{"id":15404,"date":"2019-07-21T17:00:53","date_gmt":"2019-07-21T20:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15404"},"modified":"2019-07-21T15:24:55","modified_gmt":"2019-07-21T18:24:55","slug":"generos-musicais-jazz-e-blues-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/07\/generos-musicais-jazz-e-blues-parte-2\/","title":{"rendered":"G\u00eaneros Musicais &#8211; Jazz e Blues &#8211; Parte 2"},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Tio Ge explica \u2013 G\u00eaneros musicais 3 \u2013 Jazz e Blues parte 2<\/h2>\n<p>Continuando, ent\u00e3o, a saga de textos sobre o tema, nesse eu comento sobre o jazz. Mas antes, preciso retomar alguns pontos do texto anterior: jazz e blues s\u00e3o g\u00eaneros an\u00e1logos, irm\u00e3os, se desenvolvem em paralelo. D\u00e1 pra dizer, bem grosso modo, que o blues vem primeiro, o jazz \u00e9 um derivado deste. A diferen\u00e7a sutil reside mesmo no fato de que, enquanto o blues se manteve fiel \u00e0 sua estrutura harm\u00f4nica, mudando apenas algumas disposi\u00e7\u00f5es sobre os instrumentos, no jazz isso n\u00e3o acontece, cada vertente repousa sobre uma estrutura harm\u00f4nica diferente, e numa disposi\u00e7\u00e3o de arranjo de instrumentos diferentes, o que dificulta bastante saber quem \u00e9 quem. <!--more--><\/p>\n<p>Pois bem, enquanto o blues se desenvolve nos v\u00e1rios estados do sul dos EUA no final do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX, o jazz come\u00e7a a se germinar especificamente nos arredores de New Orleans, no estado de Louisiana. Existem explica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e geogr\u00e1ficas para isso: New Orleans, se voc\u00eas forem olhar no mapa, \u00e9 uma cidade portu\u00e1ria, ponto interessante e estrat\u00e9gico de migra\u00e7\u00f5es, est\u00e1 ali pertinho de Cuba e Haiti; logo, \u00e9 comum ter pessoas de diferentes etnias por l\u00e1. Mais ainda, no s\u00e9culo XVIII, naquela regi\u00e3o, havia col\u00f4nias francesas que dominavam o local, e traziam escravos de v\u00e1rias partes, n\u00e3o s\u00f3 da \u00c1frica. Da\u00ed o surgimento do dito \u201ccrioulo\u201d, bem grosso modo, os nativos americanos, mas filhos da mistura entre negros e brancos. Vale lembrar tamb\u00e9m que essa camada da sociedade teve uma melhor educa\u00e7\u00e3o, e mais acesso \u00e0 cultura \u201cimportada\u201d da Europa, ent\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Outra diferen\u00e7a sutil deste em rela\u00e7\u00e3o ao blues, \u00e9 que este se desenvolve mais no meio urbano, ao contr\u00e1rio do meio das planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o e das f\u00e1bricas, e tem forte influ\u00eancia da m\u00fasica erudita europeia. O que acontece, bem grosso modo, \u00e9 que aquele \u201csom\u201d do blues chega logo aos jovens ouvidos, e logo os convence, os atrai, e juntando com a erudi\u00e7\u00e3o europeia, logo temos o nascimento dessa mistura chamada jazz. Mais do que isso, o jazz nasce nos idos de 1910, mas vai ter seu boom mesmo s\u00f3 na d\u00e9cada seguinte, e uma das explica\u00e7\u00f5es para isso tem fundamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: a sociedade americana vivia seu auge, e o g\u00eanero, que virou febre entre os jovens, parecia representar bem toda a ostenta\u00e7\u00e3o que a \u00e9poca permitia. O jazz, nesse aspecto, \u00e9 mais alegre e mais agitado que o blues, n\u00e3o tem aquelas letras emocionais pesadas. Outra caracter\u00edstica que vale citar em rela\u00e7\u00e3o ao jazz \u00e9 que, o que vale nele, \u00e9 o virtuosismo do improviso. Cada instrumento tem a \u201csua vez\u201d de participar, fazendo solos e mostrando o que tem de melhor, e o bom jazzista \u00e9 aquele que se destaca justamente por saber fazer um bom improviso.<\/p>\n<p>Ainda sobre curiosidades hist\u00f3ricas: da mesma forma que o blues era tocado nas \u201cjuke points\u201d, o jazz era tocado nas \u201cspeakeasies\u201d, que eram uma esp\u00e9cie de bares clandestinos que vendiam bebida alco\u00f3lica na \u00e9poca. Sim, havia uma esp\u00e9cie de lei seca em vigor naquele per\u00edodo do come\u00e7o do s\u00e9culo XX. S\u00e3o nesses lugares que brancos, negros, e crioulos, se misturam, e da\u00ed surge toda aquela mistura musical.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 origem da palavra, \u00e9 bem incerta, mesmo pesquisando a fundo em manuais de filologia. H\u00e1 uma hist\u00f3ria muito corrente que diz que o termo vem de \u201cjasm\u201d, que significa jasmim. H\u00e1 outra que diz que o termo \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o de \u201cyass\u201d, termo popular que significa \u201csim\u201d, mas a grafia foi mudada de Y para J e o som de SS virou som de z. <\/p>\n<p>A primeira influ\u00eancia que \u00e9 preciso comentar antes de adentrar a fundo nas tantas vertentes do g\u00eanero \u00e9 a do ragtime. Esse \u00e9 um g\u00eanero do final do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX, muito influenciado pela erudi\u00e7\u00e3o europeia, mas \u00e9 americano, e particularmente para piano. O maior nome a ser citado sobre esse g\u00eanero \u00e9 Scott Joplin, e ele tem um ritmo bem saltadinho, bem parecido com o boogie-woogie. