{"id":16141,"date":"2019-12-11T13:14:19","date_gmt":"2019-12-11T16:14:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16141"},"modified":"2019-12-11T13:15:48","modified_gmt":"2019-12-11T16:15:48","slug":"aprendendo-a-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2019\/12\/aprendendo-a-escrever\/","title":{"rendered":"Aprendendo a escrever."},"content":{"rendered":"<p>Ok, voc\u00ea j\u00e1 deve ter aprendido mais ou menos na mesma \u00e9poca que aprender a ler, mas&#8230; quanto mais nos habituamos ao meio digital, mais percebemos como na pr\u00e1tica a teoria \u00e9 outra. Se oficialmente boa parte da popula\u00e7\u00e3o sabe escrever, basta alguns minutos de internet para perceber a imensa dificuldade da maioria das pessoas de expressar qualquer ideia nesse meio. Ao inv\u00e9s de dar dicas de como escrever, hoje eu quero estender um ponto do <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/08\/escrever-feito-gente\/\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">\u00faltimo texto<\/a> sobre o assunto: a diferen\u00e7a entre falar e escrever.<!--more--><\/p>\n<p>E eu n\u00e3o estou me baseando apenas em coment\u00e1rios imbecis de redes sociais e portais de not\u00edcias, estou falando tamb\u00e9m de uma parte consider\u00e1vel da comunica\u00e7\u00e3o escrita utilizada no mercado de trabalho e at\u00e9 mesmo no meio acad\u00eamico. E quem me dera que o problema fosse s\u00f3 erros na escrita das palavras ou mesmo concord\u00e2ncia verbal&#8230; isso \u00e9 f\u00e1cil de corrigir. O verdadeiro problema que assola a comunica\u00e7\u00e3o escrita no Brasil (e pelo o que eu leio por a\u00ed, pelo mundo) \u00e9 a falta de coer\u00eancia e prop\u00f3sito nos textos trocados por a\u00ed.<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o \u00e9 sobre escrever livros ou montar textos argumentativos de alt\u00edssimo n\u00edvel, \u00e9 sobre escrever coisas coerentes no seu dia a dia e evitar confus\u00f5es onde elas n\u00e3o precisam existir. Escrever bem mesmo \u00e9 quest\u00e3o de experi\u00eancia e estudo, mas parar de escrever mal \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel apenas com um ajuste de mentalidade. N\u00e3o precisa ser o Machado de Assis para mandar um e-mail decente, escrever um bom relat\u00f3rio ou passar direito suas ideias numa rede social&#8230;<\/p>\n<p>Vamos estabelecer uma coisa aqui: a fala e a escrita compartilham as mesmas palavras, mas pode considerar como uma outra l\u00edngua. N\u00e3o se fala como se escreve e principalmente, n\u00e3o se escreve como se fala. O que funciona num contexto nem sempre tem tradu\u00e7\u00e3o direta para o outro. Quando voc\u00ea come\u00e7a a escrever, tem que fazer escolhas muito diferentes da fala, e se poss\u00edvel, desenvolver todo seu racioc\u00ednio de novo na \u201cl\u00edngua da escrita\u201d. \u00c9 diferente assim.<\/p>\n<p>E muito por isso, \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea nem perceba que est\u00e1 escrevendo muito mal no seu dia a dia, se voc\u00ea n\u00e3o estiver prestando aten\u00e7\u00e3o nas peculiaridades da escrita, vai achar que fez tudo direitinho com base no que usa enquanto est\u00e1 falando. Mas, quais s\u00e3o essas peculiaridades?<\/p>\n<p>A mais importante e provavelmente mais \u00f3bvia \u00e9 que textos n\u00e3o tem ajuda de uma pessoa ao vivo para passar sua mensagem. Parece uma bobagem, mas o simples fato de voc\u00ea estar falando na frente de outra pessoa simplifica imensamente a compreens\u00e3o de uma ideia. Somos programados para reconhecer express\u00f5es, posturas, contextos visuais&#8230; um revirar de olhos pode ter mais poder de passar uma mensagem que dez par\u00e1grafos de texto. E pode ter certeza de que vamos nos adaptando a esse poder. \u00c9 bem prov\u00e1vel que na sua cabe\u00e7a pare\u00e7a que voc\u00ea sempre vai ter esses recursos extras ao seu favor.