{"id":16119,"date":"2019-12-06T12:22:31","date_gmt":"2019-12-06T15:22:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16119"},"modified":"2019-12-06T12:22:31","modified_gmt":"2019-12-06T15:22:31","slug":"bacurau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/12\/bacurau\/","title":{"rendered":"Bacurau."},"content":{"rendered":"<p>Finalmente tomei coragem e vi o filme. A coprodu\u00e7\u00e3o franco-brasileira conta a hist\u00f3ria de um vilarejo nordestino que subitamente se v\u00ea apagado do mapa e recebe a visita de forasteiros mal intencionados. N\u00e3o que seja um filme de muitos spoilers, mas se voc\u00ea n\u00e3o viu o filme e faz quest\u00e3o de ver, melhor n\u00e3o continuar&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Normalmente eu come\u00e7aria reclamando da politiza\u00e7\u00e3o criada ao redor do filme, dizendo que isso atrapalharia uma an\u00e1lise honesta do material. Mas, dessa vez, a politiza\u00e7\u00e3o faz parte da experi\u00eancia. Estabelecer Bacurau como uma pe\u00e7a de resist\u00eancia contra a direita de Bolsonaro, Trump e cia. estava nos planos de divulga\u00e7\u00e3o do filme e provavelmente gerou boa parte da renda conquistada nos cinemas. Bacurau queria ser pol\u00edtico e conseguiu. Infelizmente, isso custou caro para a qualidade da obra.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, at\u00e9 pelas limita\u00e7\u00f5es geradas pela politiza\u00e7\u00e3o do roteiro, acaba simples: Bacurau \u00e9 um distrito muito afastado de uma cidade maior no interior de Pernambuco, com uma min\u00fascula popula\u00e7\u00e3o que se conhece pelo nome. Sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 miser\u00e1vel, parece viver sob uma esp\u00e9cie de regime socialista, com uma vibe meio cubana (idealizada). N\u00e3o h\u00e1 preconceito contra gays, n\u00e3o h\u00e1 racismo&#8230; as pessoas convivem em relativa harmonia. Obviamente, por estarem t\u00e3o afastados de centros urbanos, tem dificuldades de abastecimento, mas ningu\u00e9m \u00e9 mostrado passando fome.<\/p>\n<p>Um belo dia, o professor da escola n\u00e3o consegue mais achar a pr\u00f3pria vila na internet. O sinal de celular desaparece, estranhos come\u00e7am a aparecer na cidade&#8230; e por estranhos obviamente estamos falando de pessoas brancas do sul. O filme acelera o passo para mostrar um grupo de ca\u00e7adores de gente vindos dos EUA que est\u00e3o l\u00e1 para matar toda a popula\u00e7\u00e3o de Bacurau. Sumir do mapa fazia parte do plano deles. Logo a hist\u00f3ria avan\u00e7a para mostrar o conflito entre os americanos malvados e o corajoso povo nordestino, que&#8230; spoiler&#8230; vence a batalha. Se bem que era prov\u00e1vel mesmo que o filme n\u00e3o fosse explicitamente politizado&#8230; um final com os assassinos vencendo seria decepcionante em qualquer contexto.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea est\u00e1 revirando os olhos com a completa falta de sutileza do roteiro, cuidado para n\u00e3o cair numa armadilha ideol\u00f3gica: a premissa do filme n\u00e3o \u00e9 problema. De um ponto de vista narrativo, a ideia \u00e9 muito boa e j\u00e1 foi testada e aprovada por mil\u00eanios. Um grupo mais fraco resistindo a um ataque de for\u00e7a maior \u00e9 a base de milhares de hist\u00f3rias excelentes, e n\u00e3o tem muito como fugir da f\u00f3rmula de gerar simpatia pelos her\u00f3is e pintar os vil\u00f5es como pessoas horr\u00edveis. A base do filme \u00e9 muito boa. Quando Bacurau se permite ser um filme e n\u00e3o um segmento de hor\u00e1rio eleitoral, a hist\u00f3ria \u00e9 cativante, e a surpresa do final valeria o ingresso f\u00e1cil se tivessem controlado o \u00edmpeto pol\u00edtico e dado mais espa\u00e7o para&#8230; para o filme!