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QTQQAWCqytE\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">Um exemplo bacana tu pode conferir nesse v\u00eddeo aqui.<\/a><\/p>\n<p>Como dito anteriormente, o jazz cresce na d\u00e9cada de 1920, junto com o boom econ\u00f4mico vivenciado naquela \u00e9poca. Com o fim da primeira guerra, os EUA n\u00e3o precisavam mais tanto de instrumentos de metais e sopros, e a venda destes estava bem barata. Da\u00ed se explica a grande aquisi\u00e7\u00e3o de trompetes, trombones, trombetas, sax e tubas por a\u00ed. Mais ainda: as \u201cspeakeasies\u201dostentavam instrumentos, os m\u00fasicos tinham o que havia de melhor \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, e com a forma\u00e7\u00e3o musical erudita, obviamente que come\u00e7aram a testar outros tipos de arranjos. Afora isso, como cach\u00ea n\u00e3o era problema, e o show tinha que continuar, n\u00e3o \u00e9 estranho ver a banda crescer cada vez mais.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que surgem as big bands. O nome j\u00e1 diz tudo: se antes havia apenas aquela pequena banda com tr\u00eas ou quatro integrantes, apenas vocal, viol\u00e3o e gaita, agora a banda cresce e vira uma mini orquestra, composta por instrumentos de sopros j\u00e1 citados, piano, violinos, violoncelos, baixo ac\u00fastico, viola de orquestra, cello, e clarineta. As bandas costumavam ter 12 integrantes, \u00e0s vezes o n\u00famero chegava a 17!<\/p>\n<p>Mas aqui a coisa come\u00e7a a mudar levemente de figura: se antes o que valia era o improviso livre, na big band a coisa tem que ficar organizada. Havia arranjos bastante complexos, mas com redu\u00e7\u00e3o de improvisos, at\u00e9 porque \u00e9 um tanto dif\u00edcil escrever um improviso propriamente dito para que todos sigam \u00e0 risca aquilo. Os m\u00fasicos se organizam para combinar passagens espec\u00edficas, entradas, \u201crecheios\u201d, e os improvisos ficam por conta apenas de alguns solos num momento espec\u00edfico. Ainda por cima, a banda tinha um l\u00edder, que ficava por conta geralmente ou do vocal, ou do trompetista.<\/p>\n<p>Nomes aqui n\u00e3o faltam para citar, a lista \u00e9 bem grande: Benny Goodman, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Dizzy gillespie, Count basie, Nat King Cole, Duke Ellington, Glenn Miller, Louis Armstrong, King Oliver\u2019s, Count Basie\u2019s, Bill Challis&#8230; O estilo, que come\u00e7a nos anos 1920, sobrevive at\u00e9 meados dos anos 1950, quando h\u00e1 a queda das big bands e a forma\u00e7\u00e3o de outros tipos e vertentes do jazz. <\/p>\n<p>Entre os anos 1930 e 1940, \u00e9 muito comum chamar esse per\u00edodo de era do swing. Swing vem de \u201cswing feel\u201d, que significa sentir a m\u00fasica swingada, isto \u00e9, com o pulso forte fora da batida, no contratempo da m\u00fasica. Desenhando rapidinho: imagine que tu conte sempre 1 e 2 e 3 e 4, e a \u00eanfase no tempo forte seja no 1 e no 3. Imagine, ent\u00e3o, o contr\u00e1rio, dar \u00eanfase do tempo forte na contagem de 2 e 4? Ou mais ainda, dar \u00eanfase na contagem no meio tempo \u201ce\u201d entre um n\u00famero e outro? Pois \u00e9, \u00e9 isso que as big bands faziam, produzindo uma sensa\u00e7\u00e3o de algo dan\u00e7ado, deslocado. Isso \u00e9 o swing.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 estrutura harm\u00f4nica disso tudo: segue aquela progress\u00e3o clich\u00ea I-IV-V-VII com algumas experimenta\u00e7\u00f5es utilizando a s\u00e9tima diminuta e aumentada, por enquanto, e algumas progress\u00f5es fora do comum como VI-II-III-VII-II-I e V-VII-II-IV-I-III. Os instrumentos de solo (sopros\/metais) adoram fazer solos utilizando os modos l\u00eddio, j\u00f4nio e d\u00f3rico, enquanto que os instrumentos de harmonia (viol\u00e3o, piano) brincam com acordes com 7\u00aa diminuta e aumentada, e acrescentam uma 9\u00aa geralmente no baixo ou invertendo o acorde dando a parecer que a 9\u00aa est\u00e1 no lugar da 3\u00aa. Enquanto isso, as linhas de baixo passeiam por 5as e 3as paralelas, ou entre s\u00e9timas, ao contr\u00e1rio do blues, que utilizava apenas quintas. <\/p>\n<p>Para terminar, breve coment\u00e1rio sobre essa vertente do jazz: ele teve grande import\u00e2ncia no cen\u00e1rio cultural da \u00e9poca, foi usado em grandes espet\u00e1culos da Broadway, e at\u00e9 mesmo em filmes. Quem a\u00ed lembra do tema de James Bond de 1962? Pois \u00e9. Um representante