{"id":15843,"date":"2019-10-13T17:00:23","date_gmt":"2019-10-13T20:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15843"},"modified":"2019-10-13T15:28:57","modified_gmt":"2019-10-13T18:28:57","slug":"generos-musicais-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/10\/generos-musicais-outros\/","title":{"rendered":"G\u00eaneros Musicais &#8211; Outros"},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h2>Tio Ge explica \u2013 g\u00eaneros musicais  6 \u2013 Outros G\u00eaneros<\/h2>\n<p>Finalizando essa s\u00e9rie de textos sobre os g\u00eaneros musicais, hoje comento aqui sobre os v\u00e1rios outros g\u00eaneros existentes por a\u00ed e que n\u00e3o foram contemplados, ou n\u00e3o se encaixam, enquanto subg\u00eaneros e vertentes dos outros g\u00eaneros anteriormente comentados. <!--more--><\/p>\n<p>A come\u00e7ar pela pimba: g\u00eanero musical portugu\u00eas por excel\u00eancia, \u00e9 a tal da m\u00fasica \u201cbrega\u201d portuguesa, parecido com o que a gente tem por aqui com Reginaldo Rossi e Sidney Magal. As letras quase sempre tem tom de humor, jogos de sentidos, ou conota\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 um g\u00eanero pobre em termos de estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica e arranjo. Segue o clich\u00ea do pop de sempre V-I-IV-II com algumas poucas varia\u00e7\u00f5es, uma linha de baixo bem ritmada (n\u00e3o \u00e9 o groove do blues, mas algo que produz ritmo contagiante, feito pra dan\u00e7ar), um viol\u00e3o, vocal e 3 backs vocais, e acorde\u00e3o. Vez por outra tamb\u00e9m aparece algum teclado aqui ou ali, mas n\u00e3o \u00e9 regra. Representantes desse g\u00eanero s\u00e3o Quim Barreiro (\u201cA cabritinha\u201d, \u201ceu comi a sobra\u201d, entre tantas outras s\u00e3o pura poesia! Busquem por conta pr\u00f3pria no youtube!), Emmanuel, Ruth Marlene, Tony Carreira, Jose Malhoa, e Nel Monteiro.<\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, tem tamb\u00e9m o fado. H\u00e1 toda uma hist\u00f3ria desse g\u00eanero a ser contada, bem como v\u00e1rias vertentes (fado corrido, fado vadio, fado menor, fado Lopes&#8230;), mas, bem resumidamente, o essencial consiste em alguns versos de origem popular sendo acompanhados de alguns poucos acordes no viol\u00e3o, na viola ou mesmo no bandolim e guitarra portuguesa. As letras s\u00e3o quase sempre tristes, melanc\u00f3licas, e expressam algo de saudade, melancolia e dor da alma portuguesa. <\/p>\n<p>Alguns fados s\u00e3o bem elaborados, respeitando uma m\u00e9trica r\u00edgida com decass\u00edlabos, alexandrinos, quintilhas e sextilhas; e ainda existe uma rela\u00e7\u00e3o entre a metrifica\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e onde cai o acorde espec\u00edfico e em qual s\u00edlaba. Quanto ao instrumento, adendo interessante: h\u00e1 a prefer\u00eancia pela guitarra portuguesa que \u00e9 afinada em r\u00e9 ou d\u00f3 (afina\u00e7\u00e3o de Lisboa e de Coimbra), diferentemente da inglesa que \u00e9 afinada em mi. Quanto ao arranjo, n\u00e3o h\u00e1 nada de virtuoso aqui: s\u00e3o poucos acordes, quando muito tr\u00eas, passeando pelo I, V e VI graus. N\u00e3o h\u00e1 cad\u00eancias, modula\u00e7\u00f5es ou retornos aqui. <\/p>\n<p>Outro adendo interessante, j\u00e1 aproveitando para comentar sobre outro g\u00eanero: a modinha. O fado aparece l\u00e1 no s\u00e9culo XIX em Portugal, e tem influ\u00eancia direta da modinha, que \u00e9 outro g\u00eanero que data l\u00e1 do s\u00e9culo XVII. A ideia, bem resumidamente, \u00e9 pegar as can\u00e7\u00f5es de amigo, de esc\u00e1rnio e de maldizer, l\u00e1 da \u00e9poca medieval, e \u201cmusicalizar\u201d os versos com algumas notas no viol\u00e3o. A coisa deu certo, e pegou de tal modo que veio parar aqui no Brasil nos anos seguintes. A modinha \u00e9 carregada de amorosidade, lirismo e do\u00e7ura. Tamb\u00e9m tem um arranjo simples, para n\u00e3o dizer mon\u00f3tono, com um ou dois acordes sendo repetidos incessantemente no viol\u00e3o. <\/p>\n<p>Aqui no Brasil, a modinha vai dar origem ao \u201cchorinho\u201d, g\u00eanero que tamb\u00e9m influencia o samba no final do s\u00e9culo XIX. A ideia do chorinho \u00e9 justamente algo que \u201cchora\u201d, que lamenta, e isso \u00e9 expresso tanto nas letras quanto na c\u00e9lula r\u00edtmica desenvolvida pelo viol\u00e3o, e tamb\u00e9m nas longas escalas floreadas que s\u00e3o utilizadas nas flautas, dando a ideia de que algo est\u00e1 \u201ccaindo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Portugal, no s\u00e9culo XIX, a modinha tem uma ligeira influ\u00eancia da \u00f3pera italiana, chegando a ter frolattos, gruppetos, trillos e toda virtuosidade que a \u00f3pera exige da t\u00e9cnica vocal. H\u00e1 quem critique isso e diz que a modinha portuguesa n\u00e3o deveria ser pretensiosa a