{"id":15434,"date":"2019-07-28T16:00:49","date_gmt":"2019-07-28T19:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15434"},"modified":"2019-07-28T14:36:35","modified_gmt":"2019-07-28T17:36:35","slug":"infiltrada-no-puteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/07\/infiltrada-no-puteiro\/","title":{"rendered":"Infiltrada no puteiro."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Infiltrada no puteiro<\/h2>\n<p>Prost\u00edbulo, bordel, casa de entretenimento adulto ou, simplesmente, puteiro. Muitas mulheres tem curiosidade em saber como \u00e9 um dos mais controversos ambientes frequentados pelo p\u00fablico masculino, al\u00e9m da sauna e do jogo semanal de futebol. Tive a experi\u00eancia de conhecer um destes lugares e vou compartilh\u00e1-la com voc\u00eas.<!--more--><\/p>\n<p>O fato aconteceu h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada quando a equipe do trabalho estava reunida ap\u00f3s o expediente para comemorar o t\u00e9rmino de um projeto. Uma das mulheres comentou que tinha curiosidade em saber como era um puteiro. Um dos homens, frequentador ass\u00edduo de um determinado estabelecimento na cidade, animou-se com a possibilidade de ser nosso anfitri\u00e3o em um programa (sem trocadilho) inusitado, e se ofereceu para nos levar at\u00e9 l\u00e1. Aceitamos ap\u00f3s algum tempo debatendo a proposta, e assim come\u00e7ou uma s\u00e9rie de experi\u00eancias antropol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Para facilitar a narrativa, usarei um codinome para o colega que assumiu a frente desta empreitada e que foi o principal personagem em boa parte das situa\u00e7\u00f5es da noite. Por motivos de pregui\u00e7a, seu codinome ser\u00e1 Beija-Flor. Fatos interessantes sobre ele: truculento, arrogante, exibicionista, egoc\u00eantrico e na \u00e9poca tinha uma namorada que atualmente \u00e9 sua esposa e m\u00e3e de seus filhos.<\/p>\n<p>Chegamos ao estabelecimento que, naquele tempo, era considerado o mais \u201cclassudo\u201d da cidade. Existe at\u00e9 hoje, mas n\u00e3o sei se continua com o mesmo status ou se foi desbancado de sua posi\u00e7\u00e3o por outro empreendimento. Na entrada, um obst\u00e1culo: o porteiro do puteiro. N\u00e3o sei se ele tem um cargo mais elegante, como o ma\u00eetre de um restaurante, mas a rima \u00e9 boa demais para n\u00e3o us\u00e1-la. Carrancudo, proibiu a entrada das mulheres do grupo com a justificativa de que poder\u00edamos encontrar o marido de uma amiga e fazer um esc\u00e2ndalo. Embora n\u00e3o fosse nosso objetivo, achei a postura dele coerente e precavida. Pontos pelo profissionalismo.<\/p>\n<p>Neste momento, um fato curioso aconteceu. Beija-Flor come\u00e7ou a conversar com o funcion\u00e1rio com uma voz suave como eu nunca havia visto conversar nem com o gerente da empresa, de forma paciente, humilde e em um processo gentil de explica\u00e7\u00f5es sobre o fato de n\u00f3s, as mulheres, sermos muito tranquilas, de estarmos apenas curiosas sobre o lugar, de que ele tinha certeza de que tudo correria de forma serena e outras justificativas mais. Era engra\u00e7ado ver aquele homem corpulento olhando para baixo em um di\u00e1logo submisso com o baixinho careca e de bigode vestindo um terno. Se todos t\u00eam um calcanhar de Aquiles, hav\u00edamos descoberto qual era o do Beija-Flor.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s algum tempo de negocia\u00e7\u00f5es o porteiro do puteiro, muito a contragosto, deixou-nos entrar, n\u00e3o sem antes dizer que estaria o tempo todo de olho em n\u00f3s &#8211; ou melhor, \u201cde olho nelas\u201d, j\u00e1 que ele falava apenas com o Beija-Flor e se dirigia \u00e0 parte feminina do grupo apenas para nos direcionar olhares muito desconfiados. N\u00e3o sei se ele foi vencido pelo cansa\u00e7o, se rolou camaradagem ou ent\u00e3o alguma propina muito discreta.