contempor\u00e2neo dessa vertente, ou ao menos at\u00e9 algum tempo atr\u00e1s, \u00e9 Michael Bubl\u00e9. Isso porque, de um tempo pra c\u00e1, ele foi ficando mais pop comercial, rom\u00e2ntico clich\u00ea. Mas ele tem umas interpreta\u00e7\u00f5es bem legais da \u201cgrande era\u201d do swing, que podem ser encontradas no \u00e1lbum \u201cbabalu\u201d. <\/p>\n<p>Nos anos 1940 surge o bebop, uma das mais importantes vertentes do jazz, e que influenciou tantas outras nos anos seguintes. Ele perdura at\u00e9 meados dos anos 1960, j\u00e1 que depois come\u00e7a as separa\u00e7\u00f5es para o jazz modal, o cool jazz e o free jazz. A origem do nome tamb\u00e9m \u00e9 incerta: de um lado h\u00e1 uma hist\u00f3ria bem parecida com aquela sobre o nome do blues, que diz que a palavra vem de uma onomatopeia, algo como \u201cbip bop\u201d, que imitava o som dos martelos batendo nas constru\u00e7\u00f5es de ferrovias; de outro lado, h\u00e1 tamb\u00e9m a refer\u00eancia \u00e0 onomatopeia propriamente dita vinda da t\u00e9cnica do scat sing, que consiste basicamente em transformar em melodia qualquer som labial ou alveolar. \u00c9 algo comum no jazz e mesmo no r&#038;b e soul utilizar aquela coisa do tipo \u201cbe ba da ba tchu bi ra ba du bap&#8230;\u201d. <\/p>\n<p>Nomes aqui tamb\u00e9m n\u00e3o faltam para citar: Miles Davis, Tommy Potter, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Clifford Brown, Art Blakey, Coleman Hawkins, Lester Young, Jack Teagarden, Benny Goodman, Charlie Christian\u2026 Diferentemente das big bands, aqui entram em cena os quartetos e quintetos, geralmente formados por trompete, piano, sax, baixo e bateria. Agora a banda diminui de tamanho, at\u00e9 por que, sabem como \u00e9, com a segunda guerra mundial e a economia novamente abalada, fica dif\u00edcil comprar instrumentos e mesmo pagar o cach\u00ea de v\u00e1rios instrumentistas na big band. Al\u00e9m disso, outro fator curioso para o surgimento dos quintetos de bebop diz respeito a maior liberdade que alguns instrumentistas queriam e n\u00e3o podiam ter em fun\u00e7\u00e3o da exigente disciplina das big bands. E \u00e9 atrav\u00e9s dessa liberdade que criaram algo bastante complexo.<\/p>\n<p>O bebop \u00e9 realmente complexo em termos tanto de arranjo quanto de harmonia, ent\u00e3o vamos por partes. Quanto ao arranjo, a brincadeira j\u00e1 come\u00e7a no ritmo, que agora \u00e9 mais que sincopado e bem r\u00e1pido: se antes havia a \u00eanfase no \u201ce\u201d da contagem dos n\u00fameros, agora dividem mais ainda a contagem de tempo e colocam um segundo \u201ce\u201d. Exemplo bem b\u00e1sico: 1 e E 2 e E 3 e E 4 e E&#8230;\u201d, imagine agora que a \u00eanfase no tempo forte recai sobre o segundo E? Pois \u00e9. N\u00e3o bastasse isso, tira-se a aten\u00e7\u00e3o dos bumbos e coloca-se a \u00eanfase nos pratos de condu\u00e7\u00e3o e no chimbal. Agora a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 mais tuts-taff, e sim taff-tatss taff-tatss. A \u00eanfase \u00e9 sempre nesse som de \u201ctsss&#8230;\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, a estrutura\u00e7\u00e3o geral do arranjo tamb\u00e9m se modifica: \u00e9 apresentado um tema, chamado de \u201chead\u201d no in\u00edcio da m\u00fasica, e em un\u00edssono, e, a partir disso, cada instrumento tem sua vez de solar e improvisar independente e livremente, at\u00e9 que no final da m\u00fasica retornam ao tema principal apresentado no in\u00edcio. Muito raramente podem ocorrer algumas poucas refer\u00eancias nas linhas mel\u00f3dicas \u00e0 \u201chead\u201d inicial, mas n\u00e3o \u00e9 regra. Quanto \u00e0 estrutura harm\u00f4nica, aqui a coisa pega: come\u00e7a-se usando aquela progress\u00e3o blues I-IV-V, mas tamb\u00e9m a cad\u00eancia do tipo II-V-I. Da\u00ed juntando as duas tem-se a progress\u00e3o conhecida como \u201crythm changes\u201d: I-IV-II-V-I. Essa progress\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 mencionada como progress\u00e3o \u201cI got rhythm\u201d, j\u00e1 que foi utilizada pela primeira vez na m\u00fasica que leva o mesmo nome de George Gershwin, em 1930. <\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, essa progress\u00e3o n\u00e3o assusta, partindo de d\u00f3 temos apenas d\u00f3-f\u00e1-r\u00e9-sol-d\u00f3. A coisa come\u00e7a a complicar mesmo quando temos o uso de acordes estendidos e poliacordes, que s\u00e3o enormes acordes com as notas 9, 11, 13, tudo junto. Se antes o acorde tinha s\u00f3 3 ou 4 notas, agora passa a ter at\u00e9 8, \u00e9 algo surreal. Al\u00e9m disso, daquela progress\u00e3o anteriormente citada, aparecem alguns acordes menores intercalados com maiores, os chamados \u201cacordes por empr\u00e9stimo modal\u201d (AEM), que vem de outros modos gregos paralelos ao modo principal que est\u00e1 sendo desenvolvida a linha harm\u00f4nica. Exemplo bem r\u00e1pido: partindo de d\u00f3, I-IV-II-V -> d\u00f3-f\u00e1-r\u00e9-sol, tudo maior, certo? Mas, de repente, come\u00e7a a aparecer um d\u00f3 menor no lugar de d\u00f3 maior, r\u00e9 menor com 6\u00aa e 9\u00aa bemol, e sol menor com s\u00e9tima diminuta seguido de sol maior. Trocando pela sopa de letrinhas, fica algo do tipo: Cm7(9b)-Fm6\/9-Dm9-G7-Gm7(9b).