{"id":16090,"date":"2019-11-29T14:10:23","date_gmt":"2019-11-29T17:10:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16090"},"modified":"2019-11-29T14:10:23","modified_gmt":"2019-11-29T17:10:23","slug":"cafe-forte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/11\/cafe-forte\/","title":{"rendered":"Caf\u00e9 forte."},"content":{"rendered":"<p>A pesquisa na universidade varava a madrugada, mais uma vez. Rodrigo se perdera entre a enormidade de dados do experimento com as propriedades da antimat\u00e9ria e as novidades sobre seu jogo preferido, que acessava ao mesmo tempo. O trabalho noturno era solit\u00e1rio, mas permitia essas liberalidades. Ouvia apenas o som dos pr\u00f3prios passos enquanto caminhava rumo \u00e0 sala de descanso dos professores em busca de mais uma dose de caf\u00e9 quando a monotonia \u00e9 quebrada por uma voz fantasmag\u00f3rica:<!--more--><\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 t\u00e3o frio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuem est\u00e1 a\u00ed? E se diz que faz frio. N\u00e3o est\u00e1 frio.\u201d<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Rodrigo olha ao seu redor em busca de algum sinal, mas logo retoma seu caminho. Na sala de descanso, coloca uma c\u00e1psula do caf\u00e9 mais forte na m\u00e1quina e espera.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o quero ficar sozinho&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim, d\u00e1 para focar muito mais nas suas pesquisas. E, onde voc\u00ea est\u00e1?\u201d \u2013 Rodrigo diz antes de dar um gole no caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 arrogante, voc\u00ea n\u00e3o entende.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea vai ficar falando escondido em algum lugar, eu vou voltar para o meu trabalho. \u00c9 muita falta de educa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu estou do outro lado.\u201d \u2013 a voz responde.<\/p>\n<p>\u201cVago.\u201d<\/p>\n<p>Rodrigo busca uma das bolachas doces ao lado da cafeteira, e come\u00e7a a abrir um dos pacotes lentamente.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e3?\u201d \u2013 a voz parece confusa.<\/p>\n<p>\u201cVago, mal definido. Eu preciso de um ponto de refer\u00eancia para saber de que lado voc\u00ea est\u00e1. Do outro lado do sof\u00e1? do outro lado da sala? Do outro lado da parede?\u201d<\/p>\n<p>\u201cDo outro lado da vida!\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsso obviamente n\u00e3o me ajuda a encontrar sua posi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 resposta. Rodrigo termina de comer suas bolachas e segue de volta ao seu departamento. No longo corredor, as luzes automatizadas v\u00e3o seguindo seus passos acendendo e apagando de acordo com sua presen\u00e7a. J\u00e1 chegando \u00e0 metade final, nota que uma das luzes se acende no final do corredor. Ele para e observa.<\/p>\n<p>Uma figura humana come\u00e7a a se materializar diante de seus olhos, abaixo da luz. Um homem negro de complei\u00e7\u00e3o magra, maltrapilho, com diversas feridas e cicatrizes espalhadas pelo corpo. Ele olha para baixo, bra\u00e7os esticados em frente \u00e0 barriga. Rodrigo vacila por alguns momentos, mas come\u00e7a a se aproximar lentamente enquanto pergunta:<\/p>\n<p>\u201cQuem \u00e9 voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu vivi aqui antes de voc\u00ea nascer&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 um fantasma?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu sofri na m\u00e3o de gente muito ruim. Fui tirado da minha terra natal&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cFantasma de escravo ent\u00e3o? Qual o seu nome?\u201d \u2013 Rodrigo interrompe.<\/p>\n<p>\u201cAyubu, esse foi o nome que a minha m\u00e3e me deu. Quer dizer perseverante.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDuvido. Voc\u00ea s\u00f3 pode saber o que eu sei, e o meu conhecimento de nomes africanos tradicionais \u00e9 inexistente.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o entendi&#8230;\u201d \u2013 Ayubu levanta a cabe\u00e7a, franzindo a testa em d\u00favida.<\/p>\n<p>\u201cEu devo ter dormido ou estar em algum processo alucinat\u00f3rio, seja voc\u00ea um sonho ou uma ilus\u00e3o, como \u00e9 um figmento da minha imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria capaz de ter uma informa\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o tenho.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu sou real!\u201d<\/p>\n<p>\u201cTalvez num sentido metaf\u00edsico. Mas por mais que eu tenha curiosidade de explorar minha imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso perder tempo, tenho que entregar a pesquisa amanh\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea duvida que eu seja real?