{"id":17154,"date":"2020-07-28T12:00:32","date_gmt":"2020-07-28T15:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17154"},"modified":"2020-07-28T10:28:35","modified_gmt":"2020-07-28T13:28:35","slug":"animais-mentem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/07\/animais-mentem\/","title":{"rendered":"Animais mentem."},"content":{"rendered":"<p>Durante muito tempo se criou essa imagem pura e imaculada relacionada a animais, mas eles n\u00e3o s\u00e3o inocentes e desprovidos de maldade como muitos pensam. Animais mentem, enganam, passam a perna. Fazem coisas que n\u00f3s considerar\u00edamos monstruosas se feitas pelo nosso vizinho.<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o estamos falando de um bichinho que simula ser outro para conseguir pegar sua presa, isso \u00e9 mera quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Estamos falando de animais que, deliberadamente simulam algo que sabem n\u00e3o ser verdadeiro para tirar um proveito pessoal, que nem sempre est\u00e1 relacionado \u00e0 sua sobreviv\u00eancia. Muitos tem a consci\u00eancia de estar enganando o outro quando o fazem. <\/p>\n<p>Mentira, manipula\u00e7\u00e3o e fraude n\u00e3o s\u00e3o exclusividade do ser humano, est\u00e1 no mundo animal tamb\u00e9m. Os animais que n\u00e3o o fazem, n\u00e3o \u00e9 por bondade, mas por falta de capacidade para pensamentos t\u00e3o complexos. Todo animal com um c\u00e9rebro um pouquinho mais eficiente tem, dentro do grupo no qual vive, malandragem, mentira e aproveitadores.<\/p>\n<p>Um grupo de primatologistas ingleses estudou diferentes macacos e contabilizou mais de 250 mentiras, arma\u00e7\u00f5es e golpes durante um curto per\u00edodo de tempo. As mentiras s\u00e3o bem sujas, n\u00e3o tem como dizer que foi coincid\u00eancia ou brincadeira. Nas palavras deles, os s\u00edmios s\u00e3o \u201ccriaturas maquiav\u00e9licas, que t\u00eam a chance de ser honestos, mas insistem em enganar os pr\u00f3prios companheiros\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo desse estudo envolve babu\u00ednos. Um babu\u00edno, ainda pequeno, se especializou em aplicar o seguinte golpe: mesmo de barriga cheia, bem alimentado, quando percebia que um macaco adulto havia conseguido qualquer petisco que lhe apete\u00e7a, se jogava no ch\u00e3o e come\u00e7ava a gritar, como se estivesse apanhando. Imediatamente sua m\u00e3e aparecia, enfiava o cacete no coitado que estava fazendo seu lanchinho e o enxotava dali. A\u00ed o filhote pegava o lanchinho para si. <\/p>\n<p>Chocados com a quantidade de trapa\u00e7as entre os primatas, os cientistas aprofundaram o estudo e conclu\u00edram que quanto mais mentiroso era o primata, maior era seu c\u00e9rebro. Isso quer dizer: quanto mais capacidade de mentir o animal tem, mais e melhor ele mente. Quem n\u00e3o mente s\u00f3 n\u00e3o o faz por falta de capacidade. Em qualquer grupo de animais com um m\u00ednimo de capacidade cerebral, sempre tem um desonesto.<\/p>\n<p>Animais com c\u00e9rebro menos complexo tamb\u00e9m mentem conscientemente, ainda que sejam mentiras menos complexas. Algumas esp\u00e9cies de raposa se fingem de mortas, ficam im\u00f3veis com a l\u00edngua para fora, at\u00e9 que p\u00e1ssaros oportunistas se aproximam para bicar sua \u201ccarca\u00e7a\u201d e acabam comidos pela raposa, mais viva do que nunca. O curioso \u00e9 que elas fazem isso mesmo quando est\u00e3o de barriga cheia: mesmo assim, pegam os p\u00e1ssaros, matam e cospem se n\u00e3o estiverem com fome.<\/p>\n<p>Animais dom\u00e9sticos tamb\u00e9m trapaceiam. Existem c\u00e3es que fingem mancar ou tossir para conseguir algo de seus donos (colo, que o dono n\u00e3o saia, aten\u00e7\u00e3o, etc.). Filmagens de pessoas que deixam c\u00e2meras dentro de casa para controlar seus pets mostram que quando o dono est\u00e1 saindo o cachorro manca, n\u00e3o consegue andar e, assim que o dono bate a porta, ele corre, pula e se locomove normalmente. Quem tem pets certamente j\u00e1 presenciou algum tipo de manipula\u00e7\u00e3o ou chantagem. Se voc\u00ea n\u00e3o cede, eles param.