{"id":17508,"date":"2020-10-21T12:00:41","date_gmt":"2020-10-21T15:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17508"},"modified":"2020-10-21T05:34:59","modified_gmt":"2020-10-21T08:34:59","slug":"censored","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/10\/censored\/","title":{"rendered":"Censored."},"content":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 dia 21 de outubro de 2020. Se hoje voc\u00ea visitar conta do Twitter do New York Post, um dos mais antigos e populares jornais americanos, vai perceber que a \u00faltima postagem \u00e9 do dia 14. Inimagin\u00e1vel um jornal ficar tanto tempo sem atualizar seu Twitter, n\u00e3o? Pois \u00e9. Ainda mais considerando que a conta deles foi bloqueada logo ap\u00f3s postarem um mat\u00e9ria incriminadora sobre Hunter Biden, filho do candidato democrata \u00e0 presid\u00eancia dos EUA, Joe Biden.<!--more--><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vou me aprofundar sobre o teor da mat\u00e9ria ou as acusa\u00e7\u00f5es feitas contra Hunter Biden, mas precisamos de uma base sobre esse conte\u00fado: tem todo um componente de imprensa baixaria revelando detalhes pessoais sobre a vida de um viciado em drogas, mas o que realmente faz diferen\u00e7a (ou pelo menos deveria fazer) na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico de influ\u00eancia e enriquecimento il\u00edcito de Hunter com no m\u00ednimo anu\u00eancia do pai, que na \u00e9poca era vice-presidente de Obama.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 bom a gente entender tamb\u00e9m o que \u00e9 o New York Post: um tabloide que vira e mexe tem daquelas capas apelativas e debochadas de tabloides, e que tem um foco mais popularesco que o concorrente mais \u201cs\u00e9rio\u201d da cidade, o New York Times. S\u00f3 que n\u00e3o exagere nessa imagem mental de imprensa marrom: tem umas baixarias aqui e acol\u00e1, mas o jornal existe desde 1801.<\/p>\n<p>Mais uma coisa, provavelmente bem importante: o jornal \u00e9 do mesmo dono da Fox News (o canal de not\u00edcias dos conservadores), Rupert Murdoch, embora n\u00e3o estejam na mesma empresa tecnicamente dita. O Post \u00e9 acusado h\u00e1 algumas d\u00e9cadas de ser muito conservador e seguir os interesses de seu dono. N\u00e3o \u00e9 um conservadorismo do n\u00edvel da Fox News, mas mesmo assim um contraponto ao Times, bem mais liberal.<\/p>\n<p>Estamos na mesma p\u00e1gina? Excelente. Pouco tempo depois da mat\u00e9ria de capa do jornal estampar Biden e o filho com a manchete de \u201cE-mails secretos do Biden\u201d, o Twitter bloqueou a conta do Post e proibiu o compartilhamento do link sobre a mat\u00e9ria. O Facebook logo fez o mesmo. A argumenta\u00e7\u00e3o das redes sociais se baseou na ideia de que eram informa\u00e7\u00f5es oriundas de acesso ilegal ao computador de Hunter Biden. O conte\u00fado ficou marcado como \u201cinforma\u00e7\u00e3o hackeada\u201d e n\u00e3o pode mais ser compartilhado. Uma semana depois, o perfil do Post continua bloqueado.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade a den\u00fancia do Post? N\u00e3o sei. Parece muito elaborado para ser Fake News, e at\u00e9 agora Biden pai e Biden filho est\u00e3o quietinhos at\u00e9 demais sobre o tema. Den\u00fancias sobre rela\u00e7\u00f5es suspeitas da fam\u00edlia com autoridades ucranianas n\u00e3o come\u00e7aram agora, tem coisa muito mal contada nessa hist\u00f3ria. Tem motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica publicar isso agora? Claro. \u00c9 um jornal conservador que est\u00e1 batendo no Biden a campanha toda. Mas, para ser justo, o resto da imprensa liberal (a grande maioria) est\u00e1 claramente abafando essa hist\u00f3ria da Ucr\u00e2nia h\u00e1 meses e meses para proteger seu candidato.<\/p>\n<p>Mas&#8230; e agora o verdadeiro ponto do texto: por mais que tudo ao redor dessa hist\u00f3ria cheire mal e n\u00e3o tenhamos muita simpatia por nenhuma das partes, Twitter e Facebook cruzaram uma linha perigosa. Talvez a mais perigosa de todas desde o come\u00e7o da internet: empresas de tecnologia decidiram o que configura jornalismo. A mat\u00e9ria do Post pode estar toda errada, o jornal pode ter que pagar milh\u00f5es em indeniza\u00e7\u00f5es no futuro, mas n\u00e3o era o lugar nem de Twitter nem de Facebook censurar o conte\u00fado de um jornal que segue todas as regras b\u00e1sicas da imprensa de um pa\u00eds com liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>E pior, tecnicamente, o pa\u00eds com a liberdade de express\u00e3o mais abrangente do mundo. Eu poderia esperar disso de uma rep\u00fablica das bananas como o Brasil ou um Estado assumidamente autorit\u00e1rio como a China, mas acontecer nos EUA \u00e9 sinal de que h\u00e1 algo de fundamentalmente podre com a nossa rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia da comunica\u00e7\u00e3o e as empresas gigantescas que a controlam.