utilizar essas virtuoses, h\u00e1 quem diga, por outro lado, que isso foi respons\u00e1vel por criar certo estilo de \u00f3pera portuguesa, mas que durou pouco tempo. <\/p>\n<p>Falando em g\u00eaneros genuinamente brasileiros, vamos a alguns deles: Ax\u00e9. Esse \u00e9 um g\u00eanero que, assim como o blues, \u00e9 uma mistura de tudo: tem influ\u00eancia do frevo (aquele estilo de dan\u00e7a t\u00edpico de Pernambuco que as pessoas dan\u00e7am pulando com guarda-chuvas coloridos), do merengue e at\u00e9 do reggae, e ainda incorporam elementos percussivos africanos, tudo isso misturado com a estrutura clich\u00ea do pop V-II-VI-VII. Conta a hist\u00f3ria que, na d\u00e9cada de 1950, Dod\u00f4 &#038; Osmar resolveram tocar o frevo pernambucano em cima de um carro Ford 1929, e assim nasceu o trio el\u00e9trico, principal atra\u00e7\u00e3o do carnaval baiano. Ali\u00e1s, a hist\u00f3ria do ax\u00e9 est\u00e1 intimamente ligada com o carnaval na Bahia, mas ao que parece, o que fica mesmo na mem\u00f3ria popular \u00e9 o boom do ax\u00e9 nos anos 90 com bandas do tipo \u00c9 o Tchan e Banda Beijo, Netinho, Banda Eva, entre tantos outros.<\/p>\n<p>Ax\u00e9, na cultura africana, especificamente no candombl\u00e9 e umbanda, \u00e9 uma sauda\u00e7\u00e3o religiosa que designa energia positiva. O termo, na verdade, foi cunhado pelo jornalista Hagamenon Brito, em 1987. Ent\u00e3o, em termos de arranjo, \u00e9 comum encontrar algo bem ritmado, animado, alegre, com v\u00e1rios elementos percussivos que v\u00e3o desde o tambor tradicional, o surdo, passando pelo pandeiro e mesmo o berimbau. Geralmente se utilizam tons altos (sol maior, r\u00e9 maior, l\u00e1 maior) pra acompanhar os vocais tamb\u00e9m altos, e, al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m os teclados fazendo algum som sintetizado ou som de piano el\u00e9trico, e tamb\u00e9m a linha dos metais (saxophone, trompete) fazendo algumas notas de passagens entre um verso e outro. <\/p>\n<p>Falando em reggae, vamos a ele rapidinho: esse n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero genuinamente brasileiro, mas bem comum na Bahia e no Maranh\u00e3o. Ali\u00e1s, pra quem quiser conhecer, indico o Museu do Reggae Maranh\u00e3o, em S\u00e3o Luiz, bem interessante! <\/p>\n<p>Reggae, na verdade, \u00e9 um g\u00eanero que surge l\u00e1 nos anos 1960 na Jamaica. Ele vem derivado do ska, outro g\u00eanero tamb\u00e9m jamaicano. A caracter\u00edstica principal aqui reside no uso do tempo em 4\/4 (conta-se sempre 1 e 2 e 3 e 4&#8230;) e no uso de \u201cwalking-bass\u201d que s\u00e3o os baixos saltados entre oitavas (exemplo: tocar d\u00f3-d\u00f3-d\u00f3-d\u00f3 rapidamente alternando entre duas oitavas, isso vem l\u00e1 do jazz, especificamente do boogie-woogie), al\u00e9m de usar riffs t\u00edpicos do jazz e uso de guitarras ou piano no tempo fraco do compasso. Do ska surge o rocksteady, com os Rude Boy, que eram os jovens marginalizados da Jamaica e que tocavam essa coisa por a\u00ed nas ruas num ritmo bem acelerado. Em dado momento dos anos 1960, n\u00e3o d\u00e1 pra saber com precis\u00e3o, resolveram passar a tocar o ska num andamento menos acelerado, e enfatizar as linhas de baixo criando grooves, para al\u00e9m do walking-bass. Da\u00ed mant\u00e9m-se a guitarra com efeitos nos pedais (tremolo, wah wah) no contratempo e assim surge o reggae. <\/p>\n<p>Em termos de estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, o reggae \u00e9 aparentemente simples: \u00eanfase em apenas dois ou tr\u00eas acordes na guitarra (do tipo sol maior e r\u00e9 maior), com repeti\u00e7\u00e3o incessante em quase toda a m\u00fasica, sobrando mesmo a \u00eanfase para o groove de baixo. Muito raramente aparecem alguns acordes menores com s\u00e9tima aumentada, ou maiores com s\u00e9tima diminuta, mas n\u00e3o passa disso, n\u00e3o h\u00e1 todo aquele virtuosismo harm\u00f4nico como no jazz bebop. No mais, algumas linhas de metais aparecem, geralmente no modo d\u00f3rico ou j\u00f4nio, acompanhando a mesma tonalidade que a guitarra desenvolve seus riffs. Quanto \u00e0s letras, geralmente dizem sobre cr\u00edtica social, pol\u00edtica, entre outros. Todo mundo lembra de Bob Marley, o maior representante, mas h\u00e1 tamb\u00e9m Robbie Shakespeare, Al Anderson, Aston Barret, Trippa Irie, Janet Kay, Steel Pulse, UB40\u2019s s\u00f3 pra citar alguns.