{"id":15381,"date":"2019-07-16T13:24:11","date_gmt":"2019-07-16T16:24:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15381"},"modified":"2019-07-16T13:24:11","modified_gmt":"2019-07-16T16:24:11","slug":"lei-de-murphy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/07\/lei-de-murphy\/","title":{"rendered":"Lei de Murphy"},"content":{"rendered":"<p>\u201cLei de Murphy\u201d \u00e9 uma premissa pela qual se afirma que o universo est\u00e1 sempre a favor do erro: se algo pode dar errado, dar\u00e1. \u00c9 algo que vem sendo observado e registrado pela humanidade faz tempo, h\u00e1 relatos desta lei universal desde o s\u00e9culo XIX. Certamente voc\u00ea j\u00e1 sentiu os efeitos da Lei de Murphy na pr\u00f3pria pele: no \u00fanico dia em que voc\u00ea sai sem guarda-chuva chove, a fila na qual voc\u00ea entrou \u00e9 a que anda mais devagar, seu p\u00e3o cai sempre com a manteiga voltada para baixo. Nada mais justo do que come\u00e7ar esta semana tem\u00e1tica explicando um pouco mais sobre o assunto: Desfavor Explica Lei de Murphy.<!--more--><\/p>\n<p>O nome \u201cLei de Murphy\u201d foi escolhido em homenagem ao capit\u00e3o da Aeron\u00e1utica dos EUA, Edward A. Murphy Jr., que, muito bravo ap\u00f3s uma s\u00e9rie de contratempos em experimentos, afirmou que se existe mais de uma maneira de se executar uma tarefa, e alguma dessas maneiras resultasse em um desastre, certamente esta seria a maneira escolhida por algu\u00e9m para execut\u00e1-la. Da\u00ed derivaram centenas de premissas pessimistas conhecidas como \u201cLei de Murphy\u201d, <a href=\"http:\/\/www.humornaciencia.com.br\/miscelanea\/murphy.htm\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">voc\u00ea pode conferir algumas delas aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A f\u00faria do capit\u00e3o Murphy era totalmente justificada. Tudo come\u00e7ou quando engenheiros aeron\u00e1uticos decidiram testar um novo e perigoso sistema para medir a resist\u00eancia do corpo humano \u00e0 for\u00e7a da gravidade. Um volunt\u00e1rio ficava amarrado a uma cadeira que era acelerada num trilho a 320 km\/h. Quando a cadeira atingia sua velocidade m\u00e1xima, os engenheiros apertavam um bot\u00e3o e ela freava em menos de um segundo. <\/p>\n<p>Essa desacelera\u00e7\u00e3o violenta tinha como objetivo reproduzir os efeitos da gravidade sobre o organismo, mas obviamente n\u00e3o fez muito bem para as cobaias. No primeiro teste, o volunt\u00e1rio (um f\u00edsico da Aeron\u00e1utica) saiu muito machucado, com v\u00e1rios ossos quebrados e vasos sangu\u00edneos rompidos. Nos meses seguintes, o teste foi repetido v\u00e1rias vezes, sempre com o volunt\u00e1rio se arrebentando. Um sacrif\u00edcio que todos toparam em nome da ci\u00eancia. <\/p>\n<p>Um dia, com os estudos j\u00e1 em est\u00e1gio avan\u00e7ado, o capit\u00e3o Edward Murphy Jr., percebeu que os t\u00e9cnicos haviam cometido um erro terr\u00edvel: os 16 sensores haviam sido ligados todos da forma errada. Todos. Por isso n\u00e3o funcionaram e n\u00e3o foi poss\u00edvel medir a for\u00e7a da gravidade em nenhum dos testes. Todo o sofrimento do volunt\u00e1rio havia sido em v\u00e3o. Foi ent\u00e3o que Murphy soltou a c\u00e9lebre frase, que acabou dando nome a uma esp\u00e9cie de lei universal profana.