<\/p>\n<p>Mas a escrita enfrenta a batalha pela compreens\u00e3o sozinha. O que est\u00e1 no papel ou na tela \u00e9 tudo o que voc\u00ea tem para passar a sua ideia. Ent\u00e3o, comece a pensar nisso tudo atrav\u00e9s dessa percep\u00e7\u00e3o de isolamento: seu texto s\u00f3 depende dele para funcionar. Cada coisa que voc\u00ea presumir de quem vai ler pode e ser\u00e1 usada contra voc\u00ea na hora da leitura. Voc\u00ea n\u00e3o sabe como o outro pensa e n\u00e3o sabe como ele vai se apropriar da sua ideia na cabe\u00e7a dele. Tecnicamente: quando voc\u00ea fala a ideia \u00e9 sua, quando voc\u00ea escreve, a ideia \u00e9 do outro. Porque a \u00fanica coisa decodificando e dando contexto para algo que voc\u00ea l\u00ea \u00e9 a sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Vamos refor\u00e7ar o ponto: n\u00e3o s\u00f3 a escrita n\u00e3o tem ajuda nenhuma da sua apar\u00eancia, trejeitos e do ambiente onde as duas pessoas est\u00e3o, como tamb\u00e9m a pessoa que est\u00e1 recebendo a informa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode usar a cabe\u00e7a dela para entender sobre o que diabos voc\u00ea est\u00e1 falando. N\u00e3o d\u00e1 para ficar presumindo que a outra pessoa vai entender qualquer coisa. O que voc\u00ea n\u00e3o explicar vai depender da outra pessoa ter uma vis\u00e3o das coisas parecidas com as suas antes mesmo de ler o texto. E como a vida nos ensina, raramente esse \u00e9 o caso.<\/p>\n<p>Mas isso quer dizer que precisa descrever uma bola de borracha vermelha toda vez que escrever sobre uma? Claro que n\u00e3o. N\u00e3o fosse uma base comum de significados para palavras, a escrita seria uma forma imposs\u00edvel de comunica\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode presumir livremente que o leitor sabe o que cada palavra \u00e9, mesmo as mais incomuns, essa conversa \u00e9 sobre o sentimento atrelado ou mesmo o contexto hist\u00f3rico das coisas sobre as quais voc\u00ea escreve.<\/p>\n<p>Por exemplo: falar sobre carros \u00e9 diferente de falar sobre uma marca de carros: a pessoa sabe o que \u00e9 um carro e entende os princ\u00edpios mais comuns atrelados a um deles, mas provavelmente tem um sentimento bem pr\u00f3prio sobre cada uma das marcas, quando tem. Faz parte do conjunto esperado de conhecimento de uma pessoa do mundo moderno saber que carro \u00e9 meio de transporte, mas n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de saber a diferen\u00e7a entre as montadoras alem\u00e3s, ou ter uma prefer\u00eancia por alguma delas. Se voc\u00ea escrever que \u201c\u00e9 \u00f3bvio que a pessoa escolheria uma Mercedes ao inv\u00e9s de uma BMW\u201d, boa parte do seu p\u00fablico n\u00e3o vai ter a menor ideia sobre o que voc\u00ea quer dizer com isso. Mesmo quem conhece a fundo o tema n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de concordar com isso.<\/p>\n<p>Jamais trate sua opini\u00e3o sobre alguma coisa como algo \u201c\u00f3bvio\u201d. Especialmente quando dela depende a compreens\u00e3o da continua\u00e7\u00e3o de um texto. Se voc\u00ea perder a pessoa no come\u00e7o do racioc\u00ednio, vai ser quase imposs\u00edvel trazer ela de volta depois. N\u00e3o adianta s\u00f3 estabelecer algo e torcer para a pessoa que l\u00ea completar da mesma forma que voc\u00ea. Tamb\u00e9m, no sentido oposto, concluir algo sem explicar o motivo gera a mesma depend\u00eancia exagerada da concord\u00e2ncia alheia. O cl\u00e1ssico que se ensina em reda\u00e7\u00f5es na escola \u00e9 que toda hist\u00f3ria tem que ter come\u00e7o, meio e fim. O que n\u00e3o fica claro nessa \u00e9poca \u00e9 que isso vale para um texto de qualquer tamanho. Mesmo que seja um e-mail no trabalho.<\/p>\n<p>Inclusive eu sugiro que no dia a dia voc\u00ea nem fique sofrendo para entender a parte do \u201cmeio\u201d. Basta usar os conceitos de l\u00f3gica b\u00e1sica de premissa e conclus\u00e3o. Voc\u00ea precisa dessas duas partes: uma que estabele\u00e7a de onde voc\u00ea est\u00e1 tirando uma ideia e outra que a partir desse estabelecimento gere uma conclus\u00e3o. Se A, ent\u00e3o B. A n\u00e3o ser que voc\u00ea saiba muito bem o que est\u00e1 fazendo, n\u00e3o troque essa ordem. Explique a situa\u00e7\u00e3o para que a outra pessoa entenda muito bem de onde vem aquela ideia, porque ela n\u00e3o vai ter outro lugar de onde tirar essa compreens\u00e3o. Idem para a conclus\u00e3o: voc\u00ea n\u00e3o pode estabelecer que o c\u00e9u \u00e9 azul, portanto bicicletas poluem menos. Parece \u00f3bvio nesse exemplo maluco, mas \u00e9 uma das coisas que mais acontecem na hora da confus\u00e3o com algum material escrito.