{"id":17937,"date":"2021-01-22T13:40:14","date_gmt":"2021-01-22T16:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=17937"},"modified":"2021-01-22T13:40:14","modified_gmt":"2021-01-22T16:40:14","slug":"buraco-cinza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/01\/buraco-cinza\/","title":{"rendered":"Buraco cinza."},"content":{"rendered":"<p>18 de Abril, 2103<\/p>\n<p>Lao boceja longamente sentado na cama. Estica os bra\u00e7os e move o pesco\u00e7o de um lado para o outro, juntando for\u00e7as para se levantar. Irina, deitada no compartimento \u00e0 sua frente, o observa com o mesmo olhar desanimado dos \u00faltimos dias. Lao sorri, Irina n\u00e3o corresponde.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cQuem sabe hoje n\u00f3s conseguimos?\u201d \u2013 Lao diz ao se erguer.<\/p>\n<p>\u201cMorrer? Tomara.\u201d \u2013 Irina diz antes de virar as costas para Lao.<\/p>\n<p>Lao j\u00e1 era um homem franzino no come\u00e7o da miss\u00e3o, mas depois de um m\u00eas de alimenta\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria e gravidade reduzida, tornara-se cadav\u00e9rico. As ma\u00e7\u00e3s do rosto saltadas sobre uma pele cada vez mais ressecada emolduravam um sorriso que nem sabia mais se era fruto de esperan\u00e7a ou ilus\u00e3o. Longe dos olhos de Irina, o sorriso se desfaz.<\/p>\n<p>Ele percorre o corredor principal da Frontier-18, a mais formid\u00e1vel nave criada nos estaleiros lunares, fruto do trabalho conjunto de engenheiros e cientistas de todos os cantos do Sistema Solar. Um motor de fus\u00e3o como s\u00f3 os terr\u00e1queos teriam a aud\u00e1cia de produzir nessa pot\u00eancia, sistema de suporte \u00e0 vida aperfei\u00e7oado por s\u00e9culos de experi\u00eancia em Marte e no cintur\u00e3o de asteroides, e um computador de navega\u00e7\u00e3o desenvolvido pelos mais corajosos desbravadores do espa\u00e7o transnetuniano.<\/p>\n<p>Tudo desenvolvido para visitar e estudar S1-H4681-J, ou, como se popularizou chamar, O Pequeno Monstro. Um buraco-negro nos arredores do Sistema Solar, propor\u00e7\u00f5es diminutas percept\u00edveis apenas pelos mais avan\u00e7ados sistemas de detec\u00e7\u00e3o das \u00faltimas d\u00e9cadas. Uma equipe de oito deixou a Lua a bordo da Frontier-18.<\/p>\n<p>Lao senta-se \u00e0 mesa do refeit\u00f3rio diante de uma tigela com poucas gramas de um preparado proteico para emerg\u00eancias. Logo Irina adentra o ambiente, ocupando a segunda das oito cadeiras. Lao estende a m\u00e3o, oferecendo o resto do saco com a subst\u00e2ncia para sua colega. Irina suspira antes de aceitar.<\/p>\n<p>\u201cQuantos mais?\u201d \u2013 Ela pergunta.<\/p>\n<p>\u201cPara hoje e amanh\u00e3.\u201d \u2013 Lao joga um copo d\u2019\u00e1gua na tigela e come\u00e7a a misturar.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o aguento mais. Eu vou me jogar hoje, j\u00e1 decidi. Foi culpa minha.\u201d \u2013 Irina, esqu\u00e1lida, nem sombra da mulher voluptuosa que adentrou a nave quatro meses atr\u00e1s, coloca as m\u00e3os no rosto, destacando as pesadas olheiras de quem n\u00e3o parece dormir bem h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>\u201cOntem quase funcionou. N\u00e3o tem isso de culpa, eu preciso de voc\u00ea. Ainda tem energia no reator para tentar mais algumas vezes. Se der errado, n\u00f3s pulamos de m\u00e3os dadas. O que voc\u00ea diz?\u201d \u2013 Lao estende a m\u00e3o em busca da m\u00e3o de Irina.<\/p>\n<p>Ela titubeia por alguns momentos, mas lentamente repete o gesto. As m\u00e3os dos dois se tocam enquanto ela faz um sinal de positivo com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o pobre desjejum, os dois seguem com dificuldade at\u00e9 o compartimento central da nave. Uma antessala providencia os trajes espaciais necess\u00e1rios para continuar a jornada. J\u00e1 paramentados, os dois esperam a descompress\u00e3o e atravessam uma comporta rumo ao sal\u00e3o do gerador. Meses atr\u00e1s, a micro usina de fus\u00e3o provia energia suficiente para uma viagem de ida e volta at\u00e9 a estrela mais pr\u00f3xima com apenas algumas toneladas de combust\u00edvel. Um dos grandes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos do s\u00e9culo, foi desenvolvida para tirar vantagem das propriedades \u00fanicas da rec\u00e9m-descoberta mat\u00e9ria ex\u00f3tica.