{"id":16648,"date":"2020-04-08T12:46:51","date_gmt":"2020-04-08T15:46:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16648"},"modified":"2020-04-08T12:46:51","modified_gmt":"2020-04-08T15:46:51","slug":"nacionalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/04\/nacionalismo\/","title":{"rendered":"Nacionalismo."},"content":{"rendered":"<p>Enquanto as fronteiras est\u00e3o fechadas em v\u00e1rios pa\u00edses e um verdadeiro leil\u00e3o acontece para a compra de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual produzidos na China, muitos defensores do nacionalismo ganham novos ouvidos para suas mensagens. Mas, o que isso quer dizer na pr\u00e1tica?<!--more--><\/p>\n<p>O nome j\u00e1 diz muito, mas n\u00e3o custa esclarecer: nacionalismo \u00e9 o movimento oposto ao globalismo. Segundo os defensores dessa ideia, um pa\u00eds deve buscar autossufici\u00eancia e colocar os interesses de seus cidad\u00e3os acima da integra\u00e7\u00e3o com o resto do mundo. Assim como o globalismo, \u00e9 mais uma ideia geral do que propriamente um sistema definido por regras. N\u00e3o depende de esquerda, direita, democracia ou autoritarismo.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo passado, tanto a Alemanha nazista quanto a China comunista poderiam ser consideradas nacionalistas. Antes da Segunda Guerra Mundial, os EUA tinham uma postura pra l\u00e1 de nacionalista na sua pol\u00edtica internacional. O Brasil abriu boa parte do seu com\u00e9rcio internacional s\u00f3 nos relativamente recentes anos 90! Ali\u00e1s, antes da segunda metade do s\u00e9culo passado, boa parte do mundo n\u00e3o tinha outra alternativa sen\u00e3o ser nacionalista. Foi a revolu\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o e a imensa melhora no sistema de transporte de cargas e pessoas da \u00faltimas d\u00e9cadas que ofereceu as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma sociedade globalizada.<\/p>\n<p>Hoje em dia voc\u00ea usa um celular feito na China com patentes americanas para chamar um carro feito na Alemanha com pe\u00e7as italianas para chegar na reuni\u00e3o com os s\u00f3cios australianos da empresa russa com a qual est\u00e1 negociando mat\u00e9rias-primas brasileiras&#8230; e esse exemplo pode estar acontecendo na \u00c1frica, por exemplo. Especialmente em grandes neg\u00f3cios, essa imensa integra\u00e7\u00e3o global j\u00e1 se tornou a norma.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo que isso promove um com\u00e9rcio global pujante, torna extremamente complexa a compreens\u00e3o de quem deve o que a qual pa\u00eds. Essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o acontecem no v\u00e1cuo: dependem de um solo onde ainda se pagam impostos relativos \u00e0s fronteiras de um pa\u00eds. Num misto de contabilidade extremamente criativa que muitas vezes parece criminosa e lobbies com pol\u00edticos de diversos pa\u00edses, multinacionais parecem mais afeitas a manipular esse sistema para lucros r\u00e1pidos do que propriamente fomentar a integra\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses. E quando voc\u00ea adiciona especuladores do mercado financeiro e o poder desproporcional das maiores economias globais nessa equa\u00e7\u00e3o, d\u00e1 para entender o inc\u00f4modo que muita gente tem com essa mentalidade de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o brasileiro ou americano m\u00e9dios entendam profundamente isso, mas ambos elegeram governantes mais alinhados ao nacionalismo. Ok, talvez Bolsonaro nem saiba soletrar nacionalismo, mas todo aquele discurso ufanista presume essa mentalidade. Colocar o pa\u00eds acima de tudo significa tamb\u00e9m rejeitar a tend\u00eancia recente de borrar a linha que separa os pa\u00edses.<\/p>\n<p>Vou ser o primeiro a dizer que a diferen\u00e7a entre rem\u00e9dio e veneno \u00e9 a dose: embora existam vantagens consider\u00e1veis em se manter aberto ao com\u00e9rcio e ao livre movimento de pessoas ao redor do mundo, ainda n\u00e3o vivemos num planeta suficientemente homog\u00eaneo para aceitar os problemas da globaliza\u00e7\u00e3o como meros percal\u00e7os no caminho. O globalismo beneficia desproporcionalmente os pa\u00edses mais preparados para isso, o que n\u00e3o \u00e9 nada mais do que l\u00f3gico, mas n\u00e3o deixa de ser preocupante.