{"id":17571,"date":"2020-11-06T12:00:34","date_gmt":"2020-11-06T15:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17571"},"modified":"2020-11-06T03:49:37","modified_gmt":"2020-11-06T06:49:37","slug":"o-gambito-da-rainha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/11\/o-gambito-da-rainha\/","title":{"rendered":"O Gambito da Rainha"},"content":{"rendered":"<p>Eu honestamente n\u00e3o sei o qu\u00e3o popular essa miniss\u00e9rie se tornou desde o lan\u00e7amento, mas algo me diz que n\u00e3o o suficiente. Gambito da Rainha \u00e9 uma miniss\u00e9rie ficcional da Netflix em 7 epis\u00f3dios que conta a hist\u00f3ria da prod\u00edgio americana do xadrez Beth Harmon entre os anos 50 e 60. Pra mim foi uma das melhores, sen\u00e3o a melhor s\u00e9rie do ano, mas isso talvez dependa de quanto voc\u00ea aprecia o xadrez e sua hist\u00f3ria&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Minha rela\u00e7\u00e3o com o xadrez \u00e9 meio bizarra, eu acompanho mais ou menos como futebol: interessado em partidas e jogadores atuais e antigos, mas raramente com vontade de jogar. Isso provavelmente me fez apreciar a s\u00e9rie muito mais do que se fosse um completo leigo no assunto, mas antes de entrar em spoilers, posso dizer sem medo que a hist\u00f3ria se sustenta numa boa mesmo se voc\u00ea n\u00e3o souber nem como mover um pe\u00e3o. Harmon, a personagem central, tem sua dose de conflitos e desafios na medida certa para nunca deixar as coisas ficarem chatas.<\/p>\n<p>E apesar de ser a hist\u00f3ria de uma mulher lutando por seu espa\u00e7o num ambiente quase que totalmente masculino, n\u00e3o tem aquela m\u00e3o pesada da propaganda hollywoodiana tentando politizar demais as coisas. Eu confesso que torci o nariz esperando algo do tipo, mas o foco no xadrez me fez assistir, o que foi uma boa coisa. Se voc\u00ea tinha preconceito tamb\u00e9m, pode ficar em paz: tudo est\u00e1 a servi\u00e7o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pois bem, a partir daqui vai ser complicado evitar spoilers. Um que voc\u00ea pode ler \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 uma s\u00e9rie baseada em reviravoltas e surpresas, e sim numa progress\u00e3o natural que qualquer um familiarizado com a Jornada do Her\u00f3i vai reconhecer de cara. Pode parecer clich\u00ea usar esse recurso narrativo, mas quando voc\u00ea quer que a hist\u00f3ria seja ve\u00edculo para suas personagens e um tema central raro como o xadrez, nada melhor do que um fio condutor mais tradicional.<\/p>\n<p>Um dos pontos de destaque da Netflix na divulga\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie \u00e9 a luta de Harmon (a personagem central) contra quest\u00f5es psicol\u00f3gicas e depend\u00eancia de \u00e1lcool e rem\u00e9dios enquanto tenta ter sucesso no mundo do xadrez. N\u00e3o que isso n\u00e3o apare\u00e7a nos epis\u00f3dios, s\u00e3o temas importantes, mas acima de tudo \u00e9 um estudo sobre uma personalidade obsessiva arrebatada por um dos jogos mais complexos que existem. A personagem parece ter algum grau de autismo, mas altamente funcional.