<\/p>\n<p>S\u00f3 que ele estava falando do ser humano, n\u00e3o do universo. Basicamente ele estava dizendo que o ser humano \u00e9 t\u00e3o burro, tosco, incompetente, falho e auto sabotador que se existe mais de uma maneira de se executar uma tarefa, e alguma dessas maneiras resultar num desastre, certamente ser\u00e1 a maneira escolhida por algu\u00e9m para execut\u00e1-la. Basicamente ele estava chamando o a todos (inclusive a ele, pois falhou na fiscaliza\u00e7\u00e3o) de imbecis.<\/p>\n<p>Mas, o tempo e o ego humano se encarregaram de ir modificando esta premissa, at\u00e9 a culpa parar no universo, como um ente m\u00e1gico que atrapalha a vida de n\u00f3s, pobres e inocentes humanos, v\u00edtimas desta maldade. Hoje, quando algo d\u00e1 errado e culpamos a Lei de Murphy, \u00e9 quase como dar um ar de inevitabilidade, como se o universo conspirasse sempre para o erro e para a falha e n\u00f3s, pobres humanos, tiv\u00e9ssemos que lutar contra isso o tempo todo.<\/p>\n<p>\u00c9 mais agrad\u00e1vel acreditar que o universo te sacaneou do que pensar que voc\u00ea foi incompetente de alguma forma. Nunca somos n\u00f3s que n\u00e3o escolhermos direito, que n\u00e3o fiscalizamos direito, que n\u00e3o pensamos direito na situa\u00e7\u00e3o. Melhor convencionar que a culpa \u00e9 externa, vinda de uma for\u00e7a maior que n\u00e3o podemos compreender ou controlar. N\u00e3o tem problema, afinal, a culpa \u00e9 minha, eu a coloco em quem eu quiser.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tem um componente de arrog\u00e2ncia humana a\u00ed. O conceito de \u201cdar certo\u201d e dar \u201cerrado\u201d \u00e9 bem subjetivo. Tendemos a pensar que o \u201ccerto\u201d \u00e9 o que n\u00f3s queremos que aconte\u00e7a, quando in\u00fameras vezes fazemos escolhas muito erradas e nos arrependemos amargamente de ver nossos pedidos atendidos. Ent\u00e3o, nem sempre o que n\u00f3s consideramos como \u201cdar certo\u201d \u00e9 efetivamente bom para n\u00f3s, assim como nem sempre o que consideramos \u201cdar errado\u201d \u00e9 necessariamente ruim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acreditar que, porque n\u00e3o aconteceu o que eu queria, as coisas deram errado, pode ser uma tremenda mentira. O mundo n\u00e3o conspira para satisfazer as suas vontades, \u00e9 \u00f3bvio que por muitas vezes elas n\u00e3o ser\u00e3o atendidas, e nem sempre isso significa que as coisas deram errado, por mais que, \u00e0s vezes, demoremos semanas, meses ou at\u00e9 anos para perceber isso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tem um componente biol\u00f3gico: nosso c\u00e9rebro tende a nos lembrar dos momentos em que tudo d\u00e1 errado, seja como forma de fixar um aprendizado, seja como forma de prote\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o repetir o erro. Por isso fica claramente registrado na nossa mente quando a Lei de Murphy se cumpre, mas deletamos as ocasi\u00f5es onde tudo deu certo, refor\u00e7ando a cren\u00e7a nessa lei dos azarados, pois o c\u00e9rebro joga um holofote nela.<\/p>\n<p>Ainda assim, alguns experimentos cient\u00edficos, por mais ris\u00edveis que sejam, corroboram para a exist\u00eancia da Lei de Murphy. N\u00e3o que o universo queira nos sacanear, provavelmente o universo tem mais o que fazer, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante&#8230; Mas alguns resultados apontam que sim, muitas vezes as leis que regem este planeta tendem a gerar resultados que n\u00f3s consideramos desfavor\u00e1veis. Ent\u00e3o, se olharmos dentro da \u00f3tica da dualidade, do certo e errado, sim, pode ser que em algum n\u00edvel a Lei de Murphy de fato exista.