{"id":16738,"date":"2020-04-22T13:14:06","date_gmt":"2020-04-22T16:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16738"},"modified":"2020-04-22T13:14:06","modified_gmt":"2020-04-22T16:14:06","slug":"brasil-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/04\/brasil-medio\/","title":{"rendered":"Brasil m\u00e9dio."},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes a gente esquece, mas o Brasil \u00e9 um pa\u00eds rico. Segundo o FMI, o nono pa\u00eds com o maior PIB do mundo at\u00e9 2018. Numa competi\u00e7\u00e3o entre 193 pa\u00edses (reconhecidos pela ONU), essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de grande destaque. Mas nem s\u00f3 de PIB vive uma na\u00e7\u00e3o, tanto que na hora de analisar o IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano), despenca para a 73\u00aa posi\u00e7\u00e3o. Tem algo de muito errado a\u00ed, mas&#8230; ser\u00e1 que \u00e9 o que a gente imagina?<!--more--><\/p>\n<p>A terra descoberta pelos portugueses no long\u00ednquo s\u00e9culo XV continha e ainda cont\u00e9m uma das maiores riquezas naturais do planeta. \u00c1gua e minerais abundantes, fauna e flora imensas, muita terra f\u00e9rtil&#8230; e virtualmente nenhum problema s\u00e9rio com desastres naturais. O Brasil tem poucos paralelos no mundo nessa quest\u00e3o de \u201criqueza inerente\u201d providenciada pela natureza. E isso n\u00e3o \u00e9 papo ufanista de livro de hist\u00f3ria: quanto mais voc\u00ea estuda sobre o resto do mundo, mais percebe que essa combina\u00e7\u00e3o de riqueza e estabilidade naturais \u00e9 muito rara.<\/p>\n<p>Nessa regi\u00e3o do mundo, o frio n\u00e3o \u00e9 um problema. Uma parte consider\u00e1vel da \u00c1frica e do Sudoeste Asi\u00e1tico podem dizer o mesmo com seus climas tropicais e florestas gigantescas. Mas o Brasil \u00e9 uma m\u00e3e em compara\u00e7\u00e3o: n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o temos predadores gigantes como a \u00c1frica, como n\u00e3o temos vulc\u00f5es e terremotos como na \u00c1sia. N\u00e3o fica muito mais f\u00e1cil do que isso para o ser humano no resto do planeta.<\/p>\n<p>E aqui come\u00e7amos a analisar alguns dos mitos que cercam o desenvolvimento do pa\u00eds: a situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o boa que o Brasil cresceu em 500 anos o que boa parte do mundo demorou mil\u00eanios para conseguir. O pa\u00eds tirou sim muita vantagem da sua condi\u00e7\u00e3o privilegiada, e para a m\u00e9dia mundial, teve um dos processos de descoloniza\u00e7\u00e3o mais tranquilos j\u00e1 registrados. Em compara\u00e7\u00e3o com outras regi\u00f5es de coloniza\u00e7\u00e3o, foi tamb\u00e9m um dos que escapou mais cedo. Pode parecer hist\u00f3ria antiga agora, mas boa parte das col\u00f4nias do mundo s\u00f3 foi se liberar depois da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Nunca sofremos consequ\u00eancias severas por causa de guerras, sejam elas internas ou externas. Esse povo nunca passou por uma fome generalizada, nunca ficou isolado do resto do mundo, nunca ficou sem espa\u00e7o para crescer&#8230; as condi\u00e7\u00f5es no Brasil em mais de 500 anos s\u00e3o de uma paz, prosperidade e estabilidade incompar\u00e1veis historicamente. Essa costuma ser a introdu\u00e7\u00e3o de textos sobre a \u00edndole do brasileiro, sobre como somos corruptos, pregui\u00e7osos&#8230; mas dessa vez eu quero sugerir outra forma de enxergar as coisas: o Brasil \u00e9 o filho do meio do mundo.<\/p>\n<p>Sabe aquela crian\u00e7a que n\u00e3o passou os perrengues do primeiro filho e n\u00e3o \u00e9 mimada como o ca\u00e7ula? Chegamos muito tarde para aprender o que \u00e9 sofrer por n\u00e3o saber como fazer o que fazer e chegamos muito cedo para nos beneficiar da experi\u00eancia e toler\u00e2ncia daqueles que j\u00e1 sabiam. 500 anos \u00e9 pouco para os pa\u00edses que desenvolveram a humanidade moderna, mas \u00e9 muito para j\u00e1 estar fazendo parte dela.