{"id":17069,"date":"2020-07-10T14:24:30","date_gmt":"2020-07-10T17:24:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17069"},"modified":"2020-07-10T14:24:30","modified_gmt":"2020-07-10T17:24:30","slug":"semana-pandemica-peste-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/07\/semana-pandemica-peste-negra\/","title":{"rendered":"Semana Pand\u00eamica: Peste Negra"},"content":{"rendered":"<p>Poucas coisas definiram tanto a hist\u00f3ria da humanidade quanto a bact\u00e9ria Yersinia Pestis. Causadora da Peste Negra, a doen\u00e7a mais mortal com a qual j\u00e1 lidamos, n\u00e3o necessariamente em n\u00fameros gerais, mas na propor\u00e7\u00e3o entre o tamanho da popula\u00e7\u00e3o mundial antes e depois dos grandes surtos. No s\u00e9culo XIV, estima-se que tenha matado metade da Europa. Metade. E essas n\u00e3o s\u00e3o as maiores estimativas&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>A doen\u00e7a tem v\u00e1rios nomes atualmente, mas em boa parte da nossa hist\u00f3ria, era chamada apenas de \u201cA Grande Morte\u201d. Talvez o nome mais correto seja Peste Bub\u00f4nica, pois seus sintomas incluem o aparecimento dos \u201cbub\u00f5es\u201d, termo antigo para os linfonodos inflamados. A doen\u00e7a come\u00e7a com febre, juntas doloridas, n\u00e1usea, v\u00f4mitos e mal estar em geral, mas rapidamente evolui para a inflama\u00e7\u00e3o dos linfonodos, especialmente os da virilha e das axilas. O local inflamado fica inchado e dolorido. Logo depois, come\u00e7am a surgir pontos pretos na pele, que come\u00e7a a morrer pouco a pouco. A febre ent\u00e3o aumenta e a pessoa come\u00e7a a vomitar sangue. N\u00e3o demora muito para morrer depois disso.<\/p>\n<p>Isso tudo acontece em mais ou menos uma semana. A vers\u00e3o mais comum da doen\u00e7a tem algo em torno de 80% de letalidade se n\u00e3o for tratada. Hoje em dia, com antibi\u00f3ticos, isso cai para no m\u00e1ximo 10% em pessoas muito debilitadas, mas considerando o quanto n\u00e3o se sabia sobre medicina nos tempos da preval\u00eancia da doen\u00e7a, estamos falando sim de uma senten\u00e7a de morte. Ainda existem as varia\u00e7\u00f5es pneum\u00f4nicas e septic\u00eamicas da doen\u00e7a, que chegavam quase a 100% de letalidade.<\/p>\n<p>A bact\u00e9ria j\u00e1 existia em popula\u00e7\u00f5es de pulgas de roedores, provavelmente h\u00e1 muito mais tempo que a humanidade, e a teoria mais aceita atualmente \u00e9 que seja natural da \u00c1sia, pr\u00f3xima da China (temos um padr\u00e3o aqui, n\u00e3o?). E ao contr\u00e1rio de v\u00e1rias outras doen\u00e7as carregadas por vetores como pulgas, a Yersinia Pestis n\u00e3o tinha uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o simbi\u00f3tica assim com suas hospedeiras: atacavam as pulgas de tal forma que bloqueavam seu sistema excretor, for\u00e7ando os parasitas a vomitar o conte\u00fado de seus est\u00f4magos numa tentativa desesperada de n\u00e3o explodir. Isso fazia com que quantidades enormes da bact\u00e9ria entrassem em contato com a ferida exposta pela sua picada. Alguns dos ratos eram imunes \u00e0 Peste, mas nem todos. Quando a Peste matava ratos o suficiente, as pulgas procuravam novos hospedeiros, e os humanos calhavam de estar por perto.<\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia, nem se sonhava com a ideia de bact\u00e9rias ou de microrganismos em geral. O conceito de higiene era completamente diferente (as pessoas n\u00e3o viviam sujas e maltrapilhas como se mostra em filmes e s\u00e9ries, mas era s\u00f3 cosm\u00e9tico mesmo: passar um pano na cara e usar litros de perfume) e a rela\u00e7\u00e3o entre viver cercado de ratos, excre\u00e7\u00f5es e outras coisas intoler\u00e1veis atualmente n\u00e3o os incomodava da mesma forma. Era s\u00f3 quest\u00e3o de tempo at\u00e9 uma doen\u00e7a com esse grau de agressividade se espalhasse sem controle.