{"id":16990,"date":"2020-06-25T12:00:59","date_gmt":"2020-06-25T15:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=16990"},"modified":"2020-06-25T11:00:44","modified_gmt":"2020-06-25T14:00:44","slug":"ted-talk-2040","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/06\/ted-talk-2040\/","title":{"rendered":"Ted Talk 2040"},"content":{"rendered":"<p>Voz em off: <i>\u201cO Ted Talk 2040 apresenta a palestrante Dra. Sbrubles, neurocientista, antrop\u00f3loga e historiadora, que vai nos contar um pouco mais sobre a S\u00edndrome de Brasil, termo popularizado no mundo inteiro que ela mesma cunhou em seu livro \u201cPandemia no Brasil \u2013 uma an\u00e1lise neurol\u00f3gica, cultural e hist\u00f3rica\u201d<\/i><!--more--><\/p>\n<p><em>&#8211; Aplausos &#8211; <\/em><\/p>\n<p>Boa noite a todos. \u00c9 um privil\u00e9gio poder estar aqui, n\u00e3o apenas por participar de um evento como o TED TALK, mas tamb\u00e9m por estar em um ambiente com mais de cem pessoas reunidas, algo que n\u00e3o foi poss\u00edvel durante muito tempo. \u00c9 tamb\u00e9m uma oportunidade para celebrar: vinte anos depois, j\u00e1 temos toda a popula\u00e7\u00e3o mundial vacinada e podemos voltar \u00e0s palestras presenciais.<\/p>\n<p>Quando a Grande Pandemia come\u00e7ou, em 2020, vimos muitos comportamentos estranhos pelo mundo, por\u00e9m um deles acabou se destacando dos demais: o comportamento do povo brasileiro. Enquanto todos os pa\u00edses, cedo o ou tarde, reconheceram a pandemia e a necessidade de medidas para mitigar seus efeitos, meu pa\u00eds foi na contram\u00e3o. <\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, o brasileiro se portava da forma mais nociva poss\u00edvel, o que exacerbou as consequ\u00eancias e culminou no maior n\u00famero de mortes j\u00e1 visto em raz\u00e3o de uma doen\u00e7a em todo o mundo, em todos os tempos. Durante muito tempo o resto do mundo, inclusive a comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica, procurou explicar esse fen\u00f4meno atribuindo algum grau de psicopatia aos brasileiros. <\/p>\n<p>At\u00e9 hoje encontramos picha\u00e7\u00f5es com escritos como \u201cBrasileiros psicopatas\u201d e coisas do g\u00eanero nas casas que eram de brasileiros em outros pa\u00edses, antes de serem definitivamente banidos. O tratamento que o povo brasileiro deu \u00e0 pandemia gerou xenofobia, san\u00e7\u00f5es e at\u00e9 crimes de \u00f3dio. Como brasileira, eu me recusei a aceitar essa explica\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria. N\u00e3o, as pessoas que insistiam em sair \u00e0s ruas n\u00e3o eram psicopatas, o Brasil n\u00e3o \u00e9 um povo de psicopatas.<\/p>\n<p>Agora, depois de muito estudo e distanciamento, \u00e9 poss\u00edvel compreender o que aconteceu com o Brasil. Hoje entendemos as raz\u00f5es cient\u00edficas, sociais, culturais e hist\u00f3ricas que geraram essa \u201ctempestade perfeita\u201d que levou a uma das maiores trag\u00e9dias humanit\u00e1rias do planeta. Assim como na \u201cS\u00edndrome de Estocolmo\u201d, os acometidos pela S\u00edndrome de Brasil s\u00e3o v\u00edtimas, e n\u00e3o psicopatas. <\/p>\n<p>Talvez a S\u00edndrome de Brasil tenha demorado tanto para ser detectada pela conflu\u00eancia de fatores que exige para que ocorra. O brasileiro foi praticamente \u00fanico povo no mundo que reuniu estes fatores, gerando esse resultado catastr\u00f3fico que vimos.