{"id":15738,"date":"2019-09-20T15:12:56","date_gmt":"2019-09-20T18:12:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15738"},"modified":"2019-10-26T16:04:13","modified_gmt":"2019-10-26T19:04:13","slug":"memorias-parte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/09\/memorias-parte-3\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias \u2013 Parte 3"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/08\/memorias\/\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">Parte 1<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/09\/memorias-parte-2\/\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">Parte 2<\/a><\/p>\n<p>\u201cConfuso, Bar\u2019hai solta a metralhadora e se afasta alguns passos.<\/p>\n<p>O outro soldado corre para ocupar seu lugar. Ele aperta o gatilho, disparando uma barragem de tiros algumas ruas a frente. V\u00e1rios dos soldados desabam ali mesmo, numa nuvem de poeira, destro\u00e7os e sangue. O grupo se separa, fazendo com o que o atirador balance a arma de um lado para o outro, metralhando a \u00e1rea indiscriminadamente. O barulho \u00e9 tanto que Bar\u2019hai tapa os ouvidos, encolhendo-se num canto.<!--more--><\/p>\n<p>O som dos balas cessa ao mesmo tempo que o soldado a sua frente desaba. Bar\u2019hai olha para tr\u00e1s, um soldado com uniforme diferente est\u00e1 apontando um rifle para o corpo desfalecido em frente \u00e0 metralhadora. O soldado se volta para Bar\u2019hai, e a \u00faltima coisa que v\u00ea \u00e9 o brilho do disparo em sua dire\u00e7\u00e3o. Tudo fica escuro.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tinha que me proteger quando eu estava na metralhadora! Porra!\u201d<\/p>\n<p>Ele acorda, instintivamente tateando o pr\u00f3prio corpo em busca de ferimentos. N\u00e3o encontra nenhum. Os sonhos dentro da torre s\u00e3o bem mais realistas que l\u00e1 fora. Olha para o monitor principal da contagem regressiva:<\/p>\n<p>182 dias, 04 horas, 30 minutos, 26 segundos.<\/p>\n<p>Aproveita o dia comendo mais das refei\u00e7\u00f5es desidratadas e avan\u00e7ando na leitura de mais alguns dos livros. O contador de tempo parece manter o padr\u00e3o de acelerar imensamente enquanto ele se distrai, e quando o sono retorna, sonha mais uma vez com o campo de batalha em Omega. Dessa vez, resolve ser mais proativo: imediatamente come\u00e7a a correr pelas ruas da cidade, atirando nos soldados de uniforme diferente. Morre numa esquina para um inimigo escondido atr\u00e1s de uma carca\u00e7a de carro.<\/p>\n<p>A cada dia, o contador corre e a pilha de livros para ler diminui. A cada noite, aprende um pouco mais sobre a guerra que trava, aprendendo padr\u00f5es de comportamento de aliados e advers\u00e1rios por observa\u00e7\u00e3o e \u00e0s vezes, at\u00e9 conversando com seus companheiros de ex\u00e9rcito. Nas primeiras vezes as palavras saem estranhas da boca, mas eventualmente consegue acertar a pron\u00fancia o suficiente para coordenar a\u00e7\u00f5es, avisar sobre perigos e pedir por ajuda. Ele come\u00e7a a perder a conta de quantas vezes tem esse sonho, mas a cada itera\u00e7\u00e3o, ele dura mais tempo antes de morrer.<\/p>\n<p>Quando junta coragem para uma pergunta mais complexa sobre a motiva\u00e7\u00e3o daquela guerra, sobre seu ex\u00e9rcito ou do advers\u00e1rio, \u00e9 respondido com esc\u00e1rnio. Eventualmente desiste dessa curiosidade, concentrando-se em ser mais e mais eficiente na tarefa de matar o inimigo. Isso sim gera respostas encorajadoras de seus pares. Bar\u2019hai vai se tornando cada vez melhor na sua tarefa, inclusive pegando o h\u00e1bito comum entre seus homens de ofender e criticar pesadamente os soldados menos habilidosos. Ele sente que isso funciona: a cada sonho, n\u00e3o s\u00f3 ele est\u00e1 melhor, como seus companheiros tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>14 dias, 10 horas, 47 minutos, 13 segundos.