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia a doen\u00e7a j\u00e1 dizimava popula\u00e7\u00f5es, especialmente na China e na \u00cdndia, passando pelo Oriente M\u00e9dio e finalmente chegando na Europa atrav\u00e9s da Rota da Seda, especialmente atrav\u00e9s de mercadores genoveses. Essa sequ\u00eancia China-It\u00e1lia com certeza faz parte da nossa hist\u00f3ria. Como muitos de voc\u00eas j\u00e1 devem ter ouvido, o com\u00e9rcio mar\u00edtimo teve um papel determinante na expans\u00e3o da doen\u00e7a: os navios, apinhados de ratos, faziam a conex\u00e3o entre \u00c1sia e Europa, desembarcando vetores e infectados em novas regi\u00f5es. E como ningu\u00e9m conseguia fazer a conex\u00e3o entre ratos, pulgas e a doen\u00e7a, a coisa foi saindo de controle. O movimento humano era bem mais lento na \u00e9poca, claro, mas em menos de uma d\u00e9cada a doen\u00e7a j\u00e1 havia se espalhado por todo o continente europeu.<\/p>\n<p>E onde a Peste se instalava, n\u00e3o havia muito o que fazer a n\u00e3o ser contar os mortos. 80% de mortalidade em uma semana. E na falta da ci\u00eancia moderna, restava explicar como conjun\u00e7\u00e3o astral desfavor\u00e1vel ou puni\u00e7\u00e3o divina. Embora algumas regi\u00f5es tenham evitado o pior fazendo quarentenas, a voracidade da doen\u00e7a era tanta que sobrava pouco tempo para reagir quando os casos come\u00e7avam a ficar vis\u00edveis numa popula\u00e7\u00e3o. Cidades e vilarejos praticamente acabavam em poucos meses.<\/p>\n<p>Argumento at\u00e9 que a doen\u00e7a era t\u00e3o terr\u00edvel que n\u00e3o havia sequer a possibilidade de avan\u00e7ar a medicina em resposta: uma coisa \u00e9 enfrentar a Var\u00edola, que de t\u00e1 algum tempo de rea\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mata tanta gente, outra \u00e9 lidar com algo mais parecido com um desastre natural como um vulc\u00e3o, enchente ou furac\u00e3o. Se voc\u00ea quisesse viver, tinha que sair correndo de onde estava e torcer para n\u00e3o apresentar os sintomas no lugar para onde fosse, sen\u00e3o estaria acabando com mais uma cidade.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m tem um fator psicol\u00f3gico poderoso: dizer que vai evitar uma pessoa como se tivesse a peste \u00e9 uma express\u00e3o ainda comum na l\u00edngua inglesa, por exemplo. O povo n\u00e3o sabia o que causava a doen\u00e7a, mas entendia que era muito contagiosa. N\u00e3o havia coes\u00e3o social que bastasse no caso de algo que \u00e9 quase certeza que vai te matar absurdamente evidente na pele do outro. N\u00e3o era um momento para a humanidade se unir, era cada um por si e a Peste contra todos. Quem conseguiu fechar as fronteiras e praticar isolamento social conseguiu se proteger um pouco, naquele tempo o com\u00e9rcio j\u00e1 era importante, mas a produ\u00e7\u00e3o de alimentos era muito mais local.<\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil imaginar o que era viver numa regi\u00e3o assolada pela doen\u00e7a. Tudo bem que o povo do s\u00e9culo XIV devia ser bem menos apegado \u00e0 vida, entendendo a morte como algo sempre muito pr\u00f3ximo, mas n\u00e3o tem como ver tudo ao seu redor ruindo por causa de uma doen\u00e7a t\u00e3o terr\u00edvel e n\u00e3o ser impactado. Importante lembrar que embora a Peste seja poderosa, o estado m\u00e9dio de sa\u00fade do ser humano naqueles tempos n\u00e3o era dos melhores. Existe uma ilus\u00e3o de que as pessoas eram mais saud\u00e1veis antigamente, mas embora o cidad\u00e3o m\u00e9dio fosse bem mais ativo fisicamente, a oferta de alimentos era bem limitada, e podia acabar a qualquer momento. Estamos falando de uma popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia desnutrida, sem acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel e cheia de doen\u00e7as n\u00e3o tratadas. Eram muito mais vulner\u00e1veis que o cidad\u00e3o m\u00e9dio atual.