<\/p>\n<p>Algumas baleias e golfinhos aprendem o \u201csotaque\u201d de grupos rivais, para falar como eles e emitem mensagens erradas, trollando a concorr\u00eancia. Eles se comunicam por certos tipos de \u201cassovio\u201d (pela falta de termo melhor) e muitas vezes emulam a \u201cfala\u201d dos outros para benef\u00edcio pr\u00f3prio. <\/p>\n<p>Pode ser para mandar um sinal de alerta para que o grupo rival v\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o oposta, de encontro a predadores ou pode ser at\u00e9 dentro do pr\u00f3prio grupo: n\u00e3o raro emulam o som do filhote para atrair a m\u00e3e e depois v\u00e1rios machos a cercam e tentam copular sem o seu consentimento. N\u00e3o \u00e9 uma cena bonita, \u00e9 vis\u00edvel que a f\u00eamea est\u00e1 acuada e sofrendo agress\u00f5es. Eventualmente atraem os filhotes de outros machos emulando o chamado da m\u00e3e e os matam de uma forma cruel, para que a f\u00eamea volte a entrar no cio.<\/p>\n<p>Mesmo bichos pequenos e aparentemente sem intelig\u00eancia d\u00e3o seus golpes. Um passarinho chamado Drongo, por exemplo, costuma emitir sinais de alerta para seus pares quando avista um predador. Esse sinal \u00e9 aproveitado por outros animais, como o Suricato: se o p\u00e1ssaro emitiu um alerta, todos correm. Por\u00e9m, quando o Drongo percebe que os Suricatos est\u00e3o comendo algo interessante, emite um alerta falso, assim todos os outros p\u00e1ssaros e os Suricatos saem correndo e ele fica com a comida s\u00f3 para ele.<\/p>\n<p>O mais curioso \u00e9 que estudos observaram que, depois de um tempo, essa t\u00e1tica do Drongo parou de funcionar. Ele perdeu a credibilidade entre os Suricatos e eles pararam de correr quando escutavam o alerta da ave. Ent\u00e3o, para dar continuidade ao seu golpe, o Drongo aprendeu a emular o pr\u00f3prio grito de alerta dos Suricatos, fazendo com que os infelizes saiam correndo, acreditando que um deles deu o sinal de perigo.<\/p>\n<p>O gato-maracaj\u00e1, um felino que parece uma mini-on\u00e7a, aprendeu a emular o chamado de filhotinhos de saguis, vocalizando exatamente da mesma forma que eles. Reproduzindo esse chamado, fazem com que as mam\u00e3es des\u00e7am das \u00e1rvores e se tornem presas: quando o grupo desce para socorrer o filhote, \u00e9 jantado.<\/p>\n<p>Chimpanz\u00e9s chegam ao extremo de \u201cpagar por sexo\u201d. Os machos mais fortes e aptos para a sobreviv\u00eancia geralmente s\u00e3o os escolhidos pelas f\u00eameas como seu par, portanto, resta aos rejeitados atrair de outras formas. Eles costumam se tornar bons ca\u00e7adores e, quando conseguem uma refei\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel, convidam a f\u00eamea de outros machos \u201cpara jantar\u201d escondido. Em troca, a f\u00eamea faz sexo com eles, na encolha. Enganam o macho alfa com uma s\u00e9rie de \u201cdesculpas\u201d, se ausentam e consumam a trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se esta mentira j\u00e1 n\u00e3o fosse elaborada o suficiente, ainda vem mais mentira em caso de flagra pelo macho oficial. Para escapar de uma bela surra ou at\u00e9 da morte, a f\u00eamea ad\u00faltera faz um esc\u00e2ndalo quando \u00e9 flagrada, como se estivesse sendo for\u00e7ada a fazer sexo com o outro macho. O resultado costuma ser o macho alfa matando o outro macho de pancada.<\/p>\n<p>Gazelas africanas costumam dar saltos altos quando avistam um predador, geralmente um Guepardo. Durante algum tempo se pensou que era uma forma de alertar seu grupo, para que corram e procurem ref\u00fagio. Por\u00e9m, estudos recentes mostram que a coisa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonita nem nobre. A Gazela finge alertar o bando, mas, na verdade, est\u00e1 sacaneando o bando para se salvar: ao se mostrar \u00e1gil aos olhos do predador, ela manda um recado: \u201ceu n\u00e3o, tem outras mais f\u00e1ceis\u201d.<\/p>\n<p>Guepardos s\u00e3o animais muito r\u00e1pidos, mas consomem muita energia para dar breves tiros de corrida. Portanto, eles precisam ser certeiros, pois se cansam muito r\u00e1pido. Assim, se um guepardo v\u00ea uma gazela saltitante, ele recebe duas informa\u00e7\u00f5es a) Ali tem um grupo de gazelas e b) Essa n\u00e3o est\u00e1 doente, nem velha, nem machucada, vai dar muito trabalho, melhor mirar em outra.