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a entender a rea\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e a S\u00edndrome de Brasil, \u00e9 preciso tra\u00e7ar o perfil do povo brasileiro quando a pandemia come\u00e7ou. Era um povo extremamente polarizado por quest\u00f5es pol\u00edticas, abandonado pelo Poder P\u00fablico, com muitas pessoas vivendo em condi\u00e7\u00f5es de precariedade e vulnerabilidade. Mesmo aqueles com boas condi\u00e7\u00f5es financeiras experimentavam a precariedade do Estado, o abandono, a corrup\u00e7\u00e3o, a incompet\u00eancia e a viol\u00eancia urbana. E \u00e9 da\u00ed que parte a minha an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Todo ser humano vivencia um determinado n\u00edvel de ansiedade\/medo em sua vida. \u00c9 um mecanismo protetivo, ele que norteia suas escolhas, que te faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, que te faz n\u00e3o comer algo que pode te fazer mal. <\/p>\n<p>Esse n\u00edvel oscila de acordo com sua realidade, com seu entorno. Quanto maior o risco, mais atuante \u00e9 esse sistema de alerta, mais alto o alarme soa, mais atento e cuidadoso ele te coloca. O grau de prontid\u00e3o e cuidado de quem trabalha em um laborat\u00f3rio com um v\u00edrus letal n\u00e3o \u00e9 o mesmo de um jardineiro, que trabalha regando plantas.<\/p>\n<p>Durante muito tempo se acreditou que essa oscila\u00e7\u00e3o era de car\u00e1ter predominantemente psicol\u00f3gico, mold\u00e1vel, negoci\u00e1vel. Mas hoje se sabe que estas pessoas sofrem altera\u00e7\u00f5es em certas regi\u00f5es do c\u00e9rebro, algo que n\u00e3o podem ser modificadas com terapia, resili\u00eancia e que independem da vontade delas. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chegamos a um passo al\u00e9m, e a compreens\u00e3o disto \u00e9 crucial para entender que o brasileiro n\u00e3o \u00e9 um psicopata: se acreditava que, quanto maior o perigo, mais alerta a mente mantinha o corpo. Por\u00e9m, existe um grau de medo, ansiedade e sofrimento e o corpo e a mente humana podem suportar. Ultrapassado esse grau, a sirene de alerta que toca come\u00e7a a ficar insuport\u00e1vel, incapacitante, invi\u00e1vel. Ent\u00e3o, o corpo simplesmente a desliga. E, quase todo brasileiro j\u00e1 tinha, por um motivo ou por outro, essa sirene de alerta tocando no seu m\u00e1ximo quando a pandemia come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Em 2020, quando a pandemia come\u00e7ou, mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o brasileira vivia em condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade extrema, que, se pensadas com base na Pir\u00e2mide de Maslow, estariam no primeiro degrau. Pessoas cuja vida era colocada em risco diariamente, mesmo sem pandemia. Hoje sabemos que n\u00e3o ocorrem apenas altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas com essas pessoas, mas tamb\u00e9m neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Quando a realidade \u00e9 viver em uma comunidade desassistida, sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para uma exist\u00eancia digna, o c\u00e9rebro humano tende a \u201cdesligar\u201d a regi\u00e3o do c\u00e9rebro respons\u00e1vel por enviar sinais de ansiedade e medo, caso contr\u00e1rio os n\u00edveis de ansiedade e medo seriam t\u00e3o altos que a pessoa n\u00e3o conseguiria viver. Essa anestesia emocional turva o discernimento, altera a percep\u00e7\u00e3o e \u00e9 um mecanismo inconsciente, incontrol\u00e1vel e indispens\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia de pessoas que vivem em sociedades t\u00e3o brutalizadas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, podemos dizer que o brasileiro n\u00e3o sa\u00eda \u00e0s ruas por ego\u00edsmo, por descaso ou por n\u00e3o se importar. O sistema de alerta de boa parte dos brasileiros j\u00e1 estava de fato desligado, pelo excesso de perigos que enfrentavam no seu dia a dia. Diversos estudos avaliando v\u00eddeos em redes sociais antigas mostram que o comportamento padr\u00e3o destes brasileiros j\u00e1 era o de quem n\u00e3o tem nenhum sistema de seguran\u00e7a que lhe avise do perigo e exames cerebrais realizados \u00e0 \u00e9poca confirmam nossas suspeitas: essa parte do c\u00e9rebro estava desligada.