{"id":14680,"date":"2019-02-05T12:36:50","date_gmt":"2019-02-05T14:36:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=14680"},"modified":"2019-02-05T12:36:50","modified_gmt":"2019-02-05T14:36:50","slug":"guerra-das-malvinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/02\/guerra-das-malvinas\/","title":{"rendered":"Guerra das Malvinas"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter escutado muito sobre as Malvinas, \u00e9 um daqueles assuntos que todo mundo fala, mas ningu\u00e9m explica. \u201cAs Malvinas s\u00e3o argentinas\u201d ou \u201co pr\u00f3prio povo prefere que sejam inglesas\u201d. Ser\u00e1? Vale a pena olhar a hist\u00f3ria mais de perto, para que voc\u00ea forme sua pr\u00f3pria opini\u00e3o sobre o caso. Desfavor Explica:  Guerra das Malvinas.<!--more--><\/p>\n<p>As Malvinas s\u00e3o um conjunto de pequenas ilhas localizadas ao Sul da Argentina, cujos atrativos s\u00e3o riquezas naturais e posicionamento estrat\u00e9gico. Diga-se de passagem, o nome mais correto \u00e9 Ilhas Falkland, pois a Argentina perdeu este territ\u00f3rio em definitivo para a Inglaterra ap\u00f3s uma guerra desastrosa. Por\u00e9m, oficialmente elas s\u00e3o chamadas de \u201cMalvinas\u201d por todos os pa\u00edses do Mercosul, \u00e9 assim que vou me referir a elas.<\/p>\n<p>Culturalmente, o local \u00e9 mais argentino do que ingl\u00eas. Os habitantes tamb\u00e9m falam espanhol, muitos recebem aux\u00edlio do governo argentino e muitos v\u00e3o estudar na Argentina. Boa parte da popula\u00e7\u00e3o se sente argentina. Apesar de serem uma col\u00f4nia inglesa, n\u00e3o lhes \u00e9 permitido morar na Inglaterra e eles n\u00e3o tem os mesmos direitos de cidad\u00e3o ingl\u00eas. <\/p>\n<p>Na verdade, a Inglaterra meio que despreza eles, os chama de \u201ccoletores de algas\u201d, ou, em ingl\u00eas, \u201ckelpers\u201d, termo que que deriva da alga marinha kelp. A Inglaterra se aproveita das Malvinas pelos recursos naturais, mas n\u00e3o d\u00e1 todo o amparo e assist\u00eancia que poderia ao seu povo (como fez, por exemplo, com a Irlanda), em parte pela dist\u00e2ncia, em parte por preconceito, o que s\u00f3 fez aumentar a raivinha que os argentinos nutrem pelo Reino Unido.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a uma s\u00e9rie de m\u00e1s escolhas ao longo da hist\u00f3ria se criou este terreno com povo h\u00edbrido, que n\u00e3o \u00e9 nem uma coisa, nem outra. Para entender melhor essa disputa\/conflito, \u00e9 preciso conhecer melhor a hist\u00f3ria destas ilhas.<\/p>\n<p>A controv\u00e9rsia come\u00e7a desde o momento de sua descoberta: os ingleses alegam que eles descobriram as ilhas, atrav\u00e9s do capit\u00e3o ingl\u00eas John Strong. A Espanha alega que ela descobriu as ilhas atrav\u00e9s de Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es. O grande problema \u00e9 que, seja l\u00e1 quem tenha descoberto, n\u00e3o povoou as ilhas, elas ficaram sem habitantes, o que deu margem para uma grande confus\u00e3o quando finalmente decidiram colonizar o lugar.<\/p>\n<p>Quem primeiro habitou as Malvinas foram os franceses, em 1764 pelas m\u00e3os do capit\u00e3o franc\u00eas Louis Antoine de Bougainville, mas eles acabaram desistindo de reivindicar as ilhas, \u201ccedendo os direitos\u201d para a Espanha (que pagou uma boa quantia por esta generosidade). H\u00e1 registros de um assentamento brit\u00e2nico no local \u00e0 mesma \u00e9poca, por\u00e9m, eles acabaram se retirando do local alguns anos ap\u00f3s sua chegada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, incialmente, elas pertenciam \u00e0 Espanha, pa\u00eds que \u201cdescobriu\u201d e colonizou a Argentina. Quando a Argentina se tornou independente, as ilhas Malvinas vieram no pacote e passaram a pertencer ao pa\u00eds. At\u00e9 aqui n\u00e3o h\u00e1 muita controv\u00e9rsia, mas um pequeno incidente mudaria o curso desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como era no fiof\u00f3 do mundo, distante e sem muita expressividade, n\u00e3o foi enviado um governante para as