{"id":17123,"date":"2020-07-21T10:36:07","date_gmt":"2020-07-21T13:36:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17123"},"modified":"2020-07-21T10:36:07","modified_gmt":"2020-07-21T13:36:07","slug":"luto-em-tempos-de-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/07\/luto-em-tempos-de-pandemia\/","title":{"rendered":"Luto em tempos de pandemia."},"content":{"rendered":"<p><em>Texto pesado sobre morte e luto \u2013 se n\u00e3o estiver em um bom dia, deixe para ler depois.<\/em><\/p>\n<p>O coronav\u00edrus n\u00e3o mudou apenas a nossa vida, mudou tamb\u00e9m a nossa morte. A forma como temos que lidar com a hospitaliza\u00e7\u00e3o e falecimento de uma pessoa amada tornou muito mais dif\u00edcil que passemos por um luto saud\u00e1vel: a pessoa \u00e9 levada, voc\u00ea n\u00e3o pode visit\u00e1-la e, se ela falece, voc\u00ea n\u00e3o pode sequer se despedir dela. Gra\u00e7as a essa nova realidade, \u00e9 poss\u00edvel que vejamos muitos casos do que se chama de \u201cluto complicado\u201d. Ent\u00e3o, este texto \u00e9 para te alertar que esse luto complicado pode acontecer, que \u00e9 comum precisar de ajuda para passar por ele e que existem algumas coisas que podem ser feitas para atenuar o impacto desse novo cen\u00e1rio na perda de um ente querido.<!--more--><\/p>\n<p>Em meio a uma pandemia, por mais doloroso que seja, \u00e9 preciso olhar para a realidade: as chances de perder uma pessoa amada ficam maiores. As chances de que algu\u00e9m do seu conv\u00edvio perca uma pessoa amada e precise de ajuda tamb\u00e9m s\u00e3o maiores. Portanto, por mais desagrad\u00e1vel que seja o assunto, achei que era hora de fazer um texto sobre essa nova realidade, com sugest\u00f5es de como lidar com ela. N\u00e3o vou falar em \u201cnovo normal\u201d, pois acho essa express\u00e3o odiosa. O que estamos vivendo \u00e9 tudo, menos normal. <\/p>\n<p>E n\u00e3o estamos falando apenas de pessoas que morreram de covid-19. Enquanto durar esta pandemia, \u00e9 prov\u00e1vel que todas as outras mortes por qualquer doen\u00e7a sofram as mesmas restri\u00e7\u00f5es: o paciente \u00e9 obrigado a ficar sozinho no hospital, n\u00e3o pode receber visitas, se falecer ser\u00e1 uma morte sem vel\u00f3rio, sepultamento muito mais restrito, com caix\u00e3o lacrado, com a pessoa dentro de um saco preto. <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 chances de \u00faltimas palavras, de estar ao lado da pessoa em um momento que pode ser assustador e tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 a mesma oportunidade de despedida que t\u00ednhamos em tempos normais. \u00c9 uma \u00e9poca dolorosa para perder algu\u00e9m, e provavelmente os sintomas disso aparecer\u00e3o dentro de meses, na forma do que se chama \u201cluto complicado\u201d. Daqui a pouco vamos falar dele em detalhes.<\/p>\n<p>A morte faz romper o v\u00ednculo com a pessoa amada e d\u00e1 in\u00edcio ao processo de luto, um longo percurso para superar essa perda. E esse processo ser\u00e1 mais ou menos dif\u00edcil\/doloroso dependendo do que se viveu com aquela pessoa. Digamos que se \u201cfaltou viver algo\u201d, essa conta chega no processo de luto, tornando-o mais sofrido. <\/p>\n<p>Por isso a morte de uma av\u00f3 de 99 anos tende a ser mais facilmente tolerada do que a morte de um filho de 9 anos, a sensa\u00e7\u00e3o de que faltaram coisas a viver \u00e9 bem maior no segundo caso. Assim, o primeiro grande passo para tentar estar um pouco mais preparado para um luto \u00e9 resolver todas as suas quest\u00f5es com a pessoa, de modo a atenuar essa sensa\u00e7\u00e3o de que faltou viver algo. Se existirem quest\u00f5es mal resolvidas ou pend\u00eancias com a pessoa que faleceu, o luto pode se tornar mais doloroso. Logo, podemos concluir que manter quest\u00f5es pendentes com pessoas amadas na atual realidade \u00e9 algo a ser evitado.