{"id":15925,"date":"2019-10-31T12:00:42","date_gmt":"2019-10-31T15:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=15925"},"modified":"2019-10-31T02:02:54","modified_gmt":"2019-10-31T05:02:54","slug":"gagueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/10\/gagueira\/","title":{"rendered":"Gagueira."},"content":{"rendered":"<p>Atendendo a uma sugest\u00e3o de um leitor an\u00f4nimo, vamos falar sobre um problema que atinge cerca de dois milh\u00f5es de brasileiros e que poderia ser praticamente solucionado se tivesse um diagn\u00f3stico e tratamento precoce. Desfavor Explica: Gagueira.<!--more--><\/p>\n<p>Quando uma crian\u00e7a est\u00e1 aprendendo a falar ela tem dificuldades em traduzir seus pensamentos em fala. Ela ainda n\u00e3o possui todos os recursos lingu\u00edsticos e neurol\u00f3gicos para traduzir com perfei\u00e7\u00e3o seus pensamentos em frases, por isso nem sempre consegue falar t\u00e3o r\u00e1pido quanto pensa. Assim, \u00e9 muito comum que crian\u00e7as pequenas gaguejem ao falar (papo t\u00e9cnico: disflu\u00eancia normal), \u00e9 um per\u00edodo de adapta\u00e7\u00e3o, geralmente passageiro.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, por uma s\u00e9rie de fatores, \u00e9 poss\u00edvel que essa dificuldade n\u00e3o passe e a crian\u00e7a nunca deixe de trope\u00e7ar nas palavras. Normalmente a gagueira some em tr\u00eas meses, mas, em alguns casos ela nunca vai embora. Surge ent\u00e3o um problema chamado \u201cdisfemia\u201d, conhecido popularmente como gagueira, que nada mais \u00e9 do um dist\u00farbio no ritmo da linguagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ao certo o que desencadeia a gagueira, mas acredita-se que ela surja de uma combina\u00e7\u00e3o de fatores. Complica\u00e7\u00f5es no parto, acidentes que causem traumatismo no c\u00e9rebro e outros fatores f\u00edsicos costumam estar associados a fatores gen\u00e9ticos (sim, \u00e9 heredit\u00e1rio) e a fatores sociais e emocionais como abusos na inf\u00e2ncia, problemas no relacionamento familiar, ansiedade, inseguran\u00e7a e outros, que podem agravar o problema.<\/p>\n<p>Estima-se que 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial seja acometida por algum tipo de gagueira. Parece pouco, mas n\u00e3o \u00e9, s\u00e3o 80 milh\u00f5es de pessoas. No Brasil, como dissemos, h\u00e1 cerca de dois milh\u00f5es de gagos. Por motivos desconhecidos, a incid\u00eancia deste problema em homens \u00e9 cerca de quatro vezes maior do que em mulheres. A maior parte dos casos se manifesta ainda na inf\u00e2ncia, entre os 2 e os 5 anos de idade.<\/p>\n<p>A causa normalmente \u00e9 f\u00edsica, mas o contexto social tamb\u00e9m pode influenciar ou at\u00e9 potencializar o problema. Quanto mais nervoso o gago fica, quanto mais ele tenta n\u00e3o errar, piores ficam os sintomas. Em uma sociedade que julga o tempo todo, que ridiculariza, que mant\u00e9m as pessoas em uma eterna press\u00e3o por adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 normalidade e at\u00e9 \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito natural que o problema se acentue.