{"id":15553,"date":"2019-08-25T16:00:24","date_gmt":"2019-08-25T19:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15553"},"modified":"2019-08-25T14:43:32","modified_gmt":"2019-08-25T17:43:32","slug":"generos-musicais-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/08\/generos-musicais-samba\/","title":{"rendered":"G\u00eaneros Musicais &#8211; Samba"},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Tio Ge explica \u2013 g\u00eaneros musicais 4 \u2013 Samba<\/h2>\n<p>Continuando, ent\u00e3o, a s\u00e9rie, hoje eu falo de samba. Nesse g\u00eanero h\u00e1 mais uma hist\u00f3ria do samba a ser contada e comentada do que v\u00e1rios subg\u00eaneros distintos entre si, como no caso do jazz. Ali\u00e1s, se me permitem uma compara\u00e7\u00e3o um tanto grotesca, o samba \u00e9 mais ou menos como o blues: ele mant\u00e9m uma estrutura base que sobrevive e h\u00e1 algumas pequenas mudan\u00e7as aqui e ali em cada subg\u00eanero. Mais ainda, como veremos, a marca principal do samba \u00e9 o baixo seguindo uma linha mel\u00f3dica em intervalos de quinta e o ritmo saltado com andamento 2\/4 no compasso (muito raramente aparece o compasso em 4\/4), ou seja, tu conta sempre 1 e 2 e 1 e 2&#8230; Sendo que no tempo 1 recai o som do surdo na bateria. Isso s\u00f3 n\u00e3o vale para o samba sincopado, em que a \u00eanfase no tempo forte \u00e9 no \u201ce\u201d entre os n\u00fameros.<!--more--><\/p>\n<p>Bem resumidamente, a hist\u00f3ria do samba \u00e9: come\u00e7a l\u00e1 no interior da Bahia, no s\u00e9culo XIX, vai para o Rio De Janeiro, se espalha por Minas Gerais e S\u00e3o Paulo, al\u00e9m do nordeste, vira motivo de enredo de escola de samba (da\u00ed o nome \u201csamba-enredo\u201d), \u00e9 utilizado como propaganda nacionalista na \u00e9poca Get\u00falio Vargas, depois elevado a patrim\u00f4nio da cultura nacional, e, na contemporaneidade, h\u00e1 a populariza\u00e7\u00e3o do pagode, al\u00e9m da mistura de outros g\u00eaneros como o rock, o rap e a eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Mas, para florear melhor o texto, deixem-me acrescentar detalhes interessantes: o samba tem ra\u00edzes da m\u00fasica africana (logo, o uso de quintas como vimos em outro texto), e tudo come\u00e7a l\u00e1 no interior da Bahia, por volta de 1830 (ou talvez at\u00e9 mesmo antes, mas os registros oficiais da hist\u00f3ria apontam para essa data), quando os escravos se juntavam pra fazer suas \u201cbatucadas\u201d. At\u00e9 a\u00ed, o nome samba ainda n\u00e3o existia, e o termo \u201cbatuque\u201d se referia a qualquer manifesta\u00e7\u00e3o em que se juntavam v\u00e1rios negros e come\u00e7avam a cantar e batucar com qualquer coisa que tivessem em m\u00e3os: seja pedrinha contra pedrinha, cocos, prato com faca, ou lata d\u2019\u00e1gua com paus.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, breve adendo antropol\u00f3gico aqui: na concep\u00e7\u00e3o da cultura africana, acredita-se que o batuque gere ritmo, e esse ritmo serve justamente para entrar em transe, e da\u00ed ter contato entre o profano e o divino, entre o homem e os deuses, e mesmo entre o homem e seus antepassados. Essa ideia de que deus (ou os deuses) est\u00e3o em todas as coisas na natureza, e que os antepassados ainda est\u00e3o entre n\u00f3s humanos, \u00e9 muito forte na cultura africana. Mais do que isso, a m\u00fasica, mais do que um simples artefato art\u00edstico para aprecia\u00e7\u00e3o (como o \u00e9 na cultura ocidental), serve como ferramenta e instrumento para esse contato sobrenatural. Da\u00ed a raz\u00e3o de se utiliza-la em contextos de rituais, de celebra\u00e7\u00e3o, entre outros.