{"id":16764,"date":"2020-04-29T12:59:59","date_gmt":"2020-04-29T15:59:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16764"},"modified":"2020-04-29T13:02:54","modified_gmt":"2020-04-29T16:02:54","slug":"tempo-perdido-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/04\/tempo-perdido-3\/","title":{"rendered":"Tempo perdido."},"content":{"rendered":"<p>Eu tenho uma teoria: somos terr\u00edveis para compreender a no\u00e7\u00e3o de tempo. Especialmente quando falamos de grandes per\u00edodos como s\u00e9culos, mil\u00eanios e per\u00edodos imensos como os discutidos em geologia e astronomia. Acabamos confundindo nossa capacidade de entender os n\u00fameros com a capacidade de entender as escalas de tempo, e no final das contas, n\u00e3o s\u00e3o coisas parecidas.<!--more--><\/p>\n<p>Perto da imensa maioria das esp\u00e9cies animais vivas neste planeta, nossa vida m\u00e9dia \u00e9 bem longa. Uma pessoa que vive os 70 a 80 anos m\u00e9dios do ser humano moderno (em sociedades mais avan\u00e7adas) passou mais tempo nesse planeta que quase toda outra forma de vida n\u00e3o vegetal. Mas mesmo assim, para o longu\u00edssimo tempo de exist\u00eancia do universo, isso \u00e9 estatisticamente irrelevante. Se o universo existe h\u00e1 14 bilh\u00f5es de anos, viver por 70 deles significa experimentar 0,00000005% desse tempo.<\/p>\n<p>E isso impacta na percep\u00e7\u00e3o das coisas: nossa fatia de compreens\u00e3o de escalas de tempo acaba t\u00e3o limitada que os n\u00fameros nem parecem descrever algo relevante. Vai dizer que sentiu alguma coisa em especial ao ler o quanto 70 anos significa para a idade do universo? Empilhar zeros num n\u00famero tem utilidade limitada para nos fazer compreender as coisas. Por mais que a matem\u00e1tica seja uma ferramenta espetacular para nos ajudar a fazer senso da realidade, ela ainda \u00e9 s\u00f3 isso: uma ferramenta. N\u00e3o m\u00e3o de algu\u00e9m habilidoso, faz muito, mas sozinha n\u00e3o passa de s\u00edmbolos numa tela ou papel.<\/p>\n<p>Mas estamos t\u00e3o acostumados aos n\u00fameros que deixamos eles assumirem o controle quando sa\u00edmos dos limites da real compreens\u00e3o humana. Historicamente, o ser humano se limitava \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano como sua base de compreens\u00e3o do tempo. Era o per\u00edodo mais longo com aplica\u00e7\u00f5es realmente pr\u00e1ticas que valia a pena compreender. E isso quando quase toda a esp\u00e9cie vivia em fun\u00e7\u00e3o de coleta de recursos e da agricultura. Em pa\u00edses com invernos rigorosos, era necess\u00e1rio se preparar para sobreviver. Em pa\u00edses tropicais, temporadas chuvosas podiam definir vida e morte do mesmo jeito.<\/p>\n<p>E como somos descendentes dessa gente, a maioria de n\u00f3s continuou com mais ou menos esse limite de real percep\u00e7\u00e3o temporal: uma m\u00e9dia de 4 meses. J\u00e1 perceberam como a mudan\u00e7a de um clima mais quente para um mais frio n\u00e3o pegam ningu\u00e9m de surpresa, mas como at\u00e9 mesmo os pais de uma crian\u00e7a \u00e0s vezes se assustam com qu\u00e3o r\u00e1pido elas crescem? Blocos de tempo maiores que uma esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o bem codificados na nossa capacidade de compreens\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>E isso conta quando nos debru\u00e7amos sobre quest\u00f5es como passado e futuro. Voc\u00ea provavelmente nunca pensou no tamanho que um s\u00e9culo tem, por exemplo. Na escala humana de tempo, acontece muita coisa. Mas muita coisa mesmo. Sociedades nascem e morrem, padr\u00f5es de vida mudam completamente, comportamentos comuns se tornam crime, crimes se tornam comportamentos comuns&#8230; em 1920 uma mulher poderia se casar aos 11 anos de idade, mas n\u00e3o podia mostrar nada acima do joelho na praia. Apesar do exemplo, nem \u00e9 o ponto falar sobre evolu\u00e7\u00e3o em normas sociais, e sim em quanta coisa pode mudar em pouco mais de 0,00000007% da idade do universo.<\/p>\n<p>Agora, considere que o ser humano moderno mais parecido conosco surgiu h\u00e1 mais ou menos uns 70.000 anos atr\u00e1s. \u00c9 considerado o limite onde um beb\u00ea humano do passado poderia ser criado por n\u00f3s do presente e n\u00e3o chamar muita aten\u00e7\u00e3o na sociedade. Em tese, \u00e9 o mesmo animal que somos agora, mas na pr\u00e1tica&#8230; s\u00e3o 70.000 anos. Como \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o tenhamos evolu\u00eddo antes? O que estava nos segurando?