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso quer dizer que as coisas j\u00e1 est\u00e3o bem estruturadas por aqui. Quem precisa marcar uma consulta no SUS pode duvidar, mas para a m\u00e9dia global, esse pa\u00eds j\u00e1 est\u00e1 com tudo no lugar. J\u00e1 existe uma democracia moderna que arrecada e gasta trilh\u00f5es de d\u00f3lares, j\u00e1 existem institui\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas estabelecidas, somos surpreendentemente educados e saud\u00e1veis para a m\u00e9dia global. 73\u00ba lugar no IDH n\u00e3o \u00e9 motivo de orgulho, mas n\u00e3o se esque\u00e7am que isso \u00e9 acima da m\u00e9dia considerando 193 pa\u00edses. <\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds acima da m\u00e9dia. Coloque isso na sua cabe\u00e7a. Se voc\u00ea tivesse que trocar de lugar com uma pessoa aleat\u00f3ria no mundo, tem mais chances de acabar num lugar pior do que num melhor. Com menos direitos b\u00e1sicos e menos acesso \u00e0s facilidades da vida moderna do que voc\u00ea tem&#8230; aqui. N\u00e3o estou dizendo aqui que voc\u00ea n\u00e3o tem direito de reclamar, tem direito e dever. Mas at\u00e9 para isso \u00e9 importante saber sua posi\u00e7\u00e3o no mundo. Nem tudo \u00e9 quest\u00e3o de \u201co Brasil n\u00e3o tem vontade de melhorar\u201d.<\/p>\n<p>Algumas das quest\u00f5es que nos assolam s\u00e3o meio que inevit\u00e1veis, ou pelo menos passaram da data limite de serem corrigidas: a principal \u00e9 essa \u201cmediocridade\u201d tupiniquim. O Brasil \u00e9 desenvolvido demais para pensar como emergente e subdesenvolvido demais para pensar como pa\u00eds rico. A verdade \u00e9 que de uma certa forma, estamos meio que sozinhos nessa posi\u00e7\u00e3o. A \u00cdndia s\u00f3 precisa olhar para a China para saber o que fazer, a China observou por d\u00e9cadas a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para saber o que n\u00e3o fazer. O Brasil&#8230; vai olhar para quem? O \u00faltimo pa\u00eds gigante que teve que sair dessa mediocridade para se tornar desenvolvido foram os Estados Unidos, mas isso aconteceu h\u00e1 tanto tempo atr\u00e1s que as li\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais relevantes no s\u00e9culo XXI. O mundo \u00e9 t\u00e3o diferente agora que n\u00e3o d\u00e1 mais tempo de copiar.<\/p>\n<p>Acabamos ent\u00e3o numa armadilha econ\u00f4mica e social: o Brasil tem a sexta maior for\u00e7a de trabalho do mundo, mas n\u00e3o \u00e9 barato produzir aqui. Temos legisla\u00e7\u00e3o de pa\u00eds desenvolvido e s\u00e9culos de costume com um padr\u00e3o de vida muito alto em compara\u00e7\u00e3o com indianos e chineses, por exemplo. O Custo Brasil n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sacanagem do governo, \u00e9 o pre\u00e7o que pagamos por termos um pa\u00eds muito rico h\u00e1 s\u00e9culos. Muito desigual, mas rico do mesmo jeito. Nossa Constitui\u00e7\u00e3o e leis em geral s\u00e3o uma esp\u00e9cie de \u201cmelhores momentos\u201d de diversas escolas de pensamento europeias. Temos direitos e um Estado que em tese quer garantir todos eles.<\/p>\n<p>E a\u00ed que as coisas come\u00e7am a ficar complicadas: o Brasil est\u00e1 com um p\u00e9 em cada realidade. O Brasil n\u00e3o sabe o que fazer com o mundo, e o mundo n\u00e3o sabe o que fazer com o Brasil: um mercado consumidor gigantesco que n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel para investir e um povo relativamente capaz que n\u00e3o vale a pena contratar. O filho do meio sofre por n\u00e3o ter identidade. A cada ciclo eleitoral, algu\u00e9m enche a boca para dizer que sabe o que fazer para melhorarmos, mas na hora de aplicar a ideia d\u00e3o com os burros n\u2019\u00e1gua. Argumento at\u00e9 que a ditadura caiu porque no final das contas ficou presa na mesma armadilha que os presidentes democr\u00e1ticos anteriores e posteriores: depois de algum tempo, todo mundo percebe que n\u00e3o sabe o que fazer com esse pa\u00eds. N\u00e3o existe um plano de a\u00e7\u00e3o testado e aprovado para o Brasil.