ilhas. Enviaram uma pessoa itinerante, respons\u00e1vel por cuidar das ilhas, chamado Luis Vernet, com o acordo de que ele poderia explorar a pesca e o gado selvagem do local. Como estava focado em explorar as ilhas comercialmente (e n\u00e3o em governa-las), Vernet frequentemente tinha que se ausentar para cuidar das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vernet se mudou para as Malvinas fez um trabalho bem-sucedido e come\u00e7ou a levar colonos argentinos para povoar as ilhas. Seu trabalho foi t\u00e3o bom que ele foi reconhecido pelo governo argentino como \u201ccomandante militar e civil\u201d das ilhas, sem qualquer oposi\u00e7\u00e3o nacional ou internacional. <\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a trabalhar para regulamentar a pesca, com o objetivo  de impedir  atividades de baleeiros e ca\u00e7adores de focas estrangeiros, que exploravam as ilhas como se elas n\u00e3o tivessem donos. Um belo dia, aconteceu um problema envolvendo estes direitos de pesca e ca\u00e7a com um barco americano que desrespeitou as normas impostas. Por causa deste incidente, Vernet teve que ir aos EUA para resolver a quest\u00e3o, deixando apenas a popula\u00e7\u00e3o argentina \u201ctomando conta\u201d do local.<\/p>\n<p>No que souberam que o s\u00edndico saiu do pr\u00e9dio, a Inglaterra, na crocodilagem, invadiu as Malvinas e tomou o poder, expulsando os argentinos do local e declarando a ilha uma col\u00f4nia inglesa. Feio, muito feio, se aproveitaram da aus\u00eancia de Vernet para agir de forma sorrateira e isso nunca desceu pela garganta dos argentinos. Ali sim era o momento para declarar guerra: uma agress\u00e3o vilipendiosa acabara de acontecer. Mas o pa\u00eds n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de proteger seu territ\u00f3rio. Como n\u00e3o tinham poderio militar para peitar a Inglaterra, apenas registraram um protesto oficial.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o continuou mal resolvida por anos. Em 1960 a ONU aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o recomendando a \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o\u201d das ilhas, uma decis\u00e3o que favorecia a Argentina, o que acirrou ainda mais os \u00e2nimos. Percebendo o estrago que causou, poucos anos depois a ONU aprovou a resolu\u00e7\u00e3o 2065, pedindo que Inglaterra e Argentina chegassem a uma solu\u00e7\u00e3o negociada. <\/p>\n<p>Mas o \u201cn\u00e3o briguem, crian\u00e7as\u201d da ONU falhou miseravelmente. A Inglaterra at\u00e9 tentou negociar, foram anos de conversas sigilosas, que, infelizmente, acabaram mal, muito mal. Para entender os motivos pelos quais n\u00e3o foi poss\u00edvel uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, temos que olhar mais de perto a hist\u00f3ria argentina.<\/p>\n<p>Era um per\u00edodo de pleno desenvolvimento da Argentina, o pa\u00eds era, de longe, o top da Am\u00e9rica Latina. Hoje \u00e9 uma grande favela horizontal, deprimente e decadente, mas, acreditem, houve um per\u00edodo em que era um pedacinho da Europa nas Am\u00e9ricas. <\/p>\n<p>Por\u00e9m, entre 1976 e 1983 houve uma severa ditadura militar no pa\u00eds, que praticou atrocidades que fazem a ditadura brasileira parecer um show do Patati Patat\u00e1. Gra\u00e7as ao punho de ferro com o qual regiam o pa\u00eds, esta ditadura perdia popularidade e come\u00e7ava a ser amea\u00e7ada por in\u00fameros movimentos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse contexto, nesse exato per\u00edodo, se deu um marco hist\u00f3rico em que as Malvinas completavam 150 anos nas m\u00e3os da Inglaterra e, por normas internacionais, se esgotaria o prazo para que a Argentina reivindique as Malvinas de volta: se ficasse inerte, seria considerado um consentimento e as ilhas iriam de vez para a Inglaterra, sem qualquer possibilidade futura de contestar a posse das ilhas diplomaticamente. O pa\u00eds foi consultado sobre seu interesse em reivindicar as Malvinas de volta.