<\/p>\n<p>Com a pandemia, quase todas as mortes tem potencial para ter sua dor majorada por essa sensa\u00e7\u00e3o de que faltou algo: a pessoa doente \u00e9 internada em um hospital, onde n\u00e3o pode receber visitas e, se falece, a fam\u00edlia n\u00e3o pode velar o corpo, n\u00e3o pode fazer os rituais de despedida naturais. A pessoa simplesmente desaparece, sem direito a um adeus. Isso pode dificultar muito o processo de luto.<\/p>\n<p>Basicamente este texto \u00e9 para te dizer que se voc\u00ea tiver que passar pelo falecimento de uma pessoa amada agora, a situa\u00e7\u00e3o vai ser mais dif\u00edcil do que o normal e essa dificuldade extra pode acabar gerando um processo de luto que demande ajuda de profissionais para ser superado. Mas existem coisas que voc\u00ea pode fazer para prevenir ou tentar remediar esse momento dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Faltou falar algo? Faltou dizer que amava a pessoa? Faltou resolver brigas? Resolva isso hoje, pois se algu\u00e9m adoecer, voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 essa oportunidade. \u00c9 muito mais f\u00e1cil evitar um inc\u00eandio do que apag\u00e1-lo. Aproveite a oportunidade que muitos n\u00e3o tiveram e est\u00e3o tendo que pagar um pre\u00e7o por isso. Diga o que precisa ser dito, fa\u00e7a o que precisa ser feito, para ficar com a sua consci\u00eancia tranquila, caso alguma pessoa amada venha a falecer. Sua \u00faltima conversa com ela pode ser hoje, sem que voc\u00ea saiba.<\/p>\n<p>Vivenciar um luto \u00e9 algo sofrido, trabalhoso e demorado, voc\u00ea n\u00e3o vai querer nenhum peso extra nesse caminho. Lidar com a perda de uma pessoa amada \u00e9 um processo duro por si s\u00f3, quando a isso a gente acrescenta mais sentimentos negativos como culpa, remorso, sensa\u00e7\u00e3o de que faltou viver algo ou coisas mal resolvidas, tudo fica muito pior e o fardo pode ficar pesado demais para carregar.<\/p>\n<p>O grande problema \u00e9, que pela atual realidade, por mais que todas as arestas sejam aparadas, esses sentimentos \u201cextras\u201d podem acabar aparecendo mesmo assim, ainda que voc\u00ea tenha feito tudo que estava ao seu alcance.<\/p>\n<p>N\u00e3o poder estar com a pessoa amada em um momento de tanta fragilidade como uma interna\u00e7\u00e3o com risco de morte pode gerar sentimentos como culpa e raiva, ainda que racionalmente a pessoa saiba que n\u00e3o estava l\u00e1 por n\u00e3o poder estar l\u00e1. N\u00e3o \u00e9 que algu\u00e9m tenha abandonado a pessoa amada para morrer sozinha, todos foram impedidos de estar por perto por quest\u00f5es sanit\u00e1rias. Mas isso nem sempre encaixa bem na cabe\u00e7a de uma pessoa enlutada. Fica \u201cfaltando\u201d uma despedida, fica faltando algo que deveria ser vivido e n\u00e3o foi. <\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o se perguntar se a pessoa amada sentiu medo, dor, se recebeu todo o amparo que poderia de funcion\u00e1rios atarefados. Se sentir mal, sentir dor, perceber a pr\u00f3pria morte chegando, podem ser situa\u00e7\u00f5es assustadoras. Ningu\u00e9m deveria passar por isso sozinho. O suposto sofrimento do outro reverbera e acaba sendo sentido pela pessoa enlutada.