<\/p>\n<p>Explico: em tese, o Twitter e o Facebook t\u00eam suas raz\u00f5es para exercer o poder de donos das plataformas para coibir not\u00edcias falsas. O termo moderno \u00e9 Fake News, mas n\u00e3o deixa de ser o antiqu\u00edssimo boato. Not\u00edcias e alega\u00e7\u00f5es sem fundamenta\u00e7\u00e3o, criadas e disseminadas por pessoas que n\u00e3o assumem responsabilidade sobre o que fazem. As Fake News n\u00e3o costumam ter endere\u00e7o e documento de identifica\u00e7\u00e3o: s\u00e3o dejetos circulando pelo encanamento da internet, que se n\u00e3o forem limpos de tempos em tempos, acabam entupindo tudo.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica por tr\u00e1s de colocar avisos em postagens e banir quem abusa das plataformas para desinformar \u00e9 que n\u00e3o existe alternativa pr\u00e1tica no sistema legal. V\u00e1rios pa\u00edses come\u00e7am a se mexer para oferecer \u201ccentrais de tratamento de esgoto virtual\u201d, o Brasil inclu\u00eddo, mas n\u00e3o \u00e9 como se soub\u00e9ssemos muito bem o que fazer ainda. Juiz brasileiro fica derrubando o WhatsApp por liminar a cada vez que fica confuso com os termos em ingl\u00eas&#8230; na pr\u00e1tica, a forma mais eficiente de lidar com isso \u00e9 pressionar redes sociais a fazer essa limpeza pr\u00e9via com as ferramentas que tem ao seu dispor.<\/p>\n<p>Essa era a linha. Essa \u201corfandade\u201d das Fakes News fazia com que fosse aceit\u00e1vel para Facebook, Twitter e Google tomarem medidas pr\u00f3prias para limitar sua reprodu\u00e7\u00e3o. Do outro lado da linha, um sistema testado e aprovado por s\u00e9culos de experi\u00eancia: a imprensa. N\u00e3o estou dizendo que a imprensa sempre diz a verdade, longe disso, mas&#8230; imprensa tem endere\u00e7o e documento de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A imprensa tem jornalistas e editores que decidem o que pode ou n\u00e3o pode ser publicado. A imprensa goza de v\u00e1rias liberdades num pa\u00eds democr\u00e1tico e livre, mas tamb\u00e9m tem responsabilidades. A Justi\u00e7a sabe o que fazer quando lida com um processo contra um jornal ou empresa de m\u00eddia. Infelizmente acontecem bizarrices como humorista pagando indeniza\u00e7\u00e3o por piada, mas que o sistema est\u00e1 l\u00e1, est\u00e1.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m precisa do Twitter ou do Facebook para lidar com uma mat\u00e9ria do New York Post, um dos maiores jornais do pa\u00eds mais rico do mundo. N\u00e3o \u00e9 um perdido escrevendo bobagem no WhatsApp que depois de cem compartilhamentos se torna imposs\u00edvel de achar, \u00e9 um jornal profissional! O conte\u00fado est\u00e1 impresso nas bancas e publicado no seu site, milh\u00f5es de pessoas como testemunhas. Eles t\u00eam a credibilidade a perder e um endere\u00e7o f\u00e1cil de achar na hora de mandar a intima\u00e7\u00e3o. Toda a mec\u00e2nica j\u00e1 existe.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como explicar a decis\u00e3o de funcion\u00e1rios de uma empresa de tecnologia que desenvolve um plataforma para pessoas postarem sua bunda ou opini\u00e3o sobe reality show (n\u00e3o necessariamente nessa ordem) de olhar para um fuckin\u2019 jornal com mais de 200 anos de exist\u00eancia e dizer que eles n\u00e3o podem mais se comunicar por l\u00e1 porque n\u00e3o fazem jornalismo do jeito certo? E piora: o CEO do Twitter foi defender sua equipe e bancou a censura. Se demitissem todo mundo que fez essa palha\u00e7ada poder\u00edamos achar que foi um ataque de estrelismo pontual, mas n\u00e3o&#8230; o New York Post continua bloqueado uma semana depois. Para voc\u00eas verem o n\u00edvel da coisa, at\u00e9 o Glenn Greenwald est\u00e1 puto da vida com as redes sociais depois dessa.