<\/p>\n<p>Fechando o par\u00eanteses, o termo \u201csamba\u201d vai aparecer s\u00f3 alguns anos mais tarde, com a denomina\u00e7\u00e3o primeira de \u201csamba de roda\u201d. O nome aqui \u00e9 autoexplicativo: juntavam-se v\u00e1rias pessoas numa roda, come\u00e7ava-se a bater palmas, e da\u00ed algu\u00e9m cantava alguns versos, e logo em seguida, a voz era passada para outro e assim continuava, num ritmo contagiante, sem deixar parar. Esse tipo de samba, ainda na Bahia, vai ser a base para o samba carioca alguns anos mais tarde, e est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 capoeira. Da\u00ed aqui existem duas variantes desse g\u00eanero: o samba chulado e o samba corrido. No chulado h\u00e1 primeiro a declama\u00e7\u00e3o da chula, uma forma de poesia, e s\u00f3 depois todos os membros come\u00e7am a dan\u00e7ar e sambar. No corrido, todo mundo samba e dan\u00e7a ao mesmo tempo em que o vocal solo declama seus versos, alternando-se com o coro. Detalhe que aqui n\u00e3o costuma ter a estrutura verso-refr\u00e3o, \u00e9 apenas uma sess\u00e3o de versos cont\u00ednuos. Instrumentos utilizados at\u00e9 aqui s\u00e3o apenas o viol\u00e3o, atabaque, pandeiro e chocalho, n\u00e3o passava disso. <\/p>\n<p>Esse samba de roda se expande geograficamente, e vai parar no Rio de Janeiro. L\u00e1 a coisa toma forma com as ditas \u201ctias baianas\u201d, que eram as tias negras de famosos compositores na \u00e9poca, tais como Tia Am\u00e9lia, a m\u00e3e de Donga, Tia M\u00f4nica, m\u00e3e de Pendengo, Tia Prisciliana, m\u00e3e de Jo\u00e3o da Baiana, Tia Rosa Ol\u00e9, Tia Sadata e Tia veridiana, m\u00e3e de Chico da Baiana. Mas a mais famosa na hist\u00f3ria mesmo \u00e9 tia Ciata, m\u00e3e de santo que reunia v\u00e1rios sambistas em sua casa, na pra\u00e7a onze. Detalhe interessante que, nas escolas de samba, a ala das baianas faz refer\u00eancia direta a essas tias e sua grande import\u00e2ncia. \u00c9 desse entremeio que nasce o subg\u00eanero \u201csamba-raiado\u201d. Aqui, a \u00fanica diferen\u00e7a b\u00e1sica \u00e9 que come\u00e7am-se a utilizar talheres de metal e lou\u00e7as, da\u00ed dar o som \u201craiado\u201d do metal. <\/p>\n<p>H\u00e1 ainda que se comentar, brevemente, sobre os caracteres coreogr\u00e1ficos que est\u00e3o incumbidos no samba de roda: dentre algumas poucas varia\u00e7\u00f5es, temos o \u201csamba-de-chave\u201d, que consiste em, numa roda, algu\u00e9m procurar uma chave e, quando encontr\u00e1-la, passar a outro para escond\u00ea-la e assim outro participante passar a procurar e assim por diante. Al\u00e9m desses tem os movimentos espec\u00edficos que imitam o corte de uma jaca, separar o visgo e apanhar os bagos. Outra dan\u00e7a interessante inserida a\u00ed no meio s\u00e3o as umbigadas, que consiste numa dan\u00e7a em que os negros, com o umbigo de fora, batiam contra os umbigos das mulheres, enquanto sambavam e batiam as m\u00e3os para cima. <\/p>\n<p>Enquanto o samba de roda se alastrava pelo cen\u00e1rio urbano do Rio de Janeiro, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o samba na sua forma tradicional continuava na Bahia, mas agora com o nome de samba duro. Nenhuma mudan\u00e7a significativa at\u00e9 aqui, em termos de estrutura\u00e7\u00e3o de arranjo. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o marco fundador do g\u00eanero parece ter sido a can\u00e7\u00e3o \u201cpelo telefone\u201d, de Donga e Mauro de Almeida, gravada em 1917. <\/p>\n<p>A partir da influ\u00eancia das umbigadas surge tamb\u00e9m o samba-de-partido-alto. A diferen\u00e7a aqui reside no fato de que agora inserem-se mais instrumentos de percuss\u00e3o, al\u00e9m do atabaque e berimbau, e segue o esquema verso-refr\u00e3o com solos e versos improvisados na forma de quadra e intercalados (raiados) com o verso principal. H\u00e1 o termo \u201cpartideiro\u201d, que se refere \u00e0 pessoa (geralmente duas) que tomam partido na coisa, no meio da roda, pra inserir versos improvisados, mas respeitando o ritmo e andamento. O tom \u00e9 sempre bem-humorado e brincalh\u00e3o, com duplicidades de sentido nas letras, e o termo partido-alto \u00e9 um tanto controverso, j\u00e1 que tamb\u00e9m se refere ao fato de que esse tipo de samba se desenvolveu nas elites cariocas, entre os brancos. <\/p>\n<p>Novamente, at\u00e9 aqui, o samba ainda \u00e9 \u201cpobre\u201d em termos de harmonia. No m\u00e1ximo h\u00e1 flautas (influ\u00eancia do choro, que \u00e9 outro g\u00eanero brasileiro que vem l\u00e1 do s\u00e9culo XIX) e um viol\u00e3o ou dois, quase sempre com a simples progress\u00e3o IV-V-I, sempre se repetindo incessantemente sobre uma base de baixo em quintas. Harmonias mais complexas v\u00e3o aparecer s\u00f3 l\u00e1 na frente, com a populariza\u00e7\u00e3o do pagode. <\/p>\n<p>Mas a coisa come\u00e7a a mudar a partir da chamada \u201csegunda gera\u00e7\u00e3o\u201d ou turma do Est\u00e1cio, na d\u00e9cada de 1920 at\u00e9 meados de 1930. Aquilo que come\u00e7ou no centro do Rio de Janeiro se espalha pelos bairros e morros, e \u00e9 particularmente no bairro Est\u00e1cio de S\u00e1 que se consolida uma nova forma de samba. Agora se inserem surdos e tamborins, cavaquinho, cu\u00edca, pandeiro e chocalho, al\u00e9m das flautas, viol\u00f5es e os vocais. Aqui a coisa fica mais \u201cmarcada\u201d, menos swingada, em termos de andamento, e o improviso que existia anteriormente no partido-alto d\u00e1 lugar a sequ\u00eancias pr\u00e9-estabelecidas que obedecem ao esquema verso-refr\u00e3o-verso. E, curiosamente, em termos de harmonia, aqui come\u00e7am a aparecer coisas mais complexas como acordes com 7\u00aa diminuta, 5\u00aa aumentada, e 9a bemol. Nomes para citar aqui s\u00e3o: Ary Barroso, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Cartola, Paulo da Portela e Geraldo Pereira. Detalhe que esse tipo de samba vai logo ser incorporado nas escolas de samba, ou seja: a cria\u00e7\u00e3o do samba, de novas can\u00e7\u00f5es e novas composi\u00e7\u00f5es, est\u00e1 intimamente ligada ao per\u00edodo do carnaval.<\/p>\n<p>Nos anos 1930 o samba do Rio de Janeiro alcan\u00e7a dimens\u00f5es nacionais. Sabem como \u00e9, com a ajuda do r\u00e1dio, a difus\u00e3o do samba ganharia adeptos em todo pais, e com a ajudinha do governo na Era Vargas, a coisa era promissora. Eleva-se o samba ao status de \u201cs\u00edmbolo nacional\u201d, e da\u00ed surgem os termos \u201csamba-can\u00e7\u00e3o\u201d e \u201csamba-exalta\u00e7\u00e3o\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m, de outro lado, a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica crescente, vendendo discos de 78rpm, o que obrigava aos m\u00fasicos a encaixarem suas composi\u00e7\u00f5es em algo padronizado em torno de tr\u00eas minutos.<\/p>\n<p>Quanto ao samba-can\u00e7\u00e3o, o termo novamente \u00e9 autoexplicativo: tende-se a valorizar mais a melodia do que o improviso, e desenvolv\u00ea-la com maior profundidade. Isso significa tamb\u00e9m mudar um pouco a estrutura harm\u00f4nica, e da\u00ed se explica o aparecimento de progress\u00f5es mais longas do tipo I-IV-V-VII com varia\u00e7\u00f5es entre acordes menores e maiores, com 7\u00aa e 9\u00aa bemol. Detalhe que essas m\u00fasicas eram compostas em per\u00edodos que n\u00e3o eram do carnaval (as do carnaval se chamavam justamente samba-enredo), por isso tamb\u00e9m s\u00e3o chamadas de \u201csamba de meio do ano\u201d. Detalhe tamb\u00e9m que aqui o samba \u00e9 mais lento, menos euf\u00f3rico que o samba de partido alto, justamente pra dar um ar de balada \u00e0 coisa.  