<\/p>\n<p>Em entrevistas com profissionais da sa\u00fade, o ponto no qual eles mais batem apesar de tanta coisa grave acontecendo \u00e9: \u201cas pessoas est\u00e3o morrendo sozinhas\u201d. S\u00e3o muitas pessoas para atender, nem sempre tem algum profissional de sa\u00fade para segurar a m\u00e3o da pessoa quando ela est\u00e1 falecendo. Percebam que profissionais da sa\u00fade est\u00e3o em um momento cr\u00edtico com mil problemas para lidar e, ainda assim, \u00e9 isso que lhes salta aos olhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a falta de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a irresponsabilidade de babacas que n\u00e3o usam m\u00e1scaras e colocam a vida dos profissionais em risco abarrotando hospitais, n\u00e3o \u00e9 a dist\u00e2ncia das pr\u00f3prias fam\u00edlias ou at\u00e9 os sal\u00e1rios atrasados o que mais chama a aten\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos e enfermeiros. O que mais marca s\u00e3o as pessoas que est\u00e3o morrendo sozinhas. Imagina o qu\u00e3o traum\u00e1tico isso deve ser, para receber prioridade de aten\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 na linha de frente.<\/p>\n<p>Hoje, se voc\u00ea, sua m\u00e3e ou seu filho adoecem por qualquer motivo, ser\u00e3o levados ao hospital e voc\u00ea n\u00e3o ver\u00e1 mais a pessoa, a menos que ela tenha alta. Essa aus\u00eancia, esse n\u00e3o saber o que est\u00e1 se passando, devem ser terr\u00edveis. Pode ser que a pessoa n\u00e3o esteja sofrendo, mas o n\u00e3o saber faz estragos no ser humano: n\u00e3o tem inimigo maior do que nossa imagina\u00e7\u00e3o, quem tem uma pessoa amada internada pode enlouquecer imaginando qu\u00e3o aterrorizante pode ser a realidade da pessoa internada. E, em caso de morte, essa conta vai chegar na hora do luto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m est\u00e1 livre de adoecer e precisar ir para o hospital amanh\u00e3. Ningu\u00e9m est\u00e1 livre de ter uma pessoa amada indo para o hospital amanh\u00e3. Ent\u00e3o, para come\u00e7o de conversa, considerando essa realidade que eu narrei, fa\u00e7am um favor a voc\u00eas mesmos e \u00e0s pessoas que amam e resolvam todas as pend\u00eancias, digam o que precisa ser dito, fa\u00e7am o que precisa ser feito para que, caso algu\u00e9m seja levado ao hospital amanh\u00e3, n\u00e3o fique algo em aberto te atormentando mais do que j\u00e1 \u00e9 tortuoso o processo natural de luto. Nada melhor do que agir preventivamente para evitar um luto complicado.<\/p>\n<p>Que fique claro: n\u00e3o \u00e9 um conselho profissional, minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 psicologia. E um conselho de quem tem experi\u00eancia na dor do luto. Se tudo for conversado, se tudo for zerado, se voc\u00ea disser como se sente e escutar do outro como ele se sente, vai ser menos dif\u00edcil e talvez voc\u00ea consiga passar por isso sozinho, sem precisar de ajuda profissional.