<\/p>\n<p>E a\u00ed entra uma parte nebulosa da hist\u00f3ria. H\u00e1 quem diga que os militares argentinos que estavam no poder eram t\u00e3o toscos, mas t\u00e3o toscos, que entenderam que esse ultimato dos 150 anos significaria ter que retomar as ilhas na base da porrada, e por isso declararam guerra. Pode parecer improv\u00e1vel, mas as pessoas que estavam no poder \u00e0 \u00e9poca eram de fato seres humanos muito burros e obtusos, vide o que fizeram. Dizem inclusive que, quando perceberam a merda, alimentaram propositadamente a teoria do par\u00e1grafo seguinte, pois preferiam parecer estrategistas (ainda que cagados) do que completos idiotas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma segunda teoria, que \u00e9 a mais popular e mais aceita, alegando que declarar guerra foi uma jogada para unir o pa\u00eds contra um inimigo em comum, com o objetivo de gerar um frenesi patri\u00f3tico, tirando o foco da revolta contra os militares, j\u00e1 que o povo argentino nunca esqueceu como as ilhas foram tomadas na m\u00e3o grande, na safadeza, com um ato oportunista. Obter as ilhas de volta na diplomacia n\u00e3o restauraria a moral dos militares, por isso optaram pela guerra, para tentar desviar o foco das atrocidades que cometiam no pa\u00eds e para reconquistar a simpatia do povo argentino. Seria uma forma de mostrar ao pa\u00eds que o pulso firme dos militares era necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ou seja, ou foram muito burros, ou foram muito filhos da puta. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, hoje as evid\u00eancias hist\u00f3ricas apontam para o fato de serem muito burros, sequer sabiam (ou se deram ao trabalho de consultar algu\u00e9m capacitado) que a coisa poderia ser feita pelas vias diplom\u00e1ticas. Mas, se de fato foram burros, tamb\u00e9m n\u00e3o faltou oportunidade de serem filhos da puta posteriormente.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, por causa desse prazo que consolidaria as Malvinas nas m\u00e3os da Inglaterra para sempre, a Argentina declarou guerra tentando reaver as ilhas. Um grande erro, um fracasso retumbante que, de t\u00e3o estrondoso, acabaria gerando a queda do regime militar. Como a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer um texto leve e informativo vou poup\u00e1-los das atrocidades e covardias a que os jovens soldados argentinos foram expostos (muitas vezes partindo de seus pr\u00f3prios superiores hier\u00e1rquicos). Vamos apenas a uma sinopse da vergonha mundial que a Argentina passou.<\/p>\n<p>Como todos sabem, nesta guerra a Argentina levou um pau hist\u00f3rico. At\u00e9 hoje existe uma express\u00e3o no pa\u00eds para descrever uma derrota monstruosa que diz \u201cperdimos como en la guerra\u201d, em uma refer\u00eancia \u00e0 sova que tomaram. Esta derrota se deu basicamente por imbecilidade daqueles respons\u00e1veis pela log\u00edstica e estrat\u00e9gia: sim, os militares, cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, fizeram uma lamban\u00e7a horrorosa. Tanto \u00e9 que a guerra foi bem r\u00e1pida para os padr\u00f5es mundiais: come\u00e7ou em 2 de abril de 1982 e terminou em 4 de junho do mesmo ano.<\/p>\n<p>Primeiro que n\u00e3o era para ter declarado guerra, queimaram inst\u00e2ncias. Deveriam ter tentado retomar as ilhas de forma diplom\u00e1tica antes, alegando tudo que eu j\u00e1 falei sobre as ilhas e a popula\u00e7\u00e3o: havia identidade cultural, eram amparadas pelo governo argentino, etc. A comunidade internacional teria visto com bons olhos, a ONU j\u00e1 tendia para o lado argentino e pegaria bem mal para a Inglaterra n\u00e3o devolver, sobretudo quando fosse levado a p\u00fablico a forma furtiva que o pa\u00eds usou para tirar as ilhas das m\u00e3os da argentina.