Nomes pra citar aqui s\u00e3o Henrique Vogeler, Luis Peixoto, Maysa, Angela Maria, Nelson Cavaquinho, Eliseth Cardoso, Dolores Duran, Jo\u00e3o de Barro, e Noel Rosa.<\/p>\n<p>J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao samba-exalta\u00e7\u00e3o, esse se difere pela sofistica\u00e7\u00e3o e refinamento, chegando bem pr\u00f3ximo do erudito jazz\u00edstico, ao inv\u00e9s de toda aquela \u201cbatucada improvisada\u201d de antes. O que conta aqui mesmo \u00e9 o teor das letras da m\u00fasica, que sempre exalta as qualidades e grandiosidades do Brasil. Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, parece ter sido a can\u00e7\u00e3o fundadora desse g\u00eanero. Foi o tipo de m\u00fasica utilizada na Era Vargas para exaltar o pa\u00eds. <\/p>\n<p>Paralelo a isso tamb\u00e9m est\u00e1 o samba-de-terreiro e o samba-enredo. O segundo j\u00e1 havia comentado acima, serve como enredo para os desfiles das escolas de samba; j\u00e1 o primeiro \u00e9 um primitivo do segundo. Explico: antes de virar samba-enredo propriamente dito, esses sambas eram tocados em quadras (terreiros) de escola de samba, geralmente para animar festas antes da \u00e9poca dos desfiles. N\u00e3o h\u00e1 nada de especial aqui em termos de estrutura harm\u00f4nica, apenas o arranjo que \u00e9 mais rico e carregado com aquele monte de instrumentos da bateria de escola de samba.<br \/>\nEnquanto isso, ainda nos meandros dos anos 1930 at\u00e9 1940, surgia tamb\u00e9m o samba-choro e o samba-de-breque. O primeiro \u00e9 uma mistura do ritmo do samba com o fraseado mel\u00f3dico caracter\u00edstico do choro, que consiste basicamente em um instrumento de sopro (geralmente a flauta transversa) realizando longas frases mel\u00f3dicas. E, novamente, com grande fraseado mel\u00f3dico, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m fazer um grande fraseado harm\u00f4nico, inserindo v\u00e1rios acordes numa progress\u00e3o. O diferencial aqui \u00e9 que come\u00e7am a explorar mais a famosa cad\u00eancia deceptiva, que bem resumidamente, \u00e9 quando se introduz uma sequ\u00eancia de acordes esperada e h\u00e1 um efeito de surpresa, j\u00e1 que aquela progress\u00e3o n\u00e3o se conclui na fundamental\/t\u00f4nica. <\/p>\n<p>Mais do que isso, come\u00e7a-se a experimentar o uso das progress\u00f5es de maneira invertida (exemplo: ao inv\u00e9s de tocar certinho os acordes I-IV-V-VII, toca-se VII-V-IV-I), dando aquela sensa\u00e7\u00e3o gostosa de que algo est\u00e1 caindo. Essa \u00e9 a famosa \u201ccad\u00eancia do samba\u201d que agrada a todo mundo e que est\u00e1 presente na maioria das can\u00e7\u00f5es por a\u00ed. <\/p>\n<p>Quanto ao samba-de-breque, tem a ver com a palavra em ingl\u00eas \u201cbreak\u201d, que significa parada, freio. Essa variante do samba se caracteriza pela utiliza\u00e7\u00e3o de uma parada brusca no meio da m\u00fasica a fim de inserir algum coment\u00e1rio do vocalista principal, geralmente um novo verso improvisado, ou as vezes pequenos di\u00e1logos. Exemplos dessa vertente para citar s\u00e3o Geraldo Pereira, Luis Barbosa, Moreira da Silva e Sinh\u00f4.