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixem arestas para aparar. N\u00e3o neste momento. Fa\u00e7a isso por voc\u00ea e pelo outro. Se algu\u00e9m tiver que passar por essa experi\u00eancia horr\u00edvel, que ela seja o menos horr\u00edvel poss\u00edvel. Que seja s\u00f3 a dor da aus\u00eancia, sem a isso acrescer arrependimentos, sentimento de culpa e outros que poderiam ser evitados que tornam a jornada muito mais dif\u00edcil. J\u00e1 basta os que vir\u00e3o e n\u00e3o poder\u00e3o ser evitados.<\/p>\n<p>Dito isto, vamos trabalhar com a pior das hip\u00f3teses. Algu\u00e9m que voc\u00ea ama foi levado ao hospital e faleceu. Voc\u00ea n\u00e3o teve oportunidade de se despedir, nem mesmo no vel\u00f3rio, que, se ocorrer, \u00e9 com caix\u00e3o fechado. Vamos entender como isso pode impactar a vida da pessoa e como \u00e9 poss\u00edvel tentar amenizar o estrago que essa \u201cnova realidade\u201d pode causar.<\/p>\n<p>Existe um motivo para que, nas mais diferentes culturas, nas mais diversas eras, se fa\u00e7am rituais f\u00fanebres de despedida. \u00c9 algo que facilita o processo do luto. Isso nos foi tirado em 2020 e para muita gente pode gerar problemas na hora de lidar com a perda e desencadear o que se chama \u201cluto complicado\u201d ou \u201cluto patol\u00f3gico\u201d ou \u201cluto prolongado\u201d.<\/p>\n<p>No luto, a perda da pessoa ocupa um lugar de destaque na sua vida. \u00c9 um sapo dif\u00edcil de engolir e de digerir, podem levar meses ou at\u00e9 anos para que essa perda seja assimilada, o sofrimento diminua e fiquem apenas as boas lembran\u00e7as. Sofrimento faz parte, mas h\u00e1 um diferencial ser observado: no luto comum, a dor vai diminuindo com o passar do tempo. No \u201cluto complicado\u201d n\u00e3o. Por uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 resolvida internamente e essa dor continua por tempo prolongado, gerando uma s\u00e9rie de preju\u00edzos \u00e0 vida da pessoa enlutada, que n\u00e3o sai nunca desse buraco, s\u00f3 se receber ajuda.<\/p>\n<p>Muita gente nem sabe que esse luto complicado existe, portanto, se for\u00e7a a continuar a vida em um estado de sofrimento extremos que n\u00e3o passa, em vez de procurar tratamento. Tamb\u00e9m \u00e9 comum que se confunda o luto complicado com depress\u00e3o, o que \u00e9 um perigo, pois sem o diagn\u00f3stico correto, fica mais dif\u00edcil entender o que est\u00e1 acontecendo e tratar da forma adequada. Ent\u00e3o, vamos partir dessa premissa: pode ser que o luto se torne um \u201cproblema\u201d e que para super\u00e1-lo voc\u00ea precise de ajuda, principalmente nessa nova realidade sem despedida que a pandemia est\u00e1 impondo.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar dos sintomas do luto complicado, o ser humano n\u00e3o \u00e9 matem\u00e1tica, mas vale um panorama geral,  que possam acender uma luz de alerta e fazer procurar por ajuda: a principal caracter\u00edstica \u00e9 o sofrimento de forma ininterrupta. A dor est\u00e1 sempre presente, de forma constante, na mesma intensidade. N\u00e3o h\u00e1 dias melhores ou dias piores, todos os dias a dor est\u00e1 l\u00e1 na mesma intensidade, por um longo per\u00edodo. Talvez seja poss\u00edvel falar em seis meses seguidos, s\u00f3 como par\u00e2metro para pensar em procurar ajuda. N\u00e3o \u00e9 uma senten\u00e7a, \u00e9 um balizador para nortear sua busca por ajuda.