<\/p>\n<p>Um exemplo bobo \u00e9 a cren\u00e7a que o p\u00e3o sempre cai com a manteiga voltada para baixo. Em tese, essa probabilidade seria de 50%, as chances de um p\u00e3o cair com manteiga para baixo ou para cima seriam as mesmas, certo? Errado. Segundo um estudo publicado pelo f\u00edsico brit\u00e2nico Robert Matthews, (&#8220;A Torrada em Queda &#8211; A Lei de Murphy e as Constantes Fundamentais&#8221;), o p\u00e3o tende a cair com a manteiga para baixo mesmo. Ele comprovou isso atrav\u00e9s de c\u00e1lculos matem\u00e1ticos e experimentos cient\u00edficos. Em seus experimentos, ele verificou que, em 9.821 quedas, 6.101 foram com a manteiga para baixo.<\/p>\n<p>Os motivos? H\u00e1 quem diga (simplificando muito) que o lado com manteiga pesa mais do que o outro, tornando mais prov\u00e1vel que ele v\u00e1 para a parte de baixo durante a queda. H\u00e1 quem diga que a altura m\u00e9dia das mesas humanas \u00e9 a respons\u00e1vel, pois n\u00e3o s\u00e3o altas o suficiente para permitir um giro completo da torrada na queda. H\u00e1 uma s\u00e9rie de fatores ligados \u00e0 f\u00edsica que podem explicar este evento desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 quem diga que se temos uma cren\u00e7a estabelecida de que a manteiga vai cair para baixo, criamos essa realidade diante dos nossos olhos, tal qual \u201ctransformamos\u201d el\u00e9trons em ondas no <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2018\/04\/fenda-dupla\/comment-page-1\/\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">experimento da Fenda Dupla<\/a>. N\u00e3o importa por qual motivo seja, pela f\u00edsica, pela matem\u00e1tica, pelas cren\u00e7as que est\u00e3o na nossa mente, por uma percep\u00e7\u00e3o seletiva nossa ou por qualquer outro motivo, h\u00e1 ind\u00edcios da exist\u00eancia da Lei de Murphy nesse aspecto: quando falamos de p\u00e3o com manteiga, a tend\u00eancia \u00e9 que tudo d\u00ea \u201cerrado\u201d se ele cair, pois s\u00e3o maiores as chances dele cair com a manteiga para baixo.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 a maravilhosa premissa de que as meias sempre entram na m\u00e1quina de lavar de duas em duas e saem de uma em uma. Quando perdemos meias dentro da m\u00e1quina nunca s\u00e3o as duas do mesmo par, \u00e9 uma de cada par, para desfalcar nosso guarda-roupas. Assim, ficamos com meias \u00fanicas, que n\u00e3o tem par, e com a sensa\u00e7\u00e3o de que o universo nos odeia.<\/p>\n<p>Esta desgra\u00e7a de perder meias dentro da m\u00e1quina de lavar pode ser explicada pela teoria da probabilidade: se voc\u00ea coloca na m\u00e1quina de lavar 20 meias (10 pares diferentes), depois de perder a primeira meia, as possibilidades da segunda meia perdida pertencer a outro par s\u00e3o de 18 em 19, contra  1 em 19 de que seja uma meia do mesmo par. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pelas leis da matem\u00e1tica, as chances de voc\u00ea perder um p\u00e9 de cada par s\u00e3o infinitamente maiores. Sem contar que se voc\u00ea perder as duas meias do mesmo par periga nem se dar conta disso, pois n\u00e3o ter\u00e1 uma meia sozinha para sinalizar o problema. Voc\u00ea s\u00f3 vai perceber se tiver contado quantos pares de meia colocou na m\u00e1quina de lavar&#8230; quem faz isso?