{"id":17183,"date":"2020-08-05T13:58:28","date_gmt":"2020-08-05T16:58:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17183"},"modified":"2020-08-05T13:58:28","modified_gmt":"2020-08-05T16:58:28","slug":"sofrimento-condicionado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/08\/sofrimento-condicionado\/","title":{"rendered":"Sofrimento condicionado."},"content":{"rendered":"<p>A not\u00edcia que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 daquelas que s\u00f3 viram not\u00edcia nos dias de hoje: cidad\u00e3o filma cidad\u00e3 fazendo ioga numa praia carioca fazendo coment\u00e1rios de baixo cal\u00e3o sobre ela. Cidad\u00e3o publica o v\u00eddeo na sua rede social. O v\u00eddeo viraliza, cidad\u00e3o \u00e9 demonizado, cidad\u00e3 fica sabendo e logo temos <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2020\/08\/05\/mariana-maduro-nota-de-esclarecimento-afronta.htm\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">uma not\u00edcia<\/a> sobre como ela \u00e9 mais uma sobrevivente de abuso sexual. Nas not\u00edcias relacionadas, mais v\u00e1rias mat\u00e9rias sobre mulheres que sofreram com ass\u00e9dio&#8230; 2020 \u00e9 assim. S\u00f3 eu que estou vendo a armadilha sendo colocada no caminho das mulheres?<!--more--><\/p>\n<p>Claro, num mundo ideal as pessoas t\u00eam um m\u00ednimo de bom senso. \u00c9 escroto falar de uma mulher assim, mais ainda ter orgulho disso ao ponto de tornar um v\u00eddeo desses p\u00fablico. N\u00e3o sou contra a ideia gen\u00e9rica de reprimir esse tipo de comportamento, at\u00e9 porque durante boa parte da nossa hist\u00f3ria exigia-se algum decoro da parte dos homens ao falar sobre mulheres desconhecidas, e voc\u00ea provavelmente apanharia ou at\u00e9 morreria se \u201cmexesse com a mulher errada\u201d. Ningu\u00e9m estaria inventando nada de novo.<\/p>\n<p>Mas ambientes culturais mudam. E o atual traz de volta um tipo parecido de controle sobre o comportamento masculino que em tese remete a eras mais socialmente polidas da nossa hist\u00f3ria, mas que na pr\u00e1tica \u00e9 fruto de ideologias de g\u00eanero muito mais recentes. Antigamente, mulheres tamb\u00e9m n\u00e3o podiam ser pegas falando coisas do tipo sobre o sexo oposto: acabava com o \u201cvalor de mercado\u201d dela ser vista como algu\u00e9m vulgar. N\u00e3o era necessariamente uma pol\u00edtica sobre vil\u00f5es e v\u00edtimas, mas um comportamento esperado de uma pessoa que se valorizava. Hoje em dia, uma mulher fazendo os mesmos coment\u00e1rios sobre um homem na rua talvez fosse retratado como algo positivo e inspirador.<\/p>\n<p>De uma certa forma, esse decoro do passado era uma forma de sempre manter vulgaridade e intimidade relacionadas. Sem intimidade, trate a outra pessoa com o m\u00e1ximo de respeito. Com intimidade, valem as regras combinadas entre as pessoas. Mas a onda de acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio recentes n\u00e3o tem nenhum componente de volta \u00e0s ra\u00edzes: faz parte daquela ideia de rela\u00e7\u00f5es de poder entre grupos que contaminou quase todo o cen\u00e1rio sociocultural humano nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Um mundo de opressores e oprimidos.