<\/p>\n<p>Essa dor pode ser traduzida em sentimentos como: dificuldade em aceitar que a pessoa que faleceu n\u00e3o est\u00e1 mais ali, dificuldade em seguir em frente (abandonar sua rotina, suas obriga\u00e7\u00f5es), sensa\u00e7\u00e3o de que o futuro n\u00e3o tem significado, perder a vontade de viver, estresse incapacitante, distra\u00e7\u00e3o incapacitante, amargura ou ter todos os pensamentos e atos diretamente ligados \u00e0 perda (a pessoa n\u00e3o consegue desligar nunca da morte do ente querido). Estes s\u00e3o apenas alguns sintomas, podem surgir muitos outros. O norteador \u00e9: ficar preso \u00e0 morte da pessoa amada e n\u00e3o dar um passo adiante, n\u00e3o sentir melhora na dor.<\/p>\n<p>Vamos para o campo do concreto, que sempre fica mais f\u00e1cil de entender. O sofrimento do luto \u00e9 como um vale deserto que precisa ser atravessado. \u00c0s vezes demora para conseguir fazer essa travessia e cada um deve faz\u00ea-la respeitando seu tempo. O ponto \u00e9: devemos estar atentos e perguntar se de fato estamos cruzando esse vale ou montamos acampamento nele. Se em algum momento voc\u00ea parou de fazer a travessia e estagnou, talvez seja prudente procurar por ajuda.<\/p>\n<p>Como se sabe se a travessia continua? H\u00e1 sinais de melhora na dor, no sofrimento, no mal estar. Mesmo que pequenos, h\u00e1 uma melhora. Mesmo que depois venham dias ruins, em algum momento h\u00e1 uma melhora. A tend\u00eancia \u00e9 que, com o passar do tempo, os per\u00edodos bons sejam cada vez maiores e os ruins, menores. <\/p>\n<p>N\u00e3o precisa ser linear, podem ocorrer momentos de piora, de intensifica\u00e7\u00e3o do sofrimento. \u00c9 normal, n\u00e3o \u00e9 um \u201cretrocesso\u201d, \u00e9 parte do luto. Faz muito tempo escrevi aqui um texto sobre os cinco est\u00e1gios do luto (e me arrependo muito). Desconsiderem isso. Luto n\u00e3o \u00e9 um processo linear, organizado em est\u00e1gios. \u00c9 uma montanha-russa no escuro. T\u00e1 tudo bem ficar p\u00e9ssimo de uma hora para outra, sem motivo aparente, desde que em algum momento tamb\u00e9m ocorra uma melhora e que, quanto mais o tempo passa, mais momentos de melhora venham.<\/p>\n<p>Se a melhora nunca vem e tudo que a pessoa vivencia \u00e9 a dor da aus\u00eancia, se isso est\u00e1 acontecendo faz muitos meses, se o processo est\u00e1 estagnado, vale a pena uma consulta com um psic\u00f3logo. Pode n\u00e3o ser nada, pode ser o tempo do seu processo, mas tamb\u00e9m pode ser um luto complicado, que provavelmente vai ter maior incid\u00eancia gra\u00e7as a essa nova realidade sem despedida. <\/p>\n<p>Percebam que eu disse \u201cuma consulta com um psic\u00f3logo\u201d. Isso \u00e9 quest\u00e3o para um psic\u00f3logo, n\u00e3o \u00e9 algo que se solucione com rem\u00e9dios. Rem\u00e9dios apenas te anestesiam e adiam o problema. Rem\u00e9dios s\u00e3o muletas para quem est\u00e1 com tanto medo de sentir dor que prefere n\u00e3o sentir nada. O luto precisa ser vivenciado para ser resolvido, e isso voc\u00ea faz em uma boa terapia. <\/p>\n<p>Eu sei que d\u00f3i cruzar esse vale, mas para que a sua vida continue de forma saud\u00e1vel, voc\u00ea tem que fazer um esfor\u00e7o e atravess\u00e1-lo, e a dor faz parte desse processo. A melhor estrat\u00e9gia \u00e9 se encher de coragem e encarar ela de frente. A dor n\u00e3o \u00e9 sua inimiga, \u00e9 parte do processo. E esse vale tem fim, eu prometo, por mais que pare\u00e7a que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode acontecer do emocional da