{"id":15262,"date":"2019-06-21T13:10:18","date_gmt":"2019-06-21T16:10:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15262"},"modified":"2019-06-21T13:10:18","modified_gmt":"2019-06-21T16:10:18","slug":"topo-da-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/06\/topo-da-mesa\/","title":{"rendered":"Topo da mesa."},"content":{"rendered":"<p>Hoje em dia, algo em torno de 70% de todos os acessos da maioria dos sites da internet vem de smartphones. E pode-se argumentar que isso nem conta como uma mudan\u00e7a de h\u00e1bitos: as pessoas que vem se juntando \u00e0 grande rede mundial de computadores cada vez menos usam computadores na sua configura\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de torre, monitor, teclado e mouse. J\u00e1 entraram nesse mundo com seus aparelhos port\u00e1teis, e salvo necessidades pontuais no trabalho, praticamente n\u00e3o lidam com o equipamento tradicional. Sim, o mundo muda, mas talvez a era dos computadores de mesa tenha acabado antes da hora&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Eu poderia tomar um rumo de velho chato reclamando sobre os jovens e suas escolhas erradas na vida, mas mesmo que tenha toda a capacidade para escrever um texto assim, vou tomar outro caminho: vou argumentar sobre o que voc\u00ea pode estar perdendo ao consumir o mundo moderno atrav\u00e9s dessa telinha. Vamos focar nos pontos positivos antes de eu come\u00e7ar a falar do que pode dar errado no rumo que a tecnologia humana est\u00e1 seguindo atualmente.<\/p>\n<p>Se o smartphone e por extens\u00e3o o notebook permitem muita mobilidade, integrando-se \u00e0 sua vida de forma mais org\u00e2nica, um computador de mesa &#8211; ou desktop como vou chamar daqui para a frente por praticidade \u2013 tamb\u00e9m oferece um mundo de possibilidades. Como quase tudo na vida, \u00e9 uma quest\u00e3o de escolhas. Sim, o desktop fica parado num canto da casa, mas te entrega de volta uma gama de capacidades completamente diferente de smartphones. E isso est\u00e1 baseado no fato de que o desktop n\u00e3o s\u00f3 tem mais pot\u00eancia para realizar tarefas (em 2009 eu tinha um computador mais poderoso que todos os smartphones existentes), como tem mais espa\u00e7o para isso acontecer.<\/p>\n<p>Uma tela grande permite mais coisas vis\u00edveis ao mesmo tempo. Quase todos os softwares de produ\u00e7\u00e3o mais complexos t\u00eam umas 200 fun\u00e7\u00f5es vis\u00edveis na tela ao mesmo tempo. O que \u00e9 imposs\u00edvel de se ver num celular, onde toda a intera\u00e7\u00e3o com o conte\u00fado \u00e9 montada para ser o mais simples poss\u00edvel, com poucos bot\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es para n\u00e3o roubar precioso espa\u00e7o de tela. E isso faz diferen\u00e7a at\u00e9 mesmo no longo prazo: eu percebo que os estagi\u00e1rios mais jovens costumam ficar um pouco confusos com a quantidade imensa de op\u00e7\u00f5es de softwares de produ\u00e7\u00e3o profissionais, e tendem a se concentrar em poucas fun\u00e7\u00f5es deles a n\u00e3o se que diretamente incentivados a buscar por solu\u00e7\u00f5es alternativas.<\/p>\n<p>O ser humano tem uma capacidade incr\u00edvel de intui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 incentivada pelas interfaces simplistas dos smartphones, mas \u00e9 uma criatura de h\u00e1bitos: se for condicionada a limitar sua intera\u00e7\u00e3o com o conte\u00fado atrav\u00e9s de palpites educados (empresas como o Google montam verdadeiras b\u00edblias de como padronizar interfaces de programas para reduzir a frustra\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios), \u00e9 isso que essa pessoa vai levar para a vida. N\u00e3o vai ter o reflexo de procurar outras possibilidades e ajustes mais finos no que est\u00e1 produzindo, vai querer que o processador em quest\u00e3o continue tentando adivinhar suas inten\u00e7\u00f5es a cada passo.<\/p>\n<p>Pode ser que n\u00e3o demore muito para programas usados profissionalmente consigam trazer esse grau de predi\u00e7\u00e3o para suas interfaces, mas atualmente essa n\u00e3o \u00e9 a regra. Computadores conseguem prever o que voc\u00ea vai fazer se tiver poucas possibilidades. Com um programa de edi\u00e7\u00e3o de imagens 3D, por exemplo, o n\u00famero de possibilidades \u00e9 t\u00e3o imenso que a chance dele errar \u00e9 exponencialmente maior do que a de acertar. Por isso que nesse tipo de trabalho, o melhor que fazem \u00e9 colocar milh\u00f5es de op\u00e7\u00f5es na tela e deixar a pessoa comunicar seus desejos de forma clara.<\/p>\n<p>Quem aprende tamb\u00e9m a linguagem do desktop, mais espec\u00edfica e cheia de possibilidades, desenvolve uma capacidade a mais que a aparente maioria das pessoas nesse planeta: a solu\u00e7\u00e3o de problemas complexos atrav\u00e9s da percep\u00e7\u00e3o das possibilidades no ambiente. A \u00e1rea de vis\u00e3o \u00e9 maior, a interface n\u00e3o presume coisas por voc\u00ea, isso desenvolve uma capacidade natural do ser humano: o uso de ferramentas. Pode-se argumentar que smartphones fazem isso de uma forma limitada, mas nada se compara ao grau de complexidade poss\u00edvel num desktop. Voc\u00ea aprende a encontrar o problema que quer resolver, dirigir-se a ele, escolher a ferramenta ideal e a forma como us\u00e1-la.