<\/p>\n<p>Forr\u00f3: tamb\u00e9m \u00e9 outro g\u00eanero genuinamente brasileiro, que sofre influ\u00eancia do xote, xaxado e do bai\u00e3o. Enquanto g\u00eanero musical propriamente dito, quem marca presen\u00e7a mesmo \u00e9 o bai\u00e3o. A origem do termo \u00e9 incerta, j\u00e1 que forr\u00f3 pode significar o diminutivo de \u201cforrobod\u00f3\u201d, que em Bantu significa farra, zona, arrasta-p\u00e9. Ali\u00e1s, dado hist\u00f3rico curioso: no nordeste de antigamente havia pistas de barro e elas precisavam ser molhadas para que a poeira n\u00e3o se levantasse. As pessoas, ent\u00e3o, dan\u00e7avam arrastando os p\u00e9s para evitar que a poeira subisse. Outra hist\u00f3ria que se conta por a\u00ed diz respeito aos engenheiros brit\u00e2nicos que, no s\u00e9culo XIX, se instalaram em Pernambuco para construir a ferrovia Great Western, promoviam bailes gratuitos para todos, ou seja \u201cfor all\u201d em ingl\u00eas, e os nordestinos passaram a pronunciar \u201cforr\u00f3\u201d. Mas essa hist\u00f3ria parece n\u00e3o conferir, j\u00e1 que o termo que vem do Bantu j\u00e1 existia desde muito antes.<\/p>\n<p>Quanto ao arranjo de instrumentos, o forr\u00f3 \u201craiz\u201d \u00e9 bem simples: \u00e9 tocado com um tri\u00e2ngulo, uma sanfona (acorde\u00e3o ou rabeta), e uma zabumba (uma esp\u00e9cie de tambor). \u00c9 claro que, com bandas recentes desse g\u00eanero a coisa se expande, h\u00e1 o uso de baixo, guitarra, teclados, etc. O andamento \u00e9 geralmente r\u00e1pido, animado, e o compasso \u00e9 em 4\/4 (conta-se 1 e 2 e 3 e 4&#8230;). H\u00e1 a \u00eanfase na zabumba no 1\u00ba tempo e o tri\u00e2ngulo \u00e9 sempre sincopado com aquele ritmo do tipo ta-ca-ti-ca-ta-ca-ti-ca&#8230; bem irritante, diga-se de passagem.<\/p>\n<p>Se o arranjo \u00e9 simples, a harmonia n\u00e3o o \u00e9 tanto. Geralmente usam-se progress\u00f5es harm\u00f4nicas enfatizando o IV e o VI grau, do tipo: I-IV-VI-II-VI-II-IV-VI-VII-I. Reparem que nessa progress\u00e3o h\u00e1 o retorno para o II grau duas vezes antes do IV grau pra da\u00ed concluir em VI-VII-I. Quando n\u00e3o \u00e9 isso, a sanfona utiliza solos nos modos j\u00f4nio (equivalente \u00e0 escala maior mel\u00f3dica, tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom, ou seja: partindo de d\u00f3 \u00e9 aquela escala que j\u00e1 comentei, sem nenhum acidente), mixol\u00eddio (maior mel\u00f3dica com o 7 grau bemol, partindo de d\u00f3 fica: d\u00f3-r\u00e9-mi-f\u00e1-sol-l\u00e1-sib), l\u00eddio (maior mel\u00f3dica com 4\u00ba grau aumentado, partindo de d\u00f3 vou ter: d\u00f3-r\u00e9-mi-f\u00e1#-sol-l\u00e1-si) ou d\u00f3rico (tom-semitom-tom-tom-tom-semitom-tom, partindo de d\u00f3 vou ter: d\u00f3-r\u00e9-mib-f\u00e1-sol-l\u00e1-sib), isso quando n\u00e3o resolvem inventar de utilizar todos esses modos juntos ao mesmo tempo. Resumindo toda essa sopa de letras, o que d\u00e1 pra dizer \u00e9 que a caracter\u00edstica \u201cespecial\u201d do forr\u00f3 e tamb\u00e9m do bai\u00e3o reside no uso da 4\u00aa aumentada e da s\u00e9tima diminuta, ou seja, f\u00e1 sustenido e si bemol. Reparem que, nas m\u00fasicas de Luiz Gonzaga, as melodias quase sempre usam essas notas na melodia.<\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o a essa estrutura harm\u00f4nica que se utiliza dos modos j\u00f4nio e d\u00f3rico, d\u00e1 pra comentar tamb\u00e9m sobre o sertanejo dito \u201craiz\u201d, j\u00e1 que ele tamb\u00e9m utiliza essa mesma estrutura. O sertanejo \u201craiz\u201d, l\u00e1 do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, utiliza apenas vocais (geralmente um dueto, mantendo uma dist\u00e2ncia de uma ter\u00e7a menor ou quinta justa entre as vozes), e viola ou viol\u00e3o. Com o passar do tempo \u00e9 que v\u00e3o se inserindo novos instrumentos como a sanfona, gaita, viol\u00e3o, guitarras e todo o arranjo de uma banda completa. Existem v\u00e1rias vertentes do sertanejo, o universit\u00e1rio eu j\u00e1 comentei l\u00e1 no 1\u00ba texto quando falei sobre o pop. Mas tem tamb\u00e9m o sertanejo rom\u00e2ntico, que se utiliza de letras rom\u00e2nticas e um andamento mais lento, muito popular nos anos 1990; o sertanejo tipo moda de viola, feito pra dan\u00e7ar em bail\u00f5es, o sertanejo do sul (milonga-fandango-chimarrita), e tamb\u00e9m aquele sertanejo dito \u201ccaipira\u201d, muito comum nos estados do sudeste e centro-oeste, que s\u00e3o usados pra dan\u00e7ar sapateado e catira. <\/p>\n<p>Muita gente comenta ou pergunta sobre uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre o sertanejo brasileiro e o country americano. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que, no decorrer da hist\u00f3ria, o segundo influenciou o primeiro, mas essa influ\u00eancia n\u00e3o foi t\u00e3o significativa para o sertanejo se firmar como g\u00eanero. O sertanejo \u201craiz\u201d vem, na verdade, desde o bandeirismo \u2013 aquele movimento dos bandeirantes de expans\u00e3o do estado de SP, j\u00e1 no s\u00e9culo XVII. O country, por sua vez, nasce l\u00e1 nos idos de 1910 nos estados do sul dos EUA. <\/p>\n<p>Eles se diferenciam tamb\u00e9m em termos de estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica: o sertanejo \u00e9 s\u00f3 isso, intervalos de 3\u00aa ou 5\u00aa nos vocais e uso do modo j\u00f4nio ou d\u00f3rico; o country \u00e9 relativamente mais complexo, com uma progress\u00e3o mais longa que enfatiza o IV7 (quarto grau com 7\u00aa), o VII e v\u00e1rias escalas ascendentes e descendentes se  utilizando de ter\u00e7as paralelas (exemplo: subir e descer as notas d\u00f3-mi-r\u00e9-f\u00e1-mi-sol-f\u00e1-l\u00e1&#8230;). O arranjo tamb\u00e9m tende a se tornar mais complexo, j\u00e1 que usa bandolim, viola, viol\u00e3o, e por vezes guitarras com alguns efeitos de tremolo, disthordo, pull off, etc.