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa \u00e9poca \u2013 l\u00e1 pelos anos 1940 at\u00e9 os anos 1950 \u2013 que surge tamb\u00e9m o samba de gafieira, que n\u00e3o se trata exatamente de um estilo de samba, mas sim de um estilo de dan\u00e7a. Ao lado dele h\u00e1 tamb\u00e9m o samba sincopado, que como voc\u00eas j\u00e1 devem saber pelos outros textos, tem a ver com um modo diferente de contar o tempo no compasso. O andamento continua sendo 2\/4, ou seja, tu conta 1 e 2 e 1 e 2&#8230; Mas a \u00eanfase no tempo forte \u00e9 dada no \u201ce\u201d ou no 2\u00ba tempo, ao inv\u00e9s do primeiro tempo. S\u00f3 que lembrem que o samba carrega uma complexa  percuss\u00e3o com v\u00e1rios elementos, e modificar a contagem e o andamento torna tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo oferece outras possibilidades de arranjo. \u00c9 da\u00ed que surge aquele tal do \u201ctelecoteco\u201d, j\u00e1 que a percuss\u00e3o brinca com isso.<\/p>\n<p>Nos anos 1950 a coisa fica no m\u00ednimo curiosa: de um lado, h\u00e1 o surgimento da bossa nova, como j\u00e1 dito em outro texto, influenciado pelo jazz l\u00e1 fora; de outro, h\u00e1 o surgimento do sambalan\u00e7o , da sambalada e do samba-jazz. Aqui a coisa come\u00e7a a ficar um pouco complicada para diferenciar um do outro, ent\u00e3o vamos por partes. <\/p>\n<p>O sambalada \u00e9 a mistura de samba com balada rom\u00e2ntica, o que resulta naquelas letras melosas de dor de cotovelo, e um ritmo mais lento, justamente pra dan\u00e7ar agarradinho. \u00c9 como se fosse a balada rom\u00e2ntica, mas com os instrumentos do samba: viol\u00e3o, cavaquinho, viola, tamborim, cu\u00edca e tudo mais. Sem surpresas harm\u00f4nicas grandiosas aqui, apenas uma progress\u00e3o clich\u00ea que funciona bem para a balada, que \u00e9 o V-I-IV-VII ou o I-IV-V-VII. <\/p>\n<p>O sambalan\u00e7o, por sua vez, \u00e9 algo agitado e alegre, tamb\u00e9m pra dan\u00e7ar, e ele surge mais ou menos junto com a bossa nova, e era tocado em boates e cabar\u00e9s por a\u00ed. H\u00e1 quem diga que ele \u00e9 um derivado deste, h\u00e1 quem discorde. O fato \u00e9 que aqui usam-se instrumentos que n\u00e3o tem muito a ver com o samba, como teclados sintetizadores e \u00f3rg\u00e3os el\u00e9tricos. Pra quem quiser saber com mais profundidade, vejam a pesquisa de Tarik de Souza.<\/p>\n<p>O samba-jazz, por seu turno, \u00e9 uma mistura maluca entre jazz e samba. Mais especificamente, entre a estrutura harm\u00f4nica complexa do jazz (geralmente o bebop\/hardbop) e o ritmo do samba, bem como sua gama dos instrumentos de percuss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 bossa nova, por que essa \u00e9 lenta e o arranjo \u00e9 simples, apenas voz, viol\u00e3o e piano. <\/p>\n<p>Nos anos 1960 surge o samba-joia, mas s\u00f3 na d\u00e9cada seguinte vai fazer sucesso. Ele \u00e9 parecido com o sambalada, com \u00eanfase em letras rom\u00e2nticas ou mesmo depressivas. Benito di Paula e Martinho da Vila s\u00e3o os precursores desse g\u00eanero. H\u00e1 toda uma pol\u00eamica entre os pr\u00f3prios sambistas por dizerem que essa vertente \u00e9 depreciada diante de tantas outras vertentes do samba.<br \/>\nPara mais ou menos terminar, h\u00e1 que se comentar sobre o pagode e o samba-rap. O segundo \u00e9 basicamente uma tend\u00eancia contempor\u00e2nea de misturar letras de rap com a batida de samba. Quem come\u00e7ou com isso foi Marcelo D2, e aparentemente, deu certo e agradou ao p\u00fablico. O pagode j\u00e1 merece um coment\u00e1rio mais alongado, porque come\u00e7a com uma coisa e vira outra e todo mundo confunde ambos. Quando se fala em pagode, quase todo mundo se lembra de nomes como Belo, S\u00f3 pra Contrariar, Os Travessos, e algo do tipo. <\/p>\n<p>Mas explico: o que acontece \u00e9 que, l\u00e1 nos anos 1970, uma leva de artistas toma conta do cen\u00e1rio musical, tais como Wilson Moreira, Clara Nunes, Paulinho da Viola, e Martinho da Vila. H\u00e1 tamb\u00e9m Arlindo Cruz, Jovelina Perola Negra, e Zeca Pagodinho \u2013 este \u00faltimo parece ser o maior representante dessa vertente chamada \u201cpagode\u201d. Eles retomam aquela