<\/p>\n<p>E, mesmo que n\u00e3o fosse solucionado de forma diplom\u00e1tica, n\u00e3o tinha que ter entrado em guerra pelo simples motivo de n\u00e3o ter poderio militar para encarar a Inglaterra, um pa\u00eds mais desenvolvido, com aliados fortes (os EUA, por exemplo, deram uma ajuda bem relevante, pois eram aliados da Inglaterra na OTAN) e com uma tradi\u00e7\u00e3o naval fort\u00edssima, afinal, o pa\u00eds \u00e9 uma ilha. Enquanto isso, a Argentina&#8230; coitada, recebia como ajuda tr\u00eas aeronaves da EMBRAER do Brasil. Quando seu respaldo s\u00e3o avi\u00f5es da EMBRAER, recusa, meu anjo, que voc\u00ea n\u00e3o tem poderio militar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m declararam guerra. N\u00e3o s\u00f3 declararam guerra como ainda acharam que daria certo que 90% dos soldados enviados fossem jovens entre 16 e 20 anos, com o plus de que muitos deles nunca haviam sequer pegado em uma arma. Para voc\u00eas terem uma ideia do amadorismo, a Inglaterra, mesmo muito mais distante, enviou mais de 28 mil combatentes experientes, quase o triplo de efetivo enviado pela Argentina.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de dizimar uma gera\u00e7\u00e3o de jovens, colocaram rapazes inexperientes com armamento inferior para serem massacrados por soldados experientes com melhor armamento. Nem preciso dizer que a grande maioria dos soldados argentinos morreram como moscas em batalha, trucidados por um massacre onde o maior culpado n\u00e3o foi a Inglaterra e sim o governo argentino.<\/p>\n<p>Em Ushuaia, \u00faltima prov\u00edncia argentina antes da Ant\u00e1rtida, que fica pertinho das Malvinas, existe um grande memorial para as v\u00edtimas da guerra, com muitas fotos e informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 muito triste, voc\u00ea v\u00ea que os soldados eram meninos, quase crian\u00e7as, com cara apavorada, sem saber o que estavam fazendo. Voc\u00ea v\u00ea o medo, a inexperi\u00eancia e a precariedade em cada foto exposta no local.<\/p>\n<p>Em uma das fotos, inclusive, se pode ver claramente que um soldado segura a arma de forma visivelmente errada. Esse era o grau de despreparo. Morreram para nada, em uma guerra que qualquer idiota sabia estar perdida no momento em que come\u00e7ou. Basicamente ceifaram toda uma gera\u00e7\u00e3o de jovens por mera burrice e\/ou para tentar criar um factoide que garantisse aos militares mais tempo no poder.<\/p>\n<p>Para piorar um vexame que, por si s\u00f3 j\u00e1 seria p\u00e9ssimo, as not\u00edcias chegavam ao pa\u00eds manipuladas: os argentinos acreditavam que estavam indo muito bem na guerra e que venceriam. Enquanto isso, seus filhos morriam de hipotermia, tiro ou sofriam abuso sexual de seus comandantes. Em uma \u00e9poca sem internet, a m\u00eddia ainda conseguia manipular e monopolizar as informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando a verdade veio \u00e0 tona, os militares perderam todo o apoio e respeito da popula\u00e7\u00e3o e sua perman\u00eancia no poder se tornou invi\u00e1vel. Ao menos algo de bom veio dessa podrid\u00e3o toda, em 1983 chegava ao fim o per\u00edodo de ditadura militar, gra\u00e7as, majoritariamente \u00e0 cagada que fizeram com as Malvinas. N\u00e3o, n\u00e3o foram revolucion\u00e1rios nem militantes que derrubaram a ditadura, eles foram t\u00e3o incompetentes que derrubaram a eles mesmos com esta escolha absurdamente errada de declarar guerra.<\/p>\n<p>Com esta derrota retumbante, a Argentina perdeu n\u00e3o s\u00f3 as Malvinas, como tamb\u00e9m o direito de reivindicar diplomaticamente as ilhas de volta. As Malvinas, na verdade, as Ilhas Falkland, pois sim, elas pertencem \u00e0 Inglaterra, hoje s\u00e3o inglesas de forma irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Posteriormente at\u00e9 foi feito um plebiscito com o povo das Malvinas perguntando se eles queriam continuar sendo uma col\u00f4nia inglesa ou se queriam voltar a fazer parte da Argentina. O povo votou massivamente para continuar sendo uma col\u00f4nia inglesa, o que, na \u00e9poca, acabou sendo interpretado de forma errada. Para entender este resultado \u00e9 preciso conversar com nativos locais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que o povo se sinta ingl\u00eas ou goste dessa situa\u00e7\u00e3o, o voto na verdade significa \u201cdeixa como est\u00e1, porque n\u00e3o queremos outra guerra\u201d. \u00c9 que se o plebiscito tivesse como maioria de votos o desejo de retornar \u00e0 Argentina, isso de forma alguma obrigaria a Inglaterra a \u201cdevolver\u201d as ilhas de forma pac\u00edfica, coisa que eles declararam v\u00e1rias vezes que n\u00e3o estariam dispostos a fazer, por causa do seu direito consolidado. Ent\u00e3o, se o povo votasse pelo desejo de ser argentino, provavelmente causaria uma nova guerra e de forma alguma os moradores queriam isso.