<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o \u00e9 isso, \u00e9 o uso das substitui\u00e7\u00f5es de acordes: consiste basicamente em manter essa progress\u00e3o, mas trocar algum acorde aqui ou ali de forma que este outro assuma a fun\u00e7\u00e3o do antecessor. Exemplo bem b\u00e1sico j\u00e1 existia l\u00e1 no blues: pegar o grau IV e assumir com fun\u00e7\u00e3o de V. Mas o bebop vai mais longe e faz umas substitui\u00e7\u00f5es malucas do tipo IIIm6 (terceiro grau menor com sexta, partindo de d\u00f3 seria mi menor com sexta) no lugar do II, ou bVIm (sexto grau menor bemol, partindo de d\u00f3 seria l\u00e1 bemol menor) no lugar do V. H\u00e1 tamb\u00e9m a famosa substitui\u00e7\u00e3o trit\u00f4nica (acorde subV7 para os \u00edntimos!), que significa \u201cresolver\u201d a tens\u00e3o do V grau usando um acorde a exatos 3 tons abaixo, que por sua vez resulta no bII7 (segundo grau bemol com s\u00e9tima). Partindo de d\u00f3, como exemplo, temos sol no V grau, e r\u00e9 no segundo grau. O subV7, neste caso, vai ser o acorde de r\u00e9 bemol com s\u00e9tima.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, h\u00e1 tamb\u00e9m o uso do alongamento da progress\u00e3o usando encadeamentos ii-V no meio da progress\u00e3o, encadeamentos com 7as e 9as no baixo, invertendo o acorde e tocando na posi\u00e7\u00e3o 3-5-1, uso e abuso de cad\u00eancias perfeitas, imperfeitas, deceptivas, meia cad\u00eancia pro retorno do encadeamento principal, isso sem falar nas modula\u00e7\u00f5es harm\u00f4nicas pesadas que vem l\u00e1 da m\u00fasica erudita, passeando n\u00e3o por tons vizinhos, mas tons distantes como si maior e mi bemol menor. Achou dif\u00edcil? Pois \u00e9, realmente o \u00e9, at\u00e9 para mim. Bebop \u00e9 realmente um g\u00eanero sofisticado, para ouvidos sofisticados, para quem \u00e9 ouvinte ass\u00edduo, treinado, e sabe identificar estruturas complexas na m\u00fasica. <\/p>\n<p>Calma que ainda tem mais: n\u00e3o bastasse tudo isso, ainda h\u00e1 o uso da escala bebop, que consiste numa altera\u00e7\u00e3o do modo grego mixol\u00eddio. Explicando suas origens: Esse modo grego tem a f\u00f3rmula tom-tom-semitom-tom-tom-semitom-tom. Partindo de d\u00f3, vou ter: d\u00f3-r\u00e9-mi-f\u00e1-sol-l\u00e1-si bemol-d\u00f3. Reparem que \u00e9 a escala maior, apenas com a 7\u00aa nota bemol. A escala bebop parte disso e aumenta meio tom no quinto grau, o que resulta em sol sustenido entre sol e l\u00e1. Essa escala produz uma sonoridade um tanto estranha, e ao mesmo tempo intensa.<\/p>\n<p>Por extens\u00e3o do bebop surge, no final dos anos 1940, o hardbop, que de hard n\u00e3o tem nada. Ele tem seu auge nos anos 1950, e decad\u00eancia nos anos 1960. A ideia \u00e9 fazer algo menos pesado que o bebop: aqui a coisa \u00e9 relativamente mais lenta, sem aquele frenesi todo do g\u00eanero anterior, e sem aquelas melodias exigentes se utilizando da escala bebop. A \u00fanica coisa que se mant\u00e9m do g\u00eanero anterior \u00e9 a pulsa\u00e7\u00e3o r\u00edtmica sincopada. H\u00e1 a \u00eanfase para o piano e o saxofone, embora o trompete e trombone ainda continuem l\u00e1. Outra diferen\u00e7a sutil \u00e9 que o hardbop incorpora alguns elementos do gospel e do blues, principalmente o uso de acordes menores, com a \u00eanfase na 3\u00aa menor, junto com a 5\u00aa aumentada e s\u00e9tima diminuta, al\u00e9m daquela linguagem do r&#038;b que j\u00e1 come\u00e7a a aparecer com maior intensidade aqui, se utilizando de encadeamentos com 7as e acordes suspensos. Nomes para citar aqui n\u00e3o s\u00e3o muitos: Horace Silver, Art Blakey, Miles Davis, John Coltrane, Tadd Dameron, Cannoball Adderley, Charles Mingus. <\/p>\n<p>Na contram\u00e3o desse estilo r\u00e1pido e fren\u00e9tico, ao mesmo tempo, nos anos 1940 a 1950, havia o chamado cool jazz. A ideia aqui \u00e9 algo lento, relaxante, pra n\u00e3o dizer \u00e0s vezes melanc\u00f3lico e rom\u00e2ntico. H\u00e1 certa recusa em utilizar as complexidades do bebop, e priorizam-se elementos da m\u00fasica cl\u00e1ssica, como a fuga e contraponto utilizados no per\u00edodo barroco, bem como o clich\u00ea I-IV-V-I, a cad\u00eancia plagal (cad\u00eancia do am\u00e9m, muito utilizada no fim dos hinos), e, curiosamente, tamb\u00e9m a escala hexaf\u00f4nica, que consiste numa escala de seis tons inteiros, com a f\u00f3rmula: tom-tom-tom-tom-tom-tom. Partindo de d\u00f3, como exemplo, vou ter d\u00f3-r\u00e9-mi-f\u00e1#-sol#-l\u00e1#. \u00c9 outra escala que produz uma sonoridade um tanto estranha e intensa, mas&#8230; h\u00e1 quem goste! E digo curiosmente, pois, justamente, essa escala estranha (que mais tarde ser\u00e1 usada no fusion jazz e em outros estilos) tem sua origem l\u00e1 na m\u00fasica cl\u00e1ssica. <\/p>\n<p>Nomes pra citar aqui: come\u00e7a passeando com Miles Davis, Stan Getz, Gerry Mulligan e Chet Baker, mas tamb\u00e9m tem Ted Gioia, Franke Rumbauer, Coleman Hawkins, Gil Evans, John Carisi, John Lewis e Charlie Parker\u2019s. Vai se popularizando pela costa oeste dos EUA, da\u00ed essa vertente do jazz tamb\u00e9m ser chamada de \u201cWest coast jazz\u201d.