\u201d \u2013 Ayubu parece irritado.<\/p>\n<p>\u201cSe fantasmas fossem reais, j\u00e1 ter\u00edamos provado h\u00e1 s\u00e9culos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cObserve!\u201d<\/p>\n<p>As luzes come\u00e7am a piscar violentamente, portas se abrem e fecham sozinhas, enquanto os olhos de Ayubu brilham avermelhados.<\/p>\n<p>\u201cAyubu&#8230; Ayubu&#8230; para, n\u00e3o precisa disso.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea aceita minha exist\u00eancia?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, esse show n\u00e3o muda nada. Eu j\u00e1 te vi se materializando, se fosse acreditar que era real, teria acreditado l\u00e1 mesmo. N\u00e3o tem nada de funcionalmente diferente em piscar luzes e bater portas. Se \u00e9 um sonho ou uma alucina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o igualmente poss\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o sinta isso na pr\u00f3pria pele e me diga se eu sou um sonho!\u201d \u2013 Ayubu estica o bra\u00e7o de forma amea\u00e7adora. Uma forte dor no peito faz com que Rodrigo caia no ch\u00e3o imediatamente, encolhido em posi\u00e7\u00e3o fetal. A dor come\u00e7a a diminuir, o suficiente para Rodrigo se reposicionar sentado no ch\u00e3o, olhando para Ayubu.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o&#8230; ai&#8230; tecnicamente estamos na mesma, Ayubu. Nada disso impede que seja um sonho.\u201d<\/p>\n<p>Ayubu suspira, express\u00e3o desapontada.<\/p>\n<p>\u201cMas se te serve de consolo, \u00e9 um dos sonhos mais realistas que eu vivi.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu estou aqui para te dar uma li\u00e7\u00e3o. Mas voc\u00ea se recusa a aprender.\u201d \u2013 Ayubu vem se aproximando.<\/p>\n<p>\u201cQual li\u00e7\u00e3o?\u201d \u2013 Rodrigo se levanta.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 lidando com coisas que n\u00e3o entende. Sua f\u00e9 na ci\u00eancia vai te destruir!\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh n\u00e3o, serm\u00e3o crente no meu sonho? Voc\u00ea tem alguma ideia do que eu estou fazendo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cMexendo com part\u00edculas de Deus!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o. Antimat\u00e9ria. Nada a ver com isso. E mesmo que o experimento d\u00ea muito errado, a quantidade no laborat\u00f3rio n\u00e3o explodiria nem uma bolha de sab\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas voc\u00ea est\u00e1 trabalhando com outras coisas, n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 se for chegar no n\u00edvel 100 do personagem do meu jogo&#8230; Ayubu, eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo nesse sonho. De verdade&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas \u00e9 o meu prop\u00f3sito te dar essa li\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea toma caf\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu plantava caf\u00e9 at\u00e9 meu corpo n\u00e3o aguentar mais&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cAyubu&#8230; me ajuda&#8230;\u201d \u2013 Rodrigo estende a m\u00e3o apontando a sala de descanso.<\/p>\n<p>Os dois seguem at\u00e9 l\u00e1. Rodrigo faz duas x\u00edcaras, e serve uma a Ayubu. Oferece a\u00e7\u00facar, mas a apari\u00e7\u00e3o rejeita.<\/p>\n<p>\u201cAh, voc\u00ea \u00e9 dos meus. A\u00e7\u00facar estraga o caf\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPerde completamente o sabor!\u201d \u2013 Ayubu sorri.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 do forte, eu deixo escondido durante o dia, s\u00f3 uso de noite quando s\u00f3 eu estou aqui.\u201d<\/p>\n<p>Ayubu toma um gole e acena com a cabe\u00e7a para elogiar o caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cVamos l\u00e1&#8230; minha teoria \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 um sonho ou uma alucina\u00e7\u00e3o. Eu apostaria mais num sonho, porque voc\u00ea consegue interagir com o ambiente sem dificuldades. A sua teoria \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 um fantasma de verdade e est\u00e1 aqui para me dar uma li\u00e7\u00e3o, certo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE, se eu entendi corretamente, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o posso mexer com as part\u00edculas de Deus, certo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, \u00e9 isso que eu vim fazer aqui.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas, eu j\u00e1 te disse que trabalho com antimat\u00e9ria, algo bem diferente. Ningu\u00e9m aqui na universidade est\u00e1 sequer estudando isso&#8230; como ficamos?