<\/p>\n<p>Por se tratar de uma guerra recente, o povo das Malvinas ainda carrega marcas e cicatrizes de todo o sofrimento que ela provocou e n\u00e3o queriam de forma alguma mais viol\u00eancia em seu territ\u00f3rio. Sim, as Malvinas ainda t\u00eam que lidar com sequelas da guerra. Por exemplo, os campos minados nos arredores de Port Stanley. <\/p>\n<p>Durante a guerra, as topas argentinas instalaram artefatos explosivos feitos de pl\u00e1stico no solo, o que dificulta a detec\u00e7\u00e3o das minas, uma vez que normalmente ela \u00e9 feita buscando por metal. Por isso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel precisar exatamente onde essas minas terrestres est\u00e3o. Resultado: algumas \u00e1reas s\u00e3o isoladas e interditadas at\u00e9 hoje, ningu\u00e9m pode pisar, sob o risco de ser explodido. <\/p>\n<p>Mas, ent\u00e3o, o que querem os moradores das Malvinas? Muito se briga dizendo que as Malvinas s\u00e3o argentinas ou que as Falkland s\u00e3o inglesas, mas ningu\u00e9m vai perguntar para os moradores o que de fato eles querem. Eu fui. Na realidade, faz tempo que as Malvinas querem sua independ\u00eancia. N\u00e3o querem nem ser col\u00f4nia, nem ser argentinos, querem ser independentes, ser um pa\u00eds aut\u00f4nomo. Pessoas se autoestima elevada&#8230; n\u00e3o quis perguntar se eles conseguiriam sobreviver comendo apenas coc\u00f4 de albatroz pois achei rude. Se eles acham que conseguem se manter como pa\u00eds, vamos tentar respeitar.<\/p>\n<p>A grande piada \u00e9 que as Malvinas d\u00e3o um tremendo preju\u00edzo para a Inglaterra. Apesar de muitos recursos naturais valiosos (como petr\u00f3leo, por exemplo), elas n\u00e3o se pagam. Por\u00e9m, todos os meios diplom\u00e1ticos foram exauridos e, mesmo que a Inglaterra quisesse devolver, a Argentina est\u00e1 quebrada e provavelmente n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de reaver o arquip\u00e9lago. Um desfecho imbecil para uma das guerras mais imbecis da hist\u00f3ria, como bem definiu o escritor argentino Jorge Luis Borges o conflito foi como \u201cdois carecas lutando por um pente\u201d.<\/p>\n<p>E Brasil nisso tudo? Bem, o Brasil adota o princ\u00edpio da solidariedade com o pa\u00eds vizinho. Ele e os outros pa\u00edses do Mercosul somente utilizam o nome \u201cMalvinas\u201d para designar o arquip\u00e9lago e, em dezembro de 2011, concordaram em proibir que barcos com a bandeira das Falklands atraquem em seus portos, em uma vers\u00e3o soft de bloqueio comercial. <\/p>\n<p>Tecnicamente, a quest\u00e3o est\u00e1 resolvida: as ilhas Falkland s\u00e3o inglesas. Mas emocionalmente, os argentinos ainda n\u00e3o superaram. Se um dia o pa\u00eds se reerguer (ao que tudo indica, vai ser asfaltado e virar um estacionamento do Brasil) \u00e9 prov\u00e1vel que os argentinos cumpram sua eterna promessa: voltar\u00e3o para reaver as ilhas.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o Brasil \u00e9 o maior p\u00e9-frio de guerras de todos os tempos, para dizer que se aborrece argentinos voc\u00ea \u00e9 a favor ou ainda para dizer que as Malvinas s\u00e3o basicamente dos pinguins: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter escutado muito sobre as Malvinas, \u00e9 um daqueles assuntos que todo mundo fala, mas ningu\u00e9m explica. \u201cAs Malvinas s\u00e3o argentinas\u201d ou \u201co pr\u00f3prio povo prefere que sejam inglesas\u201d. Ser\u00e1? Vale a pena olhar a hist\u00f3ria mais de perto, para que voc\u00ea forme sua pr\u00f3pria opini\u00e3o sobre o caso. 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