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o de fazer um dramalh\u00e3o sobre problemas mentais e v\u00edcios poderia ter feito a s\u00e9rie perder o rumo, mas em momento algum a hist\u00f3ria soa apelativa. O roteiro n\u00e3o tenta te for\u00e7ar a ficar com pena dela ou mesmo contar uma hist\u00f3ria de \u201csuperdeficiente\u201d sem defeitos. Beth \u00e9 o que \u00e9, \u00e0s vezes voc\u00ea torce por ela, \u00e0s vezes ela te parece uma escrota sem considera\u00e7\u00e3o. T\u00edpico de quem tem respostas emocionais reduzidas. N\u00e3o \u00e9 necessariamente algu\u00e9m que voc\u00ea gostaria de ter grande envolvimento emocional, at\u00e9 pela baixa capacidade de reciprocidade, mas a s\u00e9rie n\u00e3o sai do seu caminho nenhuma vez para pint\u00e1-la como insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Acho que a melhor palavra para definir o tom da s\u00e9rie \u00e9 sobriedade, por mais ir\u00f4nico que isso seja com uma protagonista lutando contra seus v\u00edcios. Agora, quando falamos de xadrez, as coisas mudam de figura e n\u00e3o h\u00e1 economia: o Gambito da Rainha \u00e9 de longe a representa\u00e7\u00e3o mais realista do xadrez, seus jogadores e a cultura ao redor do jogo que j\u00e1 vi na m\u00eddia. Grandes enxadristas foram convidados para cuidar dessa parte, incluindo o ex-campe\u00e3o mundial Garry Kasparov. Cada movimento de pe\u00e7a filmado foi decidido por grandes mestres, desde as partidas mais importantes da s\u00e9rie at\u00e9 mesmo jogos r\u00e1pidos de treino e lazer das personagens.<\/p>\n<p>Est\u00e1 um pouco al\u00e9m do meu conhecimento reconhecer a maioria das partidas, mas especialmente nos lances finais, voc\u00ea pode ver jogos hist\u00f3ricos sendo replicados, e alguns at\u00e9 melhorados com a ajuda de computadores avan\u00e7ados. A aten\u00e7\u00e3o aos detalhes \u00e9 impressionante: se uma personagem diz para outra que havia um lance melhor do que o jogado em uma cena da s\u00e9rie, pode apostar que tem a cena do estado do tabuleiro naquele momento e se voc\u00ea fizer o lance, vai ver que era verdade.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 vendo xadrez realista de alt\u00edssimo padr\u00e3o nas cenas, como tamb\u00e9m est\u00e1 vendo uma vis\u00e3o quase que perfeita do que era o mundo do xadrez naquela \u00e9poca. As personagens mencionam jogadores antigos verdadeiros e falam sobre suas partidas reais, mas at\u00e9 pelo car\u00e1ter ficcional da s\u00e9rie, os jogadores contempor\u00e2neos a Harmon s\u00e3o ficcionais tamb\u00e9m. Alguns tem alguma semelhan\u00e7a com quem jogava na \u00e9poca, mas fica claro que estamos falando de uma realidade paralela.<\/p>\n<p>E falando em realidade paralela, Harmon \u00e9 uma jogadora americana genial vivendo no limite da sanidade, o que dentro da s\u00e9rie \u00e9 sugerido como um paralelo com Paul Morphy, um outro jogador americano que fez hist\u00f3ria no s\u00e9culo XIX; mas os mais atentos ao mundo do xadrez sabem que o paralelo mais realista \u00e9 com Bobby Fischer, o absurdamente genial e absurdamente perturbado jogador americano que viveu e jogou mais ou menos na mesma \u00e9poca que Beth Harmon.<\/p>\n<p>Momento fofoca: provavelmente ningu\u00e9m menciona Bobby Fischer oficialmente porque logo ap\u00f3s dominar de forma incontest\u00e1vel o mundo do xadrez, derrubando inclusive os grandes mestres russos, Bobby foi perdendo a cabe\u00e7a rapidamente e terminou precocemente sua vida enquanto denunciava uma conspira\u00e7\u00e3o dos judeus para controlar o mundo&#8230; os americanos lembram de Bobby na fase boa, mas normalmente n\u00e3o gostam de ser lembrados dos \u00faltimos anos de sua vida.