pessoa estar t\u00e3o destru\u00eddo que, para conseguir elaborar esse luto em uma terapia e vivenciar a dor, ela precise da ajuda de alguma medica\u00e7\u00e3o. Mas a\u00ed \u00e9 uma quest\u00e3o que ser\u00e1 orientada pelo psic\u00f3logo, que encaminhar\u00e1 o paciente a um psiquiatra de sua confian\u00e7a (que n\u00e3o vai entupir a pessoa de rem\u00e9dios desnecess\u00e1rios ou nocivos) para usar e medica\u00e7\u00e3o como algo complementar \u00e0 terapia. Rem\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 tratamento, \u00e9 apenas um meio para permitir que a pessoa fa\u00e7a terapia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se engane: voc\u00ea n\u00e3o pode fugir do luto. Uma hora ele te pega, mesmo que seja 20 anos depois. N\u00e3o adie o processo, n\u00e3o vale a pena. Ter esse monstro no arm\u00e1rio pode causar danos muito maiores do que cruzar esse vale do sofrimento na hora apropriada. Viver, meus queridos, \u00e9 passar por dores e alegrias. Ningu\u00e9m escapa disso.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea pode fazer por voc\u00ea ou por terceiros para evitar esse luto complicado? Quem dera houvesse uma f\u00f3rmula. H\u00e1 sugest\u00f5es, que podem ou n\u00e3o dar certo. E se n\u00e3o derem, n\u00e3o se culpe, como dissemos, \u00e9 mais do que compreens\u00edvel passar por um luto mais dif\u00edcil que o normal quando ocorre uma morte e uma despedida mais dif\u00edceis que o normal.<\/p>\n<p>Fazer um ritual de despedida, por mais que n\u00e3o possa ser um vel\u00f3rio padr\u00e3o, pode ajudar. Fa\u00e7a o ritual que te gere mais conforto, deixe a sua sensa\u00e7\u00e3o interna te guiar, \u00e9 ela quem vai te dizer se determinado ritual vai te ajudar ou te atrapalhar: sentiu mal estar? N\u00e3o \u00e9 esse o caminho. A forma mais comum de substituir o vel\u00f3rio e mais utilizada hoje s\u00e3o plataformas para vel\u00f3rios virtuais que podem tentar reproduzir o ritual padr\u00e3o, mas tamb\u00e9m existem outras op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode ser uma reuni\u00e3o online com amigos da pessoa que faleceu para conversar sobre ela, sobre a perda, sobre como todos est\u00e3o se sentindo. Pode ser um momento de ora\u00e7\u00e3o silencioso. Pode ser escrever uma carta para a pessoa que faleceu se despedindo. Pode ser rever todas as suas fotos com aquela pessoa. Pode ser esvaziar o arm\u00e1rio de roupas dela para do\u00e1-las. \u00c9 clich\u00ea, eu sei, mas escute seu cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 algo que se consiga no campo da raz\u00e3o. Fa\u00e7a qualquer ritual de despedida que te gere algum conforto e que marque o encerramento da presen\u00e7a f\u00edsica daquela pessoa na sua vida.<\/p>\n<p>No processo de luto \u00e9 importante n\u00e3o se violentar e n\u00e3o se sujeitar ao tempo dos outros. \u00c9 comum que pessoas, na melhor das inten\u00e7\u00f5es, aconselhem ou at\u00e9 pressionem para que voc\u00eas fa\u00e7am o que elas fariam para se sentir melhor: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o pode ficar trancado em casa, tem que sair\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o tem. Voc\u00ea n\u00e3o \u201ctem que\u201d porra nenhuma. Se violentar nos primeiros meses de luto s\u00f3 vai piorar a situa\u00e7\u00e3o. Cada pessoa elabora o luto de uma forma, e seu guia \u00e9 um s\u00f3: sua sensa\u00e7\u00e3o interna, n\u00e3o o que Fulaninho diz que voc\u00ea tem que fazer. Est\u00e1 sentindo que precisa ficar em casa? Fique.