<\/p>\n<p>Durante muito tempo se acreditou que a gagueira acontecia por um problema no trato vocal, mas hoje se sabe que o problema est\u00e1 no c\u00e9rebro. Ap\u00f3s monitorar atrav\u00e9s de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica o c\u00e9rebro de pessoas com gagueira e compar\u00e1-lo ao c\u00e9rebro de pessoas comuns, o problema ficou evidente: a \u00e1rea do c\u00e9rebro respons\u00e1vel por transformar os pensamentos em sons (papo t\u00e9cnico: \u00c1rea de Broca) recebe menos sangue do que deveria nos gagos. Tamb\u00e9m se constatou que o dano \u00e9 proporcional ao problema, quanto menos sangue recebe, pior \u00e9 a gagueira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse discurso de que \u201cvoc\u00ea tem que se esfor\u00e7ar para falar direito\u201d talvez seja um pouco cruel e in\u00fatil. Como algu\u00e9m pode se esfor\u00e7ar para que uma \u00e1rea do c\u00e9rebro seja mais irrigada? N\u00e3o \u00e9 um fato psicol\u00f3gico que deixa algu\u00e9m gago. O gago n\u00e3o \u00e9 gago por ser inseguro, ele fica inseguro por ser gago. Fatores psicol\u00f3gicos agravam sim a condi\u00e7\u00e3o, mas, salvo casos muito extremos e traum\u00e1ticos, n\u00e3o a causam.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe o que causa essa falha na irriga\u00e7\u00e3o, mas, ao saber onde est\u00e1 o problema, se caminha a passos largos para melhorar a qualidade de vida de quem sofre com este problema: n\u00e3o importa de onde vem, talvez baste um tratamento que estimule a irriga\u00e7\u00e3o nesta regi\u00e3o. Ainda n\u00e3o existe nada nesse sentido dispon\u00edvel, por\u00e9m j\u00e1 h\u00e1 pessoas trabalhando nesse tipo de pesquisa e, como veremos mais \u00e0 frente, existem outras op\u00e7\u00f5es de tratamento bastante eficazes.<\/p>\n<p>Uma prova emp\u00edrica de que o problema de fato tenha origem no c\u00e9rebro, e n\u00e3o no trato vocal \u00e9 que pessoas que gaguejam costumam cantar sem problema algum, sem trope\u00e7ar nas palavras. \u00c9 que a regi\u00e3o do c\u00e9rebro que utilizamos para cantar (papo t\u00e9cnico: hemisf\u00e9rio direito) \u00e9 diferente da que utilizamos para falar (papo t\u00e9cnico: hemisf\u00e9rio esquerdo). <\/p>\n<p>Al\u00e9m de cantar, ler de forma ritmada, sussurrar, falar em coro, declamar uma poesia ou uma fala de um filme, imitar um sotaque ou at\u00e9 gritar acabam n\u00e3o sendo afetados, por causa da \u00e1rea cerebral demandada. A parte da fala espont\u00e2nea fica comprometida, mas a da fala n\u00e3o-espont\u00e2nea fica intacta. Qualquer fala n\u00e3o-espont\u00e2nea provavelmente sair\u00e1 sem gagueira (olha a dica!).<\/p>\n<p>Normalmente a gagueira se manifesta em crian\u00e7as entre 2 a 5 anos de idade. Infelizmente n\u00e3o existe um padr\u00e3o para diagn\u00f3stico. Muitos m\u00e9dicos sequer se d\u00e3o ao trabalho, orientando os pais a esperar, pois isso \u201cpassa\u201d. De fato, na maior parte das vezes passa mesmo, mas n\u00e3o temos como saber. Pode ser que passe, pode ser que n\u00e3o. Na d\u00favida, melhor ajudar seu filho. <\/p>\n<p>Se a gagueira for tratada desde os primeiros sintomas, as chances de que a pessoa consiga alcan\u00e7ar uma fala normal s\u00e3o de quase 98%. Quando mais se espera, menores v\u00e3o ficando. Ent\u00e3o, na d\u00favida, n\u00e3o espere.<\/p>\n<p>Estipule um prazo razo\u00e1vel, algo entre 3 a 6 meses a contar da data em que a crian\u00e7a come\u00e7ou a gaguejar, e se a gagueira n\u00e3o passar, leve a um especialista. N\u00e3o espere mais do que isso, pois o problema vai ficando cada vez mais dif\u00edcil de resolver e, independente de diagn\u00f3stico, isso atrapalha a vida social e o desenvolvimento intelectual da crian\u00e7a, que n\u00e3o interage como deveria e ainda pode carregar traumas para o resto da vida pela rea\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0 sua gagueira.