{"id":17232,"date":"2020-08-19T12:00:07","date_gmt":"2020-08-19T15:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17232"},"modified":"2020-08-19T04:46:29","modified_gmt":"2020-08-19T07:46:29","slug":"tempo-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/08\/tempo-passado\/","title":{"rendered":"Tempo passado."},"content":{"rendered":"<p>Fiquei realmente em d\u00favida se falava disso agora ou esperava para ver se viraria tema no s\u00e1bado. O caso da menina de 10 anos gr\u00e1vida de seu estuprador que teve que passar por um show de horrores para fazer o aborto deu muito o que falar nos \u00faltimos dias, e apesar dos pesares, teve um final no m\u00ednimo adequado (considerando o Brasil). Foi bom ver boa parte da sociedade enfrentando o fanatismo religioso e saber que pelo menos dessa vez, a lei venceu a insanidade. Mas dessa not\u00edcia surgiu uma estat\u00edstica que me fez mudar o foco do que escreveria e quem sabe, ainda manter o tema em aberto para o final de semana.<!--more--><\/p>\n<p>Dados oficiais dizem que em m\u00e9dia acontecem seis abortos nas mesmas condi\u00e7\u00f5es todos os dias no Brasil. Vamos deixar mais claro: todo dia no Brasil, seis meninas entre 10 e 14 anos fazem o procedimento para terminar uma gravidez por terem sido estupradas. Esse \u00e9 o n\u00famero que passa pelo governo, registrado no SUS. Uma porcentagem desses casos pode ser explicada pelo fato da idade de consentimento no Brasil definir que sexo com menores de 14 anos \u00e9 invariavelmente estupro, mas considerando o perfil m\u00e9dio de quem comete esse tipo de crime &#8211; parentes ou amigos da fam\u00edlia j\u00e1 adultos &#8211; n\u00e3o d\u00e1 para botar essa na conta da sexualiza\u00e7\u00e3o precoce.<\/p>\n<p>Daqui, podemos seguir por dois caminhos. O primeiro \u00e9 dizer que esses ativistas crist\u00e3os que foram chamar uma crian\u00e7a correndo risco de vida de assassina na porta do hospital n\u00e3o s\u00e3o consistentes nem na sua escrotid\u00e3o: tentaram atrapalhar um, mas s\u00f3 neste ano, deixaram passar mais de 1.300 abortos parecidos, vai ver que o deus deles s\u00f3 contabiliza os que passam na TV&#8230; mas era de se esperar, n\u00e3o \u00e9 um povo que preza pela l\u00f3gica: ativista pr\u00f3-vida defendendo uma gravidez de alt\u00edssimo risco para uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um momento brilhante do conservadorismo brasileiro. N\u00e3o \u00e9 nem o m\u00e9rito do aborto em si, se n\u00e3o fosse uma gravidez obviamente perigosa para a menina at\u00e9 teria uma margem de manobra aqui. Mas foi uma besteira t\u00e3o grande que um pa\u00eds 96% crist\u00e3o (dados antigos, deve ser at\u00e9 mais hoje em dia) n\u00e3o ficou do lado deles.<\/p>\n<p>O que nos leva ao segundo caminho: se tem seis meninas passando por abortos resultantes de estupros num pa\u00eds 96% crist\u00e3o, quem est\u00e1 violentando-as? Quase sempre esses casos v\u00eam de fam\u00edlias pobres (a estat\u00edstica \u00e9 do SUS), e podem apostar que nessa faixa de renda o n\u00famero de ateus tende a zero. Essa f\u00e9 maravilhosa que vai fazer alarde na frente de hospital em nome da vida \u00e9 a mesma que queima no cora\u00e7\u00e3o de quem estupra essas meninas. Estou chamando todos os crist\u00e3os de estupradores? Claro que n\u00e3o. Mas \u00e9 a partir daqui que eu mudo o foco.