{"id":17662,"date":"2020-11-28T15:41:39","date_gmt":"2020-11-28T18:41:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17662"},"modified":"2020-11-28T16:12:48","modified_gmt":"2020-11-28T19:12:48","slug":"idolo-mortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2020\/11\/idolo-mortal\/","title":{"rendered":"\u00cddolo mortal."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-body uk-card-default\">\n<p>O adeus a Diego Armando Maradona foi do jeito que o melhor o representa: intenso. A despedida do craque argentino, que morreu ontem ap\u00f3s uma parada card\u00edaca aos 60 anos, come\u00e7ou cedo com uma multid\u00e3o emocionada na Casa Rosada e s\u00f3 teve fim no enterro em uma cerim\u00f4nia intimista na noite desta quinta-feira. O dia teve confus\u00e3o, sangue, l\u00e1grimas e um pa\u00eds inteiro parado e mobilizado por um \u00eddolo. <a class=\"uk-button uk-button-text\" href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/esporte\/futebol\/ultimas-noticias\/2020\/11\/26\/velorio-de-maradona-como-foi.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">LINK<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>Podemos admirar os argentinos por muitas coisas, mas com certeza n\u00e3o por essa insanidade. <strong>Desfavor da Semana<\/strong>.<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SALLY<\/span><\/h4>\n<p>Para quem n\u00e3o pescou a sutileza, estamos nos comportando como lun\u00e1ticos, fan\u00e1ticos e desequilibrados desde a morte do Maradona, de forma ir\u00f4nica. Sim, \u00e9 piada. \u00c9 piada com essa insanidade coletiva que tomou a Argentina que, em vez de ser motivo de rep\u00fadio, parece ser motivo de inveja e admira\u00e7\u00e3o do Brasil: \u201caqui nunca ter\u00edamos uma como\u00e7\u00e3o nem parecida com o que est\u00e1 acontecendo na Argentina\u201d. QUE BOM, meus queridos, que bom. Idolatria \u00e9 uma modalidade muito cafona de insanidade.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo na Argentina n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel. N\u00e3o romantizem essa passionalidade, esse descontrole emocional, esse desequil\u00edbrio. Dar tanta import\u00e2ncia a algo externo, a uma pessoa que voc\u00ea nem conhece, a um \u00eddolo, \u00e9 desequil\u00edbrio mental. Confundir uma pessoa com um corpo tamb\u00e9m. N\u00e3o era o Maradona quem estava l\u00e1, deitado em um caix\u00e3o. Era um peda\u00e7o de carne sem vida. Dar esta import\u00e2ncia a um peda\u00e7o de carne sem vida \u00e9 uma despropor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00cddolos s\u00e3o sin\u00f4nimo de desequil\u00edbrio mental. Quem precisa de \u00eddolos \u00e9 infantil\u00f3ide, escapista da realidade e tem s\u00e9rios problemas para os quais n\u00e3o quer olhar. Repito: n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel ter \u00eddolos, \u00e9 coisa de adolescente sem viv\u00eancia. N\u00e3o aplaudam a Argentina por isso. Admirar algu\u00e9m \u00e9 ok, mas idolatrar algu\u00e9m \u00e9 algo que se aproxima muito de uma religi\u00e3o, portanto, extremamente nocivo para quem o faz e para a sociedade.<\/p>\n<p>Idolatria turva o discernimento, te faz perder tempo olhando para uma criatura imagin\u00e1ria que s\u00f3 existe na sua cabe\u00e7a (a pessoa real \u00e9 bem diferente) projetando nela o que voc\u00ea admira ou gostaria ser, em vez de olhar para a sua vida, para as suas quest\u00f5es e tentar melhorar sua realidade. \u00c9 uma fuga, uma anestesia. E, como tudo que turva o seu discernimento, acaba levando a p\u00e9ssimas escolhas, que foi o que vimos esta semana na Argentina.