<\/p>\n<p>N\u00e3o tente bancar o forte e fingir que nada est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o se cobre retornar imediatamente \u00e0 normalidade. N\u00e3o varra a coisa para debaixo do tapete de nenhuma forma. Sentir dor \u00e9 ruim, mas \u00e9 parte do processo. Voc\u00ea \u00e9 capaz de suportar essa dor e ela fica menor se voc\u00ea abrir a porta e deixar ela entrar em vez de fugir dela, pois ao fugir voc\u00ea acrescenta outro sentimento terr\u00edvel de se lidar: o medo. <\/p>\n<p>Deixe a dor entrar, com naturalidade, ciente de que sim, ela vai passar, mesmo que no momento pare\u00e7a que n\u00e3o. N\u00e3o tenha medo de deixar a dor entrar e ela te dominar, as chances disso acontecer s\u00e3o maiores se voc\u00ea n\u00e3o abrir a porta para ela. Parece que o mundo vai desabar, mas n\u00e3o vai.<\/p>\n<p>O primeiro ano costuma ser o mais dif\u00edcil, pois voc\u00ea revive todas as datas importantes sentindo a aus\u00eancia da pessoa, sobretudo se voc\u00ea vem de uma fam\u00edlia que d\u00e1 muita import\u00e2ncia para datas especiais. Minha sugest\u00e3o que, repito, n\u00e3o \u00e9 de um profissional, \u00e9 de uma leiga: se est\u00e1 chegando uma data que vai ser especialmente dif\u00edcil, que vai te fazer lembrar com mais intensidade da aus\u00eancia da pessoa, monte um cronograma de atividades para esse dia. Coisas que voc\u00ea tenha vontade de fazer. Siga esse cronograma durante o dia, isso vai te dar um prop\u00f3sito e pode fazer com que a data passe de forma menos sofrida.<\/p>\n<p>Acredite no que quiser acreditar, desde que te gere conforto (e n\u00e3o nega\u00e7\u00e3o). Sua m\u00e3e virou uma estrelinha? Sua av\u00f3 est\u00e1 no Nosso Lar? Seu filho est\u00e1 no c\u00e9u esperando por voc\u00ea? Se te faz bem, acredite. S\u00f3 n\u00e3o vale cair em nega\u00e7\u00e3o: achar que a pessoa n\u00e3o faleceu e vai voltar a qualquer momento. A pessoa n\u00e3o est\u00e1 mais aqui, vis\u00edvel, na forma como voc\u00ea a conheceu. Aceitando essa premissa, abrace a cren\u00e7a que te fa\u00e7a sentir melhor. <\/p>\n<p>Ignore as pessoas sem no\u00e7\u00e3o, que certamente se manifestar\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por mal, as pessoas n\u00e3o sabem lidar com a morte. Se uma pessoa enlutada ganhasse um real por cada vez que escuta, como uma tentativa de conforto, que o ente querido \u201cdescansou\u201d, estar\u00edamos todos ricos. Como se fosse preciso morrer para ter paz ou descanso. Na melhor das inten\u00e7\u00f5es as pessoas falam muitos desfavores, n\u00e3o pegue para voc\u00ea, apenas ignore.<\/p>\n<p>Converse com algu\u00e9m que n\u00e3o v\u00e1 te julgar sobre como voc\u00ea est\u00e1 se sentindo. \u00c9 natural ter sentimentos que podem ser considerados \u201creprov\u00e1veis\u201d nesse per\u00edodo, n\u00e3o precisa ter vergonha deles. S\u00e3o apenas sentimentos, n\u00e3o v\u00e3o criar realidade e, com o tempo, eles tendem a desaparecer. Voc\u00ea tem o direito a qualquer sentimento, pessoas enlutadas tem carta branca para se sentirem como quiserem.