<\/p>\n<p>Um psicopata tem a total compreens\u00e3o do que faz (tanto \u00e9 que se comete um crime esconde seus vest\u00edgios e tenta negar que o fez), apenas n\u00e3o se importa com nada que n\u00e3o diga respeito a ele mesmo. Uma pessoa com esse sistema de alerta desligado por sobrecarga simplesmente n\u00e3o recebe do c\u00e9rebro o alerta de que ali h\u00e1 um perigo, n\u00e3o importa quantas vezes isso lhe seja repetido ou provado. Seu corpo e sua mente n\u00e3o conseguem lidar e promovem uma cegueira seletiva. \u00c9 como gritar com um surdo: n\u00e3o importa o qu\u00e3o alto se fale, ele n\u00e3o te escuta por uma incapacidade f\u00edsica.<\/p>\n<p>Obviamente, nem todos os brasileiros estavam nessa condi\u00e7\u00e3o. Muitos possu\u00edam de fato seu sistema de alerta funcionando, mas, devida a outros fatores, a sirene tamb\u00e9m se tornou alta demais e seus c\u00e9rebros desligaram.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o apenas pol\u00edtica, tamb\u00e9m contribuiu muito, tirando o foco do que era importante e urgente. Em uma sociedade sem di\u00e1logo, onde n\u00e3o havia possibilidade de escutar o outro, compreender seu ponto de vista e chegar a um meio-termo, vimos medidas sanit\u00e1rias sendo politizadas e tratadas de forma radical. <\/p>\n<p>Em um contexto onde precisamos de uma uni\u00e3o de esfor\u00e7os para sobreviver, esta \u00e9 a pior postura poss\u00edvel. Essa ruptura social, onde cada grupo fez quest\u00e3o de se radicalizar para um lado, parte trancada sem sair de casa e parte saindo sempre que tinha oportunidade, com a clara inten\u00e7\u00e3o de confrontar e fazer valer sua opini\u00e3o, tamb\u00e9m gerou muitas mortes.<\/p>\n<p>N\u00f3s, brasileiros, n\u00e3o soubemos conversar. Teria sido prefer\u00edvel que ambas as partes cedam e cheguem a um meio termo ainda que n\u00e3o ideal. Morreriam menos pessoas se todos os lados tivessem capacidade de di\u00e1logo: quem achava que n\u00e3o tinha que sair nunca e quem achava que tinha que sair sempre poderiam ter estipulado sa\u00eddas duas vezes por semana. Mas n\u00e3o havia qualquer possibilidade de di\u00e1logo. E isso estressou ambos os lados, levando seus c\u00e9rebros ao limite.<\/p>\n<p>Essa necessidade de di\u00e1logo \u00e9 indispens\u00e1vel para que uma sociedade, qualquer sociedade, sobreviva. Em uma colmeia ou em um formigueiro, se voc\u00ea tira a capacidade dos membros de se comunicarem entre si, em pouco tempo aquela sociedade colapsa e desaparece. Da mesma forma, quando artificialmente jogamos membros de uma sociedade contra os outros, a sociedade colapsa. <\/p>\n<p>Quando o outro \u00e9 visto como rival e faz algo que te desagrada, isso n\u00e3o apenas acirra a polaridade, como faz do outro um inimigo que precisa ser exterminado, pois coloca sua vida em risco, o que reduz mais ainda as chances de um di\u00e1logo e uma composi\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, um meio termo que poderia ter salvado milh\u00f5es de vida. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o desespero tomou conta de ambos os lados, ao perceberem que dividam um pa\u00eds com muitos \u201cinimigos\u201d, elevando seu sistema de alerta j\u00e1 sobrecarregado pelos medos de sa\u00fade econ\u00f4micos inerentes \u00e0 pandemia, fazendo com que o alarme toque alto demais e seja desligado pelo c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Quem estava em casa se sentia \u201cidiota\u201d pois havia gente na rua. Quem estava na rua se sentia idiota por ver gente em casa que n\u00e3o iria consumir e seria respons\u00e1vel por quebrar a economia. Um grupo foi alimentando \u00f3dio do outro e, com o passar dos anos, a falta de di\u00e1logo nem era mais o principal problema. O \u00f3dio teve tal propor\u00e7\u00e3o que desligou o sistema de alerta, e, sem medo para fre\u00e1-las, pessoas raivosas n\u00e3o fazem boas escolhas.