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nota interessante aqui: a incorpora\u00e7\u00e3o da m\u00fasica cl\u00e1ssica no jazz (lembremos que a principal caracter\u00edstica do g\u00eanero \u00e9 o virtuosismo da improvisa\u00e7\u00e3o!) \u00e9 tamb\u00e9m chamada de \u201cterceira corrente\u201d. Digamos, bem grosso modo, que o bebop\/hardbop seria uma primeira corrente, o cool jazz e o free jazz uma segunda corrente que ia contra a primeira corrente, e uma terceira, contra essas duas, seria essa \u201cterceira corrente\u201d.  O termo, na verdade, \u00e9 cunhado por Gunther Schuller em 1957 para tentar designar o uso da tradi\u00e7\u00e3o erudita no jazz, mas isso gera bastante discuss\u00e3o entre os music\u00f3logos at\u00e9 hoje. <\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 certa influ\u00eancia da m\u00fasica cl\u00e1ssica como em Bela Bartok e Debussy sobre algumas composi\u00e7\u00f5es jazz\u00edsticas, e mesmo utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem jazz\u00edstica por esses compositores. Na outra ponta, nomes como Woody Herman, Mary Lou Williams, George Russel, John Lewis, Jimmy Giuffre, Ran Blake, tentavam incorporar \u00e0 musica jazz os elementos de Debussy e Bartok. Para quem n\u00e3o estudou a fundo esses compositores eruditos, breve explica\u00e7\u00e3o: eles utilizam bastantes disson\u00e2ncias estranhas, intervalos de 2as, 9as, 6as, quando n\u00e3o o cromatismo (notas sustenidas ao lado das naturais) e a escala hexaf\u00f4nica. Se tu ouve Bartok no youtube e j\u00e1 se depara com aquela sonoridade estranha, imagina aquilo incorporado ao jazz e ao improviso? <\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dos estilos bebop e hardbop, surge, nos anos 1950, o jazz modal. O termo \u00e9 cunhado por George Russel em 1953, que tamb\u00e9m era compositor e te\u00f3rico musical. A ideia aqui, diferentemente das outras vertentes, \u00e9 pensar por escalas e n\u00e3o por acordes. Isso significa que toda aquela progress\u00e3o complexa de acordes \u00e9 deixada de lado, e aplicam-se diferentes escalas (modos) para produzir a harmonia. E os modos a serem utilizados aqui, obviamente, s\u00e3o os modos gregos, sendo comum utilizar mais de um modo ao mesmo tempo na mesma melodia (exemplo: modo j\u00f4nio e mixol\u00eddio). Muito raramente se utilizam escalas pentat\u00f4nicas ou hexaf\u00f4nicas aqui. <\/p>\n<p>Embora seja uma \u201crea\u00e7\u00e3o\u201d contra a complexidade do bebop, tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser um g\u00eanero dif\u00edcil e sofisticado, j\u00e1 que saber identificar modos e escalas diferentes tamb\u00e9m se exige muito do ouvinte. H\u00e1 quem diga que o primeiro e mais representativo desse g\u00eanero tenha sido o \u00e1lbum \u201cking of blue\u201d de Miles Davis, mas isso \u00e9 discut\u00edvel. O fato \u00e9 que ele explora sim as v\u00e1rias possibilidades do jazz modal nesse \u00e1lbum, mas nomes para citar em rela\u00e7\u00e3o a esse g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele. H\u00e1 tamb\u00e9m John Coltrane, Chick Corea, Bill Evans, Herbie Hancook, Bobby Hutcherson, Woody Sham, Wayne Shorter, McCoy Tyner e Larry Young. <\/p>\n<p>Ainda nos meados dos anos 1950 e come\u00e7o dos anos 1960, surge outra vertente com uma ideia contr\u00e1ria a essas anteriormente desenvolvidas: o free jazz. Aqui, o termo \u00e9 autoexplicativo: \u201cfree\u201d, liberdade, \u00e9 um jazz desenvolvido com total liberdade e livre de qualquer formalidade t\u00e9cnica de composi\u00e7\u00e3o. A forma tradicional de harmonia-melodia-ritmo aqui \u00e9 abandonada, e tudo se transforma num verdadeiro caos. Antes os compassos eram estruturados em f\u00f3rmulas, geralmente o 4\/4, e a percuss\u00e3o com a \u00eanfase em algum elemento (seja ele prato, bumbo, chimbal) marcava uma m\u00e9trica regular. Agora, no free jazz, a percuss\u00e3o faz o que quer, do jeito que quer, no ritmo que quer. Existem apenas os \u201caccelerandos\u201d e \u201crittardandos\u201d, o tempo todo, dando a impress\u00e3o de que o ritmo se move como uma onda livre. Como se n\u00e3o bastasse, h\u00e1 o uso de instrumentos ditos \u201cn\u00e3o convencionais\u201d, vindos da \u00c1frica, por exemplo. <\/p>\n<p>Em termos de harmonia, a coisa tamb\u00e9m pega, j\u00e1 que se desconsidera o uso do encadeamento de acordes pela escala diat\u00f4nica, bem como os modos gregos. Da\u00ed o conceito de atonalismo, que vem l\u00e1 do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, come\u00e7a a aparecer aqui com for\u00e7a. Nomes para citar aqui tamb\u00e9m s\u00e3o poucos, j\u00e1 que \u00e9 um grupo pequeno que sobreviveu nesses poucos anos: Ornette Coleman, Don Cherry, Scott LaFaro, Charlie Haden, Sun Ra, Billy Higgins, Ed Blackwell, Cecil Taylor, e em menor grau, a produ\u00e7\u00e3o tardia de John Coltrane.