{"id":15011,"date":"2019-04-24T13:32:37","date_gmt":"2019-04-24T16:32:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15011"},"modified":"2019-04-24T13:32:37","modified_gmt":"2019-04-24T16:32:37","slug":"paradoxo-de-fermi-parte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/04\/paradoxo-de-fermi-parte-3\/","title":{"rendered":"Paradoxo de Fermi \u2013 Parte 3"},"content":{"rendered":"<p>Se alien\u00edgenas existem e se o universo \u00e9 t\u00e3o grande e antigo, \u00e9 muito estranho que n\u00e3o tenhamos visto nenhum sinal deles at\u00e9 agora. Esse \u00e9 o paradoxo de Fermi, tema que j\u00e1 abordei <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/03\/o-paradoxo-de-fermi\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">aqui<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/06\/o-paradoxo-de-fermi-parte-2\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">aqui<\/a> no ano passado. Existem v\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para o problema, v\u00e1rias delas abordadas nos textos anteriores, mas hoje eu gostaria de relativizar duas coisas sobre a ideia: a de que o universo \u00e9 grande e que \u00e9 antigo. Pensando bem, pode n\u00e3o ser o caso&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Claro que ao considerarmos algo como 45 bilh\u00f5es de anos luz para qualquer dire\u00e7\u00e3o que se v\u00e1 e 13 bilh\u00f5es de anos de idade, o universo vai parecer muito vasto e antigo, talvez vasto e antigo demais para nenhuma outra forma de vida inteligente existir al\u00e9m de n\u00f3s, mas tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de perspectiva. Para seres que medem dist\u00e2ncias em quil\u00f4metros e vivem um s\u00e9culo nas melhores das hip\u00f3teses, as escalas do universo s\u00e3o absurdas de t\u00e3o grandes.<\/p>\n<p>Mas, para uma formiga, um bairro de uma cidade qualquer tamb\u00e9m \u00e9. Considerando que uma formiga vive em m\u00e9dia menos que um ano e que seu tamanho \u00e9 contado em mil\u00edmetros, uma \u00e1rea de uns 200 mil metros quadrados constru\u00edda h\u00e1 50 anos atr\u00e1s \u00e9 imensa e muito antiga, mas para um ser humano m\u00e9dio, cabe totalmente dentro das no\u00e7\u00f5es de tempo e dist\u00e2ncia com as quais estamos confort\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se eu te disser que desde a constru\u00e7\u00e3o da primeira casa do bairro onde voc\u00ea vive agora, nenhum japon\u00eas morou no lugar, isso \u00e9 prova que japoneses n\u00e3o existem? Dificilmente algu\u00e9m chegaria nessa conclus\u00e3o, afinal, as pessoas entendem que um bairro de uma cidade \u00e9 um universo muito pequeno para conter todas as possibilidades da ra\u00e7a humana. E se voc\u00ea tiver uma no\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do tamanho do planeta, sabe que um bairro \u00e9 algo min\u00fasculo na escala geral da Terra. Ou seja, \u00e9 mais prov\u00e1vel n\u00e3o encontrar um exemplar espec\u00edfico de ser humano nessa escala do que encontrar. Por isso n\u00e3o existe o Paradoxo do Bairro.<\/p>\n<p>Agora, se eu te disser que desde o come\u00e7o da vida na Terra, na superf\u00edcie total do planeta, nunca se encontrou uma pessoa que nasceu com pele roxa e cabelos verdes, voc\u00ea estaria muito mais inclinado a acreditar que realmente essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel e que n\u00e3o precisa temer essa possibilidade quando tiver um filho. A escala desse universo \u00e9 grande o suficiente para parecer confi\u00e1vel nas previs\u00f5es sobre o futuro, e pequena o suficiente para caber dentro da nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade. Quando essas duas condi\u00e7\u00f5es se encontram, as coisas ficam mais f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>Quanto mais as escalas aumentam, menor a nossa capacidade de percep\u00e7\u00e3o e previs\u00e3o das possibilidades. Talvez d\u00ea para colocar uma pulga atr\u00e1s da orelha de uma pessoa sobre a exist\u00eancia de pessoas de pele roxa e cabelos verdes se consideramos que o ser humano moderno est\u00e1 no planeta h\u00e1 pelo menos uns 40.000 anos e que s\u00f3 come\u00e7amos a documentar a hist\u00f3ria de forma mais confi\u00e1vel nos \u00faltimos mil. Pode ser que tenha aparecido pelo menos uma pessoa assim. Voc\u00ea teria que conhecer o suficiente sobre a gen\u00e9tica humana para bater o martelo sobre a impossibilidade, e a maioria de n\u00f3s n\u00e3o tem esse tipo de conhecimento.