<\/p>\n<p>Ainda na categoria g\u00eaneros brasileiros, indo para o sul temos: milonga, fandango e chamarrita. S\u00e3o tamb\u00e9m estilos de dan\u00e7a, para al\u00e9m de g\u00eaneros musicais, e ambos se parecem muito um com outro, mas h\u00e1 pequenas sutilezas que os diferenciam, geralmente no que confere ao uso de passos intercalados entre pernas cruzadas, uso dos quadris na dan\u00e7a, e condu\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, enfim. Enquanto g\u00eanero musical propriamente dito, o que fica \u00e9 o tal do sertanejo caracter\u00edstico da regi\u00e3o sul. Um bom exemplo tu pode encontrar <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LWeoqVwknfc\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8Wci7e7sJvE\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse tipo de arranjo quem manda \u00e9 o acorde\u00e3o: ele que d\u00e1 a \u00eanfase na melodia e no acompanhamento vocal. Pode at\u00e9 ter viol\u00e3o de a\u00e7o e de nylon, ou mesmo guitarra e baixo fazendo o acompanhamento, mas n\u00e3o \u00e9 regra. Quanto \u00e0 estrutura harm\u00f4nica, \u00e9 interessante observar o uso do modo l\u00eddio j\u00e1 comentado acima, e o uso do modo j\u00f4nio ou d\u00f3rico. Interessante tamb\u00e9m \u00e9 o contraste produzido entre o baixo do acorde\u00e3o, que fica uma ter\u00e7a acima da tonalidade dos viol\u00f5es, e os acordes produzidos por estes geralmente obedecem a intervalos de 4\u00aa (exemplo: d\u00f3-f\u00e1\/r\u00e9-sol\/mi-l\u00e1). <\/p>\n<p>O andamento tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que &#8211; mesmo tendo uma m\u00e9trica regular, com compasso 2\/4 (conta-se 1 e 2 e 1 e 2&#8230;) \u2013 s\u00e3o enfatizados alguns tempos fora de m\u00e9trica, deixando-o sincopado. Exemplo: imagine dividir esse \u201c1 e 2\u201d e contar 1 2 3 4 5 6 7 8. Agora imagine dar \u00eanfase da seguinte maneira: [1] 2 3 4 [5] 6 7 8, sendo o 1 e 5 correspondente ao tempo forte 1 e 2 do compasso 2\/4. Ou ent\u00e3o: [1] 2 3 [4] [5] 6 [7] 8. O fandango j\u00e1 tem uma dan\u00e7a um pouco mais complexa, geralmente \u00e9 dan\u00e7ada em grupos, e o andamento \u00e9 em 3\/4, com forte \u00eanfase do bumbo no 1\u00ba tempo. Um exemplo tu encontra <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hElm_mwMkSM\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Importante lembrar tamb\u00e9m que esses g\u00eaneros s\u00e3o influenciados pelo tango, que por sua vez \u00e9 influenciado pela contradan\u00e7a, ou habanera, que \u00e9 um g\u00eanero que vem l\u00e1 da m\u00fasica erudita no s\u00e9culo XIX. Penso que o exemplo mais famoso pra dar no campo do erudito seria a habanera de Carmen de Bizet. <\/p>\n<p>Passando agora aos g\u00eaneros dos pa\u00edses vizinhos, ou quase vizinhos: tango. Todo mundo lembra de Argentina quando o assunto \u00e9 tango, mas ele tamb\u00e9m existe no Uruguai. Assim como os g\u00eaneros do sul do Brasil, tango tamb\u00e9m \u00e9, ao mesmo tempo, g\u00eanero musical e de dan\u00e7a. Ele \u00e9, bem grosso modo, um derivado da mistura de milonga, habanera e polka europeia. Aqui, e em outros lugares, a gente tende a valorizar o g\u00eanero como algo chique, mas l\u00e1 na Argentina ele n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. \u00c9 bem popular, e suas origens tamb\u00e9m s\u00e3o populares: nasceu no final do s\u00e9culo XIX nos prost\u00edbulos de Buenos Aires e Montevid\u00e9u. Era dan\u00e7ado naquela \u00e9poca por prostitutas e por imigrantes europeus na rua, em bord\u00e9is por a\u00ed. <\/p>\n<p>Quanto ao g\u00eanero musical propriamente dito, \u00e9 relativamente simples: compasso 2\/4, com aquele tresillo no baixo, e geralmente \u00e9 tocado em trio de baixo, violino, e bandoneon, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de sanfona bem pequena. Arranjos mais complexos envolvem tamb\u00e9m violoncelo e cello no meio, mas n\u00e3o passa disso. Quanto \u00e0 harmonia, ela fica por conta de contrapontos (os violinos ficam uma 3\u00aa de dist\u00e2ncia dos violoncelos, que por sua vez ficam uma 5\u00aa de dist\u00e2ncia do baixo), e por conta de um desenvolvimento de um tema mel\u00f3dico nos agudos (violinos) sendo repetidos pelos outros instrumentos (violoncelo e baixo) no decorrer da