<\/p>\n<p>Um Governo que manteve as pessoas por quase nove meses de quarentena, uma das mais longas do mundo, achou que era coerente com suas escolhas liberar um vel\u00f3rio para mais de um milh\u00e3o de pessoas. Enquanto milhares n\u00e3o puderam nem velar seus entes queridos (independente da causa da morte), t\u00e1 tudo bem aglomerar pessoas em um local fechado para ver um corpo sem vida de uma pessoa que ningu\u00e9m ali conhecia.<\/p>\n<p>O pior foi a desculpa: que se n\u00e3o o fizessem, o resultado seria ainda pior. Beleza, acabaram de passar um recibo de que o Governo n\u00e3o tem o menor controle sobre o povo. Sim, o argentino ia promover uma baderna n\u00edvel guerra civil se lhes fosse negado esse vel\u00f3rio, mas cabe ao Poder P\u00fablico impedir que isso aconte\u00e7a. Vai abrir as pernas para cada demanda nociva das massas por medo do que eles v\u00e3o fazer?<\/p>\n<p>Obviamente o vel\u00f3rio deu merda. Excluindo o fato de que vieram jornalistas e pessoas de todas as cidades e de todos os pa\u00edses do mundo e entraram sem teste para covid e sem quarentena, o que vimos foi uma enorme aglomera\u00e7\u00e3o onde era imposs\u00edvel fiscalizar se pessoas usavam m\u00e1scaras. Um amontoado de gente que de forma alguma respeitava um distanciamento social seguro, muitos com crian\u00e7as de colo e at\u00e9 beb\u00eas.<\/p>\n<p>O prazo para encerramento do vel\u00f3rio era \u00e0s 16h. Obviamente, quando essa hora chegou, muita gente ainda n\u00e3o tinha conseguido entrar. Fecharam os port\u00f5es e as pessoas que ficaram de fora (n\u00e3o eram poucos) derrubaram os port\u00f5es na porrada, meteram a porrada na pol\u00edcia e entraram \u00e0 for\u00e7a, de forma desordenada. Eu sou suspeita para falar pois desde sempre desgosto do peronismo, mas isso \u00e9 t\u00edpico de governos populistas como s\u00e3o os peronistas: alimentam idolatria, alimentam circo e n\u00e3o conseguem conter o povo.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 preciso quebrar toda a Casa Rosada e descer o cacete em policiais para se portar de forma insana. Gente passional chorando, com os bra\u00e7os estendidos para o c\u00e9u, pedindo que Deus troque, o leve e devolva Maradona \u00e9 o mesmo patamar de loucura. Nada disso \u00e9 sobre o Maradona e sim sobre a insanidade e os problemas n\u00e3o resolvidos que as pessoas t\u00eam dentro de si. \u00c9 para isso que \u00eddolos servem, para dar vaz\u00e3o a todo o lixo que temos dentro da gente, projetando-o em um desconhecido.<\/p>\n<p>Quem idolatra n\u00e3o \u00e9 uma pessoa intensa, \u00e9 uma pessoa com severos problemas. N\u00e3o \u00e9 normal fazer esse esc\u00e2ndalo por uma pessoa que voc\u00ea nem conhecia. Na real, n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel fazer esse esc\u00e2ndalo por ningu\u00e9m. Vamos todos morrer, estejam preparados, faz parte da vida. A dor \u00e9 inevit\u00e1vel, mas o sofrimento \u00e9 opcional. Passem por isso com o m\u00e1ximo de gra\u00e7a e eleg\u00e2ncia, sem chorar e pedir a Deus que te leve e traga a pessoa de volta. <\/p>\n<p>Hora de parar de relacionar esc\u00e2ndalo e descontrole com amor. Amor \u00e9 consci\u00eancia, \u00e9 estabilidade emocional, n\u00e3o choro, gritaria e passionalidade. Mas, se voc\u00ea diz isso em voz alta, vira insens\u00edvel, escroto e morto por dentro. Latino ainda carrega esse mito de que, para ser amor tem que ser intenso, bagun\u00e7ado, extremo e quem n\u00e3o \u00e9 assim \u00e9 \u201cfrio\u201d. \u00c9 dignidade que chama, n\u00e3o frieza. Mas se querem continuar se comportando como s\u00edmios, beleza. N\u00e3o esperem aplausos