<\/p>\n<p>Bacurau \u00e9 um filme ruim quando esquece de ser filme. O meu maior inc\u00f4modo com a experi\u00eancia vem justamente das oportunidades desperdi\u00e7adas dentro da hist\u00f3ria do filme. Gastando tempo e recursos narrativos para lacrar ao inv\u00e9s de contar o que poderia ser uma hist\u00f3ria muito divertida. O que os envolvidos no projeto parecem n\u00e3o entender \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 como tornar uma premissa dessas muito profunda, n\u00e3o \u00e9 uma an\u00e1lise sobre as complexidades da natureza humana, \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre americanos psicopatas tentando matar um bando de nordestinos! Era s\u00f3 ter ficado com isso e deixado as melhores personagens brilharem.<\/p>\n<p>Bacurau n\u00e3o quer ser o filme de a\u00e7\u00e3o que deveria ser, e isso custa caro para o ritmo e o desenvolvimento da hist\u00f3ria. Come\u00e7amos muito bem com uma cena de uma mulher vindo de carona num caminh\u00e3o-pipa de volta para Bacurau. Estabelece o isolamento da regi\u00e3o, a cena com um caminh\u00e3o virado na estrada carregado de caix\u00f5es depois de um acidente cria um clima excelente de antecipa\u00e7\u00e3o&#8230; mas a\u00ed Bacurau fica com \u201cvergonha\u201d de ser um filme normal e passa vinte minutos se arrastando num funeral s\u00f3 para mostrar como nordestinos s\u00e3o todos intelectuais de cora\u00e7\u00e3o puro sem nenhum preconceito. Sim, \u00e9 importante gerar simpatia com os her\u00f3is do filme, mas n\u00e3o precisava dessa enrola\u00e7\u00e3o toda. At\u00e9 porque n\u00e3o te aproxima de nenhuma das personagens da cidade.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 um problema recorrente do filme: n\u00e3o te deixam se afei\u00e7oar a ningu\u00e9m. As pessoas de Bacurau ficam sem personalidade, voc\u00ea pode at\u00e9 pensar que a ideia era fazer da cidade uma consci\u00eancia coletiva, mas eu duvido muito: o roteiro se lembra que precisa estabelecer personagens do meio para frente, e tenta resolver, especialmente na figura dos vil\u00f5es. Mas n\u00e3o d\u00e1 mais tempo. A hist\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 estabelecida e n\u00e3o tem mais como se apegar. Foi tanto tempo perdido numa esp\u00e9cie de masturba\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sobre as como esquerda \u00e9 boa e direita \u00e9 ruim que at\u00e9 mesmo a \u00fanica personagem realmente diferenciada do filme, que deveria ser a base da hist\u00f3ria, \u00e9 desperdi\u00e7ada vergonhosamente. Mais sobre isso depois.<\/p>\n<p>Falemos dos vil\u00f5es: n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com vil\u00f5es cartunescos, Tarantino faz isso desde sempre e pode funcionar dentro de uma hist\u00f3ria que sabe n\u00e3o se levar a s\u00e9rio. Bacurau raramente se d\u00e1 esse luxo. A necessidade de disfar\u00e7ar que \u00e9 um filme de a\u00e7\u00e3o divertido quebra tanto o ritmo da hist\u00f3ria que os vil\u00f5es americanos ficam perdidos. Tecnicamente, eles estavam no filme certo, precisavam ser rid\u00edculos para atender \u00e0 premissa da sua presen\u00e7a em Bacurau, mas ficam sozinhos no tom que o filme escolhe. Os her\u00f3is est\u00e3o num filme art\u00edstico, os vil\u00f5es est\u00e3o num filme de a\u00e7\u00e3o cretino. N\u00e3o d\u00e1 certo.<\/p>\n<p>O tom de Bacurau muda o tempo todo, e isso faz com que nenhuma personagem caiba de verdade dentro da hist\u00f3ria. O \u201cchefe\u201d dos vil\u00f5es &#8211; interpretado por Udo Kier como um perfeito bandido de filme B \u2013 tem personalidade suficiente para ser desenvolvida na hist\u00f3ria, mas n\u00e3o tem chance. Precisamos gastar uma cena inteira relembrando o brasileiro que estrangeiros n\u00e3o nos acham brancos e depois demonstrar como o povo nordestino \u00e9 extremamente tolerante com homossexuais. Desculpa, hist\u00f3ria, mas voc\u00ea n\u00e3o pode ocupar tanto tempo assim. Temos uma agenda pol\u00edtica para preencher.