{"id":15384,"date":"2019-07-17T13:02:20","date_gmt":"2019-07-17T16:02:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15384"},"modified":"2019-07-17T13:02:20","modified_gmt":"2019-07-17T16:02:20","slug":"azar-o-seu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/07\/azar-o-seu\/","title":{"rendered":"Azar o seu."},"content":{"rendered":"<p>Continuamos a comemora\u00e7\u00e3o do dia de Murphy nesta semana com uma an\u00e1lise aprofundada sobre tudo de ruim que acontece com a gente. E se eu te dissesse que tudo acontece por um motivo, que existe uma raz\u00e3o fundamental para os infort\u00fanios da vida e que existe algu\u00e9m que pode te ajudar a viver uma vida menos problem\u00e1tica?<!--more--><\/p>\n<p>S\u00f3 os mais novatos cairiam nessa, mas valia a pena tentar. Claro que n\u00e3o tem nada de m\u00edstico aqui. Deus provavelmente n\u00e3o existe, mas \u00e9 at\u00e9 compreens\u00edvel que as pessoas tenham criado conceitos para l\u00e1 de esot\u00e9ricos para lidar com a opressora realidade ca\u00f3tica do universo. Do jeito que as coisas parecem ser se consideramos apenas o conhecimento cient\u00edfico atual, a realidade toda est\u00e1 em constante mudan\u00e7a na velocidade da luz. Das maiores \u00e0s menores escalas, in\u00fameras for\u00e7as interagem gerando uma infinidade de resultados poss\u00edveis para qualquer a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E quanto mais fomos aprendendo sobre a realidade, tornamos nosso conhecimento dessa incerteza cada vez mais preciso: o ser humano antigo n\u00e3o entendia grandes fen\u00f4menos clim\u00e1ticos, e continuamos considerando meteorologia uma ci\u00eancia bem inexata. Depois disso, notamos que quanto mais complexas tornavam-se nossas mentes, mais imprevis\u00edveis elas se tornavam. Quase toda nossa cultura \u00e9 baseada na ideia de entender nossa pr\u00f3pria mente, at\u00e9 hoje. E quando fomos buscar algum alento na estabilidade da mat\u00e9ria em suas escalas mais min\u00fasculas, l\u00e1 estava a f\u00edsica qu\u00e2ntica para nos enlouquecer com seus princ\u00edpios de incerteza. N\u00e3o conseguimos prever direito quando vai chover, o que uma pessoa vai fazer, ou mesmo onde est\u00e1 um maldito de um el\u00e9tron!<\/p>\n<p>Evidente que estudo e experi\u00eancia reduzem esse grau de incerteza sobre o mundo que est\u00e1 ao nosso redor, mas ele n\u00e3o pode ser eliminado. Em tese, s\u00f3 um computador do tamanho do universo teria uma chance de fazer uma previs\u00e3o exata sobre o futuro. E mesmo assim, basta um quark rebelde para quebrar toda a l\u00f3gica. E por mais que a ci\u00eancia moderna tenha cunhado os termos t\u00e9cnicos sobre toda essa incerteza, sabemos disso h\u00e1 mil\u00eanios. O mundo \u00e9 ca\u00f3tico e n\u00e3o existe muito espa\u00e7o dispon\u00edvel para zonas de conforto. De uma forma mais primitiva, todos os outros seres vivos sabem disso tamb\u00e9m: adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente e alguma forma de rea\u00e7\u00e3o aos est\u00edmulos externos s\u00e3o caracter\u00edsticas b\u00e1sicas da vida. S\u00f3 est\u00e1 vivo aquilo que de alguma forma tenta lidar com o caos da natureza.<\/p>\n<p>S\u00f3 que seres humanos v\u00e3o al\u00e9m: a capacidade apurada de pensamento abstrato permite que fa\u00e7amos mais do que nos adaptar. O misticismo necess\u00e1rio para a cria\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es \u00e9 uma resposta direta da mente humana para essa sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia diante da imensa complexidade do universo. Se n\u00e3o podemos ter o controle, criamos quem tenha. A ideia de alguma ordem imut\u00e1vel na exist\u00eancia ajuda a nos acalmar e mais do que isso, nos permite pensar no futuro. Precisamos de alguma estabilidade para acreditarmos que vale a pena fazer planos.<\/p>\n<p>Ok, isso provavelmente explica as religi\u00f5es. Mas&#8230; explica mais uma coisa: os conceitos de sorte e azar. A cria\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es onde eles n\u00e3o existem. J\u00e1 falei v\u00e1rias vezes disso aqui, mas s\u00f3 para refor\u00e7ar: o ser humano usa o reconhecimento de padr\u00f5es como base da sua intelig\u00eancia. N\u00f3s e qualquer outro animal capaz de armazenar informa\u00e7\u00f5es na mem\u00f3ria, seja no c\u00e9rebro ou na pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o do corpo, atrav\u00e9s de instintos e mudan\u00e7as evolutivas. Um cachorro reconhece o padr\u00e3o de realizar um truque e receber um biscoito e guarda isso na mem\u00f3ria. Bact\u00e9rias v\u00e3o evoluindo pelo padr\u00e3o das amea\u00e7as ao seu redor, e mesmo que n\u00e3o guardem a informa\u00e7\u00e3o em nenhum lugar de mem\u00f3ria, lembram-se do padr\u00e3o justamente por serem o grupo sobrevivente e continuarem se reproduzindo. A informa\u00e7\u00e3o do cachorro fica no c\u00e9rebro dele, a informa\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria \u00e9 a pr\u00f3pria exist\u00eancia dela.