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu posso ter entendido errado. Vai ver me disseram antimat\u00e9ria e eu confundi por causa das not\u00edcias sobre as part\u00edculas de Deus&#8230;\u201d \u2013 Ayubu, ainda tomando caf\u00e9, parece bem mais descontra\u00eddo e amistoso que antes.<\/p>\n<p>\u201cSei n\u00e3o, quem te disse isso?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o entenderia o funcionamento do outro lado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu trabalho com f\u00edsica experimental, j\u00e1 fiz mestrado&#8230; duvido que se voc\u00ea me explicar eu n\u00e3o consigo pelo menos lidar com a informa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o assuntos do esp\u00edrito, n\u00e3o da racionalidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSabe o que eu acho? Que nem voc\u00ea sabe do que est\u00e1 falando.\u201d<\/p>\n<p>Ayubu para o gole, afasta a caneca e fecha a express\u00e3o. Rodrigo continua:<\/p>\n<p>\u201cEm vida, voc\u00ea foi um escravo, certo? Presumo s\u00e9culo 18 ou 19.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, eu morri em 1792.\u201d \u2013 Ayubu responde.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, n\u00e3o te parece estranho que tenham escolhido voc\u00ea para me passar essa mensagem? Se fosse o Oppenheimer eu at\u00e9 entenderia. Faz mais sentido voc\u00ea vir aqui me dar uma li\u00e7\u00e3o sobre igualdade racial, explora\u00e7\u00e3o, etc.\u201d<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 porque eu sou negro eu n\u00e3o posso te avisar sobre os perigos da ci\u00eancia?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea sabe muito bem que n\u00e3o foi isso que eu disse!\u201d \u2013 agora \u00e9 a express\u00e3o de Rodrigo que fica fechada.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente aceitar a li\u00e7\u00e3o que eu vim te passar?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o! Ela n\u00e3o faz sentido! Voc\u00ea \u00e9 um fantasma e fantasmas n\u00e3o existem! Eu quero acordar logo disso porque n\u00e3o quero acordar babando na frente dos meus alunos amanh\u00e3 de manh\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA sua arrog\u00e2ncia ainda vai ser sua ru\u00edna.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE que escravo fala assim?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAgora eu n\u00e3o sei muito bem que n\u00e3o foi isso que voc\u00ea disse!\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh, ent\u00e3o voc\u00ea fez curso superior na escola do Gasparzinho?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAcho que me mandaram para te dar uma li\u00e7\u00e3o para deixar de ser babaca!\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o que mandassem algu\u00e9m menos burro!\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o.\u201d \u2013 Ayubu come\u00e7a a desaparecer, mas n\u00e3o sem antes fazer um gesto ofensivo com o dedo. Rodrigo sente a dor nas \u00e1reas baixas imediatamente, leva as m\u00e3os para a \u00e1rea, derramando o caf\u00e9 no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMuito adulto, Ayubu&#8230; Argh&#8230; droga&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Rodrigo abre os olhos. Est\u00e1 no laborat\u00f3rio, uma aluna est\u00e1 rindo olhando diretamente para ele. Se ergue na cadeira e tenta fazer um pose mais digna, o que \u00e9 invalidado pela baba que escorre pelo canto da boca.<\/p>\n<p>\u201cQue horas s\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSete e quarenta.\u201d \u2013 responde a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cAh, a pesquisa! Era pra mandar hoje&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cU\u00e9, n\u00e3o \u00e9 essa aqui no computador? Parece feita.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAyubu?\u201d \u2013 Rodrigo fica pensativo.<\/p>\n<p>Ele se aproxima do computador e come\u00e7a a ler. \u00c9 a maior sequ\u00eancia de bobagens espirituais e pseudoci\u00eancia que leu na vida. Rodrigo perde o prazo e a bolsa de estudos algumas semanas depois.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: fantasmas n\u00e3o entendem nada de ci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que isso foi um desperd\u00edcio de tempo, para dizer que n\u00e3o sabe se foi isso que eu quis dizer, ou mesmo para dizer que a verdadeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o confiar nos outros: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pesquisa na universidade varava a madrugada, mais uma vez. Rodrigo se perdera entre a enormidade de dados do experimento com as propriedades da antimat\u00e9ria e as novidades sobre seu jogo preferido, que acessava ao mesmo tempo. O trabalho noturno era solit\u00e1rio, mas permitia essas liberalidades. 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