nossos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o foi s\u00f3 na Argentina o desfavor. O mundo todo adotou aquela postura de canoniza\u00e7\u00e3o post mortem: quando era vivo, Maradona era motivo de chacota, de piada. Cada vez que aparecia muito doido virava Meme, era esculachado, ridicularizado. Agora que morreu virou um santo e n\u00e3o se pode mais falar dele. Quem fez piada com ele em redes sociais foi repreendido. V\u00e3o tomar no cu. O pr\u00f3prio Maradona fazia piada consigo mesmo o tempo todo, bando de moralista hip\u00f3crita.<\/p>\n<p>Mas, o que mais me chocou (e sempre me choca) foi o culto ao corpo. Arriscar a pr\u00f3pria vida e a dos seus familiares para ver um corpo morto, inerte, sem vida. Maradona n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1. N\u00e3o importa no que voc\u00ea acredite, \u00e9 consenso em todas as cren\u00e7as que ele n\u00e3o estava mais ali, naquele caix\u00e3o. Que porra de import\u00e2ncia \u00e9 essa que d\u00e3o ao corpo, como se ele fosse a ess\u00eancia da pessoa? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o seu corpo, Maradona n\u00e3o era o corpo dele. \u00c9 como confundir o motorista com seu carro, o corpo \u00e9 um meio para que realizemos o que queremos, mas n\u00e3o somos n\u00f3s. <\/p>\n<p>N\u00e3o consigo definir com outra palavra que n\u00e3o \u201cinsanidade\u201d quem arrisca a vida, cai na porrada com a pol\u00edcia e comete crime para ver o corpo sem vida de uma pessoa que nem conhecia. Se ele estivesse vivo e a pessoa pudesse interagir com ele, eu entenderia, mas n\u00e3o \u00e9 o caso. \u00c9 um peda\u00e7o de carne morta, como seria um bicho atropelado no meio da estrada. O formato que a carne morta tem pouco importa, n\u00e3o \u00e9 mais o Maradona. E brigar para ver um peda\u00e7o de carne morta que tem o formato do Maradona vai ter seu pre\u00e7o, n\u00e3o afeta s\u00f3 os idiotas que o fizeram e sim toda a na\u00e7\u00e3o: em breve, uma segunda onda de covid 19 chegar\u00e1 ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>A imprensa, \u00f3bvio, sempre perpetrando desfavores. Insistiram no antagonismo de quem era o \u201crei\u201d, Maradona ou Pel\u00e9. Mas nem morto o sujeito tem paz? D\u00e1 para ter um, dois, dez reis. N\u00e3o precisa um ser melhor do que o outro. N\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis, s\u00e3o \u00e9pocas diferentes, s\u00e3o realidades diferentes. A\u00ed come\u00e7am a vazar fotos da aut\u00f3psia, de fulaninho que fez selfie no caix\u00e3o, depoimentos de pessoas que atribuem a morte dele \u00e0 fam\u00edlia, que o obrigou a ficar de quarentena na casa&#8230; N\u00e3o d\u00e1 para respeitar a dor de filhas que acabaram de perder um pai? Todo mundo sabe muito bem o que matou o Maradona, e certamente n\u00e3o foi sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por sinal, a fam\u00edlia de Maradona n\u00e3o queria vel\u00f3rio, n\u00e3o queria nada. Sempre tentaram manter El Diego longe dos holofotes e falharam, pois Maradona tinha um ego do tamanho da sua barriga. O pr\u00f3prio Maradona disse em vida que queria uma mega despedida. Pediu at\u00e9 para ter seu corpo embalsamado e exporto ao p\u00fablico. Olha, se a inten\u00e7\u00e3o era ver um corpo sem vida, poderiam ter esperado pelo corpo embalsamado e pegar senha para visitar, de forma ordenada.