<\/p>\n<p>O morcego-vampiro, que, como o pr\u00f3prio nome diz, se alimenta de sangue de animais, precisa de constante combust\u00edvel para se manter vivo. Estima-se que se ele ficar mais de tr\u00eas dias sem comer, morra. Por isso, os grupos t\u00eam um pacto de sobreviv\u00eancia: se algum, por uma infelicidade, algu\u00e9m tiver dificuldade e n\u00e3o conseguir ca\u00e7ar durante esse per\u00edodo, os demais regurgitam um pouco do sangue que engoliram na boca do azarado, para que ele n\u00e3o fale\u00e7a. Esta regra seria para evitar o colapso do bando, mas ela quase causou o colapso do bando.<\/p>\n<p>Estudos provaram que nesses grupos sempre tem um n\u00famero de aproveitadores: morcegos que saem, supostamente para ca\u00e7ar, mas tiram uma sonequinha, d\u00e3o um rol\u00ea, usam o tempo com atividade inofensivas (afinal, ca\u00e7ar demanda muita energia e os coloca em constante risco). Voltam para casa emulando uma ca\u00e7ada fracassada e s\u00e3o alimentados pelos coleguinhas que passaram a noite ralando.<\/p>\n<p>Com o tempo, mais e mais morcegos come\u00e7aram a se valer desse estelionato, o que fez com que diversos grupos quase colapsassem, pois poucos sustentavam muitos. Para reequilibrar a situa\u00e7\u00e3o, alguns grupos tiveram que estipular uma \u201cregra anti-corrup\u00e7\u00e3o\u201d: s\u00f3 recebia sangue quem tamb\u00e9m fosse um doador frequente de sangue. Sim, a coisa chegou nesse ponto, de animais precisarem criar mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o contra mentiras.<\/p>\n<p>As lontras marinhas passam por maus bocados no inverno: com o frio, o alimento se torna mais dif\u00edcil de conseguir. Mas elas t\u00eam um plano: para obter alimentos no inverno, os machos raptam filhotes da pr\u00f3pria esp\u00e9cie e exigem em troca de toda a comida ca\u00e7ada pelas m\u00e3es. O detalhe \u00e9 que muitas vezes as m\u00e3es \u201cpagam o resgate\u201d e, mesmo assim, os sequestradores matam o filhote, quebrando o combinado.<\/p>\n<p>Um tipo de Babu\u00edno africano passa meses preparando seu golpe. Durante o per\u00edodo de fartura na savana, ele finge ser um herb\u00edvoro pac\u00edfico para conquistar a confian\u00e7a das gazelas. Senta-se perto delas e, enquanto elas est\u00e3o olhando, come folhas. S\u00f3 se alimenta de carne longe dos olhos das coitadas. Quando chegam os tempos de vacas magras, no per\u00edodo de seca, ele se aproveita da confian\u00e7a conquistada e continua por perto. Quando percebe que um filhote se afastou do bando, vai atr\u00e1s discretamente e o mata de forma r\u00e1pida, sem que d\u00ea tempo que gritem. Depois volta, como quem n\u00e3o quer nada, e continua comendo folhas.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o apenas algumas de muitas hist\u00f3rias de estelionato, mentiras e trapa\u00e7as que os animais realizam, conscientes de estar enganando para benef\u00edcio pr\u00f3prio. Ent\u00e3o, chega desse discurso de que o ser humano \u00e9 horr\u00edvel e os bichinhos s\u00e3o criaturas santas e aben\u00e7oadas. O ser humano apenas tem mais recursos e consegue dar golpes mais sofisticados. Por\u00e9m, ao que tudo indica, na vida social sempre tem um aproveitador.<\/p>\n<p>E, quando voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o aproveitador do bando, est\u00e1 escrito no seu DNA para rejeit\u00e1-lo, nem tanto por valores \u00e9ticos ou morais, mas pela sobreviv\u00eancia do bando. Assim como aconteceu com os morcegos-vampiros, se grande parte do grupo se converte em aproveitadores, a sobreviv\u00eancia de toda a esp\u00e9cie \u00e9 colocada em risco. Talvez os humanos tenham revestido esse senso de preserva\u00e7\u00e3o de valores sociais e religiosos, mas, no fundo, h\u00e1 uma boa dose de instinto em repelir os mentirosos, trapaceiros e aproveitadores.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que no reino animal \u00e9 mais f\u00e1cil pois se pode deitar na porrada o trapaceiro sem ter que responder a um processo, para dizer que eu estraguei os bichos para voc\u00ea ou ainda para dizer que o mundo \u00e9 um lugar horr\u00edvel: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo se criou essa imagem pura e imaculada relacionada a animais, mas eles n\u00e3o s\u00e3o inocentes e desprovidos de maldade como muitos pensam. Animais mentem, enganam, passam a perna. 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