<\/p>\n<p>No final dos anos 1960 surge o \u201clatin jazz\u201d, termo que designa toda a produ\u00e7\u00e3o jazz\u00edstica dos pa\u00edses latinos, incluindo o Brasil, com sua bossa nova. Em termos de hist\u00f3ria, sabem como \u00e9, n\u00e3o preciso comentar muito: nessa \u00e9poca o jazz j\u00e1 tinha se espalhado pelo mundo, n\u00e3o ficou apenas nos EUA e Europa, e chegando em outros lugares acaba que incorporando elementos espec\u00edficos de l\u00e1. N\u00e3o raro tu encontra na m\u00fasica cubana o uso de congas, guiros e maracas na percuss\u00e3o, al\u00e9m de xilofones, tabla, e mesmo timbales e bongos. Mas os trompetes ainda continuam l\u00e1!<\/p>\n<p>Em termos de harmonia h\u00e1 tanto elementos da big band como do bebop, com aquelas longas e complexas progress\u00f5es harm\u00f4nicas, e o uso de momentos em un\u00edssono e de solos espec\u00edficos para cada instrumento. Mas a ideia aqui diz respeito ao ritmo: o baixo, ao contr\u00e1rio de 5\u00aas, agora se utiliza de tercinas, que s\u00e3o 3 notas agrupadas em um s\u00f3 tempo do compasso. S\u00f3 que pra piorar mais um pouco, ainda \u00e9 utilizada a poliritmia e as tercinas caem no contratempo. \u00c9 bem comum encontrar, na m\u00fasica latina, aquele ritmo bem marcado do tipo t\u00e1\/t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1\/t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1\/t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1, ou quando n\u00e3o \u00e9 isso, \u00e9 aquele t\u00e1-ca-ti-ca-t\u00e1-ca-ti-ca-t\u00e1-ca-ti-ca&#8230; Isso vem l\u00e1 da habanera, que \u00e9 um g\u00eanero do s\u00e9culo XIX. <\/p>\n<p>J\u00e1 a bossa nova, bem resumidamente, \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem do jazz (especificamente o uso das 9as, 11# e 13b) aplicada \u00e0 m\u00fasica brasileira. Tudo come\u00e7a l\u00e1 no fim dos anos 1950 e come\u00e7o dos anos 1960, quando, na zona sul do Rio de Janeiro, m\u00fasicos come\u00e7am a fazer experimenta\u00e7\u00f5es outras tanto com o ritmo quanto com a harmonia, em rela\u00e7\u00e3o ao que j\u00e1 havia sido feito at\u00e9 ent\u00e3o com as formas de samba j\u00e1 existentes. <\/p>\n<p>Sabem como \u00e9, Sergio Mendes e Jo\u00e3o Donato, que tinham dado umas voltinhas nos EUA, entram em contato com toda aquela linguagem do jazz e trazem isso pra c\u00e1. Da\u00ed inventam de colocar a \u00eanfase no contratempo do compasso, tornando-o sincopado, colocam uns acordes complexos e&#8230; est\u00e1 feito. Da\u00ed colocam-se as letras de Jobim e Moraes e o sucesso est\u00e1 garantido.<\/p>\n<p>Ou seja, a bossa nova tem influ\u00eancia tanto do samba brasileiro quanto do jazz norte americano, particularmente do bebop. Mas, diferentemente do jazz desenvolvido nos pa\u00edses vizinhos \u2013 que tem toda uma gama de instrumentos, incluindo os trompetes, e \u00e9 agitada \u2013 aqui, na bossa nova, tudo \u00e9 tranquilo, m\u00fasica calma, relaxante, vocais baixinhos, e o arranjo fica por conta s\u00f3 de percuss\u00e3o, piano e viol\u00e3o. <\/p>\n<p>As melodias s\u00e3o relativamente simples, mas a harmonia \u00e9 complexa. Exemplos s\u00e3o muitos, dariam p\u00e1ginas e p\u00e1ginas de an\u00e1lise, mas vou citar s\u00f3 um: samba de uma nota s\u00f3. A m\u00fasica \u00e9 basicamente uma nota s\u00f3 repetida incessantemente, mas com v\u00e1rios acordes mudando rapidamente, por vezes em um s\u00f3 compasso. A tessitura harm\u00f4nica \u00e9 complexa, carregada, e usa-se bastante acordes com 9\u00aa bemol, 11#, invers\u00f5es de acordes com a 3\u00aa no baixo ou a 9b no lugar da 3\u00aa, acordes suspensos e por a\u00ed vai. Da\u00ed que uma simples progress\u00e3o do tipo I-IV-V-VII se torna algo complexo pelo uso dessas disson\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Nomes aqui todo mundo conhece: Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Dorival Caymmi, Nelson Motta, Wilson Simonal, Elis Regina, Chico Buarque, Nara Le\u00e3o, Gal Costa&#8230; Mas, os mais representativos mesmo, e que todo mundo se lembra, s\u00e3o Jobim e Moraes. Curioso \u00e9 que a bossa nova \u00e9 l\u00e1 um movimento espec\u00edfico dos anos 1960, depois tudo vira o famoso \u201cMPB\u201d, que engloba muita coisa, inclusive o samba. <\/p>\n<p>Nos anos 1970 surge o \u201cchamber jazz\u201d, ou jazz de c\u00e2mara. Em termos de estrutura harm\u00f4nica n\u00e3o h\u00e1 nada de novidade, \u00e9 quase a mesma linguagem da big band. Mas a ideia aqui \u00e9 utilizar instrumentos da m\u00fasica de c\u00e2mara (geralmente um quinteto ou um ensemble composto de violinos, violoncelo, baixo ac\u00fastico, obo\u00e9 e fagote, piano) no estilo jazz\u00edstico. Aqui \u00e9 deixado de lado os instrumentos de sopros mais comuns no jazz, como o sax e o trompete.