<\/p>\n<p>Fica aqui nosso recado: idolatria n\u00e3o \u00e9 para ser elogiada, \u00e9 para ser combatida. Faz mal para quem idolatra, faz mal para o idolatrado e faz mal para a sociedade. N\u00e3o \u00e9 amor, n\u00e3o \u00e9 um sentimento v\u00e1lido, \u00e9 descontrole e infantiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que v\u00e3o cancelar minha cidadania argentina, para dizer que Maradona morreu em 1994, depois de ter sido pego no doping na Copa do Mundo e o resto foi hora-extra ou ainda para dizer que, como n\u00e3o foi no seu pa\u00eds, riu da treta: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SOMIR<\/span><\/h4>\n<p>Escutei um comentarista esportivo dizer na TV que a melhor forma de entender o que aconteceu com os argentinos na morte do Maradona \u00e9 lembrar de como o brasileiro se sentiu quando o Senna morreu. E faz muito sentido, tanto para explicar esse sentimento de tristeza coletivo como para dar o tamanho do que foi Maradona para o povo daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como \u00e9 bem poss\u00edvel que tenhamos muitos leitores que eram muito pequenos ou sequer tinham nascido em 1994, talvez valha a pena fazer um relato pessoal da morte do piloto brasileiro antes de desenvolver o resto do argumento: eu ainda era novo e muito menos cr\u00edtico no meu pensamento, ent\u00e3o, experimentei o pacote completo. Como muitos brasileiros naquele dia, eu estava vendo a corrida, como via todos os domingos. Vi ao vivo nas pessoas ao meu redor e na cobertura da televis\u00e3o todas as rea\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds ficando monotem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Eu era basicamente uma crian\u00e7a, ent\u00e3o chorei bastante. Eu realmente gostava das corridas e torcia h\u00e1 alguns anos por ele (o que naquela idade \u00e9 uma boa parte da sua vida). O que me pegou de surpresa foi a rea\u00e7\u00e3o dos adultos: quando voc\u00ea \u00e9 novo, ver adultos se abalarem pelas mesmas coisas que voc\u00ea \u00e9 um choque. S\u00f3 que eu fui notando alguns padr\u00f5es: alguns adultos ficaram tristes por um tempo, outros ficaram realmente mal. Algumas pessoas contavam hist\u00f3rias interessantes sobre o Senna, outras reclamavam da injusti\u00e7a, ficavam com raiva&#8230;<\/p>\n<p>Os adultos que mais levaram isso numa boa foram meus pais e alguns membros selecionados da fam\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 que fizeram pouco caso ou tiraram sarro, s\u00f3 ficaram chateados na hora, mas depois seguiram normalmente. O que me ajudou. Foi um domingo triste, mas segunda-feira tinha escola. E o curioso, alguns colegas estavam chateados, outros estavam arrasados. O que foi um al\u00edvio pra mim: sim, o Senna morrer foi um golpe em quem gostava tanto de ver as corridas e ver ele ganhando t\u00edtulos, mas eu n\u00e3o conseguia ficar arrasado por tanto tempo assim como algumas pessoas, especialmente as da TV. Eu tinha uma fam\u00edlia que n\u00e3o se abalou demais e amigos que n\u00e3o estavam monotem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Demorou um tempo para eu conectar os pontos: o pessoal da minha fam\u00edlia que s\u00f3 falava de futebol ficou muito abalado. Os que falavam de assuntos variados e faziam as piadas mais malucas nem tanto. Meus amigos que conversavam de videogame e tiravam notas altas estavam numa boa, mas a turma do fund\u00e3o parecia bem abalada. Evidente que eu n\u00e3o tinha capacidade de entender aquilo em 1994, mas em 2020 o padr\u00e3o se forma: o grau de dor pela morte de um \u00eddolo, especialmente esportivo, parece diretamente proporcional a quanta coisa se tem dentro da sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Dizem que cabe\u00e7a vazia \u00e9 oficina do diabo, mas talvez seja a oficina dos \u00eddolos. Ningu\u00e9m est\u00e1 pregando a supress\u00e3o dos sentimentos aqui, cada um sente o que o sente, e n\u00e3o \u00e9 crime algum ficar triste porque uma pessoa que voc\u00ea admira morre. Mas, as coisas t\u00eam limite nessa vida. Tanto no Brasil em 1994 quando na Argentina em 2020, aposto que muita gente chorou mais pelo \u00eddolo esportivo que por toda a fam\u00edlia. Em alguns casos pode at\u00e9 ser v\u00e1lido, mas via de regra \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de desequil\u00edbrio emocional e alta suscetibilidade \u00e0 histeria coletiva.