{"id":16987,"date":"2020-06-24T15:05:51","date_gmt":"2020-06-24T18:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16987"},"modified":"2020-06-24T15:05:51","modified_gmt":"2020-06-24T18:05:51","slug":"antropocentrismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/06\/antropocentrismo\/","title":{"rendered":"Antropocentrismo."},"content":{"rendered":"<p>Embora Nicolau Cop\u00e9rnico (1473-1543) provavelmente n\u00e3o tenha sido o primeiro ser humano a considerar que a Terra n\u00e3o era o centro do universo, \u00e9 sua teoria do Heliocentrismo que fica registrada nos livros hist\u00f3ricos como primeira men\u00e7\u00e3o da ideia. Mais do que transferir o ponto central do universo para o Sol, o astr\u00f4nomo e matem\u00e1tico polon\u00eas tamb\u00e9m colocava em xeque a import\u00e2ncia do ser humano para a exist\u00eancia&#8230; de tudo. D\u00e1 para imaginar como foi dif\u00edcil para as pessoas aceitarem isso.<!--more--><\/p>\n<p>Um mito comum repetido como se fosse verdade \u00e9 que Galileo Galilei (1564-1642) foi queimado vivo pela Igreja Cat\u00f3lica por defender a ideia de que a Terra gira ao redor do Sol. Na verdade, foi Giordano Bruno (1548-1600) que encontrou seu fim numa fogueira da Inquisi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o exatamente pelo crime de defender o Geocentrismo, mas por suas vis\u00f5es \u201coriginais\u201d sobre religiosidade e ocultismo. Galileo morreu de forma bem mais pac\u00edfica, em casa sob os cuidados da filha aos 77 anos de idade.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o resistiu \u00e0s ideias de Cop\u00e9rnico e Galilei, mas n\u00e3o podemos nos esquecer que naqueles tempos a maioria dos pensadores e cientistas vinham de fam\u00edlias ricas: dinheiro fazia tanta diferen\u00e7a naqueles tempos como faz hoje em dia. E para a mente m\u00e9dia dos s\u00e9culos XV e XVI, praticamente qualquer coisa era mais importante do que questionar a posi\u00e7\u00e3o do nosso planeta no espa\u00e7o. A Igreja teimava, \u00e9 claro, mas n\u00e3o \u00e9 como se estivessem sob risco iminente de questionamentos pelos seus fi\u00e9is. <\/p>\n<p>A hist\u00f3ria real de tirar a Terra do centro da realidade \u00e9 bem menos dram\u00e1tica e violenta do que aprendemos. Foi um processo lento que demorou bastante para atrair muita aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral. Argumento aqui que toda a dificuldade de convencer pessoas e institui\u00e7\u00f5es sobre a Terra n\u00e3o ser o centro do universo (e eu digo universo porque naquele tempo sistema solar e universo eram basicamente a mesma coisa) \u00e9 muito mais quest\u00e3o da dificuldade do ser humano em n\u00e3o se colocar como refer\u00eancia de tudo do que f\u00e9, ignor\u00e2ncia ou qualquer coisa do tipo.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia de considerar que nossa exist\u00eancia \u00e9 central \u00e0 exist\u00eancia e a fun\u00e7\u00e3o de tudo o que nos cerca se chama antropocentrismo. N\u00e3o \u00e9 espec\u00edfica de pessoas limitadas como as que at\u00e9 hoje em dia defendem o terraplanismo, \u00e9 algo pervasivo no pensamento humano em geral. Do mais simpl\u00f3rio fiel ao mais bem educado fil\u00f3sofo, \u00e9 uma tend\u00eancia quase que inescap\u00e1vel. Afinal, como n\u00e3o contaminar qualquer ideia com a presun\u00e7\u00e3o que somos importantes? Uma ideia sequer existe sem nenhuma pessoa para pensar nela?<\/p>\n<p>Quando pensamos no universo e suas possibilidades, uma s\u00e9rie de questionamentos s\u00e3o derivados dessa vis\u00e3o antropoc\u00eantrica. Talvez a mais importante seja a \u201cpor que existe um universo?\u201d. Se voc\u00ea olhar por um \u00e2ngulo humano, a exist\u00eancia pode ser muito bem baseada em n\u00f3s. At\u00e9 segunda ordem, as nuvens de poeira que constituem a maior parte da mat\u00e9ria (diretamente detect\u00e1vel) do universo n\u00e3o tem consci\u00eancia alguma. O \u00fanico ser vivo conhecido que atende \u00e0 condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima de percep\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para buscar um prop\u00f3sito \u00e9 o ser humano. Ent\u00e3o, at\u00e9 por falta de concorr\u00eancia, podemos argumentar que o universo existe para que n\u00f3s possamos existir.