m\u00fasica, enquanto o bandoneon faz a c\u00e9lula r\u00edtmica com progress\u00e3o harm\u00f4nica enfatizando o VI grau menor, III e IV graus, seguido \u00e0s vezes de algum solo. <\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia (e em menor grau no Panam\u00e1, e tamb\u00e9m no Recife e em Bel\u00e9m) existe a cumbia. A origem do termo \u00e9 dif\u00edcil de explicar, existem v\u00e1rias teorias, dentre elas: o nome vem de \u201ccumbague\u201d, que significa prazer, mas tamb\u00e9m significa aquele cacique forte, de car\u00e1ter belicoso e audaz; outros dizem que a palavra vem de \u201ccumbancha\u201d, que vem do Congo, e outros ainda dizem que vem de \u201ccumb\u00e9\u201d que significa batida, choque.<\/p>\n<p>\u00c9 um g\u00eanero bem interessante, tanto pelo arranjo de instrumentos n\u00e3o muito conhecidos por a\u00ed, quanto pela estrutura harm\u00f4nica. Os instrumentos utilizados s\u00e3o a flauta de milho, flauta de bambu, a gaita \u201chembra\u201d, e os tambores (respectivamente alegre, tambora e chamador), al\u00e9m de elementos percussivos como marac\u00e1 e guache, bongo e guizo; e, nas vers\u00f5es contempor\u00e2neas, tamb\u00e9m h\u00e1 metais\/sopros (sax, trombone, trompete), viol\u00e3o e guitarra. O detalhe tamb\u00e9m fica por conta do ritmo e do andamento, que \u00e9 2\/4, mas n\u00e3o se conta \u201c1 e 2 e 1 e 2&#8230;\u201d, mas sim \u201ce 2 1 \u2013 e 2 1 \u2013 e 2 1&#8230;\u201d. Isso, em m\u00fasica, se chama \u201ctresillo\u201d. O baixo segue com 3 notas, caindo justamente nesse esquema de \u201ce 2 1\u201d, geralmente algo do tipo f\u00e1-sol-d\u00f3\/f\u00e1-sol-d\u00f3. Reparem que, partindo de d\u00f3, s\u00e3o justamente os graus IV-V-I usados l\u00e1 no rock. Quanto aos outros instrumentos, \u00e9 interessante que eles enfatizam os acordes no 3\u00ba, 6\u00ba e 7\u00ba graus. V\u00e1rios exemplos tu pode encontrar nesse longo v\u00eddeo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qMVZ1CGDSdE\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Indo um pouco acima, ali em Puerto Rico, Cuba, Panama&#8230;, a gente encontra o reggaeton. Bem grosso modo, esse g\u00eanero \u00e9 a mistura do reggae com o hip-hop. A estrutura harm\u00f4nica segue aquela clich\u00ea do pop, mas preferencialmente aquela V-II-VI-VII, enfatizando, ou antes, iniciando a m\u00fasica no VII grau (sens\u00edvel) com a inten\u00e7\u00e3o de dar mais dramaticidade ao encadeamento harm\u00f4nico, j\u00e1 que esse grau pede pra resolver em I (t\u00f4nico) ou V (dominante). Acrescenta-se a\u00ed tamb\u00e9m algumas poucas cordas (geralmente viol\u00e3o mesmo, quando muito viola e bandolim) utilizando o modo fr\u00edgio. Quanto ao andamento, da mesma forma que a cumbia, tamb\u00e9m se utiliza o tresillo com aquela contagem no \u201ce 2 1\u201d. Acho que o melhor exemplo contempor\u00e2neo pra dar seria Daddy Yankee com \u201cdespacito\u201d.<\/p>\n<p>Um g\u00eanero mais ou menos parecido com o reggaeton \u00e9 o kuduro, mas esse n\u00e3o \u00e9 exatamente latino. O g\u00eanero vem, na verdade, da Angola, desde os anos 1980, e significa, literalmente, bunda dura. A ideia \u00e9 justamente representar uma dan\u00e7a em que as pessoas mexem freneticamente a bunda. O arranjo \u00e9 bem rudimentar: compasso em 4\/4, com \u00eanfase na caixa alta (som de taff taff taff), baixo em 5as bem saltadinho, e progress\u00e3o clich\u00ea do pop, tipo V-I-IV-II. Melodia simples feita com os vocais e acorde\u00e3o, ou teclado com algum som sintetizado, e com algumas poucas notas, bem f\u00e1cil de memorizar, bem \u201cchiclete\u201d e repetitiva. Um exemplo bem contempor\u00e2neo disso \u00e9 aquela famosa \u201cdanza kuduro\u201d de Don Omar, que bombou a\u00ed alguns anos atr\u00e1s. <\/p>\n<p>Mudando drasticamente o disco, vamos para o rap e hip-hop: muita gente confunde, e com raz\u00e3o, j\u00e1 que ambos s\u00e3o bem parecidos. Mas, bem resumidamente: hip-hop, em sua origem, tem a ver com toda uma cultura\/movimento, que come\u00e7a l\u00e1 nos anos 1970 nas comunidades afro-latinas e em NY. Nessa cultura se inclui o rap, o grafite, a dan\u00e7a break, e a m\u00fasica eletr\u00f4nica que se utiliza de straches e loops, e tem certa influ\u00eancia do UK garage com aqueles bass. <\/p>\n<p>O rap, diminutivo de rythm and poetry, \u00e9 s\u00f3 isso mesmo: h\u00e1 um mc (mestre de cerim\u00f4nia) que toma a voz e declama uma poesia (seja ela j\u00e1 anteriormente escrita ou improvisada) em forma ritmada acompanhada de uma batida eletr\u00f4nica feita por um DJ. O hip-hop, por sua vez, \u00e9 o g\u00eanero um tanto mais complexo que envolve v\u00e1rios elementos da eletr\u00f4nica (v\u00e1rios loops diferentes), efeitos de transi\u00e7\u00e3o, baixo bem marcado (geralmente em quintas, mas sem grooves), alguns strings e