<\/p>\n<p>Estados Unidos, China, Uni\u00e3o Europeia e em menor escala a R\u00fassia tem um imenso poder de barganha em rela\u00e7\u00e3o ao resto das na\u00e7\u00f5es. Projetam seu poderio econ\u00f4mico, militar e cultural onde quer que v\u00e3o, e quanto menos barreiras encontram no caminho, mais colocam seus interesses \u00e0 frente das popula\u00e7\u00f5es estrangeiras com as quais lidam. Numa economia globalizada, quem n\u00e3o tiver como se defender vira quintal de um desses grandes poderes. E qualquer um desses grandes poderes que baixar a guarda pode e vai ser engolido por um dos outros.<\/p>\n<p>Raul Seixas j\u00e1 sugeria alugar o Brasil, mas a realidade \u00e9 menos psicod\u00e9lica: permitir muito poder externo sobre sua na\u00e7\u00e3o significa que voc\u00ea ainda \u00e9 respons\u00e1vel por manter as redes de prote\u00e7\u00e3o social b\u00e1sicas para sua popula\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que enfraquece sua economia e liberdade para acomodar os desejos de outro povo. Globalismo mal feito \u00e9 uma forma de escravid\u00e3o de pa\u00edses. Os velhos h\u00e1bitos do colonialismo n\u00e3o desaparecem de um s\u00e9culo para outro&#8230;<\/p>\n<p>Mas nem s\u00f3 de pa\u00edses ricos explorando pa\u00edses pobres \u00e9 feita essa realidade: no sentido oposto, o globalismo permite uma esp\u00e9cie de coloniza\u00e7\u00e3o inversa. Pessoas de na\u00e7\u00f5es mais pobres partem para esses grandes poderes em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, muitas delas mais bem preparadas do que o cidad\u00e3o m\u00e9dio local. O nacionalismo em pa\u00edses ricos gira muito ao redor da imigra\u00e7\u00e3o, EUA e Reino Unido que o digam, com a elei\u00e7\u00e3o de Trump e o Brexit para provar a popularidade de vis\u00f5es mais nacionalistas em pa\u00edses que em tese deveriam s\u00f3 colher os frutos do globalismo.<\/p>\n<p>E em tempos de pandemia, essa parte feia do globalismo fica em destaque. Estrangeiros trazem a doen\u00e7a e fazem com que o sistema de sa\u00fade nacional entre em colapso, e na hora de buscar os recursos para aparelhar hospitais e cidad\u00e3os, descobrimos que tudo \u00e9 feito em outro pa\u00eds, onde o governo local n\u00e3o tem poderes para declarar emerg\u00eancia e exigir prioridade. Problemas que poderiam ter sido resolvidos com fronteiras mais r\u00edgidas e especialmente com autossufici\u00eancia produtiva.<\/p>\n<p>Muita gente come\u00e7a a falar agora sobre a necessidade de n\u00e3o depender tanto da China para produzir as coisas. O que \u00e9 compreens\u00edvel quando temos dificuldades de conseguir respiradores e m\u00e1scaras, mas n\u00e3o incomoda nem um pouco quando podemos comprar todo tipo de bugiganga por uma fra\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o que pagar\u00edamos se a ind\u00fastria fosse nacional&#8230; como sempre, \u00e9 uma troca. Para pagar 10 centavos numa m\u00e1scara durante situa\u00e7\u00f5es normais, arriscamos ficar sem estoque na hora da crise.<\/p>\n<p>E pior, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples como nacionalizar ind\u00fastrias para resolver o problema: alguns pa\u00edses s\u00e3o melhores em produ\u00e7\u00e3o do que outros. Depende do tipo de produto e do hist\u00f3rico de cada um. N\u00e3o compramos celulares feitos na Alemanha e desconfiamos bastante de carros feitos na China. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Cada pa\u00eds tem um tipo de parque industrial e sistema de educa\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o mais indicados para um tipo de tarefa. Pa\u00edses como o Brasil s\u00e3o pot\u00eancias no agroneg\u00f3cio e extra\u00e7\u00e3o mineral (sim, somos), mas n\u00e3o conseguem produzir eletr\u00f4nicos no padr\u00e3o de qualidade e especialmente no pre\u00e7o que os pa\u00edses asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>E mesmo antes da explos\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, pa\u00edses ainda tinham suas especialidades. Uma s\u00e9rie de fatores que v\u00e3o desde cultura, geografia, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 mesmo o impacto da coloniza\u00e7\u00e3o definem os pontos fortes e fracos de cada um nesse mercado global. Evidente que isso n\u00e3o torna imposs\u00edvel que a Rep\u00fablica do Congo comece a fabricar avi\u00f5es, mas dificilmente v\u00e3o conseguir competir com americanos, franceses e (pasmem!) brasileiros nisso. Demora d\u00e9cadas para desenvolver uma ind\u00fastria, e alguns fatores internos podem ditar que um pa\u00eds n\u00e3o v\u00e1 conseguir entregar um misto de qualidade e pre\u00e7o razo\u00e1veis para o mercado mundial.