<\/p>\n<p>Essa ideia \u00e9 t\u00e3o natural que dela se desenvolvem todas as formas de pensamento abstrato, inclusive ci\u00eancia e religi\u00e3o. Tem gente que diz que religi\u00e3o era a ci\u00eancia da antiguidade, que muitos cientistas famosos eram fi\u00e9is fervorosos, mas eu prefiro manter uma certa distin\u00e7\u00e3o: a domestica\u00e7\u00e3o do fogo e o desenvolvimento da agricultura n\u00e3o foram processos baseados em f\u00e9, por exemplo. Tentativa e erro, hip\u00f3tese e experimento&#8230; mecanismos cient\u00edficos que sempre conviveram com a f\u00e9 durante nossa hist\u00f3ria. \u00c0s vezes se misturavam, \u00e0s vezes divergiam. O mundo p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00f3 colocou barreiras mais claras entre as coisas. Outro dia desses eu me aprofundo s\u00f3 nessa ideia.<\/p>\n<p>Porque hoje continuamos com a ideia de que nos tratar como centro do universo \u00e9 parte integrante do funcionamento da mente humana. \u00c9 muito mais f\u00e1cil explicar uma coisa se conseguimos nos colocar como raz\u00e3o ou consequ\u00eancia dela. A ideia de que nada existia antes do Big Bang ou do mito de cria\u00e7\u00e3o da sua religi\u00e3o predileta \u00e9 relativamente simples de digerir se voc\u00ea acha que o universo s\u00f3 existe para que n\u00f3s possamos existir. Agora, se voc\u00ea tentar tirar o fator humano da jogada, as coisas ficam complexas rapidamente.<\/p>\n<p>Talvez precise considerar que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de tamanho: tudo o que existe agora sempre existiu antes do Big Bang, mas absurdamente condensado num s\u00f3 ponto. A diferen\u00e7a entre o segundo antes do in\u00edcio do tempo como conhecemos e hoje \u00e9 apenas o espa\u00e7o aparente entre as part\u00edculas. Mas a\u00ed voc\u00ea perde a no\u00e7\u00e3o de in\u00edcio, e isso \u00e9 dif\u00edcil de conceber: vidas come\u00e7am em algum ponto, ent\u00e3o como o universo n\u00e3o come\u00e7a? N\u00e3o acredito que algum ser humano esteja plenamente satisfeito com a ideia de que nada e\/ou tudo existiam antes de um ponto inicial no tempo.<\/p>\n<p>A vida vai ter uma dificuldade natural de entender tudo o que n\u00e3o \u00e9 vida. Nosso ponto de refer\u00eancia \u00e9 definido por ela, mas seres humanos v\u00e3o al\u00e9m, porque partem de um princ\u00edpio ainda mais espec\u00edfico: o humano. \u00c9 comum vermos pessoas tratando outros animais de forma humanizada, desde a madame criando um cachorro como uma crian\u00e7a mimada at\u00e9 mesmo os ativistas que n\u00e3o conseguem diferenciar cria\u00e7\u00e3o de animais de escravid\u00e3o humana. O que \u00e9 bom ou ruim para humanos parece bom ou ruim para todos os animais.<\/p>\n<p>Podemos somar as duas coisas para analisar a quest\u00e3o da exist\u00eancia de vida fora da Terra: o antropocentrismo se mostra mais uma vez praticamente inevit\u00e1vel. N\u00e3o s\u00f3 buscamos por formas de vida inteligente que tenham alguma semelhan\u00e7a fisiol\u00f3gica conosco (buscando condi\u00e7\u00f5es parecidas como presen\u00e7a de \u00e1gua em estado l\u00edquido, atmosfera respir\u00e1vel, temperaturas amenas, etc.) como tamb\u00e9m esperamos semelhan\u00e7as psicol\u00f3gicas como necessidade de comunica\u00e7\u00e3o, curiosidade, organiza\u00e7\u00e3o social&#8230; mandar sinais pelo espa\u00e7o exige uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas que julgamos essenciais \u00e0 intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas quem disse que humanos precisam ser o centro de tudo? Um humano? Eu desconfiaria dessa fonte, afinal, ela pode ser muito parcial. Um dos grandes desafios das ci\u00eancias, inclusive das humanas, \u00e9 conseguir eliminar preconceitos e v\u00edcios de seus estudos. O que j\u00e1 sabemos impacta no que podemos descobrir, e o nosso referencial antropoc\u00eantrico nos direciona, muitas vezes inconscientemente, rumo a ideias que confirmem nosso papel de