<\/p>\n<p>A entrada era cheia de tapetes enormes e muito bregas, e a sensa\u00e7\u00e3o de andar sobre eles foi estranha, como se estivesse indo a um casamento nos anos 80. Achei que algu\u00e9m vestido de branco jogaria um Campari em mim. O local era como uma casa noturna, com um grande pista onde estavam espalhadas pequenas mesas sem cadeiras. Ao redor das paredes havia uma estrutura parecida com uma arquibancada, na qual era poss\u00edvel sentar. Tr\u00eas pequenos palcos completavam o local, dispostos um em cada parede, formando um tri\u00e2ngulo imagin\u00e1rio. A casa estava praticamente lotada.<\/p>\n<p>Paramos ao lado de um dos palcos, na parte alta que permitia sentar e oferecia uma boa vis\u00e3o do lugar como um todo. O porteiro do puteiro n\u00e3o deixou sua promessa morrer e, com uma certa frequ\u00eancia, aparecia pr\u00f3ximo \u00e0 entrada com cara de poucos amigos e avaliava se nosso comportamento estava sendo adequado. Pontos pela persist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na pista, havia muitas mulheres atendendo a todos os gostos e poderes aquisitivos. Barangas, lind\u00edssimas, gordinhas, modeletes, roupa brega, roupa mais arrumada, mas o que era comum a todas era o estere\u00f3tipo de muita maquiagem, pouco tecido e bastante corpo exposto. Pela reputa\u00e7\u00e3o do lugar, achei que encontraria apenas mulheres bem cuidadas cobrando valores exorbitantes, mas Beija-Flor explicou que havia uma grande diversidade de oferta para atender a diversos p\u00fablicos. <\/p>\n<p>Conhecemos, tamb\u00e9m, o modus operandi do local. As mulheres circulavam e, se n\u00e3o fossem abordadas por ningu\u00e9m, dirigiam-se a algum poss\u00edvel cliente e puxavam assunto. Se o cidad\u00e3o oferecesse a elas uma bebida, isso era um bom ind\u00edcio de que poderia estar interessado em dar continuidade a algo mais rent\u00e1vel. Se n\u00e3o houvesse a iniciativa, as mulheres pediam que ele lhes pagasse uma bebida. Se o homem recusasse ou se fizesse de sonso elas deduziam que era p\u00e3o-duro e n\u00e3o perdiam tempo tentando investir, voltando a circular em busca de novos poss\u00edveis clientes. Caso o match acontecesse, havia duas possibilidades de log\u00edstica: pagar um dos quartos que ficavam em uma \u00e1rea reservada na casa, ou ir a um motel ou qualquer outro lugar solicitado pelo cliente. N\u00e3o lembro de detalhes referente ao comissionamento do dono do estabelecimento nesta transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Observei que as mo\u00e7as tomavam uma bebida gaseificada sabor lim\u00e3o que era muito consumida pelas mulheres nas danceterias no final dos anos 90, in\u00edcio dos anos 2000, mas n\u00e3o naquele per\u00edodo. Achei curiosamente vintage. Questionei ao Beija-Flor qual o motivo de toda aquela ladainha com bebida &#8211; j\u00e1 que todos estavam ali para pagar por mulher, por que n\u00e3o iam direto ao assunto? Ele explicou que as mulheres eram orientadas pelo propriet\u00e1rio a fazer os clientes consumirem o m\u00e1ximo poss\u00edvel de bebida, que gerava boa parte do lucro. Curiosa, perguntei o pre\u00e7o de uma cerveja e da ice que as mulheres bebiam. Era absurdamente mais caro do que o valor dos mesmos produtos em um bar ou danceteria &#8211; que, por sua vez, j\u00e1 \u00e9 bem mais alto do que o valor de supermercado. Tive um ataque de riso quando ele disse que  muitos homens iam l\u00e1 com frequ\u00eancia s\u00f3 para beber uma cerveja com amigos, sem contratar os servi\u00e7os de prostitui\u00e7\u00e3o. Imagino que a cerveja tenha um sabor especial quando voc\u00ea paga o equivalente a um rim por ela.<\/p>\n<p>Nos j\u00e1 citados tr\u00eas palcos acontecia um revezamento de apresenta\u00e7\u00f5es de striptease. No palco ao lado de onde est\u00e1vamos, uma jovem e bonita mulher come\u00e7ou a performar. As mulheres do nosso grupo come\u00e7aram a avaliar a coreografia, a delicadeza ao retirar as pe\u00e7as de roupa e a gra\u00e7a dos movimentos. Devido \u00e0  proximidade pude observar que ela tinha uma cicatriz aparente de ces\u00e1rea pr\u00f3xima a virilha. Isso me causou uma grande tristeza e pensei na crian\u00e7a em casa, possivelmente aos cuidados da av\u00f3, enquanto a m\u00e3e estava ganhando dinheiro tirando a roupa para desconhecidos. A\u00ed est\u00e1 o verdadeiro significado da express\u00e3o \u201cfilho da puta\u201d. Fui tirada desse devaneio pelos olhares de dois rapazes que estavam em frente ao palco, mas com os rostos em nossa dire\u00e7\u00e3o, visivelmente confusos. Ainda sob o efeito da lembran\u00e7a amarga do filho da puta apontei para a mulher, indicando com um grito (o volume da m\u00fasica era alto para se fazer ouvir) que o show era ali. Eles viraram um pouco constrangidos. Nem minhas pr\u00f3prias cicatrizes me mobilizaram tanto.