<\/p>\n<p>Ou, algo do tipo. Lao era um engenheiro de suporte de vida, Irina estava na nave apenas para gui\u00e1-la at\u00e9 seu objetivo. Toda a tripula\u00e7\u00e3o capaz de explicar o funcionamento daquele reator havia sido sugada pelo buraco negro h\u00e1 algumas semanas. Lao e Irina escaparam desse destino justamente por n\u00e3o fazerem parte do grupo de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao adentrarem o sal\u00e3o do reator, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se lembrar das cenas horr\u00edveis que testemunharam naquele fat\u00eddico dia. Metade da sala estava sob uma escurid\u00e3o completa, presa dentro do horizonte de eventos do buraco negro, e a metade onde pisavam continuava est\u00e1vel. O ponto onde a transi\u00e7\u00e3o parecia parar abruptamente era justamente o centro exposto do reator. Em condi\u00e7\u00f5es normais, a energia liberada pela fus\u00e3o sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o deveria ter destru\u00eddo a nave por completo, mas o buraco negro parecia sugar o excesso, com apenas um leve brilho escapando para manter o local numa temperatura at\u00e9 que agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Apenas um cabo ligava o reator ao resto da nave, e por ele vinha toda a energia que utilizavam desde o acidente. Lao come\u00e7a a se aproximar do equipamento, mas Irina o segura. Ela aponta para uma chave de seguran\u00e7a. Lao se sente terr\u00edvel: se tivesse come\u00e7ado o procedimento sem isolar a carga primeiro, teria explodido tudo ao seu redor. H\u00e1 alguns dias que sua cabe\u00e7a n\u00e3o funciona t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Irina aperta um bot\u00e3o e libera a trava do mecanismo. Lao agradece e come\u00e7a a trabalhar no terminal de controle do reator. O plano era redirecionar a energia para uma bateria de emerg\u00eancia montada de forma quase que artesanal pelos dois com restos e pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o. Com um estoque de energia desconectado do reator, poderiam explodir a conex\u00e3o e usar o impulso para sair da \u00e1rea de influ\u00eancia do Pequeno Monstro.<\/p>\n<p>O buraco-negro n\u00e3o tinha mais do que alguns quil\u00f4metros de di\u00e2metro, exercendo pouca atra\u00e7\u00e3o gravitacional al\u00e9m do seu horizonte de eventos. Talvez por isso o capit\u00e3o da miss\u00e3o e a chefe do corpo cient\u00edfico ficaram t\u00e3o confiantes numa aproxima\u00e7\u00e3o. Tudo corria bem h\u00e1 algumas centenas de metros de dist\u00e2ncia do objeto celeste, at\u00e9 que um leve empurr\u00e3o na nave a mandou diretamente na dire\u00e7\u00e3o do Pequeno Monstro.<\/p>\n<p>Lao e Irina n\u00e3o sabiam explicar o que havia causado o movimento n\u00e3o programado, mas nunca mais esqueceriam os gritos de desespero da equipe na parte frontal da nave, subitamente silenciados com o contato. A nave seguiu afundando no buraco negro at\u00e9 ser parada pelo reator. Seis pessoas desapareceram naquele dia.<\/p>\n<p>Apenas os dois restaram. O sistema de comunica\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o da nave n\u00e3o pareciam mais funcionar, mas o suporte \u00e0 vida resistiu com uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de Lao ao isol\u00e1-los do sal\u00e3o do reator. Quase todo o estoque de alimentos foi perdido. H\u00e1 algumas semanas a dupla tentava colocar o plano de capturar um pouco da energia numa bateria para escapar dali, mas vez ap\u00f3s vez as coisas deram errado, num misto de pouco conhecimento t\u00e9cnico na \u00e1rea e muito pela fraqueza causada pela situa\u00e7\u00e3o cada vez mais prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>Dessa vez, Lao decide redirecionar a carga extra de volta para o reator, presumindo que o buraco-negro v\u00e1 dar conta dela. Algo que n\u00e3o tentaria alguns dias atr\u00e1s, mas prevendo a morte iminente por inani\u00e7\u00e3o, ou talvez pior, a sobreviv\u00eancia atrav\u00e9s de medidas desesperadas, decide que qualquer risco vale a pena. Ele conecta os cabos da bateria no reator.<\/p>\n<p>Mais uma ideia que n\u00e3o d\u00e1 certo. A bateria explode. A energia redirecionada para o reator n\u00e3o \u00e9 absorvida pelo buraco negro, \u00e9 refletida. O traje resiste ao impacto, que o joga contra as paredes do sal\u00e3o, h\u00e1 alguns metros de dist\u00e2ncia. Irina vai junto. Os dois fazem um \u00faltimo esfor\u00e7o para sair dali, fecham a comporta e iniciam a compress\u00e3o novamente.