<\/p>\n<p>Num texto que come\u00e7a com a estat\u00edstica de abortos de crian\u00e7as e pr\u00e9-adolescentes, n\u00e3o h\u00e1 necessidade alguma de ver o lado positivo. Vamos continuar afundando: esse tipo de preval\u00eancia de abusos contra menores \u00e9 comum em pa\u00edses muito pobres. N\u00e3o que ricos sejam imunes ao comportamento, com certeza n\u00e3o s\u00e3o, mas quando voc\u00ea v\u00ea os dados de pa\u00edses como Brasil, \u00cdndia e boa parte das na\u00e7\u00f5es do sul asi\u00e1tico e \u00c1frica, come\u00e7a a perceber esse padr\u00e3o. S\u00e3o hist\u00f3rias e mais hist\u00f3rias de meninas sofrendo em casa e muitas outras sendo vendidas para prostitui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Existe sim uma \u00e1rea cinza em rela\u00e7\u00e3o ao instinto sexual humano e o que consideramos idades aceit\u00e1veis de consentimento, nem tanto tempo atr\u00e1s assim uma menina em qualquer pa\u00eds do mundo ficava em casa at\u00e9 o come\u00e7o da puberdade e era basicamente vendida para um pretendente. Em 1920, n\u00e3o seria nada de chamar tanta aten\u00e7\u00e3o assim uma garota ter seu primeiro filho aos 13 anos de idade na imensa maioria do mundo, inclusive em pa\u00edses ricos. Talvez uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com a gravidez, mas tantas mulheres morriam no parto mesmo&#8230; boa parte do que consideramos aceit\u00e1vel hoje em dia \u00e9 resultado de uma evolu\u00e7\u00e3o recente na forma de tratar a vida sexual dos jovens, especialmente as mulheres.<\/p>\n<p>Foi meio de surpresa para boa parte do mundo, mas idades de consentimento foram subindo consideravelmente, primeiro em pa\u00edses mais desenvolvidos, e depois nos mais pobres (ou teimosos). Conseguimos estabelecer uma ideia inovadora de dar mais tempo para as pessoas se educarem e entender sua fun\u00e7\u00e3o na sociedade antes de esperar que tivessem um monte de filhos. A coisa avan\u00e7ou tanto que em muitos pa\u00edses a taxa de reposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais atingida: morre mais gente que nasce. Como eu disse no texto da semana passada, at\u00e9 mesmo a ideia de casar e ter filhos come\u00e7ou a se perder.<\/p>\n<p>Se deixar s\u00f3 na conta do bicho humano, o lance \u00e9 fazer filho o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Mas assim como conseguimos avan\u00e7ar em diversas outras \u00e1reas antes, o s\u00e9culo passado veio para cimentar mais uma vit\u00f3ria da humanidade sobre o instinto b\u00e1sico. O cidad\u00e3o humano n\u00e3o deveria mais ficar preso a essa mentalidade e entender que existem muitos benef\u00edcios em deixar adolescentes em paz na quest\u00e3o reprodutiva, e talvez nem pressionar tanto assim para que deixem descendentes. Tem gente demais no mundo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Pois bem, esse \u00e9 um papo muito bacana, mas agora eu come\u00e7o a amarrar tudo de volta: voc\u00ea que l\u00ea um texto desse tamanho e consegue acompanhar o racioc\u00ednio faz parte da mesma minoria que eu. A minoria das pessoas que ganharam o passaporte para o s\u00e9culo XXI. De alguma forma, voc\u00ea teve a oportunidade de fazer parte da evolu\u00e7\u00e3o que tivemos no \u00faltimo s\u00e9culo, seja por uma cria\u00e7\u00e3o por pessoas mais educadas, seja por esfor\u00e7o pessoal e oportunidades de desenvolvimento geradas pela internet. O importante aqui \u00e9 entender que quando falamos de diferen\u00e7as sociais, muitas vezes estamos falando de um v\u00e3o temporal entre o mundo que privilegiados como n\u00f3s vivenciam e o tempo no qual vivem boa parte dos mais pobres e menos educados desse mundo.