<\/p>\n<p>Por isso estamos falando de um continente perdendo metade da sua popula\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o com dificuldades de se sustentar e uma doen\u00e7a extremamente mortal e incur\u00e1vel criam o ambiente ideal para um desastre dessas propor\u00e7\u00f5es. Tanta gente morreu que a humanidade teve que mudar, por pura press\u00e3o nos seus sistemas. O regime feudal dependia de muitos camponeses \u00e0 beira da morte para funcionar, mas quando eles finalmente morreram, as coisas come\u00e7aram a mudar.<\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que a Renascen\u00e7a seja consequ\u00eancia de um mundo devastado pela Peste. O sistema feudalista se via diante de uma popula\u00e7\u00e3o muito reduzida, o que aumentou consideravelmente o valor de cada trabalhador e a oferta dos recursos dispon\u00edveis. De uma certa forma, foi o plano do Thanos acontecendo na vida real. Se onde havia duas pessoas para trabalhar, agora s\u00f3 existe uma, \u00e9 bom voc\u00ea come\u00e7ar a considerar pagar sal\u00e1rios. Se o mercado consumidor diminuiu tanto que comida e especialmente objetos manufaturados est\u00e3o com estoques muito maiores, custa menos sobreviver. Isso come\u00e7a a gerar especializa\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas p\u00fablicas mais garantistas e at\u00e9 mesmo muito mais artistas e pensadores com o passar das d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A Peste Negra foi a press\u00e3o que o sistema antigo precisava para ruir. E com tantas cidades praticamente vazias pelas mortes, muita gente come\u00e7ou a se mudar buscando oportunidades, alterando a tradi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias que viviam por gera\u00e7\u00f5es no mesmo lugar sob o poder de uma s\u00f3 dinastia. Se as suas terras perderam dois ter\u00e7os da m\u00e3o de obra e n\u00e3o tem gente desesperada querendo assumir o lugar, voc\u00ea tem que se mexer e oferecer condi\u00e7\u00f5es melhores. Mas a Peste do s\u00e9culo XIV n\u00e3o foi a \u00faltima vez que a Europa sofreu, ela continuou reaparecendo com algumas d\u00e9cadas de respiro at\u00e9 a metade do s\u00e9culo XVI. E, onde muita gente come\u00e7a a morrer, a ideia de mecanizar os trabalhos come\u00e7a a ficar mais e mais interessante. Embora exista um espa\u00e7o consider\u00e1vel entre a Era Industrial e o \u00faltimo grande surto europeu, as sementes j\u00e1 estavam plantadas: o ser humano n\u00e3o era recurso infinito, e quem dependesse apenas de n\u00fameros de trabalhadores estava sempre fazendo uma aposta.<\/p>\n<p>Infelizmente, a Peste Negra tamb\u00e9m pode ser relacionada com boa parte do fanatismo religioso da nossa hist\u00f3ria: a ideia de que a doen\u00e7a era uma puni\u00e7\u00e3o divina e a completa ignor\u00e2ncia sobre os mecanismos de seu funcionamento criaram o ambiente ideal para tornar toda f\u00e9 ainda mais fervorosa. No mundo isl\u00e2mico, muito afetado tamb\u00e9m, a ideia de que a Peste era uma puni\u00e7\u00e3o era a teoria mais aceita, alguns textos sugerem que no Oriente M\u00e9dio algumas autoridades at\u00e9 proibiam fugir da doen\u00e7a, para n\u00e3o mexer com os planos divinos. Na Europa, a Igreja Cat\u00f3lica aproveitou para se estabelecer como poder hegem\u00f4nico diante de um povo aterrorizado em busca de uma explica\u00e7\u00e3o. Muitas das ideias de sofrimento e sacrif\u00edcio pessoal da religi\u00e3o crist\u00e3 tomam forma nos tempos da Peste.