import\u00e2ncia inquestion\u00e1vel na realidade. N\u00e3o importa o qu\u00e3o pequenos tenhamos nos descoberto ao olhar para as estrelas, n\u00e3o \u00e9 que um dos elementos mais fascinantes do espa\u00e7o acabou sendo justamente a busca por outras formas de vida? Uma forma de reestabelecer algo nosso como central para toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E quando come\u00e7amos a nos aprofundar nessa busca, come\u00e7amos a fazer contas: qual a probabilidade de sermos a \u00fanica forma de vida inteligente do universo? Se \u00e9 improv\u00e1vel pelo n\u00famero imenso de gal\u00e1xias encontradas nos c\u00e9us e pelas quantidades de tempo envolvidas, ainda nos faltam provas. Talvez sejamos a primeira de todas, talvez demos azar de estarmos num hiato de civiliza\u00e7\u00f5es gal\u00e1cticas, ou talvez sejamos \u00fanicos.<\/p>\n<p>Mas a ideia de que \u00e9 imposs\u00edvel que estejamos sozinhos n\u00e3o deixa de ser fruto do antropocentrismo: quem disse que vida inteligente \u00e9 importante para o universo? Pode ser que sejamos um curioso acidente no universo, como aquele vez que uma supernova criou um \u00e1tomo maior que todos os que j\u00e1 fizemos&#8230; dada a escala do universo, muita coisa estranha pode acontecer, algumas delas s\u00f3 uma vez. Se voc\u00ea parte do princ\u00edpio que \u00e9 algo \u201cnatural e esperado\u201d no universo, claro que vai procurar por outras formas de vida. Se aconteceu conosco, por que n\u00e3o acontecer de novo?<\/p>\n<p>E por mais que dizer isso possa ser considerado como n\u00e3o se achar especial, afinal, voc\u00ea est\u00e1 desistindo de ser \u00fanico, por outro lado, est\u00e1 se colocando como a m\u00e9dia. Est\u00e1 dando uma raz\u00e3o para sua exist\u00eancia, dizendo que \u00e9 prov\u00e1vel, e n\u00e3o um acidente. O antropocentrismo tem dessas armadilhas. Quando voc\u00ea menos percebe, est\u00e1 de volta para o centro de todas as discuss\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que quase todo assunto pode ser reduzido at\u00e9 nosso senso de auto import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Porque se voc\u00ea parar para pensar, sem a gente quem estaria discutindo essas coisas? A realidade de um ser humano sempre vai ser antropoc\u00eantrica, n\u00e3o importa quantas civiliza\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas descubramos ou mesmo entremos em contato. \u00c9 o ponto de refer\u00eancia t\u00e3o importante na Teoria da Relatividade: cada combina\u00e7\u00e3o de vetores de espa\u00e7o e tempo tem uma percep\u00e7\u00e3o diferente das mesmas coisas. Curioso como boa parte da nossa hist\u00f3ria cient\u00edfica foi baseada em tirar o homem do centro do universo, mas que tenhamos evolu\u00eddo at\u00e9 descobrir de somos o centro, n\u00f3s e todos os outros pontos do tempo e do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Antropocentrismo \u00e9 perigoso quando nos leva a presumir que nossa vis\u00e3o espec\u00edfica \u00e9 a mesma do outro, mas n\u00e3o quando entendemos que n\u00e3o importa o que fizermos, estamos dentro de uma mente humana que s\u00f3 consegue perceber uma realidade por vez. Toda vez que voc\u00ea tenta presumir que outra pessoa ou mesmo ideia partem das mesmas bases que as suas, assume um risco elevado de errar. S\u00f3 o conhecimento, seja por observa\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o ou troca de ideias que pode tornar as coisas menos imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 sim o centro do universo, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o estava com saudades desses textos, para dizer que eu sou muito egoc\u00eantrico, ou mesmo para dizer que somos especialmente in\u00fateis: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora Nicolau Cop\u00e9rnico (1473-1543) provavelmente n\u00e3o tenha sido o primeiro ser humano a considerar que a Terra n\u00e3o era o centro do universo, \u00e9 sua teoria do Heliocentrismo que fica registrada nos livros hist\u00f3ricos como primeira men\u00e7\u00e3o da ideia. 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