<\/p>\n<p>Pelo menos intelectualmente, viagem no tempo existe. Boa parte da humanidade viva hoje em dia est\u00e1 num per\u00edodo de tempo que uma minoria privilegiada j\u00e1 deixou h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas. E quando casos como os da menina que ganhou as manchetes nos \u00faltimos dia surgem, \u00e9 isso que muitos de n\u00f3s estamos vendo. O choque de ver gente \u201cem preto e branco\u201d. Fica expl\u00edcito no conservadorismo bizarro e insens\u00edvel dos manifestantes contra o aborto, mas \u00e9 muito pior: a menina e o estuprador tamb\u00e9m estavam presos nesse mundo atrasado. Durante toda a hist\u00f3ria tivemos pessoas horr\u00edveis que abusavam de crian\u00e7as e mesmo aceitando a teoria de deslocamento temporal da mente, n\u00e3o o exime de culpa alguma, que fique claro. Mas ter isso em mente nos ajuda a entender o n\u00famero de casos que acontecem diariamente. Seis abortos do tipo por dia, isso com certeza presume um n\u00famero absurdamente maior de abusos.<\/p>\n<p>Quanta gente vive presa numa realidade que n\u00e3o exige evolu\u00e7\u00e3o mental? A humanidade moderna exige um grau de maturidade \u201cte\u00f3rica\u201d que parece inalcan\u00e7\u00e1vel para boa parte das pessoas. H\u00e1 100 anos atr\u00e1s, talvez n\u00e3o fizesse tanta diferen\u00e7a: casava cedo, tinha um monte de filhos e era for\u00e7ado a tomar conta de uma casa sob o risco constante de perder tudo. A humanidade tinha um atalho para a maturidade, e era dentro de um contexto bem espec\u00edfico. As coisas mudaram nesse acordo social numa velocidade alucinante para a maioria desprovida de oportunidades, e de repente, o pobre coitado recebe a miss\u00e3o de agir como se tivesse feito parte desse processo todo.<\/p>\n<p>N\u00e3o fez. Est\u00e1 com uma no\u00e7\u00e3o instintiva do que deve fazer e nenhum sistema que o controle. De repente, presumimos que todo mundo entendeu que n\u00e3o fazemos mais sexo com meninas de 11 anos e que criamos leis melhores que as das religi\u00f5es da antiguidade e fomos embora discutir quantos g\u00eaneros existem mesmo. Uma pena que tenha sido atrav\u00e9s do sofrimento dessa menina, mas s\u00e3o hist\u00f3rias como essa que ajudam a botar os dois p\u00e9s no ch\u00e3o e lembrar como tem coisa muito escrota para resolver ainda. A menina \u00e9 uma coitada que deve ser protegida, o estuprador \u00e9 um coitado tamb\u00e9m, mas um que n\u00e3o pode ser perdoado. A merda est\u00e1 feita.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que eu volto aos crist\u00e3os. Sem querer, eles entendem essa quest\u00e3o temporal. Como religi\u00f5es s\u00e3o especialistas em ficar paradas no tempo, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o discurso delas seduza uma porcentagem t\u00e3o grande dos miser\u00e1veis do mundo. \u00c9 o que ainda faz sentido. Essa gente bem arrumada falando de direitos humanos, ressocializa\u00e7\u00e3o e liberdades pessoais poderia muito bem estar falando aramaico para a maior parte da popula\u00e7\u00e3o humana. Se a sua mente mal saiu do s\u00e9culo XIX, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel te explicar os novos padr\u00f5es de comportamento humano. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 explicar por que aborto \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 explicar o que s\u00e3o direitos humanos, \u00e9 explicar por que sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 importante, \u00e9 explicar que as leis modernas funcionam melhor para gerar qualidade de vida&#8230; e torcer para a pessoa ter alguma coisa na mem\u00f3ria que corrobore com isso. Boa sorte falando de Estado para quem toma esculacho da pol\u00edcia e demora seis meses para marcar consulta m\u00e9dica&#8230;<\/p>\n<p>A religi\u00e3o consegue se manter relevante justamente porque n\u00e3o evolui. Ela est\u00e1 sempre alinhada com o menor denominador comum da humanidade. Eu sempre achei que religi\u00e3o era a causa dessa doen\u00e7a do atraso mental, mas agora come\u00e7o a perceber que \u00e9 o sintoma da doen\u00e7a da desigualdade. Talvez tivesse outro papel h\u00e1 s\u00e9culos atr\u00e1s, mas hoje \u00e9 isso o que representa. Uma ferida aberta na ilumina\u00e7\u00e3o humana do \u00faltimo s\u00e9culo. \u00c9 claro que ela n\u00e3o poderia perder for\u00e7a, de uma certa forma, \u00e9&#8230; um grito de socorro. E quanto mais a desigualdade cresce, mais alto fica esse grito desesperado de quem ficou pra tr\u00e1s e n\u00e3o entende o que diabos deve fazer para fazer parte do mundo moderno.