{"id":18104,"date":"2021-02-26T13:25:26","date_gmt":"2021-02-26T16:25:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18104"},"modified":"2021-02-26T13:25:26","modified_gmt":"2021-02-26T16:25:26","slug":"culpa-compartilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/02\/culpa-compartilhada\/","title":{"rendered":"Culpa compartilhada."},"content":{"rendered":"<p>Nesta semana, tivemos um terr\u00edvel caso de assassinato: um adolescente matou uma garota a facadas, filmou o corpo e publicou na internet. O rapaz confessou o crime e j\u00e1 est\u00e1 preso. Nos v\u00eddeos da abordagem policial, ele n\u00e3o demonstrou remorso algum. Os dois se conheciam por jogarem juntos um game online, e \u00e9 claro que isso virou foco da hist\u00f3ria&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Estou sendo vago sobre o assassino e a v\u00edtima de prop\u00f3sito: n\u00e3o acho razo\u00e1vel dar muita aten\u00e7\u00e3o para uma pessoa perturbada nem explorar a imagem de uma garota assassinada. Vamos ent\u00e3o olhar para o mesmo \u00e2ngulo da m\u00eddia: o ambiente t\u00f3xico dos games online e sua parcela de culpa nesses comportamentos violentos.<\/p>\n<p>De tempos em tempos eu gosto de analisar uma cren\u00e7a minha, daquelas bem seguras dentro da mente, e ver se ela ainda resiste aos fatos. H\u00e1 d\u00e9cadas que eu n\u00e3o dou trela para quem acha que os videogames est\u00e3o deixando os jovens violentos, \u00e9 papo furado desde Columbine.<\/p>\n<p>Mas, para falar a verdade, j\u00e1 se passou muito tempo desde Columbine&#8230; talvez seja uma boa ideia revisar isso. O argumento original \u00e9 que o videogame n\u00e3o cria pessoas violentas, afinal, se criasse provavelmente ter\u00edamos milhares de casos de massacres e assassinatos cru\u00e9is entre adolescentes todos os dias. E considerando que os gamers j\u00e1 envelheceram bastante nesse meio tempo, inclusive entre adultos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 isso que vemos no dia a dia, n\u00e3o? Mesmo em pa\u00edses muito violentos como o Brasil, assassinatos quase sempre est\u00e3o ligados \u00e0 criminalidade mais comum: assaltos, tr\u00e1fico, guerras entre quadrilhas. Complicado argumentar que algu\u00e9m que vive numa favela sob o controle de uma fac\u00e7\u00e3o criminosa est\u00e1 pegando seu comportamento ruim de jogos.<\/p>\n<p>Bom, talvez n\u00e3o seja exatamente a quest\u00e3o do jogo. Viol\u00eancia virtual costuma ser bem simples de separar da real, pelo menos para a imensa maioria de n\u00f3s. Matar algu\u00e9m num jogo n\u00e3o carrega o mesmo peso sequer de dar um soco numa pessoa real. O argumento de banaliza\u00e7\u00e3o costuma ignorar os resultados pr\u00e1ticos: j\u00e1 temos algumas gera\u00e7\u00f5es criadas com jogos violentos de alta fidelidade, e n\u00e3o vimos nada de chamativo nos n\u00fameros da viol\u00eancia urbana.<\/p>\n<p>Precisa de alguma rela\u00e7\u00e3o entre os fatos para levar essa ideia pra frente. O problema \u00e9 que vivemos numa era onde finalmente conseguimos ter acesso a informa\u00e7\u00f5es sobre o que acontece no mundo todo, em tempo real. Claro que parece que todos os crimes est\u00e3o em alta, mas quando voc\u00ea puxa os dados consolidados mesmo, a viol\u00eancia global est\u00e1 em queda h\u00e1 algumas d\u00e9cadas (desde quando come\u00e7amos a realmente ter mais confian\u00e7a nos n\u00fameros).<\/p>\n<p>Talvez esse argumento tenha mais for\u00e7a se come\u00e7armos a pensar nas comunidades online que se formam ao redor desse tipo de p\u00fablico. \u00c9 f\u00e1cil desdenhar do papo lacrador de masculinidade t\u00f3xica e esquecer que tem sim algo de podre em muitas comunidades virtuais. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque tem gente usando o assunto para se vitimizar e mendigar aten\u00e7\u00e3o que temos que ignorar completamente.<\/p>\n<p>Algo que eu nunca vejo nas discuss\u00f5es sobre o tema \u00e9 o comportamento natural de adolescentes: eles podem ser horr\u00edveis uns com os outros. N\u00e3o precisa de computador para isso. \u00c9 uma fase de transi\u00e7\u00e3o entre um ser \u201cp\u00fablico\u201d e um ser \u201cparticular\u201d. A crian\u00e7a \u00e9 crian\u00e7a e todos costumam trat\u00e1-las mais ou menos do mesmo jeito, o adolescente j\u00e1 come\u00e7a a ter um nome e um identidade pr\u00f3pria. Precisa da sua afirma\u00e7\u00e3o pessoal. E isso muitas vezes gera comportamentos pra l\u00e1 de desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Comportamentos que simplesmente se traduziram para a internet com a mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica que vivenciamos recentemente. S\u00e3o as mesmas pessoas procurando acertar o mix de identidade pessoal e pertencimento a um grupo que vemos h\u00e1 mil\u00eanios, agora com um smartphone na m\u00e3o. E h\u00e1 mil\u00eanios, adolescentes podem ser muito desequilibrados e por vezes, violentos.