<\/p>\n<p>Ambos os grupos acreditavam sinceramente que estavam fazendo a coisa certa e que o outro grupo estava fazendo a coisa errada. Um grupo passou a ver o outro como amea\u00e7a. A tens\u00e3o aumentou ao longo dos anos. O sistema de alerta desligou e vimos explodir uma guerra civil em meio a uma pandemia que gerou muitas mortes em paralelo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tivemos o caso apelidado de \u201capag\u00e3o mental\u201d, onde o sistema de alerta desliga pelo excesso de informa\u00e7\u00f5es. Quando m\u00eddia ou ci\u00eancia exp\u00f5e constantemente a no\u00e7\u00e3o de perigo, muitas vezes por dia, o c\u00e9rebro de exaspera at\u00e9 que n\u00e3o aguenta e desliga o mecanismo de alarme para que a pessoa se cuide.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es (verdadeiras e falsas) bombardeado pela m\u00eddia e o excesso de informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas divulgados gerou uma sobrecarga no c\u00e9rebro de muitas pessoas. A regula\u00e7\u00e3o de percentual de not\u00edcias que podem tratar sobre certo tema que vemos vigente hoje, surgiu, em parte, pelo estrago causado pela m\u00eddia na Grande Pandemia de 2020. Hoje temos medidas preventivas para evitar que o c\u00e9rebro desligue a regi\u00e3o respons\u00e1vel pelo medo e todos tenhamos um sistema de alerta funcional.<\/p>\n<p>Hoje entendemos que divulgar cada passo, cada achismo, cada fase do estudo cient\u00edfico \u00e9 contraproducente. Gera um overload na cabe\u00e7a das pessoas. O c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 capaz de absorver tudo, ent\u00e3o, instintivamente, apaga a \u00e1rea do medo, pois seriam medos demais para lidar, e absorve as informa\u00e7\u00f5es que melhor atendem a aquela pessoa. <\/p>\n<p>Se um estudo dizia que determinada coisa fazia bem e outro estudo dizia que determinada coisa fazia mal, cada pessoa aderia ao que mais lhe beneficiava, \u00e0 que n\u00e3o lhe causava medo ou ansiedade. Um exemplo: a grande controv\u00e9rsia sobre atividade f\u00edsica. Tivemos estudos conflitantes e o resultado foi: quem gostava de atividade f\u00edsica acreditou que ela era ben\u00e9fica e quem n\u00e3o gostava acreditou que ela era prejudicial. Ambos foram divulgados antes que a ci\u00eancia chegue a um consenso, permitindo que os c\u00e9rebros danificados decidam. Uma temeridade.<\/p>\n<p>Com esse overload de informa\u00e7\u00f5es (muitas mentirosas ou n\u00e3o confirmadas) se criou um buf\u00ea de condutas desej\u00e1veis que cada cidad\u00e3o seguia conforme suas prefer\u00eancias, convicto de que estava fazendo a coisa certa, pois havia um estudo cient\u00edfico respaldando sua decis\u00e3o. O c\u00e9rebro desligava, mas a pessoa nem desconfiava, ela estava tranquila, pois estava seguindo a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Este mesmo overload de informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ajudou a justificar muitos desligamentos da zona respons\u00e1vel pelo medo no c\u00e9rebro com uma falsa premissa: desacreditar a ci\u00eancia. Pessoas que n\u00e3o tinham letramento cient\u00edfico e n\u00e3o compreendiam que um processo de estudo \u00e9 feito de indas e vindas, de comprova\u00e7\u00f5es e refuta\u00e7\u00f5es, de testes e contraprovas, desacreditarem da ci\u00eancia, alegando que \u201ccada hora falam uma coisa\u201d, passando a ignorar mesmo as recomenda\u00e7\u00f5es que era unanimidade.<\/p>\n<p>O gasto energ\u00e9tico do c\u00e9rebro para \u201caprender\u201d e depois \u201cdesaprender\u201d \u00e9 muito grande. Por quest\u00f5es evolutivas, nos d\u00f3i desapegar de algo em que acredit\u00e1vamos. Esse \u201cvai e vem\u201d de informa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a gerar uma exaust\u00e3o mental em boa parte da popula\u00e7\u00e3o, gerando medo e ansiedade suficientes para esse desligamento cerebral. <\/p>\n<p>O pior \u00e9 que com a \u00e1rea do medo desligada, uma informa\u00e7\u00e3o \u00fanica e constante passou a ser mais atraente para o c\u00e9rebro, que, com isso, se tranquilizava e poupava energia. O problema \u00e9 que as informa\u00e7\u00f5es \u00fanicas e constantes que temos em per\u00edodos