<\/p>\n<p>E algumas coisas s\u00e3o bem \u00f3bvias: o Paraguai nunca vai ter uma ind\u00fastria de navios, afinal, n\u00e3o tem acesso ao mar. A Ar\u00e1bia Saudita n\u00e3o vai poder substituir a ind\u00fastria petroleira pela agricultura, afinal, \u00e9 quase toda des\u00e9rtica. Mesmo que esses pa\u00edses fa\u00e7am esfor\u00e7os incr\u00edveis, gastariam tanto dinheiro estabelecendo e financiando esses neg\u00f3cios que seus pre\u00e7os nunca seriam competitivos. O mundo n\u00e3o se globalizou por uma conspira\u00e7\u00e3o, como os mais paranoicos gostam de dizer, e sim porque o planeta Terra \u00e9 cheio de peculiaridades, e cada povo acaba se adaptando \u00e0 sua regi\u00e3o. Boa parte do mundo s\u00f3 foi trazida de vez \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o moderna h\u00e1 poucos s\u00e9culos, vivendo at\u00e9 ent\u00e3o sob outro paradigma de exist\u00eancia humana. Ainda tem muito ch\u00e3o para bilh\u00f5es de pessoas nesse mundo estarem preparadas para competir com quem teve, \u00e0s vezes, at\u00e9 mil\u00eanios de vantagem.<\/p>\n<p>E \u00e9 s\u00f3 com uma pol\u00edtica de abertura de fronteiras e compartilhamento do conhecimento que permitimos o acesso da maior parte do mundo \u00e0s benesses da tecnologia e da educa\u00e7\u00e3o. Num sistema econ\u00f4mico dependente de crescimento infinito, n\u00e3o existem muitas alternativas al\u00e9m de abrir novos mercados, e para esses novos mercados conseguirem criar demanda, eles precisam de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, d\u00e1 para compreender a preocupa\u00e7\u00e3o dos nacionalistas sobre os males de tanta integra\u00e7\u00e3o causando problemas nos seus pa\u00edses, mas n\u00e3o podemos esquecer que a humanidade como conhecemos hoje n\u00e3o funciona mais sem a constante abertura de novas fronteiras econ\u00f4micas. Imigra\u00e7\u00e3o desregrada \u00e9 um veneno para pa\u00edses desenvolvidos? Sim. Isolamento vai ser terr\u00edvel para a economia e o padr\u00e3o de vida dos locais? Sim tamb\u00e9m. Voc\u00ea tem direito de ficar puto por pagar 10 vezes mais que um americano pelo mesmo equipamento eletr\u00f4nico? Sim. Voc\u00ea provavelmente perderia o emprego se empresas internacionais pudessem vender seus produtos sem nenhuma barreira no Brasil? Sim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eu escrevi outro texto dizendo que no final das contas as coisas s\u00e3o mais complicadas do que parecem? Pois \u00e9. N\u00e3o d\u00e1 para escapar disso. Sempre desconfie que discuss\u00f5es de longa data sem resolu\u00e7\u00e3o aparente n\u00e3o tem uma resposta simples, porque via de regra, \u00e9 justamente essa dificuldade de uma resposta clara que faz como que se tornem controv\u00e9rsias. Equilibrar nacionalismo e globalismo \u00e9 uma miss\u00e3o ingrata. A li\u00e7\u00e3o que temos que retirar dessa crise n\u00e3o \u00e9 uma de solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas alinhadas a uma ideologia ou outra, e sim de que o sistema mostrou suas fraquezas e deve ser aperfei\u00e7oado.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses que n\u00e3o sa\u00edrem dessa crise com uma cartilha de a\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis para os momentos de isolamento como mais agilidade nas pol\u00edticas de fechamento de fronteiras, quarentenas e gest\u00e3o de crises de sa\u00fade sem perder a capacidade de negociar com outros pa\u00edses ser\u00e3o os grandes perdedores. N\u00e3o estamos num momento de valorizar nacionalismo a qualquer custo, estamos no momento de melhorar nossa rela\u00e7\u00e3o com o globalismo. Infelizmente, eu prevejo que n\u00e3o vai ser exatamente essa a li\u00e7\u00e3o que muitos v\u00e3o aprender, e \u00e9 bem poss\u00edvel que uma onda de candidatos nacionalistas comece a vencer as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>At\u00e9 relembrarmos na pr\u00e1tica os motivos pelos quais deixamos de achar que o mundo acabava depois das fronteiras de nossos pa\u00edses. Nunca \u00e9 t\u00e3o simples quanto seguir s\u00f3 uma ideologia&#8230; nunca.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que a li\u00e7\u00e3o \u00e9 que todo mundo \u00e9 ego\u00edsta, para dizer que n\u00e3o sabe do que me xingar, ou mesmo para dizer que a sua ideologia resolve tudo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto as fronteiras est\u00e3o fechadas em v\u00e1rios pa\u00edses e um verdadeiro leil\u00e3o acontece para a compra de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual produzidos na China, muitos defensores do nacionalismo ganham novos ouvidos para suas mensagens. 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