<\/p>\n<p>D\u00ea um per\u00edodo longo o suficiente no planeta Terra e boa parte das pessoas j\u00e1 consegue imaginar criaturas fant\u00e1sticas e seres humanos com superpoderes andando entre n\u00f3s. E como os dinossauros est\u00e3o a\u00ed para provar com seus restos mortais, esse mundo j\u00e1 abrigou coisas completamente diferentes do que conhecemos hoje em dia. Escalas maiores permitem possibilidades mais variadas, seja na imagina\u00e7\u00e3o, seja no que \u00e9 cientificamente prov\u00e1vel. A vegeta\u00e7\u00e3o do planeta j\u00e1 foi totalmente roxa e a Lua j\u00e1 pareceu umas 4 vezes maior no c\u00e9u. Muita coisa pode acontecer numa grande escala de tempo.<\/p>\n<p>Atualmente, conseguimos observar bilh\u00f5es de anos luz de dist\u00e2ncia do nosso planeta, e consequentemente, bilh\u00f5es de anos no passado. S\u00e3o escalas absurdamente grandes para um ser que se mede em cent\u00edmetros e que raramente vive mais que um s\u00e9culo. Grandes demais para uma real compreens\u00e3o do c\u00e9rebro humano. Eu aposto que voc\u00ea n\u00e3o consegue visualizar um ano luz de dist\u00e2ncia (a Terra est\u00e1 a 8 minutos luz do Sol, s\u00f3 para voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o), qui\u00e7\u00e1 os bilh\u00f5es dos quais falamos em escalas astron\u00f4micas. E \u00e9 muito por isso que existe o Paradoxo de Fermi.<\/p>\n<p>Numa escala t\u00e3o imensa, t\u00e3o absurda de se imaginar&#8230; como \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o termos captado nenhum sinal claro de vida inteligente al\u00e9m da nossa? Pode-se argumentar sobre avistamentos de objetos voadores estranhos e alguns relatos sobre contatos imediatos aqui mesmo, mas mesmo se voc\u00ea acreditar piamente que alien\u00edgenas est\u00e3o entre n\u00f3s aqui, ainda continua muito estranho que n\u00e3o vejamos sinais deles quando olhamos para a imensid\u00e3o do espa\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 bizarro que uma civiliza\u00e7\u00e3o capaz de colocar uma nave dentro do nosso planeta n\u00e3o gere nenhuma indica\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia quando olhamos para as estrelas no c\u00e9u? Voc\u00ea pode acreditar em alien\u00edgenas no planeta Terra e ainda sim ficar confuso com o Paradoxo de Fermi.<\/p>\n<p>Pois bem: sabe essa escala incomensur\u00e1vel do universo conhecido? \u00c9 bem prov\u00e1vel que ela n\u00e3o seja nem pr\u00f3xima do verdadeiro tamanho das coisas. Num texto recente eu falei sobre o que configura o universo observ\u00e1vel, uma bolha de 90 bilh\u00f5es de anos luz ao redor da Terra. Esse \u00e9 o limite que conseguimos compreender minimamente, a dist\u00e2ncia m\u00e1xima onde algo pode interagir com a gente de alguma forma, normalmente na forma de luz que nos alcan\u00e7a. Mas isso n\u00e3o quer dizer que esse seja o tamanho do universo, afinal, j\u00e1 aprendemos no passado que colocar a Terra no centro de tudo n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o muito l\u00f3gica. O universo n\u00e3o est\u00e1 expandindo a partir de onde estamos, n\u00f3s estamos num ponto qualquer dele vendo a expans\u00e3o acontecer. Isso significa que esses 90 bilh\u00f5es de anos luz provavelmente s\u00e3o s\u00f3 uma porcentagem insignificante do todo.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, a Terra foi ficando cada vez menor. No come\u00e7o, \u00e9ramos tudo o que existia, depois \u00e9ramos s\u00f3 um peda\u00e7o do sistema solar, e da\u00ed da gal\u00e1xia, do supergrupo local, do universo&#8230; e cada uma dessas expans\u00f5es de tamanho j\u00e1 fugiam, e muito, do tamanho que um ser humano comum consegue conceber na cabe\u00e7a. \u00c9 imposs\u00edvel te apresentar um exemplo de duas coisas vis\u00edveis na mesma dist\u00e2ncia que exemplifiquem a diferen\u00e7a de tamanho da Terra para o universo observ\u00e1vel. Eu consigo te fazer imaginar a diferen\u00e7a de tamanho entre um gr\u00e3o de areia e uma daquelas bolas de praia para te fazer imaginar a diferen\u00e7a de tamanho entre Terra e o Sol, mas n\u00e3o tem nada que caiba na sua vista para te fazer entender a diferen\u00e7a entre a Terra o universo observ\u00e1vel, mesmo come\u00e7ando com um gr\u00e3o de areia&#8230;<\/p>\n<p>E o universo observ\u00e1vel \u00e9 provavelmente s\u00f3 um gr\u00e3o de areia perto do Sol no tamanho real do universo. Se o universo real n\u00e3o for mesmo infinito&#8230; n\u00e3o tenho fonte nenhuma para essa informa\u00e7\u00e3o de tamanho do universo real, ningu\u00e9m tem. \u00c9 um palpite educado baseado no conhecimento acumulado at\u00e9 aqui. Pois bem, voc\u00eas come\u00e7am a notar que podemos estar falando de uma escala ainda mais incrivelmente imensur\u00e1vel do que come\u00e7amos ao falar do Paradoxo de Fermi? Se o universo real for mesmo t\u00e3o maior que o observ\u00e1vel, todas as probabilidades come\u00e7am a mudar.