<\/p>\n<p>Harmon n\u00e3o tem arroubos antissemitas, mas segue o caminho de Bobby na sua luta para vencer os russos, n\u00e3o por motivos patri\u00f3ticos da Guerra Fria, e sim porque sabe que naquele tempo, os melhores do mundo estavam todos l\u00e1. A s\u00e9rie d\u00e1 algumas dicas sobre esse tema, mas nunca descreve em detalhes: durante a Guerra Fria, os russos investiram pesado no xadrez, era uma forma de sugerir superioridade intelectual sobre os f\u00fateis ianques. Ser chamado para um campeonato na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era uma grande honra para qualquer enxadrista. Na vida real, Bobby foi at\u00e9 l\u00e1 e deu uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica para os americanos, o xadrez russo continuou fort\u00edssimo por mais algumas d\u00e9cadas, mas aquele foi um ponto de virada.<\/p>\n<p>Como a hist\u00f3ria \u00e9 muito focada nas personagens, podemos ver uma quest\u00e3o muito bem apresentada: a diferen\u00e7a brutal entre uma pessoa boa de xadrez e um grande mestre. Eu diria que \u00e9 uma das diferen\u00e7as mais brutais entre categorias de jogadores de qualquer esporte individual no mundo, talvez a maior. O grande mestre do xadrez n\u00e3o \u00e9 uma pessoa qualquer, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 capaz de memorizar milhares de posi\u00e7\u00f5es no jogo, como acessar esses dados de forma quase que intuitiva durante uma partida. Harmon \u00e9 apresentada como uma jogadora mais impulsiva, desesperada pela vit\u00f3ria e capaz de enxergar lances que quase ningu\u00e9m mais consegue.<\/p>\n<p>Claro, isso tem um custo. Harmon \u00e9 obcecada, coloca o xadrez na frente de praticamente tudo e paga o pre\u00e7o com dificuldades de se relacionar com outras pessoas. \u00c9 interessante ver como na medida que ela vai melhorando, vai sendo notada por outros grandes jogadores, e quanto melhores esses jogadores, mais facilidade ela tem para se conectar. E se voc\u00ea est\u00e1 achando que eu ou a s\u00e9rie estamos jogando a carta do \u201cs\u00f3 maluco fica t\u00e3o bom assim no jogo\u201d, ledo engano. Eu enxerguei toda essa quest\u00e3o de diferen\u00e7as entre seres humanos m\u00e9dios e grandes mestres como um ensaio sobre a solid\u00e3o que uma obsess\u00e3o pode causar. Harmon parece ter seus problemas mentais, mas outros jogadores s\u00e3o apresentados das mais diversas formas. A maioria precisa se cercar de outros obcecados para dar vaz\u00e3o ao que pensam e n\u00e3o se sentirem t\u00e3o isolados. A maioria dos jogadores apresentados na s\u00e9rie n\u00e3o soam como exc\u00eantricos bizarros, s\u00e3o pessoas relativamente normais como a maioria dos grandes enxadristas da vida real.<\/p>\n<p>E sim, eu sei que tem um elefante na sala: n\u00e3o \u00e9 meio for\u00e7a\u00e7\u00e3o de barra fazer uma mulher ser a melhor jogadora do mundo? Sim e n\u00e3o, mas&#8230; com mais \u00eanfase no n\u00e3o. Explico: embora a esmagadora maioria dos grandes mestres sejam homens, n\u00e3o \u00e9 totalmente bizarro uma mulher entrar na lista. Quem conhece bem xadrez sabe que a h\u00fangara Judit Polg\u00e1r j\u00e1 entrou na lista dos 10 melhores do mundo, num respeit\u00e1vel 8\u00ba lugar. Parece pouco, considerando que um brasileiro j\u00e1 foi o 3\u00ba&#8230; mas se voc\u00ea considerar quantas mulheres realmente seguem a carreira de enxadrista e tentam disputar contra homens oficialmente, d\u00e1 para fazer o argumento que nessa modalidade pode ser s\u00f3 quest\u00e3o de n\u00fameros na base para formar mais grandes mestres em coloca\u00e7\u00f5es altas.