tradi\u00e7\u00e3o do samba de partido-alto l\u00e1 de tr\u00e1s, com a \u00eanfase numa roda de m\u00fasicos e muita percuss\u00e3o. O termo \u201cpagode\u201d, primordialmente, n\u00e3o se referia a um g\u00eanero em espec\u00edfico e sim ao evento pagode, que consistia naquela coisa, sabem como \u00e9, reuni\u00f5es no fundo do quintal da casa de algu\u00e9m, churrasquinho, cervejinha, e todo mundo comendo, batucando, cantando, pandeirinho, cu\u00edca, cavaquinho, viola e viol\u00e3o&#8230; Acho que por a\u00ed j\u00e1 se explica o porqu\u00ea do nome daquele grupo Fundo de Quintal. <\/p>\n<p>S\u00f3 que j\u00e1 nessa \u00e9poca o samba\/pagode n\u00e3o se restringe s\u00f3 aos fundos de quintal, ele alcan\u00e7a os shows e programas de tv. O que era antes um grupo passa a ser uma banda com v\u00e1rios integrantes, e h\u00e1 uma mudan\u00e7a sutil no arranjo feito apenas para alguns instrumentos e para uma banda completa, mas isso n\u00e3o significa, necessariamente, um arranjo complexo em termos de harmonia. Explico brevemente: peguem algum artista como Alcione ou Paulinho da Viola: h\u00e1 o artista solo, o cantor, mas  h\u00e1 tamb\u00e9m a banda que o acompanha com o arranjo para viol\u00e3o e cavaquinho. At\u00e9 aqui nada de novo, tudo que o samba pede, mas da\u00ed come\u00e7am a aparecer alguns instrumentos de sopros como sax e trompete para fazer alguns solos espec\u00edficos \u2013 seja no recheio da m\u00fasica ou entre um verso e outro -, e mesmo instrumentos de cordas, como violinos, para fazer o acompanhamento da harmonia. Mas a estrutura harm\u00f4nica permanece a mesma: cad\u00eancias deceptivas, progress\u00f5es I-IV-V-VI invertidas, baixo em quintas e uso de acordes com 7\u00aa, 9\u00aa, 5\u00aa diminuta, acordes suspensos e tudo mais. <\/p>\n<p>Para ser minimamente did\u00e1tico, e pra tentar ilustrar como o samba se estrutura, gostaria de mostrar um exemplo com um arranjo para piano da m\u00fasica \u201cmeu \u00e9bano\u201d de Alcione, que preparei alguns anos atr\u00e1s. <\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-15553-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-1-acordes.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-1-acordes.mp3\">https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-1-acordes.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Reparem que aqui \u00e9 uma progress\u00e3o de acordes aparentemente simples, s\u00f3 acordes Gm\/Cm7\/F7-\/Bb\/D7. Trocando em mi\u00fados: sol menor, d\u00f3 menor com s\u00e9tima, f\u00e1 com s\u00e9tima diminuta, si bemol e r\u00e9 maior com s\u00e9tima, da\u00ed o segundo verso at\u00e9 o refr\u00e3o segue com sol maior, l\u00e1 menor, si menor, e mi maior com s\u00e9tima preparando para r\u00e9 com s\u00e9tima e concluindo em sol maior. S\u00f3 que a coisa fica interessante mesmo quando se invertem os acordes, colocando a 7\u00aa no baixo, e ainda apimento mais ainda colocando s\u00e9tima diminuta e aumentada e encadeando a 7\u00aa do acorde precedente como a 3\u00aa do acorde seguinte, al\u00e9m de substituir um ou outro acorde por algum menor com sexta. Da\u00ed fica algo do tipo: Gm7\/D#7\/Cm6\/Fm7-\/Dm\/Am. Acrescentando uma linha de baixo em quintas, eu chego a isso:<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-15553-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-2-baixo-e-acordes.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-2-baixo-e-acordes.mp3\">https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-2-baixo-e-acordes.