<\/p>\n<p>E isso gera uma vantagem competitiva no longo prazo: eu noto claramente que gera\u00e7\u00f5es mais novas est\u00e3o respondendo ao processo de simplifica\u00e7\u00e3o de interfaces e se acostumando com um mundo onde sua inten\u00e7\u00e3o define as a\u00e7\u00f5es ao inv\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o da tarefa. O smartphone exibe apenas as op\u00e7\u00f5es que ele \u00e9 capaz de fazer praticamente sozinho, o que limita o espa\u00e7o de possibilidades e gera uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de escolha. Ele s\u00f3 tem um toque para resolver a quest\u00e3o. Perceba que voc\u00ea s\u00f3 escreve algo para o celular numa pesquisa: a partir da\u00ed ele presume o que voc\u00ea quer fazer e voc\u00ea volta a apenas cutucar a tela.<\/p>\n<p>Eu aprendi a linguagem dos smartphones porque ela \u00e9 sim muito importante, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. E considerando o mundo real, raramente \u00e9 a melhor escolha para lidar com as coisas. No mundo real, ferramentas n\u00e3o entendem sua inten\u00e7\u00e3o, afinal, elas podem ser usadas de in\u00fameras formas diferentes. Pessoas n\u00e3o presumem sua inten\u00e7\u00e3o com facilidade, tamb\u00e9m. Existe um risco das pessoas ficarem cada vez mais mimadas com sua vida diante de uma telinha que simula intelig\u00eancia e comecem a perder a capacidade de lidar com a frustra\u00e7\u00e3o de algo dando errado ou sendo dif\u00edcil de fazer.<\/p>\n<p>Quase tudo o que tem valor nesse mundo d\u00e1 muito trabalho de fazer, e o que diferencia pessoas no mercado de trabalho \u00e9 sua capacidade de produzir mais e melhor com as ferramentas que tem em m\u00e3os. Essa mentalidade de smartphone &#8211; com um toque usado para presumir muita coisa \u2013 n\u00e3o se traduz bem num ambiente de produ\u00e7\u00e3o criativa ou gerenciamento de processos. Voc\u00ea tem que ser capaz de prestar aten\u00e7\u00e3o em muitas coisas ao mesmo tempo e enxergar as possibilidades o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Parece uma bobagem dizer isso, mas pense bem: onde voc\u00ea ou seu filho vai desenvolver essa habilidade? Na vida fora das telas ou no m\u00ednimo diante de uma tela que tenha esse conceito integrado \u00e0 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. E com tanta gente se perdendo dentro do mundo da internet, com n\u00f3s nos obrigando a passar boa parte da vida online para interagir com outros seres humanos e produzir valor para o nosso sustento, usar esse tempo com um smartphone pode ser um tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 complicado desenvolver uma habilidade importante na vida como a resolu\u00e7\u00e3o de problemas atrav\u00e9s de no\u00e7\u00e3o do ambiente e escolha das melhores ferramentas se tudo o que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 um processo extremamente simplificado. E isso vai al\u00e9m de ser mais capaz no trabalho, cada vez mais impacta nossos relacionamentos humanos: a m\u00e1quina que faz a interface entre duas pessoas pode ser montada de forma perfeita para reduzir a sua frustra\u00e7\u00e3o com o ato de se comunicar, mas a pessoa do outro lado est\u00e1 longe de ter sido atualizada com o mesmo software: ela \u00e9 confusa, cheia de possibilidades e precisa ser trabalhada com diversas ferramentas pouco \u00f3bvias para conviver bem com voc\u00ea. Uma pessoa \u00e9 ca\u00f3tica como uma tela cheia de comandos que voc\u00ea nunca viu antes, uma pessoa tem capacidade limitada de prever o que voc\u00ea vai fazer atrav\u00e9s de um gesto, afinal, para ela, voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 um p\u00e9ssimo smartphone!<\/p>\n<p>Se voc\u00ea vai tirar algo deste texto, que seja a ideia de que o mais f\u00e1cil e conveniente normalmente cobra um pre\u00e7o: voc\u00ea se torna mais limitado. Sou totalmente favor\u00e1vel a integrar computadores cada vez mais nas nossas vidas, mas desde que n\u00e3o tenhamos que nos rebaixar ao n\u00edvel deles&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que leu e concordou do seu celular, para dizer que n\u00e3o \u00e9 burro(a) por usar um (n\u00e3o disse isso, burro(a)!), ou mesmo para dizer que vai tirar a poeira do seu desktop depois dessa: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia, algo em torno de 70% de todos os acessos da maioria dos sites da internet vem de smartphones. E pode-se argumentar que isso nem conta como uma mudan\u00e7a de h\u00e1bitos: as pessoas que vem se juntando \u00e0 grande rede mundial de computadores cada vez menos usam computadores na sua configura\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":15263,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-15262","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-somir-surtado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15262\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}