<\/p>\n<p>E embora n\u00e3o se possa negar que explora\u00e7\u00e3o e abuso seja parte integrante da forma como constru\u00edmos a humanidade at\u00e9 hoje, e especialmente que um mundo melhor passa por desmontar boa parte dessas estruturas; h\u00e1 algo muito s\u00e9rio a se considerar aqui: se voc\u00ea reduz a humanidade a opressores e oprimidos em tempo integral, as pessoas come\u00e7am a se adaptar a esses pap\u00e9is. Sem a nuance de que por vezes estamos num desses pap\u00e9is e por vezes em outro, muita gente vai precisar vestir a casaca de um deles para ter qualquer chance de se entender nesse mundo.<\/p>\n<p>Voltando ao caso dos ass\u00e9dios de homens contra mulheres, tem algo que me parece muito errado na forma como se espera que as mulheres reajam: como apenas v\u00edtimas. Algumas frases como \u201cn\u00e3o culpe a v\u00edtima\u201d parecem universalmente positivas at\u00e9 que voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o em como elas podem ser utilizadas para fins ideol\u00f3gicos escusos. Embora a pessoa vitimada por uma exposi\u00e7\u00e3o de baix\u00edssimo n\u00edvel como a mulher da not\u00edcia n\u00e3o possa ser culpada de forma alguma pelas palavras escolhidas pelo homem que filmava, nem tudo nessa vida \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de abuso. A pr\u00f3pria mulher escolheu usar palavras como \u201cestupro\u201d para definir seus sentimentos, e isso sugere que de alguma forma, o ambiente cultural baseado nessas rela\u00e7\u00f5es doentias de opressores e oprimidas vazou para dentro da cabe\u00e7a dela. Seja por ideologia pr\u00f3pria, seja pelo papel que se sentiu obrigada a interpretar diante da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais garantir que o sentimento verdadeiro da mulher seria apenas um \u201cvoc\u00ea \u00e9 nojento, tira o v\u00eddeo do ar\u201d e tudo acabaria com uma desculpa esfarrapada do homem. Eu n\u00e3o sei mais dizer se todo o turbilh\u00e3o emocional que essas mulheres v\u00edtimas de abusos n\u00e3o violentos parecem demonstrar \u00e9 escolha delas ou uma esp\u00e9cie de nova \u201cobriga\u00e7\u00e3o social\u201d. Historicamente \u00e9 uma p\u00e9ssima ideia n\u00e3o seguir os padr\u00f5es sociais vigentes: se eu fosse ela e na verdade s\u00f3 tivesse achado de p\u00e9ssimo gosto e nada mais, talvez me sentisse obrigado a criar todo esse clima an\u00e1logo ao estupro para n\u00e3o colocar um alvo na minha cabe\u00e7a. Afinal, outros imbecis poderiam achar que tinham sinal verde para fazer coisas parecidas. Ou talvez at\u00e9 pior: virar inimigo da causa feminina e motivo de longos artigos analisando meu estado mental.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou afirmando nada sobre a mulher do v\u00eddeo, porque nem \u00e9 especificamente sobre ela. J\u00e1 disse o que sente e ningu\u00e9m tem que questionar o sentimento alheio: ele \u00e9 o que \u00e9. O ponto aqui \u00e9 que talvez ela e tantas outras estejam come\u00e7ando a se sentir obrigadas a reagir de forma cada vez mais dram\u00e1tica para corresponder \u00e0s expectativas de um momento cultural que transforma opress\u00e3o em fetiche coletivo. E isso pode ser muito cruel com a pessoa.<\/p>\n<p>Pulando para um assunto relacionado, mas mais pesado: psic\u00f3logos que lidam com crian\u00e7as abusadas sexualmente tem que ser muito cuidadosos para n\u00e3o alimentar os traumas delas, mesmo que isso n\u00e3o seja diretamente compat\u00edvel com a empatia que se sente por elas. N\u00e3o se pode deixar algu\u00e9m crescer definido por um momento horr\u00edvel e fazer disso sua identidade. \u00c0s vezes, na sanha de acalentar o sofrimento alheio, podemos deix\u00e1-lo vivo por muito mais tempo do que o necess\u00e1rio. A pessoa precisa conquistar o poder de seguir em frente mesmo com as cicatrizes que vai levar para a vida.