uma progress\u00e3o simples do tipo IV-V-I. O problema maior mesmo, e que gera bastante confus\u00e3o, \u00e9 que no final dos anos 90 e come\u00e7o dos anos 2 mil, v\u00e1rios artistas come\u00e7aram a apelar para algo mais comercial, mais pop, denominando o g\u00eanero como hip-hop. E aqui, n\u00e3o faltam artistas para citar: Jay-z, Beyonc\u00e9, Ja Rule, Nelly, Ne-Yo, Chris Brown, T-Pain, Akon, Sean Paul, T.I&#8230; <\/p>\n<p>Indo pro outro lado do oceano, mais especificamente em Andaluzia, na Espanha, tem o flamenco. Ele \u00e9 tamb\u00e9m um g\u00eanero de dan\u00e7a, e est\u00e1 intimamente ligado ao folclore local. Suas origens remontam \u00e0s culturas Moura e cigana, e sofre influ\u00eancia dos \u00e1rabes e judeus. Antigamente era s\u00f3 canto, e s\u00f3 depois que come\u00e7ou a ter cordas (viol\u00e3o, viola, ala\u00fade, bandurria), palmas, sapateado e dan\u00e7a. Tamb\u00e9m \u00e9 comum ter chocalhos, adufe e castanholas pra apimentar a percuss\u00e3o. Existem os chamados \u201cpalos\u201d que s\u00e3o subcategorias do flamenco, e se diferenciam pela estrutura r\u00edtmica e pela progress\u00e3o harm\u00f4nica utilizada. S\u00f3 para citar alguns: existe o fandango, farruca, grana\u00edna, cartageneras, alegrias, buler\u00edas, caracoles, guajiras, peteneras, entre tantos outros.<\/p>\n<p>O ritmo desse neg\u00f3cio \u00e9 complexo. Via de regra, os compassos 2\/4 e 4\/4 geralmente s\u00e3o usados em tangos, rumbas e tientos. Compasso em 3\/4 em servillas e fandangos, e o 12\/8 em seguirlla, soleas , buler\u00eda e alegria. Pra voc\u00eas terem ideia, as vezes a contagem de tempo \u00e9 feita assim: 12 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11, ou assim: 121 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12. Quanto \u00e0 harmonia, \u00e9 algo interessante de ser notado tamb\u00e9m: usa-se predominantemente o modo fr\u00edgio, o terceiro modo grego, com a f\u00f3rmula semitom-tom-tom-tom-semitom-tom-tom. Partindo de mi vou ter: mi-f\u00e1-sol-l\u00e1-si-d\u00f3-r\u00e9-mi, sem nenhum acidente na escala. Partindo de d\u00f3 vou ter d\u00f3-r\u00e9b-mib-f\u00e1-sol-l\u00e1b-sib. Esse modo \u00e9 caracter\u00edstico pela 2a e 3a menor, al\u00e9m da 6a e 7a menor, tudo junto na mesma escala.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m usa a cad\u00eancia \u201cAndaluzia\u201d, que \u00e9 uma progress\u00e3o descendente que usa VIm-V-IV-III ou Im-VII-VI-V. Partindo de d\u00f3 vou ter: l\u00e1 menor, sol maior, f\u00e1 maior, mi maior, ou d\u00f3 menor, si maior, l\u00e1 maior e sol maior. \u00c9 uma progress\u00e3o que gera aquela coisa de sensualidade e mist\u00e9rio na m\u00fasica espanhola. Um exemplo bem condensado disso tudo tu pode conferir nesse v\u00eddeo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=svfsqlkhCaE\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Um dos palos derivados do flamenco que \u00e9 bem conhecido por a\u00ed \u00e9 o merengue. Ele est\u00e1 presente n\u00e3o s\u00f3 no norte do pa\u00eds, como tamb\u00e9m na Venezuela, Col\u00f4mbia, Haiti, e at\u00e9 na Angola. A diferen\u00e7a principal est\u00e1 no compasso em 2\/4 e baixo bem marcado entre oitavas (walking-bass). Ele tamb\u00e9m \u00e9 agitado, feito pra dan\u00e7ar. Na estrutura harm\u00f4nica n\u00e3o tem nada de diferente, mesma \u00eanfase para o modo fr\u00edgio. Exemplo d\u00e1 pra ser encontrado <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=b9pdK9ZKcmg\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">nesse v\u00eddeo<\/a>.<\/p>\n<p>Indo pra Cuba, n\u00e3o tem como n\u00e3o lembrar do mambo, g\u00eanero latino por excel\u00eancia, que tamb\u00e9m \u00e9 um g\u00eanero de dan\u00e7a. A coisa come\u00e7a l\u00e1 pelos anos 1950, com Orestes L\u00f3pez, e o nome, segundo consta a hist\u00f3ria, vem da express\u00e3o \u201cestas mambo?\u201d que significa, \u201cvoc\u00ea est\u00e1 bem?\u201d Em termos de harmonia, ela \u00e9 relativamente simples, progress\u00e3o V-II-IV-I, flertando um pouco com elementos jazz\u00edsticos, como acordes com 5\u00aa diminuta ou s\u00e9tima aumentada, mas n\u00e3o passa disso em termos de complexidade harm\u00f4nica. Em termos de arranjo e ritmo, ele \u00e9 r\u00e1pido e animado, dan\u00e7ante, pra cima, e tem um grave acentuado naquele ritmo j\u00e1 comentado de \u201ce 2 1&#8230;\u201d, com \u00eanfase nos instrumentos de metais e sopros, como trompete, trombone e sax, e \u00e0s vezes tuba. Tamb\u00e9m tem os vocais, as vezes com 2 ou 3 backs vocais uma quinta abaixo, e os teclados fazendo ou riffs ou algumas notas arpejadas. <\/p>\n<p>Do mambo deriva-se a salsa e o cha-cha-cha. Uma pessoa leiga que ouve pode dizer que ambos os tr\u00eas g\u00eaneros s\u00e3o tudo a mesma coisa, mas existem pequenas diferen\u00e7as sutis entre eles. A