<\/p>\n<p>Perguntei ao Beija-Flor sobre o outro tipo de dan\u00e7a que acontecia no lugar, pois vi que \u00e0s vezes alguma mulher subia em uma das mesas na pista para dan\u00e7ar, mas sem tirar a roupa. Ele explicou que os homens podiam pagar por dan\u00e7as privadas e, com os olhos brilhando, disse que ia contratar uma para que pud\u00e9ssemos ver como era. Fiquei bastante confusa com o conceito de \u201cprivada\u201d. O homem pagava cinquenta reais para uma mulher subir em uma mesa e dan\u00e7ar sensualmente para ele por alguns minutos, olhando nos seus olhos, fingindo que ele era &#8220;o cara&#8221;, enquanto os demais que n\u00e3o pagaram nada se amontoavam ao seu redor para desfrutar gratuitamente da exibi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faz sentido para mim, mas o que fazia sentido l\u00e1?<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m um momento muito estranho no qual um tioz\u00e3o meio alcoolizado tentou iniciar um di\u00e1logo comigo, mesmo eu estando vestida dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a (era uma noite muito fria), sem beber e destoando totalmente do dress code do lugar. Cortei a conversa, explicando que eu n\u00e3o era puta. Desconfiado, perguntou o que eu estava fazendo no lugar. Recorri \u00e0 velha desculpa das solteiras quando n\u00e3o querem ser importunadas por homens insistentes de que estava l\u00e1 com meu namorado. Ele n\u00e3o acreditou e se tornou mais invasivo. Sa\u00ed dali e o primeiro conhecido que encontrei foi Beija-Flor. Na minha inoc\u00eancia da \u00e9poca, pedi a ele que ficasse conversando comigo porque outro homem estava me importunando. Beija-Flor encarnou o namorado fake ofendido e quis partir para a briga. Assustada e irritada, falei para ele parar com aquilo. Hoje sei que n\u00e3o havia motivo para preocupa\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o havia por perto uma turma do \u201cdeixa disso\u201d para que ele pudesse dizer coisas como \u201cme segura que eu vou quebrar a cara dele\u201d enquanto segurava o bra\u00e7o de um amigo.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, resolvemos ir embora. O porteiro do puteiro, ao nos ver saindo, fez uma express\u00e3o de al\u00edvio que me fez simpatizar com ele. \u00c0s vezes, tudo o que voc\u00ea n\u00e3o precisa \u00e9 de uma mulher barraqueira no seu turno de trabalho. Contagiadas pelo clima de divers\u00e3o, agradecemos a ele efusivamente pela oportunidade, elogiando o bom gosto da decora\u00e7\u00e3o do local e, principalmente, a eleg\u00e2ncia dos tapetes. Mais ou menos como quando uma m\u00e3e orgulhosa nos mostra um beb\u00ea feio, e ficamos sem saber o que fazer e come\u00e7amos a mentir exageradamente sobre a beleza da crian\u00e7a. Ele abriu um grande sorriso, agradeceu transbordando simpatia e sequer parecia o mesmo homem que queria barrar nossa entrada. Foi uma decis\u00e3o arriscada, isto \u00e9 fato. Pontos pela ousadia.<\/p>\n<p>Minha grande frustra\u00e7\u00e3o naquela noite foi n\u00e3o ter encontrado nenhum conhecido para chegar sorrateiramente dando um tapinha em suas costas e, quando ele virasse, gritar feito o Sergio Mallandro: &#8220;R\u00e1! Te peguei no puteeeiro, bem na v\u00e9spera do meu encontro com a (nome aleat\u00f3rio da namorada\/noiva\/esposa)!&#8221;. Talvez tenha sido melhor assim. Vai que o SAMU n\u00e3o chegasse a tempo para tratar o ataque card\u00edaco?<\/p>\n<p><strong>Por: Morgana<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. 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