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que eu digo quando falo de linha cruzada. A equipe que comanda as redes sociais olhou para a imprensa e todos os mecanismos j\u00e1 existentes para regul\u00e1-la e decidiu que eles sabiam mais. Piora de novo: se voc\u00ea for ver os coment\u00e1rios das \u00faltimas postagens do NYP no Twitter, vai ver muita gente batendo palma dizendo que fizeram bem em censurar, porque a narrativa da campanha democrata \u00e9 acusar uma nova conspira\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia por tr\u00e1s da mat\u00e9ria. Esse clima pol\u00edtico doentio de radicaliza\u00e7\u00e3o entrou na frente da discuss\u00e3o real. A rede social acaba de pisar na cabe\u00e7a da imprensa como um todo e a discuss\u00e3o n\u00e3o consegue avan\u00e7ar porque a maioria das pessoas acha que \u00e9 sobre ser pr\u00f3 ou contra o Trump.<\/p>\n<p>O jornalista pode fazer muita besteira, pode falar muita coisa errada, mas ele \u00e9 cobrado pela veracidade do que publica e julgado pelo seu posicionamento pol\u00edtico. O sistema de controle da imprensa n\u00e3o \u00e9 perfeito, mas existe. Agora&#8230; quem controla as redes sociais? Porque quando elas assumem essa postura de editoras de conte\u00fado, decidindo at\u00e9 mesmo o que um jornal estabelecido pode ou n\u00e3o publicar, n\u00e3o sabemos quem est\u00e1 tocando essa narrativa. S\u00e3o fantasmas na m\u00e1quina que podem ser demitidos e contratados em quest\u00e3o de horas, escorados em algoritmos e programas que propagam suas decis\u00f5es em escalas nunca antes vistas, e em quest\u00e3o de segundos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 nem o \u00e2ngulo da conspira\u00e7\u00e3o de um grupo para tomar o poder: se voc\u00ea entende a forma como essas empresas funcionam, sabe que h\u00e1 pouco controle real dentro delas. S\u00e3o empresas de capital aberto que j\u00e1 enriqueceram as pessoas que investiram nelas; e se falirem, s\u00f3 tiram dinheiro de quem achou \u201cmoderno\u201d comprar a\u00e7\u00e3o do Twitter no aplicativo de investimento que baixou de gra\u00e7a depois de ver a propaganda.<\/p>\n<p>E ainda por cima s\u00e3o parte integrante da vida do ser humano do s\u00e9culo XXI. A rede social n\u00e3o \u00e9 a plataforma de poder de um grupo espec\u00edfico ou outro, \u00e9 a plataforma para quem estiver l\u00e1 a cada momento, para empurrar o seu projeto atual. Esse tipo de empresa n\u00e3o pode ter esse tipo de poder, porque n\u00e3o funciona do mesmo jeito que a gente se acostumou a entender grandes empresas. N\u00e3o adianta achar que vai dar poder para pessoas boas (ou que pelo menos concordam com voc\u00ea), porque nada garante que essas pessoas n\u00e3o v\u00e3o embora poucos meses depois. Uma hora ou outra, entra algu\u00e9m que pensa algo terrivelmente diferente do que voc\u00ea nessa plataforma com poder de definir o que \u00e9 jornalismo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu queria que a reclama\u00e7\u00e3o desse texto fosse s\u00f3 que se fosse uma mat\u00e9ria contra o Trump no mesmo contexto jamais seria censurada. Queria mesmo. Mas isso j\u00e1 ficou pequeno perto do precedente tenebroso da censura ao New York Post. \u00c9 quest\u00e3o de princ\u00edpio mesmo: a imprensa estava mal das pernas h\u00e1 alguns anos, esse pode ter sido o golpe de miseric\u00f3rdia. Se n\u00e3o houve uma consequ\u00eancia dolorosa (ou seja, financeira) para Twitter e Facebook por essa bizarrice, a tend\u00eancia \u00e9 que continuem redefinindo pelos pr\u00f3prios termos o que \u00e9 verdade, not\u00edcia ou mesmo imprensa em geral.<\/p>\n<p>Mas&#8230; \u00e9 mais f\u00e1cil me chamar de isent\u00e3o e continuar reclamando de homem laranja mau ou velho gag\u00e1 lacrador enquanto um dos maiores ataques \u00e0 liberdade de express\u00e3o na hist\u00f3ria recente acaba de acontecer. Cada dia que passa eu fico mais feliz com a nossa decis\u00e3o de ficar longe das redes sociais. \u00c9 l\u00e1 que a verdade vai para morrer&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para me chamar de alarmista, para dizer que quer que a imprensa desapare\u00e7a mesmo, ou mesmo para dizer que ainda \u00e9 melhor que morar no Brasil: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 dia 21 de outubro de 2020. Se hoje voc\u00ea visitar conta do Twitter do New York Post, um dos mais antigos e populares jornais americanos, vai perceber que a \u00faltima postagem \u00e9 do dia 14. Inimagin\u00e1vel um jornal ficar tanto tempo sem atualizar seu Twitter, n\u00e3o? Pois \u00e9. 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