<\/p>\n<p>Procure ajuda de forma preventiva. Existem psic\u00f3logos atendendo de forma gratuita online. Se n\u00e3o te violentar, procure ajuda antes do problema surgir, pois elaborar um luto nessas circunst\u00e2ncias novas \u00e9 dif\u00edcil por si s\u00f3, qualquer ajuda ser\u00e1 bem-vinda. N\u00e3o \u00e9 vergonha nem fraqueza procurar um profissional para ajudar a curar uma ferida profunda causada por essa nova realidade, que imp\u00f5e uma despedida muito mais sofrida.<\/p>\n<p>Veja da seguinte forma: se voc\u00ea est\u00e1 cozinhando e sofre um acidente com uma faca e faz um corte muito profundo que n\u00e3o para de sangrar, voc\u00ea vai procurar um m\u00e9dico para que ele te ajuda a fechar esse corte e para que ele cicatrize sem infeccionar. Ningu\u00e9m pensaria que \u00e9 dem\u00e9rito ou fraqueza precisar de pontos para fechar uma ferida a faca. Por qual motivo seria vergonhoso procurar ajuda para fechar uma ferida emocional profunda, de modo a que ela cicatrize da melhor forma poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Tente n\u00e3o ficar no passado. O que aconteceu, aconteceu. N\u00e3o adianta ficar se perguntando o motivo pelo qual aconteceu, n\u00e3o adianta espernear e dizer que n\u00e3o queria que tivesse acontecido ou que queria que tivesse acontecido diferente. O processo do luto, por si s\u00f3, consome muita energia, n\u00e3o use a pouca que te resta para entrar em resist\u00eancia ao que \u00e9, para pensamentos que n\u00e3o v\u00e3o te levar a lugar nenhum.<\/p>\n<p>Sua realidade agora \u00e9 essa: uma vida sem essa pessoa. Aceitar isso \u00e9 o ponto de partido do qual come\u00e7a sua jornada para cruzar o vale do sofrimento. Quanto antes voc\u00ea come\u00e7ar essa jornada, antes voc\u00ea a termina. E sim, voc\u00ea \u00e9 capaz de cruzar esse vale, mesmo que pare\u00e7a que n\u00e3o. <\/p>\n<p>Tente aceitar sua nova realidade, sem medo da dor que ela vai trazer. A dor passa, eu prometo. Jogue luz na quest\u00e3o, que ela se resolve mais r\u00e1pido. Encare de frente, ciente de que voc\u00ea vai super\u00e1-la. Queira super\u00e1-la. Resista \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ficar imerso na dor. A dor gera muitos ganhos secund\u00e1rios, muita aten\u00e7\u00e3o, muitos mimos e regalias, mas viver na dor n\u00e3o compensa. As pessoas v\u00e3o continuar te estendendo a m\u00e3o, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o esteja imerso na dor.<\/p>\n<p>Para terminar, sugiro que este texto sirva tamb\u00e9m como preven\u00e7\u00e3o: reflitam sobre toda a dor e sofrimento que adoecer neste momento pode gerar e usem isso como combust\u00edvel para tomar todos os cuidados poss\u00edveis para que isso n\u00e3o aconte\u00e7a. <\/p>\n<p>Como j\u00e1 dissemos, se al\u00e9m da dor do luto houver o peso da culpa, o processo fica muito mais dif\u00edcil. Fique em casa ou, se n\u00e3o puder ficar, n\u00e3o tenha contato pessoalmente com as pessoas que voc\u00ea ama. Voc\u00ea n\u00e3o vai querer acrescer o peso da culpa nessa jornada.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o tem clima para fazer mais nada no dia de hoje, para dizer que foi um tapa na cara necess\u00e1rio ou ainda para dizer que luto \u00e9 para os fracos, os fortes saem e bebem e tudo passa: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto pesado sobre morte e luto \u2013 se n\u00e3o estiver em um bom dia, deixe para ler depois. O coronav\u00edrus n\u00e3o mudou apenas a nossa vida, mudou tamb\u00e9m a nossa morte. 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