<\/p>\n<p>Assim que \u00e9 seguro tirar o capacete, Irina diz, ofegante:<\/p>\n<p>\u201cAcabou. N\u00e3o tem como construir outra bateria com o que sobrou&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Lao apenas concorda, resignado. Ele coloca o capacete de volta e estende a m\u00e3o para Irina. Ela, com l\u00e1grimas nos olhos, segura sua m\u00e3o. Eles se colocam diante da comporta, Irina ativa o sistema manual de abertura. Eles se entreolham mais uma vez, Lao acena de forma positiva com a cabe\u00e7a. Irina desbloqueia a porta sem refazer a descompress\u00e3o. Todo o ar da nave \u00e9 sugado para o sal\u00e3o do reator, e com ele, a dupla.<\/p>\n<p>O movimento n\u00e3o \u00e9 brusco, os dois come\u00e7am a flutuar lentamente rumo ao buraco negro. A nave toda parece se mexer e come\u00e7ar a ser sugada. O reator est\u00e1 com uma luz muito mais fraca. N\u00e3o soltam as m\u00e3os at\u00e9 finalmente tocaram no horizonte de eventos. Lao \u00e9 puxado primeiro, Irina logo depois. N\u00e3o sentem dor em momento algum.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>15 de Mar\u00e7o, 2103<\/p>\n<p>\u201cEu prefiro ficar mais longe do que isso.\u201d \u2013 Irina aponta para uma tela com a trajet\u00f3ria da Frontier-18.<\/p>\n<p>\u201cFazia parte da miss\u00e3o se aproximar at\u00e9 o limite seguro. Estamos no limite seguro.\u201d \u2013 Lorent, o capit\u00e3o da miss\u00e3o, desconsidera os avisos de Irina como j\u00e1 tinha feito in\u00fameras outras vezes desde o come\u00e7o da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMantenha a gente est\u00e1vel nessa \u00f3rbita, essa \u00e9 sua miss\u00e3o, entendido?\u201d \u2013 Sabrina, cientista-chefe, mal se d\u00e1 ao trabalho de olhar na dire\u00e7\u00e3o da piloto, focada no que estava sendo projetado a sua frente.<\/p>\n<p>\u201cO buraco negro est\u00e1 imitando os nossos sinais, \u00e9 isso?\u201d \u2013 Lorent pergunta para Sabrina.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 mais complexo do que isso.\u201d<\/p>\n<p>Sabrina sai da sala de comando, e \u00e9 seguida por Lorent.<\/p>\n<p>\u201cO sinal est\u00e1 com uma data diferente&#8230; dia 18 de Abril&#8230;\u201d \u2013 ela diz.<\/p>\n<p>\u201cEstamos captando sinais da nossa nave no futuro?\u201d \u2013 ele pergunta.<\/p>\n<p>\u201cAcho improv\u00e1vel.\u201d \u2013 ela continua andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 parte frontal da nave.<\/p>\n<p>Na sala de comando, Irina confirma mais algumas vezes que a rota est\u00e1 correta. Finalmente se convence que tudo est\u00e1 correto e reclina na cadeira para ativar seu projetor ocular enquanto espera pelo pr\u00f3ximo comando.<\/p>\n<p>Lao entra na sala.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o me querem por l\u00e1, meu pai me disse que engenheiro de suporte \u00e9 um zelador glorificado e eu n\u00e3o quis ouvir&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Irina se volta para Lao e ri. Ela faz um sinal com a m\u00e3o para ele se aproximar. Os dois dividem um sinal de um filme antigo enquanto conversam despreocupados, como faziam desde o come\u00e7o da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o interrompidos por um movimento brusco da nave. Irina se volta imediatamente para o painel: a rota havia sido modificada. A nave acelera em dire\u00e7\u00e3o ao buraco negro, e ambos podem ouvir gritos de socorro pelo comunicador.<\/p>\n<p>Enquanto Lao e Irina correm para a parte frontal da nave, n\u00e3o percebem a cena que surge nos monitores da sala de comando: duas pessoas flutuando de m\u00e3os dadas para longe do buraco negro.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que nem eu devo ter entendido, para reclamar de novo dos nomes, ou mesmo para dizer que estou nerd demais essa semana: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18 de Abril, 2103 Lao boceja longamente sentado na cama. Estica os bra\u00e7os e move o pesco\u00e7o de um lado para o outro, juntando for\u00e7as para se levantar. Irina, deitada no compartimento \u00e0 sua frente, o observa com o mesmo olhar desanimado dos \u00faltimos dias. 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