<\/p>\n<p>Todo esse discurso conservador que vemos crescer no Brasil come\u00e7a a fazer mais sentido: \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o que foram embora sem eles. Ali\u00e1s, em muitos casos isso \u00e9 dito com todas as letras em frases do tipo \u201crejeite a modernidade\u201d. Estava embaixo dos nossos narizes. E o movimento ganha tanta for\u00e7a porque a velocidade da mudan\u00e7a aumenta demais com a internet. Percebam que eu tomei um certo cuidado para n\u00e3o chamar conservador de burro, porque muitos dos exercem poder sobre essa massa \u201cfora de tempo\u201d sabem muito bem como explorar o mercado dispon\u00edvel. Uma parcela consider\u00e1vel est\u00e1 enxergando essa diferen\u00e7a brutal entre a parcela de popula\u00e7\u00e3o que conseguiu absorver a loucura de mudan\u00e7as de mentalidade do s\u00e9culo XX e as que n\u00e3o chegaram l\u00e1 ainda.<\/p>\n<p>E pelo visto, o grosso das popula\u00e7\u00f5es pobres desse mundo sequer consegue perceber onde a coisa est\u00e1 azedando. S\u00f3 sentem, pelo clima, que algo est\u00e1 errado. Percebem que tem gente discutindo as conclus\u00f5es de ideias cujas premissas nunca ouviram falar, e obviamente se incomodam. A desigualdade tem um pre\u00e7o, e por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o pre\u00e7o n\u00e3o \u00e9 a quantidade de absurdos como as estat\u00edsticas horr\u00edveis que eu citei, isso \u00e9 humanidade fazendo o que sempre fez num mundo que perdeu os mecanismos de controle com os quais sempre contou. O pre\u00e7o \u00e9 perceber que quando falamos de coisas que consideramos direitos b\u00e1sicos, uma grande maioria n\u00e3o tenha a menor ideia sobre o que estamos falando.<\/p>\n<p>O mundo foi remodelado para gente que acha errado engravidar uma menina de 10 anos, mas n\u00e3o explicaram direito para a maioria o porqu\u00ea. Mesmo que eu acredite que a maioria dos brasileiros n\u00e3o ache abusar de uma crian\u00e7a algo certo, o diabo est\u00e1 nos detalhes: a discuss\u00e3o foi sobre o aborto. A lei do presente venceu dessa vez, mas se o processo de \u201cdistanciamento temporal\u201d entre as mentes de alguns privilegiados e a grande maioria perdida no passado continuar acelerando (e aqui entra boa parte da culpa dos lacradores), o di\u00e1logo se torna imposs\u00edvel e o caminho de menor resist\u00eancia sempre vai a estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seis abortos de menores de 14 anos por dia no SUS. Essa \u00e9 a maioria, n\u00e3o necessariamente pessoas ruins, mas pessoas com outro padr\u00e3o do que configura humanidade, e nenhuma previs\u00e3o de quando v\u00e3o vir para o mesmo tempo que n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu tornei o caso ainda pior, para dizer que eu estou passando a m\u00e3o na cabe\u00e7a de bandido (se voc\u00ea souber ler nas entrelinhas, vai perceber algo muito diferente), ou mesmo para dizer que \u00e9 tudo culpa do funk: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei realmente em d\u00favida se falava disso agora ou esperava para ver se viraria tema no s\u00e1bado. 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