<\/p>\n<p>Temos \u00eddolos e her\u00f3is, \u00e9 normal. Mas essa forma de canoniza\u00e7\u00e3o popular comum especialmente em povos latinos \u00e9 sinal de algo saindo do tom. Maradona foi um g\u00eanio no seu esporte e um maluco sem filtros no resto da vida, mereceu uma parte da como\u00e7\u00e3o sim, mas ningu\u00e9m merece a insanidade coletiva de uma aglomera\u00e7\u00e3o em plena pandemia, viol\u00eancia e depreda\u00e7\u00e3o para olhar um corpo&#8230; porque isso \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o de pessoas problem\u00e1ticas e\/ou influenci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Eu tive a sorte de ver adultos dando bons exemplos: exprimir o sentimento de perda sem exagero me ajudou a modular minha rea\u00e7\u00e3o. Sim, foi muito triste que o Senna tenha morrido naquela curva em \u00cdmola, mas a minha vida era muito mais do que aquilo. Quando passou a dor, eu n\u00e3o me senti nem um pouco culpado, afinal, tinha gente ao meu redor que me fez acreditar que estava de bom tamanho. N\u00e3o quero ser conspirat\u00f3rio, mas talvez muitos adultos de hoje n\u00e3o tenham tido esse tipo de exemplo na inf\u00e2ncia: viram todos ao seu redor entrar numa catarse coletiva sem vergonha nenhuma de idolatrar um cara que dirigia muito bem, mas que no final das contas n\u00e3o tinha impacto direto na vida delas.<\/p>\n<p>Essa loucura em rela\u00e7\u00e3o a \u00eddolos \u00e9 parte integrante de um vazio interno que muita gente experimenta na vida. E talvez o mais surpreendente \u00e9 que esse vazio \u00e9 uma ilus\u00e3o: mil\u00eanios de propaganda sobre grandes prop\u00f3sitos ou felicidade idealizada deixaram boa parte da humanidade na d\u00favida se estava faltando alguma coisa na sua vida. O \u00eddolo, esportivo ou mesmo pol\u00edtico como t\u00e3o em voga, parece algu\u00e9m que sabe o que est\u00e1 faltando, ou algu\u00e9m pelo qual voc\u00ea vai conseguir preencher esse vazio.<\/p>\n<p>J\u00e1 pensaram que n\u00e3o est\u00e1 faltando nada? Que esse buraco na alma foi criado para vender mais b\u00edblias e iphones? Os melhores de n\u00f3s podem cair nessa armadilha, basta n\u00e3o ter bons exemplos ao seu redor num momento vulner\u00e1vel. Senna foi um piloto espetacular, mas se for para ficar com uma admira\u00e7\u00e3o pra vida naquela hist\u00f3ria toda, que seja pelos adultos ao meu redor naqueles dias que me mostraram que tudo bem ficar triste, mas que a vida \u00e9 muito mais do que \u00eddolos.<\/p>\n<p>A Argentina tem muita coisa boa, mas quando voc\u00ea v\u00ea o tipo de como\u00e7\u00e3o que a morte de um jogador de futebol causa, come\u00e7a a entender porque eles est\u00e3o presos basicamente no mesmo limbo evolutivo que o Brasil.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que faltou guerra nesse continente para deixar o povo mais macho, para dizer que estamos testando sua f\u00e9 em Maradona, ou mesmo para dizer que eu estou velho: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O adeus a Diego Armando Maradona foi do jeito que o melhor o representa: intenso. 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