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante ter em mente que a gagueira n\u00e3o se manifesta apenas naquela forma cl\u00e1ssica de repeti\u00e7\u00e3o de uma s\u00edlaba, com dificuldade para completar uma palavra. Existem formas menos conhecidas de gagueira, como por exemplo o prolongamento de sons (esticar a pron\u00fancia de algumas letras), o bloqueio de sons (intervalos grandes entre palavras ou dificuldade em come\u00e7ar uma frase) e outros. Notou dificuldade na fala? Fonoaudi\u00f3logo. <\/p>\n<p>Os pais, amigos e familiares podem ajudar criando um ambiente seguro para a fala: sendo bons ouvintes, permitindo que a crian\u00e7a se sinta segura para falar, n\u00e3o apontando seus erros, completando suas frases, apressando-as ou reclamando da sua gagueira. <\/p>\n<p>Acredite, se a crian\u00e7a pudesse, ela n\u00e3o gaguejaria, n\u00e3o adianta pedir para que ela n\u00e3o o fa\u00e7a, isso s\u00f3 a deixa mais nervosa e ansiosa, piorando o problema. Tenha isso sempre em mente: por mais irritados, frustrados ou desesperados que os pais fiquem, qualquer cobran\u00e7a, mesmo com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, s\u00f3 vai piorar o problema.<\/p>\n<p>A melhor ajuda que voc\u00ea pode dar \u00e9 n\u00e3o culpar a crian\u00e7a, n\u00e3o exigir que ela melhore sozinha atrav\u00e9s de esfor\u00e7o e n\u00e3o sujeita-la a solu\u00e7\u00f5es \u201ccaseiras\u201d que n\u00e3o funcionam, s\u00f3 geram sensa\u00e7\u00e3o de fracasso e frustra\u00e7\u00f5es. Em vez de fazer ignor\u00e2ncias como colocar a crian\u00e7a para falar com bolas de gude na boca, leve-a para uma avalia\u00e7\u00e3o fonoaudiol\u00f3gica e providencie o tratamento necess\u00e1rio. Sim, ter filhos \u00e9 arcar com esse risco. Se seu filho precisa de ajuda, n\u00e3o negue ajuda a ele.<\/p>\n<p>Enquanto isso, algumas medidas podem ser tomadas na escola para tentar reduzir os danos emocionais. Coisas simples, como pedir para que o nome da crian\u00e7a seja o primeiro na hora da chamada (dane-se a ordem alfab\u00e9tica) pois a espera por sua vez gera uma ansiedade absurda e aumenta as chances de gaguejar e ser ridicularizado ou pedir para que exerc\u00edcios de leitura em voz alta sejam feitos pela crian\u00e7a em dupla com um amiguinho assim ela n\u00e3o vai gaguejar. Converse com a crian\u00e7a, descubra quais s\u00e3o os momentos mais sofridos do seu dia na escola e tente atenuar seu sofrimento com sugest\u00f5es criativas para os respons\u00e1veis pela institui\u00e7\u00e3o de ensino.<\/p>\n<p>Para quem sofre desta condi\u00e7\u00e3o, existem pequenas dicas que podem facilitar o dia a dia: substituir palavras que sabe ter dificuldade em pronunciar por outras mais f\u00e1ceis, n\u00e3o deixar de se expressar por medo de ser julgado ou ridicularizado, procurar um bom psic\u00f3logo, pois as consequ\u00eancias sociais da gagueira n\u00e3o s\u00e3o leves e dificilmente a pessoa vai conseguir lidar bem com isso sozinha e procurar tratamentos, que sim, s\u00e3o poss\u00edveis, mesmo na vida adulta.<\/p>\n<p>E, tenha em mente que gagueira \u00e9 heredit\u00e1ria, portanto, pode (eu disse PODE) ser passada para seus filhos. Por isso, acompanhar de perto filhos de pessoas com gagueira, para tratar o problema assim que ele se manifeste, \u00e9 fundamental. Essas crian\u00e7as ter\u00e3o uma propens\u00e3o maior do que o normal a desenvolver o problema. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 comum, mas \u00e9 poss\u00edvel que pessoas desenvolvam gagueira na vida adulta. Apesar de ser muito raro, h\u00e1 registros de traumas na regi\u00e3o do c\u00e9rebro que ocasionaram esse problema. O tratamento \u00e9 mais dif\u00edcil, por\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel. Isso tamb\u00e9m vale para pessoas que desenvolveram a gagueira na inf\u00e2ncia e n\u00e3o foram tratadas, chegando \u00e0 vida adulta com este problema: n\u00e3o desanimem, h\u00e1 uma grande possibilidade de melhoras.<\/p>\n<p>Existe cura para gagueira na vida adulta? Existe tratamento. Muitas vezes com um bom acompanhamento psicol\u00f3gico e fonoaudiol\u00f3gico o problema reduz tanto que fica impercept\u00edvel. <\/p>\n<p>Para casos mais severos, que n\u00e3o apresentam a melhora desejada com psic\u00f3logo + fonoaudi\u00f3logo, existe outra op\u00e7\u00e3o: um aparelho que pode reduzir muito a gagueira a ponto de ela ficar impercept\u00edvel. O aparelho foi desenvolvido pelo pesquisador Joseph Kalinowski, do Departamento de Ci\u00eancia da Comunica\u00e7\u00e3o e Dist\u00farbios da East Carolina University, que \u00e9 gago. Ele mesmo o utiliza.<\/p>\n<p>\u00c9 um aparelhinho chamado \u201cSpeech Easy\u201d, com formato similar a aqueles usados por deficientes auditivos, que \u00e9 colocado dentro da orelha. Funciona da seguinte forma: ele faz com que o gago escute sua pr\u00f3pria voz com atraso ou altera\u00e7\u00e3o de frequ\u00eancia. Isso induz o c\u00e9rebro a acreditar que a pessoa est\u00e1 falando em coro com outras pessoas ou cantando, acionando a outra parte do c\u00e9rebro que n\u00e3o tem problemas de irriga\u00e7\u00e3o, o que induziria permitindo uma fala cont\u00ednua. <\/p>\n<p>Ele fez uma demonstra\u00e7\u00e3o em um programa de TV que ficou famosa: sem o aparelho ele mal conseguia pronunciar seu nome, mas com o aparelho apresentou uma fala cont\u00ednua. \u00c9 uma cura? N\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 nada diferente de usar um par de \u00f3culos, assim como miopia, \u00e9 uma corre\u00e7\u00e3o que basta para dar qualidade de vida. Segundo o pesquisador, funciona em 90% dos casos e pode melhorar a gagueira em at\u00e9 95% da capacidade de fala de uma pessoa. Quer saber mais? <a href=\"mailto:kalinowskij@mail.ecu.edu\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">kalinowskij@mail.ecu.edu<\/a> <\/p>\n<p>Minha dica \u00e9: pesquise. N\u00e3o desista. Se voc\u00ea sofre com esse problema, corra atr\u00e1s de todas as possibilidades. N\u00e3o existe gagueira intrat\u00e1vel, voc\u00ea \u00e9 que ainda n\u00e3o encontrou a combina\u00e7\u00e3o certa de tratamento. \u00c9 poss\u00edvel melhorar sua fala, n\u00e3o desista de voc\u00ea.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para insinuar que estamos fazendo anuncio (como se um pesquisador americano fosse se vincular ao Desfavor), para dizer que te obrigaram a falar com bola de gude na boca ou ainda para dizer que curaram sua gagueira na porrada: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atendendo a uma sugest\u00e3o de um leitor an\u00f4nimo, vamos falar sobre um problema que atinge cerca de dois milh\u00f5es de brasileiros e que poderia ser praticamente solucionado se tivesse um diagn\u00f3stico e tratamento precoce. 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