<\/p>\n<p>E para n\u00e3o deixar passar como o ser humano \u00e9 repetitivo: os europeus come\u00e7aram a culpar outros povos pela devasta\u00e7\u00e3o, tentando achar um culpado para terminar aquela prova\u00e7\u00e3o divina. Sobrou para os judeus, ciganos, imigrantes, deficientes, mendigos&#8230; milhares foram exterminados na esperan\u00e7a de acalmar seu deus.<\/p>\n<p>A \u00faltima grande epidemia da Peste Negra aconteceu na china no s\u00e9culo XIX, espalhando-se para a \u00cdndia e matando dezenas de milh\u00f5es de pessoas. A doen\u00e7a chegou nas Am\u00e9ricas e at\u00e9 na Austr\u00e1lia. Mais recentemente, tivemos alguns epis\u00f3dios em Madagascar com uma vers\u00e3o resistente a antibi\u00f3ticos, mas mesmo num pa\u00eds t\u00e3o pobre, o mundo moderno j\u00e1 \u00e9 capaz de lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Em 2017 morreram s\u00f3 170 pessoas de milhares contaminadas.<\/p>\n<p>No Brasil, a doen\u00e7a foi respons\u00e1vel por alguns surtos, especialmente em cidades portu\u00e1rias como Rio de Janeiro e Santos no come\u00e7o do s\u00e9culo passado. A necessidade de tratar esses casos e evitar que a doen\u00e7a se espalhasse no pa\u00eds acabou contribuindo para a cria\u00e7\u00e3o de duas entidades que existem at\u00e9 hoje: em S\u00e3o Paulo, a fazenda Butantan foi escolhida para sediar o laborat\u00f3rio do Instituto Bacteriol\u00f3gico, que depois adotaria o nome da fazenda; no Rio, foi inaugurado o Instituto Soroter\u00e1pico Federal, que depois se tornaria a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>O \u00faltimo caso registrado aqui \u00e9 de 2005, a doen\u00e7a n\u00e3o desapareceu e ainda continua pipocando em v\u00e1rios lugares do mundo, mas sem uma fra\u00e7\u00e3o do potencial destrutivo que j\u00e1 teve. E se voc\u00ea acha que foram os antibi\u00f3ticos que controlaram a doen\u00e7a, pense de novo: eles datam de 1928, depois da \u00faltima grande pandemia. Hoje em dia eles garantem uma taxa de sobreviv\u00eancia excelente para qualquer infectado, mas a doen\u00e7a perdeu sua capacidade de destrui\u00e7\u00e3o com melhores h\u00e1bitos de higiene e controle de pragas. Conhecimento venceu a Peste. Primeiro a percep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre as pulgas e a doen\u00e7a, e depois a teoria dos germes que nos ensinou que a maioria das doen\u00e7as s\u00e3o invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 agindo de acordo com ci\u00eancia cada vez mais confi\u00e1vel que as coisas melhoraram. N\u00e3o foi supersti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi mais f\u00e9, n\u00e3o foi matar \u201cindesej\u00e1veis\u201d. A Peste nos ensinou que a ci\u00eancia \u00e9 a alternativa ao completo desamparo de ver metade da sua cidade morrendo e n\u00e3o ter nenhuma ferramenta para lidar com isso. No s\u00e9culo XIV eles n\u00e3o tinham chance de fazer diferente, mas n\u00f3s&#8230; n\u00f3s temos.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que essa semana foi doentia, para dizer que estamos parecendo velhos falando s\u00f3 disso, ou mesmo para dizer que logo logo vai ser proibido falar Peste Negra: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas coisas definiram tanto a hist\u00f3ria da humanidade quanto a bact\u00e9ria Yersinia Pestis. Causadora da Peste Negra, a doen\u00e7a mais mortal com a qual j\u00e1 lidamos, n\u00e3o necessariamente em n\u00fameros gerais, mas na propor\u00e7\u00e3o entre o tamanho da popula\u00e7\u00e3o mundial antes e depois dos grandes surtos. 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