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao ponto: criamos padr\u00f5es. Tentamos prever o futuro tal qual o cachorro esperando o biscoito depois de rolar. E ao fazer essas previs\u00f5es criamos novos padr\u00f5es para testar contra a realidade. Se voc\u00ea consegue o que quer, coloca na conta da sorte. Se n\u00e3o consegue, foi azar. E com tanta terra f\u00e9rtil na nossa mente, sobra espa\u00e7o para acreditar que existe alguma forma de padr\u00e3o externo gerenciando nossa medida de sucessos e fracassos. N\u00e3o h\u00e1. Esse padr\u00e3o \u00e9 interno, propriedade do c\u00e9rebro humano. Para a realidade em geral, voc\u00ea conseguir ou n\u00e3o aquela promo\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem peso maior do que o spin de um quark. S\u00f3 \u00e9 importante para quem escolhe tornar aquilo importante.<\/p>\n<p>Tudo isso para dizer que supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 bobagem?<\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p>Mas podemos ir al\u00e9m. Com a informa\u00e7\u00e3o bem estabelecida, podemos come\u00e7ar a notar como nossos c\u00e9rebros tendem a nos colocar nessa armadilha mesmo que saibamos que sorte e azar s\u00e3o bobagens. Reconhecer o problema n\u00e3o significa estar livre dele, muitas vezes \u00e9 a pior parte, pois lida com duas frustra\u00e7\u00f5es, a de saber que deveria fazer diferente e a de fazer as coisas da forma errada. Por isso que eu quero realmente explicar de onde vem essa ideia de azar e a supervaloriza\u00e7\u00e3o do fracasso. E est\u00e1 tudo relacionado com probabilidades. Sim, nada como uma promessa de conceitos matem\u00e1ticos para salvar um texto denso desses&#8230;<\/p>\n<p>Probabilidade \u00e9 o estudo das chances de ocorr\u00eancia de um resultado. N\u00e3o est\u00e1 no escopo do tema de hoje se aprofundar na teoria matem\u00e1tica, mas d\u00e1 para falar disso s\u00f3 com exemplos simples. Imagine um dado de seis faces. O n\u00famero de vari\u00e1veis de um dado rolando \u00e9 grande demais para ser previsto com consist\u00eancia, at\u00e9 por isso vivemos usando-os para gerar aleatoriedade.<\/p>\n<p>A chance de voc\u00ea escolher um n\u00famero e ele sair depois de rolar \u00e9 de uma em seis. Quase todo mundo com um m\u00ednimo de estudo \u00e9 capaz de conceber essa possibilidade, mas pouca gente fala sobre as implica\u00e7\u00f5es disso: a partir do momento que voc\u00ea escolhe um n\u00famero, voc\u00ea gera uma chance em seis de acertar&#8230; e cinco em seis de errar. O simples ato de tentar prever o resultado te coloca num caminho de aproximadamente 83,5% de fracasso.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem sorte ou azar envolvidos. Existe sim uma probabilidade muito maior de errar. Voc\u00ea cria um padr\u00e3o na sua mente e tenta confront\u00e1-lo com a realidade de forma consideravelmente ruim para voc\u00ea. O que voc\u00ea espera que aconte\u00e7a? Se por um acaso voc\u00ea escolhesse um n\u00famero para n\u00e3o sair, a chance de 85,5% estaria ao seu favor. \u00c9 tudo quest\u00e3o de perspectiva. N\u00f3s criamos sorte e azar por puro esporte, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o da mente. Um apelido m\u00edstico para a constata\u00e7\u00e3o da ocorr\u00eancia de um fato.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea lendo este texto conseguiu escapar das garras do medo do caos, mesmo que por um momento, vai conseguir enxergar para onde estou indo. Voc\u00ea nunca deu azar na sua vida. Nem sorte. Tudo apenas obedeceu \u00e0s probabilidades do momento, e de acordo com a sua escolha na hora de analisar o resultado, gostou ou n\u00e3o do que aconteceu. O problema \u00e9 que temos uma atra\u00e7\u00e3o incr\u00edvel por chances pequenas: escolhemos um grupo muito pequeno de resultados desej\u00e1veis para qualquer coisa que fazemos e estamos sempre brigando com as probabilidades ladeira acima.