de inconst\u00e2ncia, no geral, n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras. <\/p>\n<p>Isso abriu portas para que falas religiosas dizendo que o v\u00edrus nunca existiu, que Deus salvaria a pessoa e coisas no estilo fossem uma isca f\u00e1cil, mordida por milh\u00f5es de brasileiros. N\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que tem estrutura emocional para viver em incertezas, muitos precisam de respostas para viver em paz, e quando n\u00e3o as encontram na ci\u00eancia, as procuram na religi\u00e3o, em pol\u00edticos ou em qualquer outra fonte. Assim, o c\u00e9rebro desligou o sistema de alerta, mas a pessoa n\u00e3o sentiu nada estranho, pois estava escorada por uma informa\u00e7\u00e3o atraente: imut\u00e1vel e compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>A Lei de Responsabilidade Cient\u00edfica, aprovada ano passado, surgiu gra\u00e7as a esses efeitos. Entendemos que divulgar cada parte do processo cient\u00edfico para leigos \u00e9 nocivo, gera medo, ang\u00fastia, ansiedade e pode sim fazer com que a \u00e1rea do c\u00e9rebro respons\u00e1vel pelo medo pare de funcionar. <\/p>\n<p>Agora um estudo s\u00f3 pode ser divulgado pela imprensa ou por quem o conduz uma vez que revisado e publicado por institui\u00e7\u00f5es com credibilidade. Percebemos (um pouco tarde) os efeitos nocivos de bombardear o povo com dezenas de informa\u00e7\u00f5es novas n\u00e3o-confirmadas, que posteriormente teriam que ser desmentidas, minando a credibilidade da ci\u00eancia ou informa\u00e7\u00f5es conflitantes.<\/p>\n<p>Somado a esses fatores, o Brasil teve uma lideran\u00e7a pol\u00edtica catastr\u00f3fica. Acho que n\u00e3o preciso descrever aos senhores os sucessivos erros do ent\u00e3o Presidente Bolsonaro, j\u00e1 julgado e condenado pelo maior tribunal internacional da atualidade. Por mais que cada cidad\u00e3o tivesse a capacidade de se autorregular, existem atividades e prerrogativas que s\u00e3o monop\u00f3lio do Estado, e essas jogaram todas contra o povo na pandemia. Ao perceber que o Estado n\u00e3o apenas n\u00e3o faz o que tem que fazer para cuidar de voc\u00ea, como ainda faz o contr\u00e1rio, o medo que se instaurou foi insuport\u00e1vel para muitos, gerando o desligamento dessa zona cerebral.<\/p>\n<p>Um dos maiores exemplos dos danos causados, foi o caso dos chamados \u201cMancheters\u201d. Boa parte da popula\u00e7\u00e3o tinha planos de dados em seus telefones celulares (por serem mais baratos) que lhes permitia WhatsApp gratuito, por\u00e9m n\u00e3o podiam acessar nada al\u00e9m. Estas pessoas recebiam uma not\u00edcia, mas n\u00e3o podiam clicar nela e abrir o site onde ela estava estampada para ler e avaliar se era verdadeira ou n\u00e3o. <\/p>\n<p>Ou seja, se informavam apenas pelas manchetes do que recebiam. Para essas pessoas, a fala de um l\u00edder era essencial, e sabemos muito bem o tipo de informa\u00e7\u00e3o que lhes foi transmitida. O esquema criado pelo ent\u00e3o presidente de divulgar manchetes falsas que lhe convinham por whatsapp e depois confirm\u00e1-las em pronunciamento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o manipulou milh\u00f5es por muito tempo. <\/p>\n<p>Isso, somado a seu discurso de medo, fez com que o c\u00e9rebro de muitas pessoas apague e foque apenas no que o presidente registrava como positivo: o v\u00edrus n\u00e3o existe, o v\u00edrus j\u00e1 foi embora e aquelas outras coisas ainda piores que nem tenho coragem de repetir.<\/p>\n<p>Por isso hoje temos a Lei Ampliativa dos Planos de Dados, nenhum plano pode excluir amplo acesso \u00e0 m\u00eddia e a publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, para que as pessoas n\u00e3o possam mais ser manipuladas desta forma. \u00c9 gra\u00e7as a isso que temos tamb\u00e9m o Sistema P\u00fablico de Verifica\u00e7\u00e3o, com o qual qualquer cidad\u00e3o pode entrar em contato e conversar com especialistas da \u00e1rea \u00e0 qual se refere a not\u00edcia, que lhe dar\u00e3o informa\u00e7\u00f5es sobre sua veracidade.