<\/p>\n<p>Oras, nada muito diferente do que nos segura agora. Falta de recursos, teimosia, briga de gera\u00e7\u00f5es, misticismo, ignor\u00e2ncia&#8230; \u00e9 que 70.000 anos \u00e9 um longo tempo. Muito longo. 1.000 vidas inteiras de um adulto humano moderno em sequ\u00eancia. Se em um s\u00e9culo a sociedade parece mudar inteira, imagine s\u00f3 em 700! Em cada um deles, 100 anos de mudan\u00e7as. V\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es chegando e partindo, atualizando o conhecimento das anteriores, lutando, vivendo e morrendo.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros nos enganam aqui. 700 s\u00e9culos parecem algo f\u00e1cil de compreender. O n\u00famero at\u00e9 cabe na mente. Em alguns minutos voc\u00ea consegue partir do 1 e chegar nele. E isso gera a ilus\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 tanta coisa assim. Mas \u00e9 s\u00f3 isso: uma ilus\u00e3o. Eu j\u00e1 havia mencionado algo parecido em outro texto sobre as dimens\u00f5es do universo: 90 bilh\u00f5es de anos luz parecem t\u00e3o longos quanto o tempo que demora para dizer o n\u00famero, ir at\u00e9 o limite do universo \u00e9 s\u00f3 um pensamento. Mas quando voc\u00ea precisa lidar com dist\u00e2ncias na pr\u00e1tica, um quil\u00f4metro j\u00e1 d\u00e1 trabalho o suficiente. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque conseguimos criar atalhos mentais para essas quantias gigantescas que elas n\u00e3o continuem sendo gigantescas.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse truque de m\u00e1gica das grandezas que podemos fazer com n\u00fameros dentro da mente que reside muito do que nos engana sobre hist\u00f3ria, sociedade e tecnologia. Tudo deu muito trabalho para conquistar, tudo foi lento, sofrido, cheio de contratempos. Cada pequeno avan\u00e7o da humanidade precisou de litros de suor e sangue para ser conquistado. Demorou&#8230; muito. Mais do que voc\u00ea consegue imaginar de verdade. O grau de complexidade da sociedade humana e sua tecnologia atual s\u00f3 existe porque bilh\u00f5es de pessoas contribu\u00edram para isso. Quase todas com atos min\u00fasculos que a hist\u00f3ria \u00e9 incapaz de registrar.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio Romano, a Democracia Grega e os reinos Medievais n\u00e3o aconteceram logo antes de voc\u00ea nascer. A humanidade quase acabou umas 10 vezes entre esses pontos e a sua chegada aqui. Corpos se deterioraram, constru\u00e7\u00f5es foram retomadas pela natureza, ideias se perderam de vez com seus idealizadores. Cada eg\u00edpcio do tempo dos Fara\u00f3s viveu uma vida inteira dentro daquela realidade. Quase todos os seres humanos que j\u00e1 viveram nesse planeta n\u00e3o chegaram a perceber as mudan\u00e7as no mundo, porque sua vida era pequena demais para notar algo.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea estuda hist\u00f3ria de civiliza\u00e7\u00f5es antigas, n\u00e3o costuma pensar em vidas, e sim em datas. Milh\u00f5es de romanos s\u00f3 conheceram a era de C\u00e9sar, por exemplo. Foi tudo o que coube na sua exist\u00eancia. Pulamos s\u00e9culos entre um ponto not\u00e1vel e outro, mas entre eles, voc\u00ea poderia ter vivido uma vida inteira. Algu\u00e9m viveu uma vida longa e saud\u00e1vel antes da Peste Negra. Algu\u00e9m ganhou muito dinheiro com o com\u00e9rcio na Era do Bronze antes de seu colapso terr\u00edvel. Um judeu deve ter morrido achando que aquele tal de Hitler n\u00e3o ia dar em nada e seus filhos e netos estavam bem encaminhados na vida.<\/p>\n<p>O n\u00famero de dias e esta\u00e7\u00f5es entre o presente e in\u00edcio da hist\u00f3ria humana foge de qualquer limite pr\u00e1tico onde conseguimos diferenciar as coisas com precis\u00e3o. Existem problemas humanos que estamos tentando resolver h\u00e1 mil\u00eanios, especialmente os de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe sistema de governo perfeito. N\u00e3o existe comportamento ideal num relacionamento. N\u00e3o existe filosofia de vida correta. N\u00e3o existe f\u00f3rmula de sucesso. Num exemplo que talvez caiba melhor na nossa cabe\u00e7a: a maior parte dos grandes problemas da humanidade \u00e9 como se algu\u00e9m chegasse pra voc\u00ea com um pote de azeitonas e dissesse que toda a popula\u00e7\u00e3o da China tentou abrir ele, um por um, e ningu\u00e9m conseguiu. Voc\u00ea se sentiria confiante na miss\u00e3o? Claro, n\u00e3o custa nada tentar, mas voc\u00ea realmente vai achar que ningu\u00e9m conseguiu pensar na sua estrat\u00e9gia? Que ningu\u00e9m tentou quebrar o pote, que ningu\u00e9m tentou aquecer a tampa, que ningu\u00e9m tentou fazer muita for\u00e7a?