<\/p>\n<p>\u00c9 humano querer proteger e consolar quem acreditamos que foi injusti\u00e7ado, mas como de costume, a dose diferencia o rem\u00e9dio do veneno. Assim como n\u00e3o se cria uma crian\u00e7a para ser apenas a v\u00edtima de um adulto doente, n\u00e3o se deixa uma mulher adulta tocar a vida sendo apenas uma v\u00edtima indefesa de abusos masculinos. Empoderamento n\u00e3o \u00e9 postagem de mulher obesa na rede social, \u00e9 combater uma mentalidade de inferioridade inevit\u00e1vel. Agora, adianta empoderar e ao mesmo tempo criar uma cultura baseada em cumprir o papel de v\u00edtima?<\/p>\n<p>Se voc\u00ea fingir algo pelo tempo suficiente, \u00e9 bem capaz de come\u00e7ar a acreditar. A mente se acostuma com essa posi\u00e7\u00e3o, o mundo de opressores e oprimidos fica t\u00e3o inescap\u00e1vel que qualquer ideia de equil\u00edbrio vai desaparecendo. Ou voc\u00ea \u00e9 uma coisa, ou \u00e9 a outra. Reprime-se comportamentos masculinos do tipo que vemos no v\u00eddeo, mas reprime-se tamb\u00e9m uma rea\u00e7\u00e3o feminina que n\u00e3o seja \u201cliteralmente estupro\u201d. Qualquer chance de poder est\u00e1 diretamente relacionada com o papel de opressor. Agora o opressor \u00e9 o homem, e se quiserem sair da posi\u00e7\u00e3o de oprimidas, tem que tomar o lugar deles.<\/p>\n<p>Culturas radicalizadas s\u00f3 servem para gerar conflito e disputa de poder. N\u00e3o h\u00e1 paz poss\u00edvel. Voc\u00ea \u00e9 uma v\u00edtima at\u00e9 tomar o poder. E se o mundo s\u00f3 funciona assim, o objetivo final \u00e9 ser opressor, n\u00e3o ser igualit\u00e1rio. Agora, quando \u00e9 que se faz essa transi\u00e7\u00e3o? As t\u00e1ticas de um grupo e de outro s\u00e3o completamente diferentes: n\u00e3o d\u00e1 para ser opressor reclamando mais que o outro. A posi\u00e7\u00e3o de poder almejada custa caro, e precisa pisar em muita cabe\u00e7a para chegar at\u00e9 l\u00e1. S\u00f3 que como fazer isso com um grupo de pessoas que internalizou a posi\u00e7\u00e3o de oprimidos? Eles v\u00e3o se comer vivos antes de fazer qualquer mudan\u00e7a significativa na sociedade.<\/p>\n<p>Ah&#8230; verdade. Eles v\u00e3o se comer vivos antes de fazer qualquer mudan\u00e7a significativa na sociedade. O papel de v\u00edtima tem suas vantagens, mas assim que voc\u00ea se define a partir dele, pisa numa armadilha terr\u00edvel que tira seu poder real de mudar o mundo de forma realista. N\u00e3o fique falando baixarias de mulheres desconhecidas e publicando na rede social, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixe que esse tipo de comportamento defina quem voc\u00ea vai ser na vida. N\u00e3o vale o pre\u00e7o, n\u00e3o chega a lugar algum.<\/p>\n<p>Custa ser moderado?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para me chamar de macho opressor, para me chamar de isent\u00e3o covarde, ou mesmo para me chamar de comunista corno: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A not\u00edcia que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 daquelas que s\u00f3 viram not\u00edcia nos dias de hoje: cidad\u00e3o filma cidad\u00e3 fazendo ioga numa praia carioca fazendo coment\u00e1rios de baixo cal\u00e3o sobre ela. Cidad\u00e3o publica o v\u00eddeo na sua rede social. 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