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o pa\u00eds mais pr\u00f3ximo do Brasil \u00e9 a R\u00fassia. Tire a neve e as bombas at\u00f4micas e estamos vivendo basicamente a mesma realidade: presos nesse lama\u00e7al de pa\u00eds m\u00e9dio que parece rico quando vende seus recursos naturais, mas que parece pobre quando olhamos para a vida de seus cidad\u00e3os m\u00e9dios. Ambos os pa\u00edses j\u00e1 passaram pela fase de industrializa\u00e7\u00e3o e tiraram quase toda popula\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria absoluta, ficando com uma enorme massa de pobres que praticamente n\u00e3o passam mais fome h\u00e1 algumas gera\u00e7\u00f5es, mas que n\u00e3o tem recursos para sair do lugar. Sem contar a lideran\u00e7a corrupta e muitas vezes inepta.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed entra a quest\u00e3o do passado: a R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds muito antigo e cheio de cicatrizes de horrores passados com os quais o Brasil sequer sonhou. Os russos conseguem tomar rem\u00e9dios bem mais amargos que os brasileiros. Se eles acharem um caminho, existe um risco consider\u00e1vel dele n\u00e3o ser palat\u00e1vel para nosso povo. Seja como for, na data que escrevo este texto, os russos tamb\u00e9m parecem n\u00e3o saber o que fazer. O brilhante plano de brigar com a Ar\u00e1bia Saudita na quest\u00e3o do petr\u00f3leo vai custar caro para Putin e cia.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 estaca zero ent\u00e3o. Por mais que alguns pa\u00edses do sudoeste asi\u00e1tico como as Filipinas e a Indon\u00e9sia sejam basicamente o Brasil de olho mais puxado estejam em crescimento atualmente, eles n\u00e3o est\u00e3o fazendo nada muito diferente do que j\u00e1 fizemos h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, com algumas influ\u00eancias dos modelos chin\u00eas e indiano. A \u00c1frica do Sul tem tantas peculiaridades por causa do seu modelo de coloniza\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas assustadoramente recentes como a do Apartheid que fica dif\u00edcil tra\u00e7ar um paralelo real.<\/p>\n<p>Na melhor das hip\u00f3teses, olhamos para nossos vizinhos para saber o que fazer. O problema \u00e9 que com exce\u00e7\u00e3o do Chile (muito diferente do Brasil por causa da geografia) o resto do continente parece olhar de volta para a gente em busca de uma solu\u00e7\u00e3o. Nem os nossos arrogantes vizinhos argentinos parecem ter uma resposta para essa armadilha da mediocridade. Se tinham, perderam faz tempo, muito tempo.<\/p>\n<p>O desafio brasileiro de sair da estagna\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho solit\u00e1rio. \u00c9 descobrir uma f\u00f3rmula de sucesso sem poder colar do colega na carteira ao lado. Mas, o problema da mediocridade \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 afeita a criar as mentes necess\u00e1rias para isso: n\u00e3o sofremos o suficiente e n\u00e3o estamos tranquilos o suficiente. Parece uma esp\u00e9cie de maldi\u00e7\u00e3o dos \u00edndios que aqui residiam h\u00e1 muito mais que 500 anos: voc\u00eas v\u00e3o ter essa terra, mas n\u00e3o v\u00e3o saber o que fazer com ela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que este pa\u00eds nunca vai sair desse buraco, mas quer dizer sim que n\u00e3o vai ser f\u00e1cil e n\u00e3o vai ser r\u00e1pido. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que ficou no meio do caminho numa era onde as solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas para crescimento n\u00e3o est\u00e3o mais dispon\u00edveis. Coloniza\u00e7\u00e3o moderna custa muito caro, e n\u00e3o temos bilh\u00f5es de pessoas para tirar da pobreza absoluta. Quem te vender uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida est\u00e1 mentindo.<\/p>\n<p>O problema do Brasil n\u00e3o \u00e9 ser o pior pa\u00eds. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que agora est\u00e1 motivado para ficar em casa, para dizer que alguma teoria do s\u00e9culo XIX resolve tudo, ou mesmo para dizer que achou o texto mais ou menos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes a gente esquece, mas o Brasil \u00e9 um pa\u00eds rico. Segundo o FMI, o nono pa\u00eds com o maior PIB do mundo at\u00e9 2018. Numa competi\u00e7\u00e3o entre 193 pa\u00edses (reconhecidos pela ONU), essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de grande destaque. 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