<\/p>\n<p>Certamente tu j\u00e1 deve ter ido a algum desses eventos chiques por a\u00ed e se deparou com algum jazz sendo tocado por instrumentos ac\u00fasticos, ao inv\u00e9s de eletroac\u00fasticos&#8230; Mas, aqui, curiosamente tamb\u00e9m aparecem outros instrumentos como o xilofone, mandolim, caba\u00e7a, e tabla. Nomes para citar aqui s\u00e3o: Billy Childs, Mark Feldman, Chico Amilton, Modern Jazz Quartet, Russel Walder.<\/p>\n<p>No final dos anos 1960 e particularmente nos anos 1970, surge o fusion jazz. O termo tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como \u201cjazz rock\u201d: bem resumidamente, algu\u00e9m teve a ideia genial de trazer a linguagem do jazz agora para o rock, misturar riffs como uma base e solos de guitarras improvisados, instrumentos de sopro fazendo solos e recheios, afora instrumentos eletr\u00f4nicos como teclados sintetizadores; al\u00e9m de experimentar o ritmo sincopado no contratempo ao inv\u00e9s do formato \u201cquadradinho\u201d do rock com \u00eanfase no 1\u00ba tempo. Aparentemente, funcionou bem. Mas, ver os instrumentos de sopros que antes faziam solos agora sendo substitu\u00eddos por guitarras, talvez tenha sido uma afronta aos compositores ortodoxos de jazz. Nomes que aparecem aqui s\u00e3o: John McLaughlin, Manfred Mann, Charlie Parker, Miles Davis, Chick Corea, Dave Holland, Herbie hancook, Gary Burton e Larry Coryell.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dessa vertente, tamb\u00e9m nos anos 1970, h\u00e1 o smooth jazz. Ele vem derivado l\u00e1 do cool jazz, da gera\u00e7\u00e3o anterior, mas \u00e9 bem diferente no que se refere ao arranjo e estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica. Isso porque ele n\u00e3o \u00e9 dado a exagera\u00e7\u00f5es e virtuosismos de harmonias complexas, nem ritmo sincopado. O ritmo \u00e9 quadradinho, \u00eanfase no 1\u00ba tempo do compasso, e em termos de estrutura, se assemelha muito ao pop com aquela progress\u00e3o clich\u00ea V-I-IV-II. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 (muito raramente) solos e improvisa\u00e7\u00f5es complexas. <\/p>\n<p>\u00c9 algo f\u00e1cil de ouvir, relaxante, amig\u00e1vel. Sabem essas musiquinhas que tocam em coctail de multinacional (quando n\u00e3o \u00e9 bossa nova instrumental), ou de boutique de grife? Pois \u00e9, \u00e9 aquilo l\u00e1. O nome mais representativo aqui \u00e9 Kenny G (embora ele esteja mais para a easy listening). Nomes contempor\u00e2neos dessa vertente s\u00e3o: Diana Krall, Rachelle Ferrell (embora ela flerte com o bebop dos anos 1940), Michael Franks, Natalie Cole, George Benson e Joe Sample. Essa vertente do jazz vai dar origem, alguns anos depois, \u00e0 lounge music, mas esse eu falo em outro texto, j\u00e1 que flerta com a eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Ainda nos anos 1970, surge o chamado acid jazz, na Inglaterra. Ele tem seu boom na d\u00e9cada seguinte, mas \u00e9 passageiro, logo cai em decl\u00ednio nos anos 1990. Nada de novidade aqui, em termos de estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, ele incorpora muito do hardbop. A diferen\u00e7a mesmo fica por conta do baixo bem enfatizado, n\u00e3o s\u00f3 pelo uso de quintas, mas pelo uso de distor\u00e7\u00e3o e satura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica (pedal fuzzy), dando aquele timbre de baixo fritado, bastante utilizado na m\u00fasica eletr\u00f4nica. Nomes para citar aqui s\u00e3o poucos: Stereo Mcs, Gilles Peterson, Galliano, Young Disciplies, Urban Species, Brand New Heavies, Liquid Soul e Jamioquari.<\/p>\n<p>Para terminar, at\u00e9 porque esse texto j\u00e1 est\u00e1 bem grande, a \u00faltima vertente que penso que merece ser comentada \u00e9 o funky. N\u00e3o \u00e9 o \u201cfunk\u201d carioca n\u00e3o, \u00e9 outra coisa! O neg\u00f3cio surge l\u00e1 no final dos anos 1960 e perdura at\u00e9 nos anos 1980, e \u00e9 uma mistura do jazz, do blues, do soul e do rythm &#038; blues. Acho que todo mundo aqui se lembra de James Brown quando o assunto \u00e9 funky. Mas tem tamb\u00e9m Fatback, the Gap band, Instant Funk, The brothers Johnson, Wild Cherry, Jimmi Bo Horne, Rick James\u2026 S\u00e3o tantos! E um revival contempor\u00e2neo, h\u00e1 que se dizer, \u00e9 Bruno Mars com aquele \u201cupfunk town\u201d.