<\/p>\n<p>E, Harmon \u00e9 tratada como uma anomalia na s\u00e9rie mesmo. Mesmo que voc\u00ea ache que s\u00f3 caindo um raio dez vezes no mesmo lugar para ter uma Bobby Fischer de saias, na vida real j\u00e1 caiu pelo menos umas tr\u00eas vezes no caso da Judit. Em tese \u00e9 poss\u00edvel. Ainda mais considerando como o xadrez est\u00e1 vivendo uma renascen\u00e7a em 2020: o jogo na vers\u00e3o online se popularizou muito com a quarentena, com inclusive um grande mestre virando streamer popular no Twitch (Hikaru Nakamura, que apesar do nome \u00e9 americano). Mais e mais mulheres est\u00e3o jogando. N\u00e3o sei onde isso vai dar, mas, repetindo: em tese \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Vamos falar um pouco de detalhes e a parte t\u00e9cnica: a s\u00e9rie toma algumas liberdades para deixar o xadrez mais palat\u00e1vel para epis\u00f3dios de uma hora, na realidade os jogos de grandes mestres tem uma grande tend\u00eancia de terminar em empate, normalmente eles jogam melhores de 8 a 12 partidas, com mais da metade terminando empatadas. Mas \u00e9 compreens\u00edvel: ficaria chato. \u00c9 que nem fazer filme de futebol e ficar mostrando lateral e cera do goleiro. Outra coisa que n\u00e3o \u00e9 muito realista \u00e9 a conversa entre jogadores. O que \u00e0s vezes \u00e9 essencial para o drama da cena, mas que na vida real seria recebido com um \u201cshhh!\u201d do juiz. Detalhes pequenos que s\u00f3 deixam a s\u00e9rie mais interessante e n\u00e3o tiram em nada o valor da apresenta\u00e7\u00e3o do jogo como ele \u00e9.<\/p>\n<p>Como eu disse antes, \u00e9 uma hist\u00f3ria pautada pela sobriedade do roteiro: todos os atores e atrizes trabalham muito bem, v\u00e1rios autistas de internet se apaixonaram pela atriz principal, o que era previs\u00edvel pela cara de desenho japon\u00eas misturado com alien dela (n\u00e3o me entendam mal, ela \u00e9 bonita, mas demora alguns segundos para o c\u00e9rebro se ajustar). Os cen\u00e1rios, a dire\u00e7\u00e3o de arte e de figurino s\u00e3o perfeitos, pelo menos at\u00e9 o ponto onde eu sou capaz de reconhecer. S\u00e9rie de \u00e9poca caprichada nos m\u00ednimos detalhes. Na parte do xadrez ent\u00e3o, n\u00e3o tem o que retocar.<\/p>\n<p>Por isso, recomendo e muito o Gambito da Dama. Quanto mais voc\u00ea entender de xadrez e do mundo ao redor desse jogo, melhor a s\u00e9rie fica. Tem muitas sutilezas que n\u00e3o d\u00e1 para explicar para quem n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o desse tema, por exemplo, a partida final da s\u00e9rie \u00e9 baseada num jogo do Vassily Ivanchuk, um jogador espetacular que nunca ganhou o t\u00edtulo mundial por ser inconsistente, mas que desde que come\u00e7ou a jogar, j\u00e1 ganhou (e muitas vezes ganhou de lavada) de todos os campe\u00f5es mundiais. Um verdadeiro Robin Hood do xadrez. Ivanchuk tem a mania de olhar para o teto enquanto decide seus lances&#8230; vendo a s\u00e9rie voc\u00ea vai entender isso. <\/p>\n<p>Se voc\u00ea entende esses detalhes, percebe como a coisa foi bem feita. \u00c9 uma carta de amor ao xadrez. Mas, escrita de um jeito que muita gente vai entender a ideia geral.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que est\u00e1 cagando para xadrez com os EUA pegando fogo, para dizer que n\u00e3o viu e agora n\u00e3o vai ver mesmo, ou mesmo para dizer que eu n\u00e3o contei quase nada da hist\u00f3ria (verdade&#8230;): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu honestamente n\u00e3o sei o qu\u00e3o popular essa miniss\u00e9rie se tornou desde o lan\u00e7amento, mas algo me diz que n\u00e3o o suficiente. Gambito da Rainha \u00e9 uma miniss\u00e9rie ficcional da Netflix em 7 epis\u00f3dios que conta a hist\u00f3ria da prod\u00edgio americana do xadrez Beth Harmon entre os anos 50 e 60. 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