<\/p>\n<p>Se as regras do jogo de dados presumem escolher s\u00f3 um resultado, o jogo da vida \u00e9 bem mais liberal: voc\u00ea pode escolher v\u00e1rios deles para serem os vencedores. Nossa ilus\u00e3o de controle sobre a realidade que nos impele a tornar as probabilidades t\u00e3o negativas. Claro que ningu\u00e9m precisa ser demente ao ponto de considerar algo como uma doen\u00e7a ou uma rejei\u00e7\u00e3o algo positivo para fingir que est\u00e1 ganhando, mas entre os resultados claramente positivos e os negativos de qualquer uma das nossas a\u00e7\u00f5es nesse mundo, existe uma enorme zona cinza de possibilidades intermedi\u00e1rias que esquecemos de categorizar.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea queria uma promo\u00e7\u00e3o, fez cursos e deu duro para ficar melhor no seu trabalho, n\u00e3o existe apenas o resultado de conseguir ou fracassar, existem muitos estados intermedi\u00e1rios onde voc\u00ea usa o conhecimento acumulado para conseguir a vaga em outra empresa, abrir a sua ou mesmo descobrir algo que gosta mais de fazer e tem potencial para desenvolver. A tend\u00eancia \u00e9 que fechemos a mente para esses outros resultados com potencial positivo e deixemos de notar oportunidades. Quando voc\u00ea faz algo diferente, vira um agente do caos: interfere na realidade de tal forma que abre uma linha totalmente nova de resultados poss\u00edveis. Fazemos isso o tempo todo, mas parece que pouca gente para e pensa nas implica\u00e7\u00f5es: estamos t\u00e3o viciados na ideia de s\u00f3 ter um resultado positivo e um negativo poss\u00edveis que quase toda a complexidade do universo se perde ao nosso redor.<\/p>\n<p>\u00c9 muito disso que falamos aqui sobre o problema da dualidade na sociedade moderna. Isso realmente parece estar num processo de acelera\u00e7\u00e3o, talvez at\u00e9 porque estejamos cada vez mais mimados pela tecnologia, que nos protege demais das intemp\u00e9ries do mundo e impede que as pessoas aprendam a arte da adapta\u00e7\u00e3o, t\u00e3o necess\u00e1ria para nossos antepassados. Parece papo de velho, mas eu finalmente come\u00e7o a entender por que pessoas mais velhas sempre me diziam que \u201cno meu tempo, a gente n\u00e3o tinha essas coisas\u201d para me ensinar a ter mais paci\u00eancia ou ser mais tolerante com os problemas: era uma vida menos afeita a escolher s\u00f3 um resultado desejado e mais focada em fazer o melhor com o que estava dispon\u00edvel. N\u00e3o porque ningu\u00e9m nascia melhor, mas porque as dificuldades da vida as guiavam nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que bom que a qualidade de vida m\u00e9dia \u00e9 melhor e estamos mimados assim, mas como de costume, como n\u00e3o era algo pensado de verdade, a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios resultados positivos a partir de uma situa\u00e7\u00e3o acaba n\u00e3o sendo passada para a frente. Aprendemos que os mais antigos se viravam mais f\u00e1cil com menos, mas ningu\u00e9m soube nos explicar a base dessa ideia. Era s\u00f3 uma necessidade do tempo.<\/p>\n<p>Posso estar falando a maior obviedade de todas aqui, apesar do texto denso, mas eu tenho a sensa\u00e7\u00e3o que esse \u00e9 um daqueles temas que parece ser evidente para todo mundo, mas ningu\u00e9m pensa o porqu\u00ea. O mundo \u00e9 ca\u00f3tico, muita coisa pode acontecer, temos a tend\u00eancia de tentar botar ordem nisso tudo inventando elementos m\u00edsticos como religi\u00f5es ou o pr\u00f3prio conceito de sorte e azar, mas no final das contas, as probabilidades n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para isso. Ou voc\u00ea come\u00e7a a viver para tirar o m\u00e1ximo delas, ou vai ficar achando que tudo est\u00e1 dando errado sem saber o motivo.<\/p>\n<p>E provavelmente, tudo n\u00e3o passa de voc\u00ea ter escolhido s\u00f3 um dos n\u00fameros daquele dado que vai rolar&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que foi a minha obra prima de falar nada num longo texto, para dizer que eu poderia ter vendido o templo de Zodraz aqui, ou mesmo para dizer que tudo acontece por infinitos motivos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuamos a comemora\u00e7\u00e3o do dia de Murphy nesta semana com uma an\u00e1lise aprofundada sobre tudo de ruim que acontece com a gente. 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