come\u00e7ar pelo ritmo e andamento: o mambo \u00e9 r\u00e1pido, a salsa \u00e9 um pouco mais lenta. Al\u00e9m disso, o mambo \u00e9 mais cadenciado, mesmo com a progress\u00e3o harm\u00f4nica simples, enquanto que a salsa \u00e9 mais \u201ccaliente\u201d, mais apimentada. J\u00e1 o cha-cha-cha se diferencia pelo ritmo sincopado e v\u00e1rias quebras (repiques) no meio da m\u00fasica. O compasso \u00e9 em 3\/4 (contagem 1, 2, 3, 1, 2, 3&#8230;), mas conta-se sempre as tercinas em cada tempo, do tipo t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1\/t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1\/t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1. Reparem que s\u00e3o 3 grupos de \u201cta-ta-ta\u201d, um em cada tempo do compasso. Da\u00ed a origem que d\u00e1 nome ao g\u00eanero. <\/p>\n<p>Em Cuba tamb\u00e9m tem a rumba, derivado do flamenco. Ele se difere sutilmente dos outros palos acima comentados por ter um ritmo mais lento, mais suave, embora tamb\u00e9m seja feito para dan\u00e7ar. A harmonia, embora use o modo fr\u00edgio, \u00e9 menos misteriosa que os outros palos. O compasso tamb\u00e9m \u00e9 em 2\/4, mas em cada tempo do compasso h\u00e1 uma tercina sincopada, da\u00ed aquele ritmo do tipo t\u00e1\/t\u00e1-ra-da-t\u00e1t\u00e1t\u00e1t\u00e1\/ta-da-ta-t\u00e1t\u00e1t\u00e1t\u00e1\/ta-da-ta-t\u00e1t\u00e1t\u00e1t\u00e1&#8230; bem marcado com os guiros, bongos e congas. <\/p>\n<p>Baixando um pouco o ritmo euf\u00f3rico de todos esses g\u00eaneros, ainda em Cuba (e tamb\u00e9m no Brasil e em todos os pa\u00edses latinos!), temos o bolero. Aqui no pais influenciou fortemente o samba-can\u00e7\u00e3o. Ele se caracteriza por ser mais lento, bem do tipo pra dan\u00e7ar agarradinho, e, diferentemente dos v\u00e1rios instrumentos de sopro e da percuss\u00e3o rica e marcada, aqui \u00e9 mais comum encontrar s\u00f3 viol\u00e3o e piano nos acompanhamentos, poucas linhas de baixo e uma progress\u00e3o harm\u00f4nica simples, do tipo II-VI-V-VII-III. Curioso, ali\u00e1s, como esse g\u00eanero d\u00e1 \u00eanfase aos graus II e VI, causando um efeito de sobretens\u00e3o (tens\u00e3o acima do grau dominante), que pede pra resolver em III ou I, e causa um efeito de surpresa no ouvinte. <\/p>\n<p>Ainda em todos os pa\u00edses latinos, pr\u00f3ximo da Cordilheira dos Andes, existe a m\u00fasica andina. \u00c9 um g\u00eanero folcl\u00f3rico que tem influ\u00eancia da cultura inca, e a \u00eanfase aqui \u00e9 a quena, uma esp\u00e9cie de flauta, e a flauta de p\u00e3 (aquela que n\u00e3o \u00e9 reta, mas sim horizontal com v\u00e1rios tubos amarrados, de diferentes tamanhos), al\u00e9m do charango e da bandola, que s\u00e3o instrumentos de cordas parecidos com o ala\u00fade. Quanto \u00e0 harmonia, algo estranho: \u00eanfase no IV e VII grau, embora a progress\u00e3o seja simples, e a melodia fica por conta do si bemol na escala. Um exemplo tu encontra <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=68MlDucqWkA\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Na tentativa de fechar esse texto, que j\u00e1 est\u00e1 bem grandinho, comento brevemente sobre as caracter\u00edsticas das m\u00fasicas de algumas regi\u00f5es distintas, como a m\u00fasica \u00e1rabe e asi\u00e1tica. A come\u00e7ar pela \u00e1rabe, ela \u00e9 diferentona por si s\u00f3 por valorizar mais a melodia e ritmo do que a harmonia. N\u00e3o h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o, como n\u00f3s ocidentais, em ter o arranjo e o encadeamento perfeito entre acordes pra produzir uma harmonia complexa. \u00c9 bastante comum, ali\u00e1s, ocorrer performances em que a m\u00fasica \u00e9 tocada com acelera\u00e7\u00e3o e diminui\u00e7\u00e3o do ritmo, mas sempre constante, sem parar. O que importa mais \u00e9 a improvisa\u00e7\u00e3o utilizando as escalas maquam. Dois g\u00eaneros mais comuns aqui s\u00e3o o nubah e o waslat. Mas, s\u00f3 pra ter ideia, existe uma infinidade de g\u00eaneros e formas em cada regi\u00e3o espec\u00edfica: no Egito encontramos o Al Jeel, o Shaabi, o Mawwai e a Semsemya. Na Arg\u00e9lia existe o Chaabi e o Rai, e em Marrocos existe o Malhun e e o Gnawa; e na Tun\u00edsia o mezwed e o mizmar.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 melodia, ela pode parecer relativamente simples, mas se torna bem complexa j\u00e1 que eles utilizam um sistema tonal diferente de n\u00f3s ocidentais, composto por 24 microtons. Explico: n\u00f3s estamos acostumados a esse sistema de 12 notas, sendo 7 tons inteiros e 5 semitons entre os tons inteiros, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de mi e f\u00e1 e si e d\u00f3. Na m\u00fasica \u00e1rabe \u00e9 como se entre f\u00e1 e f\u00e1 sustenido tivesse mais meio tom, um f\u00e1 meio sustenido ou sustenido-sustenido ou f\u00e1 dobrado sustenido, como queira preferir.  \u00c9 um neg\u00f3cio complexo para n\u00f3s ocidentais, pra n\u00e3o dizer tamb\u00e9m que \u00e9 dif\u00edcil de perceber pelo ouvido, j\u00e1 que somos educados desde pequeno a esse sistema dodecaf\u00f4nico. <\/p>\n<p>Se com 12 notas podemos fazer v\u00e1rias coisas complexas em termos de composi\u00e7\u00e3o, com 24 ent\u00e3o a m\u00fasica ocidental pode parecer pobre e seca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 oriental.  Isso significa que os orientais s\u00e3o melhores que n\u00f3s em termos auditivos? N\u00e3o necessariamente, mas diria que eles t\u00eam outra percep\u00e7\u00e3o de mundo (e de ac\u00fastica!) diferentemente de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, breve par\u00eantese aqui pra comentar rapidinho que a m\u00fasica indiana tamb\u00e9m tem um sistema tonal parecido, mas com 22 microtons e que se ligam, de alguma maneira, aos 22 pontos espalhados em nosso corpo, que por sua vez, ligam os 7 chakras. Na cultura indiana h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre notas, frequ\u00eancias e cores devem ser emitidas pra harmonizar esses chakras. <\/p>\n<p>Na m\u00fasica \u00e1rabe existe tamb\u00e9m o maqam, que \u00e9 um sistema tonal complexo, um conjunto de regras bem espec\u00edficas pra gerar escalas utilizando os microtons. Pra voc\u00eas terem ideia da complexidade: existem os jins ou ajnas que s\u00e3o conjuntos de notas que podem ser agrupadas na categoria \u201ctrhicords\u201d (3 notas), \u201ctetrachords\u201d (4 notas) e \u201cpentachords\u201d (5 notas). Nos trichords eu tenho os jins: Ajam, Jiharkah, Sikah e Mustaar. Nos tetrachords eu tenho Bayati, Busalik, Hijaz, Kurd,Nahawand, Rast, Ssaba, Zamzama, e nos pentachords eu tenho o Athar Kurd, e Nawa Athar. Pegando o Bayati, por exemplo, eu tenho as notas r\u00e9-mi bemol bemol-f\u00e1-sol. Considerando o harm\u00f4nico fundamental de r\u00e9 (admitamos l\u00e1 como refer\u00eancia em 440hz, r\u00e9 vai ser 587,3hz) eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o de 3\/4 e 3\/4 entre r\u00e9 e mi bemol bemol e entre mi bemol bemol e f\u00e1. Em outros termos, matematicamente falando, isso \u00e9 4\u03c0\/3 rad + \u03c0\/2 sen do harm\u00f4nico superior de r\u00e9. <\/p>\n<p>Indo para a m\u00fasica chinesa, essa \u00e9 interessante porque, apesar de estar pautada no ciclo de quintas, o mesmo utilizado na m\u00fasica ocidental, formando as sete notas, ela prioriza um sistema pentat\u00f4nico, e h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito interessante entre as notas (gong, shang, jue, zhi, e yu), a dire\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o (centro, oeste, leste, sul e norte), a esta\u00e7\u00e3o do ano, o elemento (terra, metal, madeira, fogo e \u00e1gua), os planetas (saturno, V\u00eanus, j\u00fapiter, marte e merc\u00fario), e as emo\u00e7\u00f5es (relaxamento, preocupa\u00e7\u00e3o, ira, prazer, medo).<\/p>\n<p>Pra fechar de vez, duas palavrinhas breves: no decorrer de todos esses textos eu certamente pulei uma porrada de g\u00eaneros e forma\u00e7\u00f5es musicais espec\u00edficas (como a m\u00fasica folcl\u00f3rica canadense de origem abor\u00edgene da Am\u00e9rica do norte, a m\u00fasica alem\u00e3, a m\u00fasica celta, a folcl\u00f3rica russa e australiana&#8230;) por pensar que n\u00e3o vem ao caso, a n\u00e3o ser que algu\u00e9m aqui queira se aventurar a estudar a fundo antropologia e etnomusicologia. De todo modo, esses textos n\u00e3o se prestam a tanto, essa n\u00e3o foi a inten\u00e7\u00e3o, e sim explicar \u201cde um jeito f\u00e1cil\u201d alguns dos g\u00eaneros mais (ou menos) conhecidos por a\u00ed. <\/p>\n<p>E, bem, o que fica disso tudo \u00e9 que, ao analisar determinado g\u00eanero musical, bem como as formas com que determinado grupo social arranja e agrupa seus instrumentos e produz certa sonoridade, tudo isso nos d\u00e1 uma dimens\u00e3o maior sobre o que somos e a forma como vemos o mundo. M\u00fasica, mais do que a arte de unir som e sil\u00eancio, \u00e9 tamb\u00e9m fen\u00f4meno f\u00edsico e fisiol\u00f3gico, e a forma com que lidamos com ela nos mostra a dimens\u00e3o do que somos.<\/p>\n<p><strong>Por: Ge<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. Tio Ge explica \u2013 g\u00eaneros musicais 6 \u2013 Outros G\u00eaneros Finalizando essa s\u00e9rie de textos sobre os g\u00eaneros musicais, hoje comento aqui sobre os v\u00e1rios outros g\u00eaneros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":15844,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-15843","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-convidado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15843"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15843\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}