanidade vira um humano&#8230; \u201cquebrado\u201d. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-04.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"600\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14655\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-04.jpg 1200w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-04-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-04-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dex-uncanny-04-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Aqui temos dois exemplos: no primeiro, uma personagem do filme \u201cO Expresso Polar\u201d, feito para ser uma anima\u00e7\u00e3o 3D realista em 2004. Apesar do trabalho do c\u00e3o que deve ter dado para fazer o filme, n\u00e3o dava ainda para entregar o resultado esperado com a tecnologia dispon\u00edvel. O resultado \u00e9 uma menina que tem tudo para ser extremamente simp\u00e1tica com um rosto inexplicavelmente demon\u00edaco. No outro, um artista resolveu redesenhar personagens dos Simpsons com texturas realistas de pele, cabelos e cores mais humanas. Obviamente a inten\u00e7\u00e3o era deixar assustador, porque tem algo nos chamando de volta para a vis\u00e3o de um ser humano normal, mas com as propor\u00e7\u00f5es de um desenho muito estilizado. O c\u00e9rebro n\u00e3o gosta. O c\u00e9rebro enxerga um ser humano defeituoso, doente e possivelmente pouco confi\u00e1vel. Por melhor pessoa que voc\u00ea seja, h\u00e1 um reflexo primal contra o diferente.<\/p>\n<p>A curva \u00e9 t\u00e3o severa entre gostarmos muito e ficarmos estranhados porque \u00e9 o momento que o c\u00e9rebro puxa o freio de m\u00e3o e nos manda para outra dire\u00e7\u00e3o completamente oposta. Agora nossos interesses, experi\u00eancias, preconceitos e at\u00e9 mesmo nossa atra\u00e7\u00e3o sexual s\u00e3o ligados num estalo s\u00f3 (sim, eu estou igorando aquele par\u00e1grafo&#8230; shhhh!). O padr\u00e3o de julgamento \u00e9 outro. Agora estamos vendo algo que n\u00e3o nos engana de verdade como realmente humano, mas confunde o resto do seu sistema natural de empatia. Nossa vis\u00e3o de sociedade tem muita rela\u00e7\u00e3o com os padr\u00f5es que esperamos de outros humanos, e a apar\u00eancia conta demais nisso.<\/p>\n<p>Sob o risco de abrir uma caixa de Pandora no final do texto e n\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o suficiente: um processo muito parecido parece ser ativado quando vemos transsexuais que n\u00e3o se parecem o suficiente com o sexo no qual querem se transformar. Temos uma ideia definida do que esperar do visual dos outros, e qualquer quebra disso acende no m\u00ednimo um sinal amarelo na mente. Nos torna mais atentos aos detalhes e aumenta o n\u00edvel de tens\u00e3o. Estou trazendo a compara\u00e7\u00e3o porque continuo sendo um ferrenho defensor da ideia de que basicamente todo o processo de compreens\u00e3o da realidade de um ser humano \u00e9 resultado do reconhecimento e previs\u00e3o de padr\u00f5es. Se voc\u00ea v\u00ea algo muitas vezes, consegue perceber quando algo est\u00e1 errado. N\u00e3o tem nada de oficialmente errado num desenho animado de uma pessoa, n\u00e3o \u00e9 um padr\u00e3o que seu c\u00e9rebro espera naturalmente. Mas se estiver muito parecido com um ser humano numa anima\u00e7\u00e3o 3D, aquela imagem vai ter que pagar um pre\u00e7o muito mais caro para validar os padr\u00f5es de humanidade que voc\u00ea desenvolveu na sua mente desde que nasceu.<\/p>\n<p>Mas, quando algo que voc\u00ea acha que deveria conhecer aparece diferente&#8230; ca\u00edmos fundo nesse vale. Se tem uma coisa que todo mundo (que n\u00e3o nasceu cego) \u00e9 muito bom, \u00e9 em reconhecer como um ser humano deve ser parecer. N\u00e3o podemos ser enganados, no m\u00e1ximo brincar com algo que sabemos n\u00e3o ser humano. \u00c9&#8230; infelizmente vou ter que achar uma namorada humana mesmo, porque a rob\u00f3tica e a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00e3o resolver o problema t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rLy-AwdCOmI\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">B\u00f4nus: sua vida n\u00e3o est\u00e1 completa sem esse v\u00eddeo.<\/a><\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que vai ter pesadelos com o v\u00eddeo final, para dizer que ignorou o par\u00e1grafo e vai viver feliz, ou mesmo para dizer que depois de ler o par\u00e1grafo todo o texto pareceu sujo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea tenha escutado a express\u00e3o em algum momento da sua vida. 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