<\/p>\n<p>At\u00e9 o renomado f\u00edsico Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan para o desenvolvimento da bomba at\u00f4mica, foi abalado pela Lei de Murphy. Seus colegas diziam que quando estava presente com as outras pessoas no laborat\u00f3rio, a chance de algu\u00e9m derrubar um muffin e o bolinho cair virado para baixo eram significativamente maior. Durante muito tempo ele teve que escutar reclama\u00e7\u00f5es sobre esse \u201cefeito\u201d da sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Parece piada, mas aquilo come\u00e7ou a incomodar Robert, que dedicou um bom tempo a estudar a Lei de Murphy e chegou \u00e0 conclus\u00e3o que sim, as coisas, no geral, tendem ao erro e que era muito importante levar isso em conta na hora de tomar decis\u00f5es. Ele atribuiu boa parte do sucesso do seu trabalho a isso, a ter essa perspectiva de calcular e corrigir os erros antes que eles aconte\u00e7am.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a Lei de Murphy existe, mas n\u00e3o como algo pessoal, como o universo sacaneando voc\u00ea. S\u00e3o leis de funcionamento geral que regem este planeta e se aplicam a voc\u00ea a mais oito bilh\u00f5es de pessoas. Bens materiais se deterioram, ent\u00e3o, cedo ou tarde sua geladeira vai quebrar. Atrasos acontecem, ent\u00e3o, cedo ou tarde voc\u00ea pode pegar um tr\u00e2nsito fora do comum. Por\u00e9m, classificar que estas coisas aconteceram no \u201cpior momento poss\u00edvel\u201d \u00e9 interven\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Convenhamos, nunca \u00e9 um bom momento para ser obrigado a gastar muito dinheiro ou para chegar atrasado a um compromisso. Mas, talvez, se voc\u00ea parar para pensar, o momento que voc\u00ea julga como p\u00e9ssimo pode n\u00e3o ser o ideal, mas est\u00e1 longe de ser o pior momento da sua vida para aquilo acontecer. Ou, quem sabe, voc\u00ea tenha ficado preso em um engarrafamento diversas outras vezes, s\u00f3 n\u00e3o registrou isso como um evento grave por, no dia, n\u00e3o ter compromisso. <\/p>\n<p>Colocamos um holofote quando algo ruim acontece em um momento desafortunado e confirmamos em nossos c\u00e9rebros a exist\u00eancia da Lei de Murphy, mas a verdade \u00e9 que coisas boas e ruins acontecem todos os dias e provavelmente n\u00e3o s\u00e3o nenhuma provid\u00eancia divina ou lei do universo, s\u00e3o coisa muito mais simples do que isso.<\/p>\n<p>A Lei de Murphy nada mais \u00e9 do que um reflexo da estupidez humana e de um desejo de controle ilus\u00f3rio que nunca teremos. \u201cO universo me sacaneou\u201d ou \u201cTem uma for\u00e7a maior que faz tudo convergir para o erro\u201d s\u00e3o premissas mais agrad\u00e1veis do que \u201cA culpa \u00e9 minha por ter escolhido um funcion\u00e1rio incompetente\u201d ou \u201cEu errei por n\u00e3o tomar o devido cuidado\u201d. Lei de Murphy \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma esp\u00e9cie de Deus punitivo para ateus.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu esqueci de colocar a assinatura e o Somir s\u00f3 percebeu agora que n\u00e3o d\u00e1 mais tempo: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLei de Murphy\u201d \u00e9 uma premissa pela qual se afirma que o universo est\u00e1 sempre a favor do erro: se algo pode dar errado, dar\u00e1. \u00c9 algo que vem sendo observado e registrado pela humanidade faz tempo, h\u00e1 relatos desta lei universal desde o s\u00e9culo XIX. 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