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Reparem que o ritmo \u00e9 bem marcado entre 1 e 2 e 1 e 2, sempre, e as notas ficam passeando por entre intervalos de quintas, exemplo: d\u00f3\/d\u00f3-sol-sol-d\u00f3\/d\u00f3-sol-sol-d\u00f3\/l\u00e1-l\u00e1-mi-mi-l\u00e1-l\u00e1\/l\u00e1-mi-mi-l\u00e1&#8230; Da\u00ed que mantendo essa estrutura, e invertendo novamente os acordes e colocando na regi\u00e3o dos agudos no piano, e aplicando uma varia\u00e7\u00e3o r\u00edtmica sincopada, eu chego a isso:<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-15553-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-3-arranjo.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-3-arranjo.mp3\">https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Audio-3-arranjo.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Essa parte \u00e9 bem pr\u00f3xima do que o cavaquinho faz, enquanto aquela parte anterior, \u00e9 o viol\u00e3o quem faz. Essa \u00e9 a estrutura geral de um arranjo de samba. Da\u00ed coloque v\u00e1rios elementos de percuss\u00e3o tocando, al\u00e9m de alguns instrumentos de sopros e violinos, e pronto, tu tens um arranjo completo contempor\u00e2neo para banda.<br \/>\nVoltando ao pagode: a coisa muda de figura a partir dos anos 1990, quando grupos mineiros, paulistas e baianos come\u00e7am a fazer m\u00fasicas \u201cde samba\u201d com um teor mais percurssionado (usava-se bastante o pandeiro) e com um andamento ligeiramente mais lento, e letras rom\u00e2nticas. Aqui tamb\u00e9m a estrutura harm\u00f4nica muda um pouco: embora beba no clich\u00ea do pop, h\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o de uma \u201csurpresa\u201d harm\u00f4nica causada pelo uso de algum acorde menor no meio da progress\u00e3o de acordes maiores. <\/p>\n<p>Exemplo bem b\u00e1sico: digamos que eu tenha a progresss\u00e3o d\u00f3-l\u00e1-r\u00e9-sol, e no caso, os acordes d\u00f3-l\u00e1 menor-r\u00e9 menor-sol maior com s\u00e9tima. Reparem que essa progress\u00e3o \u00e9 uma simples I-VI-II-V. O VI grau ali est\u00e1 assumindo a fun\u00e7\u00e3o de quinto grau que antecede o II, ou seja, \u00e9 um retardo do cadenciamento antes de preparar para o II-V. Inserindo uma c\u00e9lula r\u00edtmica nisso e tocando-a no cavaquinho, vira pagode. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6g_NQsWiUmA\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">Exemplo disso tu pode conferir nos 3 minutos deste v\u00eddeo<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse tudo isso, piora mais um pouco a bagun\u00e7a pra saber quem \u00e9 quem no meio dos anos 1990 quando surgem aqueles grupos baianos que vem com o chamado \u201cpagode baiano\u201d e que se confunde muito com o samba de roda, e que as vezes tamb\u00e9m \u00e9 chamado de ax\u00e9. Exemplos s\u00e3o Terra Samba, Harmonia do Samba, \u00c9 o Tchan, e essas coisas por a\u00ed. Aqui j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nenhuma surpresa em termos de arranjo, segue apenas o padr\u00e3o do pop para se enquadrarem aos ditames da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em resumo: o \u201cpagode\u201d \u00e9 o samba em sua estrutura original, que vem l\u00e1 do partido alto, mas tocado nas reuni\u00f5es informais que ocorriam por a\u00ed. A partir dos anos 1990 se divide em pagode rom\u00e2ntico \u2013 com letras rom\u00e2nticas, e pagode baiano &#8211; feito pra dan\u00e7ar em roda. E \u00e9 a vertente do pagod rom\u00e2ntico que acaba que ficando famosa com o simples nome de \u201cpagode\u201d.<\/p>\n<p>Bem, \u00e9 isso, espero que tenha conseguido esclarecer as diferen\u00e7as sutis desse g\u00eanero brasileiro por excel\u00eancia e que tem tantas variantes por a\u00ed.<\/p>\n<p><strong>Por: Ge<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. 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