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o apenas alguns exemplos, uma pincelada do que est\u00e1 no meu livro, de uma conflu\u00eancia de fatores, muitas vezes sobrepostos, que sobrecarregaram o c\u00e9rebro do brasileiro a ponto dele n\u00e3o suportar o medo e ansiedade gerados e, como mecanismo de defesa, desligar esta \u00e1rea, deixando-o completamente sem discernimento e sem a capacidade de se cuidar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o lan\u00e7amento deste livro fui convidada para gerenciar o Centro Integrado de Monitoramento de Funcionamento Cerebral, onde se oferece de forma gratuita um exame simples para avaliar se esta \u00e1rea do c\u00e9rebro respons\u00e1vel pelo alerta de perigo est\u00e1 funcionando. A meta \u00e9 fazer deste exame uma pr\u00e1tica anual, incluindo-o nos exames b\u00e1sicos do checkup e fornecer os cuidados necess\u00e1rios a aqueles cuja regi\u00e3o cerebral esteja desligada. Aprendemos, do pior jeito, que pessoas com este problema s\u00e3o um perigo para si mesmas e para toda a sociedade.<\/p>\n<p>O brasileiro n\u00e3o \u00e9 e nunca foi um psicopata. O brasileiro \u00e9 um povo v\u00edtima da S\u00edndrome de Brasil, onde a desinforma\u00e7\u00e3o, a confus\u00e3o, a polariza\u00e7\u00e3o e desamparo silenciam uma zona do c\u00e9rebro, gerando uma cegueira tempor\u00e1ria e turvam o discernimento. <\/p>\n<p>Cada pessoa envolvida nessa trag\u00e9dia acreditava que estava fazendo o bem, a coisa certa. Cada pessoa envolvida nessa trag\u00e9dia fez o melhor que pode, considerando suas capacidades \u00e0 \u00e9poca. \u00c9 hora de absolver o brasileiro.<\/p>\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o que brasileiros vem sofrendo pelo mundo desde ent\u00e3o \u00e9 injusta. \u00c9 incorreto presumir que essas pessoas se portaram como se portaram simplesmente por n\u00e3o se importar com a vida alheia. N\u00e3o s\u00e3o psicopatas, s\u00e3o apenas o resultado de uma sociedade muito conturbada que levou seus c\u00e9rebros ao limite do suport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sei que ap\u00f3s o lan\u00e7amento do meu livro esse estigma que persegue o brasileiro vem sendo repensado, mas, ainda assim, precisamos da ajuda de todos para mostrar ao mundo que o brasileiro \u00e9 digno de poder voltar a transitar livremente pelo mundo, poder voltar tomar decis\u00f5es sobre sua pr\u00f3pria vida e poder voltar a ter soberania nacional. <\/p>\n<p>Pe\u00e7o que compartilhem esta palestra para o m\u00e1ximo de pessoas poss\u00edvel, pois estrangeiros n\u00e3o tem a real dimens\u00e3o de como era a sociedade brasileira nem do emaranhado de fatores que levaram ao sofrimento extremo e insuport\u00e1vel que gerou S\u00edndrome de Brasil.<\/p>\n<p>Deixo aqui meu apelo ao mundo: o brasileiro n\u00e3o \u00e9 um psicopata.<\/p>\n<p><em>&#8211; aplausos &#8211;<\/em><\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que tem sim muito psicopata, para dizer que acredita que a  S\u00edndrome de Brasil seja poss\u00edvel ou ainda para dizer que em vez de escrever historinha de fic\u00e7\u00e3o eu deveria fazer um FAQ para informar o leitor: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voz em off: \u201cO Ted Talk 2040 apresenta a palestrante Dra. Sbrubles, neurocientista, antrop\u00f3loga e historiadora, que vai nos contar um pouco mais sobre a S\u00edndrome de Brasil, termo popularizado no mundo inteiro que ela mesma cunhou em seu livro \u201cPandemia no Brasil \u2013 uma an\u00e1lise neurol\u00f3gica, cultural e hist\u00f3rica\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16991,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-16990","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16990"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16990\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}