<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos como achar que tem a solu\u00e7\u00e3o para problemas que existem h\u00e1 mil\u00eanios no mundo. No m\u00ednimo a China inteira j\u00e1 tentou. Porque mil\u00eanios s\u00e3o longos assim. Virtualmente tudo o que voc\u00ea pensa j\u00e1 foi tentado de alguma forma. Veja bem, n\u00e3o \u00e9 um texto de desmotiva\u00e7\u00e3o, temos exemplos hist\u00f3ricos de gente que realmente pensou em algo que ningu\u00e9m mais tinha pensado ou pelo menos conseguiu executar da forma certa, mas faz parte da compreens\u00e3o da realidade entender a escala das coisas. Se ningu\u00e9m abriu esse pote de azeitonas at\u00e9 hoje, n\u00e3o deve ser t\u00e3o simples como voc\u00ea imagina.<\/p>\n<p>E quando vamos al\u00e9m da era humana, pode esquecer a capacidade de compreender coisas como milh\u00f5es e bilh\u00f5es de anos. Sem brincadeira: se uma c\u00f3pia da cidade de S\u00e3o Paulo aparecesse magicamente em um lugar aleat\u00f3rio do planeta h\u00e1 um bilh\u00e3o de anos atr\u00e1s, seria muito prov\u00e1vel que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a menor ideia hoje em dia. Mesmo com toda tecnologia e curiosidade que temos atualmente. Alguns materiais s\u00e3o realmente dur\u00e1veis, mas um bilh\u00e3o de anos \u00e9 tempo suficiente para mandar toda uma regi\u00e3o para baixo das placas tect\u00f4nicas e de volta in\u00fameras vezes. Um vulc\u00e3o pode nascer e desaparecer nesse tempo. O mar pode acabar em cima dessa \u00e1rea, o local pode ser atingido por um meteoro gigante&#8230; o conhecimento do passado que temos agora \u00e9 totalmente dependente das migalhas que o planeta nos permite encontrar.<\/p>\n<p>Os dinossauros morreram h\u00e1 65 milh\u00f5es de anos, mais ou menos. Os continentes eram diferentes naquela \u00e9poca! A Lua era bem maior no c\u00e9u. O planeta girava mais r\u00e1pido. O mais pr\u00f3ximo de um ser humano que t\u00ednhamos ali era menor que um rato. Praticamente nenhuma das esp\u00e9cies daquele tempo ainda existe. Essa \u00e9 a escala de tempo da evolu\u00e7\u00e3o natural: incont\u00e1veis muta\u00e7\u00f5es durante um tempo t\u00e3o imenso que praticamente tudo pode ter acontecido. Uma ameba pode virar sim um ser humano. Mas o tempo necess\u00e1rio para isso n\u00e3o cabe na nossa cabe\u00e7a. A natureza pode tentar trilh\u00f5es de vezes, e errar em virtualmente todas sem comprometer o resultado final. Por essa mesma l\u00f3gica, d\u00e1 para prever que n\u00e3o tem nada escrito em pedra sobre o que consideramos humanidade ou mesmo vida. Mais um bilh\u00e3o de anos e provavelmente seremos amebas, em compara\u00e7\u00e3o ou literalmente, vai saber&#8230;<\/p>\n<p>Em tese, a entropia vai demorar uma quantidade de anos cujos zeros n\u00e3o caberiam nesse texto para impedir a exist\u00eancia de qualquer forma de vida, org\u00e2nica ou artificial. Se f\u00f4ssemos comparar a vida da universo com uma vida humana, o ser humano existe t\u00e3o no come\u00e7o que nem deu tempo do universo chorar pela primeira vez depois de nascer. Se nossa civiliza\u00e7\u00e3o acabar, uma esp\u00e9cie inteligente que nasce um minuto depois na escala de tempo do universo n\u00e3o teria a menor chance de sequer saber que existimos um dia. Todos nossos vest\u00edgios desapareceriam em fra\u00e7\u00f5es de segundo.<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o \u00e9 necessariamente para nos sentirmos pequenos, embora sejamos sim min\u00fasculos, mas para dar uma perspectiva diferente sobre o passar do tempo. O tamanho da fatia dele que percebemos \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o e uma b\u00ean\u00e7\u00e3o: voc\u00ea n\u00e3o vai ter sequer no\u00e7\u00e3o mesmo de quanto tempo a humanidade j\u00e1 existe e faz mais ou menos as mesmas coisas que fazemos hoje, mas em compensa\u00e7\u00e3o vai poder viver at\u00e9 cansar e fazer muita coisa numa quantia insignificante de todo o tempo dispon\u00edvel. N\u00e3o deixa de ser eficiente.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer de volta os minutos que demorou para ler, para dizer que no passado que voc\u00ea n\u00e3o viveu que era bom, ou mesmo para dizer que \u00e9 por isso que \u00e9 pregui\u00e7oso: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho uma teoria: somos terr\u00edveis para compreender a no\u00e7\u00e3o de tempo. 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