<\/p>\n<p>Mas deixar o vil\u00e3o em segundo plano \u00e9 um pecado comum nos filmes, perdo\u00e1vel. O desastre de Bacurau \u00e9 jogar no lixo seus her\u00f3is. Especialmente Lunga: um cidad\u00e3o fora-da-lei aparentemente gay que vive \u00e0s margens da cidade numa represa, provavelmente protegendo a cidade de ser inundada. Nada \u00e9 muito bem explicado. Lunga \u00e9 mencionado no come\u00e7o do filme, e \u00e9 guardado como carta-na-manga para a segunda metade da hist\u00f3ria, onde retorna \u00e0 cidade parecendo um vocalista de banda de metal dos anos 80. N\u00e3o me perguntem o motivo, mas \u00e9 realmente divertido. Aqui podemos discutir quest\u00e3o de gosto: eu teria escrito a hist\u00f3ria ao redor de Lunga e do chefe dos assassinos americanos, porque s\u00e3o de longe as melhores personagens. Mas aceito que tenham escolhido outro caminho. O problema \u00e9 que quando Lunga chega na hist\u00f3ria, n\u00e3o tem o protagonismo que merece: o filme est\u00e1 gastando tempo te martelando na cabe\u00e7a sobre como americanos s\u00e3o ruins e desenvolvendo vil\u00f5es secund\u00e1rios que v\u00e3o morrer em quest\u00e3o de minutos. Isso sim parece um erro de narrativa.<\/p>\n<p>Mas o filme n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 problemas: h\u00e1 uma sacada muito boa na hist\u00f3ria. Muito se fala sobre o museu de Bacurau durante o filme, mas nunca entramos nele. Ele \u00e9 mencionado como ponto de interesse da vila, mas os \u201cturistas\u201d que aparecem por l\u00e1 n\u00e3o se mostram interessados. Nesse ponto, os roteiristas foram perfeitos: o museu fica na sua cabe\u00e7a, mas n\u00e3o chama aten\u00e7\u00e3o demais para que voc\u00ea comece a pensar muito sobre ele. Quando um dos assassinos americanos finalmente entra no museu, j\u00e1 depois do grupo ter invadido a cidade e come\u00e7ado a ca\u00e7ar os cidad\u00e3os de Bacurau, descobrimos que \u00e9 um museu de cangaceiros e que a hist\u00f3ria da cidade est\u00e1 intimamente ligada a isso. Perfeito. Essa \u00e9 a virada para descobrirmos que o povo de Bacurau n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o passivo quanto se previa, e dali pra frente o filme pega no breu e vira o que deveria ser: um filme de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 quase uma virada tarantinesca: a viol\u00eancia sobe 300% imediatamente e os her\u00f3is trucidam os bandidos. Muito bom! Bacurau fez o que deveria ter feito desde o come\u00e7o. Se eu te contasse que Bacurau \u00e9 sobre um grupo de americanos que paga para matar todo mundo de uma cidadezinha nordestina s\u00f3 para descobrirem que eles s\u00e3o descendentes de cangaceiros e se foderem incrivelmente, voc\u00ea n\u00e3o acharia uma boa ideia de filme? Desde, \u00e9 claro, que aceitassem a baboseira da premissa e fizessem um filme divertido e exagerado com isso.<\/p>\n<p>Bacurau quase consegue. A sanha de fazer um filme mais art\u00edstico e a vontade de lacrar criam a tosquice necess\u00e1ria para gerar cenas divertidas quando tenta se levar a s\u00e9rio e falham terrivelmente, mas o roteiro que fica fazendo pausas para empurrar ideologia pol\u00edtica quebra o ritmo da coisa e subutiliza v\u00e1rios dos pontos fortes da hist\u00f3ria. O filme poderia ser 100% Tarantino (e as melhores partes dele s\u00e3o quando seguem essa linha), mas parece que baixa um Jodorowsky na equipe e tudo enrosca de novo. Nada contra Jodorowsky, eu aguentei at\u00e9 a Dan\u00e7a da Realidade inteiro, mas n\u00e3o cabia em Bacurau. N\u00e3o d\u00e1 para fazer tudo o que voc\u00ea quer ao mesmo tempo. Eu gosto de churrasco e gosto de sorvete, mas n\u00e3o misturo os dois no mesmo prato&#8230; Bacurau tinha tudo para ser um dos melhores filmes de a\u00e7\u00e3o do Brasil, mas vira uma gororoba por causa da pol\u00edtica e de escolhas criativas estranhas da sua equipe.<\/p>\n<p>Recomendo com ressalvas. Muito mais longo do que precisaria ser, poucas coisas s\u00e3o realmente resolvidas depois de estabelecidas, mas quando o filme est\u00e1 fazendo o que deveria fazer, o faz muito bem. Torcendo por um remake americano!<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para me chamar de bolsominion, para dizer que \u00e9 mais irritante quando voc\u00ea sabe que poderia ser bom, ou mesmo para dizer que seremos Resist\u00eancia ainda com verba do governo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Finalmente tomei coragem e vi o filme. 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