<\/p>\n<p>Digamos que voc\u00ea est\u00e1 tentando convencer algu\u00e9m a comprar os seus brigadeiros: voc\u00ea estabelece que eles s\u00e3o feitos com carinho, e conclui dizendo que o melhor \u00e9 comprar os feitos com ingredientes de qualidade. Oras, se o final do argumento \u00e9 relacionado com os ingredientes, a premissa de serem feitos com carinho n\u00e3o ajuda em nada. Se o seu argumento de venda est\u00e1 baseado numa coisa, essa coisa precisa ser estabelecida: quais ingredientes selecionados voc\u00ea usa? Por que eles fazem diferen\u00e7a? Voc\u00ea s\u00f3 falou de carinho antes. Sen\u00e3o era melhor concluir dizendo que caseiro era melhor que industrializado, porque presume-se que o ser humano m\u00e9dio conecte o conceito de carinho com algo caseiro ao inv\u00e9s de uma grande ind\u00fastria.<\/p>\n<p>O argumento nem precisa ser t\u00e3o bom assim, s\u00f3 de premissa e conclus\u00e3o estarem relacionadas voc\u00ea j\u00e1 torna uma leitura bem mais agrad\u00e1vel e f\u00e1cil de se lembrar depois. E para premissa e conclus\u00e3o funcionarem, voc\u00ea n\u00e3o pode presumir muito: quanto mais longe do conhecimento b\u00e1sico de um ser humano voc\u00ea for, mais precisa explicar sobre o que est\u00e1 falando. Quanto mais pessoal e emocional for seu ponto, maior a necessidade de estabelecer o porqu\u00ea das coisas serem assim: lembre-se que n\u00e3o tem a sua express\u00e3o ao vivo para passar essa mensagem.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode achar que precisa escrever muito ent\u00e3o para seguir essa mentalidade na escrita, e est\u00e1 enganado(a): eu vejo muitos casos de gente que escreve paredes de texto incoerentes e acha que mandou muito bem s\u00f3 por causa do volume de palavras. Como se escrita fosse uma disputa para ver quem digitou mais&#8230; massas de palavras n\u00e3o tornam um texto mais compreens\u00edvel, l\u00f3gica b\u00e1sica sim. Justamente pelo meio da escrita ter essa limita\u00e7\u00e3o de s\u00f3 poder usar o seu conte\u00fado para passar uma mensagem que voc\u00ea n\u00e3o deve exagerar: atente-se ao objetivo do seu texto. Se \u00e9 pedir uma coisa, pe\u00e7a logo. Se \u00e9 para explicar um ponto, fale s\u00f3 desse ponto. Tangentes na l\u00edngua escrita s\u00e3o cansativas e atrapalham o fluxo da ideia: colocam coisas entre a premissa e a conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea precisa falar de v\u00e1rias coisas, \u00e9 de bom tom finalizar cada ideia antes de come\u00e7ar a pr\u00f3xima. Eu sei que \u00e9 engra\u00e7ado eu falando disso, mas \u00e9 aquela velha hist\u00f3ria de conhecer as regras para poder quebr\u00e1-las: nos textos que eu saio por uma tangente por v\u00e1rios par\u00e1grafos, foi a minha escolha e eu sei qual o custo disso. Tanto que n\u00e3o \u00e9 incomum repetir a premissa depois dessa mudan\u00e7a de assunto para relembrar qual o foco da argumenta\u00e7\u00e3o. E ao contr\u00e1rio do desfavor, num texto profissional ou mesmo numa mensagem pessoal quem est\u00e1 lendo n\u00e3o concordou em \u201cler por ler\u201d antes de receber aquele conjunto de palavras: voc\u00ea est\u00e1 interrompendo algu\u00e9m para passar uma mensagem, ent\u00e3o&#8230; passe a mensagem.<\/p>\n<p>Escrever bem \u00e9 sim treino, muita leitura e ter habilidades de comunica\u00e7\u00e3o bem desenvolvidas, mas n\u00e3o precisamos disso no dia a dia. Assim como n\u00e3o precisamos ser excelentes oradores para nos comunicarmos habitualmente. Ningu\u00e9m est\u00e1 exigindo mais do que explicar sobre o que est\u00e1 falando e conectar os pontos da sua ideia. Escreva o m\u00ednimo poss\u00edvel para passar uma mensagem que n\u00e3o dependa do outro j\u00e1 concordar com voc\u00ea ou mesmo ter o mesmo conhecimento sobre as coisas. N\u00e3o mude de assunto antes de finalizar um assunto. N\u00e3o explique o que n\u00e3o vai ter fun\u00e7\u00e3o na sua argumenta\u00e7\u00e3o. Separe visualmente os par\u00e1grafos para facilitar a vida de quem est\u00e1 lendo.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de mentalidade. Simplicidade e l\u00f3gica. Escrita \u00e9 uma outra l\u00edngua com suas pr\u00f3prias regras. Basta segui-las.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que este texto \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o, para dizer que agora entende porque eu me repito tanto, ou mesmo para dizer que n\u00e3o leu: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ok, voc\u00ea j\u00e1 deve ter aprendido mais ou menos na mesma \u00e9poca que aprender a ler, mas&#8230; quanto mais nos habituamos ao meio digital, mais percebemos como na pr\u00e1tica a teoria \u00e9 outra. 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