<\/p>\n<p>Considerando que o universo real \u00e9 t\u00e3o maior que o observ\u00e1vel quanto o observ\u00e1vel \u00e9 maior que a Terra, n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o estranho assim que n\u00e3o tenhamos avistado nenhuma outra civiliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora. Afinal, a vida inteligente ainda pode ser muito comum, mas n\u00e3o t\u00e3o comum ao ponto de estar presente em qualquer micro pedacinho do universo real. Se a probabilidade de vida inteligente surgir num espa\u00e7o do tamanho do nosso universo observ\u00e1vel for de 100%, ainda sim n\u00e3o tem nada de estranho no fato de n\u00e3o termos visto mais ningu\u00e9m com nossos telesc\u00f3pios e sat\u00e9lites. Parece inacredit\u00e1vel que sejamos os \u00fanicos, mas tudo depende da escala.<\/p>\n<p>Uma formiga pode ter a mesma no\u00e7\u00e3o se por algum acaso for a \u00fanica viva num bairro de uma cidade. Estamos falando de algo muito grande. Muito grande mesmo. E normalmente dizem que algo muito antigo&#8230; mas, talvez esse tamb\u00e9m n\u00e3o seja o caso. Estima-se que o universo tenha pouco mais de 13 bilh\u00f5es de anos de idade. Extremamente longevo para as escalas humanas, mas considerando o prov\u00e1vel caminho que o universo vai seguir daqui pra frente, \u00e9 apenas uma piscadela no quadro geral.<\/p>\n<p>As teorias de que o universo vai continuar expandindo e esfriando sem limites sugerem n\u00fameros impossivelmente grandes em anos at\u00e9 a entropia finalmente vencer e o universo perder toda a energia aproveit\u00e1vel. De novo, n\u00e3o estou falando de escalas que cabem na cabe\u00e7a humana. Esses 13 bilh\u00f5es de anos s\u00e3o uma fra\u00e7\u00e3o min\u00fascula da \u201cvida \u00fatil\u201d do universo. Se eu for utilizar uma vida humana de uns 100 anos como escala para a vida do universo, n\u00e3o tenho nem como te fazer imaginar qu\u00e3o pouco tempo se passou desde o nascimento dessa crian\u00e7a. \u00c9 muito, muito menos que um segundo de vida. Nessa analogia humana, o c\u00e9rebro do m\u00e9dico n\u00e3o teve tempo nem de registrar que est\u00e1 vendo um feto sair da m\u00e3e. Essa \u00e9 a idade atual do universo perto do tempo de vida esperado dele.<\/p>\n<p>O que nos leva de volta ao Paradoxo de Fermi: ser\u00e1 que deu tempo de surgir outra forma de vida inteligente no nosso gr\u00e3ozinho de areia do universo observ\u00e1vel? \u00c9 muito prov\u00e1vel que n\u00f3s tenhamos queimado a largada e desenvolvido mentes abstratas muito antes de qualquer outra esp\u00e9cie que venha a existir. O universo vai passar a maior parte da sua exist\u00eancia pontuado por buracos negros e nada mais. A vida como conhecemos vai ter mais trilh\u00f5es e trilh\u00f5es de anos para poder aparecer. Novamente, se a probabilidade da vida inteligente surgir no nosso universo observ\u00e1vel permitir 100 civiliza\u00e7\u00f5es totalmente diferentes, ainda temos todo o tempo do mundo (ou do universo) para as outras 99 aparecerem. N\u00e3o tem nada de necessariamente estranho delas n\u00e3o estarem aqui ainda.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que n\u00e3o tem alien\u00edgena aqui no nosso quinh\u00e3o do universo? N\u00e3o, claro que n\u00e3o. Os dois textos anteriores falam sobre diversas outras possibilidades. Essa \u00e9 mais uma, muito embora tenda a ser a mais \u201crealista\u201d, afinal, normalmente faz sentido prever que nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada, porque historicamente, sempre foi. Parece mesmo bizarro sermos a \u00fanica esp\u00e9cie inteligente considerando esse tamanho todo, \u00e9 mais prov\u00e1vel que n\u00e3o sejamos, mas certeza nesse caso \u00e9 praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>De qualquer forma, \u00e9 uma boa analogia para a forma como vemos as coisas: buscando padr\u00f5es em escalas pequenas e cismando que elas se repetem quando olhamos para o todo. Talvez o principal problema da humanidade seja sempre o mesmo: somos muito novos e pequenos.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o universo precisa fazer uma dieta, para dizer que eu sou pago pelos aliens para continuar encobrindo sua exist\u00eancia, ou mesmo para dizer que se sentiu ainda mais insignificante: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se alien\u00edgenas existem e se o universo \u00e9 t\u00e3o grande e antigo, \u00e9 muito estranho que n\u00e3o tenhamos visto nenhum sinal deles at\u00e9 agora. Esse \u00e9 o paradoxo de Fermi, tema que j\u00e1 abordei aqui e aqui no ano passado. 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