<\/p>\n<p>O que acontece aqui \u00e9 o baixo bem marcado, que se inicia com uma c\u00e9lula r\u00edtmica (um riff, podemos dizer), e a partir disso aparecem os vocais e os outros instrumentos improvisando, mas sempre em cima dessa base no baixo. Outra caracter\u00edstica \u00e9 o uso da t\u00e9cnica do slap, que consiste literalmente em \u201cbater\u201d na corda do baixo, dando um teor de som bem percussivo. Quando n\u00e3o \u00e9 isso, \u00e9 o uso do baixo grooviado, \u00e0 la blues: o baixo constr\u00f3i uma linha mel\u00f3dica independente do resto, como se tivesse tocando outra m\u00fasica, mas que casa com o conjunto todo. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o funky \u00e9 tocado sempre em rodinhas de algumas pessoas, e todo mundo bate palmas (da\u00ed o uso de claps em samples pr\u00e9-gravados) enquanto o baixo faz sua base. \u00c9 o que acontece l\u00e1 em \u201cupfunky town\u201d: o tempo inteiro o baixo faz r\u00e9\/r\u00e9-sol-f\u00e1\/r\u00e9-sol-f\u00e1 d\u00f3-r\u00e9&#8230; Da\u00ed os vocais entram, logo ap\u00f3s os back vocais, os instrumentos de sopro, os teclados, e por a\u00ed vai. <\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica muito interessante \u00e9 que, em algumas m\u00fasicas, a coisa j\u00e1 come\u00e7a explosiva, j\u00e1 direto na dominante, ao inv\u00e9s de ir num crescendo apresentando o tema na fundamental e desenvolvendo-o, \u00e9 como um estouro. Isso acontece com a cl\u00e1ssica \u201cI feel good\u201d, que logo de cara o ouvinte se depara com a dominante nos trompetes. Em termos de harmonia, o funky se utiliza de tudo aquilo que o jazz j\u00e1 utilizou: uso de acordes estendidos, acordes com 6\u00aa e 9\u00aa, e acordes suspensos, al\u00e9m dos modos d\u00f3rico e mixol\u00eddio, preferencialmente.<\/p>\n<p>Para terminar pra valer esse texto, breve coment\u00e1rio sobre as tend\u00eancias contempor\u00e2neas, sob pena de parecer que passei um fac\u00e3o na coisa e parei nos anos 1980. Nos anos 1990, Rachelle Ferrell tr\u00e1s um revival do bebop, com baixo marcado e vocais potentes, uso de guitarras flertando com o smooth jazz e ao mesmo tempo com o soul, enfim, muito bom. Ela usa agud\u00edssimos que ultrapassam Mariah Carey, pasmem! <\/p>\n<p>Ainda em termos de revival, tem Michael Bubl\u00e9 que come\u00e7a trazendo o melhor da \u00e9poca das big bands, mas da\u00ed l\u00e1 pelos anos 2mil passa ao pop rom\u00e2ntico com aquelas can\u00e7\u00f5es \u201chome\u201d e \u201ceverything\u201d, que foram tema de alguma novela por a\u00ed. Paralelo a ele tamb\u00e9m tem Michael Bolton, que come\u00e7a como roqueiro, pasmem, e passa ao jazz nost\u00e1lgico (men\u00e7\u00e3o honrosa para o \u00e1lbum \u201cBolton swing Sinatra\u201d), e da\u00ed passa ao pop rom\u00e2ntico nos anos seguintes.<\/p>\n<p>De outro lado, tem Diana Krall com uma pegada meio rom\u00e2ntica, mas a men\u00e7\u00e3o honrosa mesmo vai para o \u00e1lbum \u201call for you\u201d, em que ela reinterpreta os trabalhos de Nat King Cole. Ao lado dela est\u00e3o Katie Melua (que flerta bastante com o blues tradicional em uma roupagem bem suave \u2013 men\u00e7\u00e3o honrosa para os \u00e1lbuns \u201cPictures\u201d e \u201cpiece by piece\u201d), e Norah Jones que passeia entre o smooth jazz, jazz vocal e um pouco do soul. <\/p>\n<p>Na outra ponta est\u00e1 Joss Stone, que literalmente \u201cd\u00e1 tiro pra todo lado\u201d, indo desde o jazz at\u00e9 o soul passeando pelo r&#038;b. Men\u00e7\u00e3o honrosa para o cd \u201cmind, body &#038; soul\u201d, meu preferido. Enquanto isso, do outro lado do oceano, tem Jamie Cullum, eu simplesmente adoro esse cara! Ele mistura jazz, pop, fusion, faz toda uma mistureba alternativa, mas sem soar exagerado. Ele sabe o que est\u00e1 fazendo, e o faz com maestria. Men\u00e7\u00e3o honrosa para o \u00e1lbum \u201cthe poursuit\u201d, l\u00e1 d\u00e1 pra ilustrar bem o que digo.<\/p>\n<p>Dentro dos grandes artistas da m\u00eddia, cito tamb\u00e9m Madeleine Peyroux, Ute Lemper, Basia, Randy Crawford que trazem novas roupagens do blues e jazz contempor\u00e2neo, e que bebem no fusion jazz l\u00e1 dos anos 1970 com algo meio pop. Para al\u00e9m destes, h\u00e1 tamb\u00e9m pequenos grupos de jazz e blues espalhados por a\u00ed (em SP e Curitiba, por exemplo)e por vezes desconhecidos. Mas diria que, talvez num tom nost\u00e1lgico, a grande era do jazz e blues j\u00e1 se foi. Hoje ele apenas existe de maneira dispersa (se pensarmos no grande mercado fonogr\u00e1fico), como um g\u00eanero elitista, feito para elites, e, portanto pouco apreciado. Bem, \u00e9 isso. Espero ter conseguido elucidar bem as diferen\u00e7as sutis de cada vertente do g\u00eanero.<\/p>\n<p><strong>Por: Ge<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. 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