<\/p>\n<p>Bar\u2019hai decide falar de novo com o grande monitor, algo que tentava h\u00e1 v\u00e1rios dias, sempre esbarrando na sua pron\u00fancia da L\u00edngua Complexa, por mais que a dica de palavra-chave continuasse aparecendo, vez ap\u00f3s vez.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai \u00e9 bom soldado, deseja livre.<\/p>\n<p>O pedido de palavra-chave reaparece. E mais uma vez, uma palavra surge num dos monitores auxiliares: espelhamento.<\/p>\n<p>&#8211; Es&#8230; pela&#8230; espe&#8230; lha&#8230; mento.<\/p>\n<p>Pela primeira vez at\u00e9 ali, a tela mostra algo diferente. Uma enormidade de informa\u00e7\u00f5es espalhadas por diversos gr\u00e1ficos, com n\u00fameros e porcentagens que parecem se modificar a cada segundo.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai quer livre.<\/p>\n<p>A tela responde com os dizeres \u201ccomando n\u00e3o reconhecido\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai quer casa, levar comida e livros para vila.<\/p>\n<p>A mesma resposta.<\/p>\n<p>No monitor inferior, o que sempre mostrava a palavra-chave, algo chama sua aten\u00e7\u00e3o: os n\u00fameros d\u00e3o lugar \u00e0 est\u00e1tica, que por sua vez se transformam na imagem de um ser muito estranho. As formas lembram a de uma pessoa, mas a pele \u00e9 azulada, os olhos s\u00e3o pequenos e amarelos. N\u00e3o h\u00e1 sinal de cabelo, sobrancelha ou nada mais. No topo da cabe\u00e7a, algo parecido com uma placa de ossos d\u00e1 um contorno curioso \u00e0 pele. Esse ser fala:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 Bar\u2019hai?<\/p>\n<p>Bar\u2019hai fica em sil\u00eancio, tentando fazer senso da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem que sair da\u00ed o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Eles est\u00e3o chegando!<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o temos tempo! Eu quero te ajudar, Bar\u2019hai! Diga para o sistema abrir a porta S0112B! R\u00e1pido!<\/p>\n<p>Bar\u2019hai obedece, repetindo as letras e os n\u00fameros com alguma dificuldade. Pode ouvir na sequ\u00eancia um som vindo de tr\u00e1s da barricada que colocou na porta. Ele olha para o monitor principal mais uma vez:<\/p>\n<p>00 dias, 02 horas, 02 minutos, 56 segundos.<\/p>\n<p>O ser azulado fala mais uma vez:<\/p>\n<p>&#8211; Eles t\u00eam que desligar a acelera\u00e7\u00e3o temporal para entrarem no seu planeta. Isso vai te dar tempo de agir. Se a planta que eu tenho da sua torre est\u00e1 correta, voc\u00ea vai encontrar uma escada para os n\u00edveis superiores no sal\u00e3o principal. Suba para o d\u00e9cimo andar e me encontre no terminal 128.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai s\u00f3 quer ir pra casa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vai ter mais casa se voc\u00ea n\u00e3o me obedecer! D\u00e9cimo andar, terminal 128! R\u00e1pido, saia da\u00ed!<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o desliga em mais um surto de est\u00e1tica. O monitor volta a mostrar os gr\u00e1ficos e n\u00fameros de antes. Bar\u2019hai vacila um pouco, mas a contagem regressiva o compele \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Coloca alguns livros e refei\u00e7\u00f5es na sua mochila antes de desmontar suficientemente a barreira que colocara na frente da \u00fanica porta do sal\u00e3o. Antes de esgueirar-se pela abertura na barricada, observa a contagem mais uma vez:<\/p>\n<p>00 dias, 01 horas, 35 minutos, 08 segundos.<\/p>\n<p>Ele sobe as escadas de volta ao sal\u00e3o principal, tudo escuro. Tateando seu caminho, encontra a entrada de outra escadaria. Segue-a v\u00e1rios andares acima, testando se alguma das portas no final de cada lance cediam \u00e0s suas tentativas. Todas trancadas. Seus olhos voltam a se acostumar com a escurid\u00e3o a tempo de enxergar a placa na parede anunciando o d\u00e9cimo andar. A porta pode ser aberta. Mais uma vez, depara-se com um sal\u00e3o que ocupa praticamente todo o andar. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma luz acesa, mas fica claro que todo o ambiente \u00e9 cercado por janelas. \u00c9 noite, e a luz da lua consegue invadir o ambiente, mostrando v\u00e1rios racks lotados de armas, uma \u00e1rea com uniformes e equipamentos militares dos mais variados. Bar\u2019hai reconhece aquilo tudo dos seus sonhos.<\/p>\n<p>Tomado por um s\u00fabito senso de prop\u00f3sito, coloca sua mochila no ch\u00e3o e come\u00e7a a se equipar. Uniforme, o capacete de vis\u00e3o noturna, comunicador, granadas, faca de combate, botas&#8230; e um poderoso rifle. Tudo vem f\u00e1cil \u00e0 sua mente, havia treinado para usar tudo aquilo noite ap\u00f3s noite. Ele se aproxima da janela, e l\u00e1 fora est\u00e1 Omega. N\u00e3o a de seus sonhos, mas a completamente arruinada que conhecera durante a vida. No horizonte, percebe as grandes fogueiras dos Calados, e o rio humano abandonando a cidade para mais um de seus rituais. \u00c9 sua chance de escapar dali e voltar para casa.<\/p>\n<p>Mas as palavras do ser azul ainda est\u00e3o em sua mem\u00f3ria. Com o aux\u00edlio da vis\u00e3o noturna, consegue encontrar diversas cria\u00e7\u00f5es nas paredes. Numa delas, o n\u00famero 128 est\u00e1 destacado. Ele se aproxima.<\/p>\n<p>&#8211; Soldado Bar\u2019hai em posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>A tela se acende, e o estranho de antes aparece novamente.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 equipado! Excelente!<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 capit\u00e3o de Bar\u2019hai?<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; pode se dizer que sim. Meu nome \u00e9 Zekutron, do planeta Armad. Meu povo foi destru\u00eddo por aqueles que est\u00e3o se aproximando de voc\u00eas agora. Eu n\u00e3o posso mais salvar meu mundo, mas posso te ajudar a salvar o seu!<\/p>\n<p>&#8211; Ex\u00e9rcito inimigo est\u00e1 chegando?<\/p>\n<p>&#8211; Pior. Quando o ex\u00e9rcito deles falha, como falhou no meu mundo, eles mandam seus deuses. Seres terr\u00edveis, feitos de energia. Destroem tudo o que enxergam, n\u00e3o podem ser derrotados por arma nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; O Terror est\u00e1 voltando?<\/p>\n<p>&#8211; Eles j\u00e1 estiveram a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai ouviu desde pequeno sobre o Terror. M\u00e3e de Bar\u2019hai ouviu desde pequena. Av\u00f4 tamb\u00e9m. Choveu fogo por um dia inteiro, todas as cidades ca\u00edram, os animais queimaram, as plantas viraram cinzas. Os Antigos de Bar\u2019hai fortes, mas maioria morre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o temos muito tempo, ent\u00e3o me escuta: os deuses deles n\u00e3o conseguem chegar no seu mundo sozinhos. Eles sempre mandam soldados antes, para controlar a torre do mundo e ativar o sinal. Eu preciso que voc\u00ea os impe\u00e7a, sen\u00e3o o Terror vai voltar!<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u2019hai melhor soldado! Bar\u2019hai defende torre.<\/p>\n<p>&#8211; Eles est\u00e3o chegando! R\u00e1pido, suba para o \u00faltimo andar, o 70! N\u00e3o deixe que eles chamem seus deuses, voc\u00ea vai precisar destruir um&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1tica.<\/p>\n<p>Bar\u2019hai chama pelo ser azul, sem sucesso. As luzes do ambiente se acendem. O ch\u00e3o come\u00e7a a tremer, e uma luz azulada parece iluminar a cidade vista pela janela.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/10\/memorias-parte-4\/\">Continua&#8230;<\/a><\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que sabia que eram aliens, para dizer que sabia que n\u00e3o eram aliens, ou mesmo para dizer que o verdadeiro Terror \u00e9 eu n\u00e3o terminar essa hist\u00f3ria: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte 1 | Parte 2 \u201cConfuso, Bar\u2019hai solta a metralhadora e se afasta alguns passos. O outro soldado corre para ocupar seu lugar. Ele aperta o gatilho, disparando uma barragem de tiros algumas ruas a frente. V\u00e1rios dos soldados desabam ali mesmo, numa nuvem de poeira, destro\u00e7os e sangue. 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