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que toda essa conversa de jovens se perdendo em comunidades virtuais cheias de radicalismo e apologia \u00e0 viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas uma \u201cnostalgia do que nunca existiu\u201d? J\u00e1 esqueceram as merdas que achavam bacana nessa idade? Eu achava o m\u00e1ximo ver clipes \u201csat\u00e2nicos\u201d de bandas que faziam pose de malvadas. Hoje em dia eu revejo essas coisas e morro de rir. S\u00e3o marmanjos com roupas pretas e cara pintada fazendo cara feia!<\/p>\n<p>Mas quando era adolescente, aquilo era muito hardcore! Eu n\u00e3o era mais uma crian\u00e7a, eu n\u00e3o queria mais coisa de crian\u00e7a! Me encontrei numa comunidade de gente que se vestia de preto e se achava super malvada, mas na pr\u00e1tica \u00e9ramos apenas uns bobos encontrando o caminho na vida. Hoje em dia quase toda aquela turma \u201cdo mal\u201d est\u00e1 casada com filhos e contas para pagar. Trabalham com camisa social e \u00e0s vezes ficam com dor nas costas.<\/p>\n<p>Eu come\u00e7o a acreditar que a adolesc\u00eancia deve ser realmente traum\u00e1tica, porque os adultos simplesmente n\u00e3o lembram dos babacas que foram. Entram em choque quando veem que os adolescentes atuais t\u00eam vis\u00f5es radicais e acham bonito quem usa drogas e se mete em situa\u00e7\u00f5es perigosas em geral. Oras, quase todo adolescente tem esse ponto fraco. \u00c9 uma fase. Algumas pessoas nunca saem dela, mas pensem no mundo ao seu redor: a maioria sai dela e vai ser adulta. Pode at\u00e9 ser uma adulta babaca, mas \u00e9 outra fase.<\/p>\n<p>Se essa fase adolescente acontece numa pra\u00e7a ou numa comunidade virtual, n\u00e3o muda muita coisa. Pessoas ainda s\u00e3o pessoas. Existe uma sequ\u00eancia de comportamentos nessa fase de crescimento que \u00e9 bem comum (n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria, \u00e9 claro, mas \u00e9 comum) e n\u00e3o define exatamente como o adulto vai ser.<\/p>\n<p>Demonizaram todo tipo de passatempo de adolescente nessas \u00faltimas d\u00e9cadas. Comunidades online s\u00e3o mais do mesmo: \u00e9 onde se encontra a maioria das pessoas, ent\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 onde se encontra a maioria desses jovens falando besteira e disputando para ver quem \u00e9 mais \u201cadult\u00e3o\u201d para impressionar uns aos outros.<\/p>\n<p>Sim, existem psicopatas ou pessoas com s\u00e9rios transtornos mentais nesses meios, assim como sempre existiram os tipos antes da internet. Infelizmente \u00e9 uma quest\u00e3o de probabilidade: dado um n\u00famero suficiente de pessoas, uma delas vai ser uma assassina em potencial. No final das contas, parece que estamos muito focados em ter ambientes absolutamente saud\u00e1veis para que os jovens n\u00e3o cometam crimes e cheguem na vida adulta de forma produtiva. Mas, algu\u00e9m combinou isso com a natureza?<\/p>\n<p>O que configura um ambiente saud\u00e1vel? Esconder dos jovens que viol\u00eancia existe? Ensin\u00e1-los a recitar noventa g\u00eaneros diferentes? Um dos maiores problemas do movimento para tentar salvar esses jovens da pr\u00f3pria adolesc\u00eancia \u00e9 que n\u00e3o se pode controlar um ser humano dessa forma. Quer dizer, at\u00e9 d\u00e1, mas isso acabaria num fascismo que eu duvido que seja o objetivo real de quem reclama dessas comunidades online.<\/p>\n<p>A verdade dolorida \u00e9 que n\u00e3o existe aten\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel no mundo para esses jovens. A maioria absoluta resiste e d\u00e1 seu jeito de se encaixar na sociedade alguns anos depois, muito embora n\u00e3o seja o ideal e acabemos com uma multid\u00e3o de deprimidos e ansiosos. Mas de alguma forma, conseguimos lidar com isso. Alguns jovens precisam de muito mais aten\u00e7\u00e3o, especialmente aqueles que j\u00e1 come\u00e7am a dar sinais de problemas psicol\u00f3gicos. Se aten\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 em falta para adolescentes que n\u00e3o causam muito problema, imagine s\u00f3 para os que causam?<\/p>\n<p>Reclamar de jogos e comunidades virtuais mal chega a ser um paliativo. O cerne da quest\u00e3o \u00e9 o mesmo h\u00e1 s\u00e9culos. Adolescente que n\u00e3o tem contato com adultos respons\u00e1veis corre muito mais risco de se perder nessa fase da vida. A parte cretina da personalidade \u00e9 culpa dos horm\u00f4nios e da necessidade de aprova\u00e7\u00e3o natural, mas ela pode ser combatida se esse jovem conseguir enxergar algum prop\u00f3sito na sua vida.<\/p>\n<p>Mesmo nas minhas fases mais rebeldes, eu sempre soube que pela l\u00f3gica da minha fam\u00edlia, eu tinha um futuro baseado em estudo e desenvolvimento de habilidades criativas. Havia uma base ali. Eu at\u00e9 podia encarar um \u201cambiente de maconha\u201d para me sentir mais ousado, mas se a coisa ficasse mais pesada eu j\u00e1 sabia que n\u00e3o valia a pena pra mim. Eu tinha mais o que conseguir na vida. Eu tinha uma casa pra voltar e gente que me daria aten\u00e7\u00e3o se eu precisasse. Isso muda a vis\u00e3o de um jovem. Fiz merdas? Fiz merdas. Mas sempre foi por falta de experi\u00eancia de vida, nunca por n\u00e3o ter nada a perder.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta brigar com as comunidades online, at\u00e9 porque muitas delas s\u00e3o a \u00fanica forma de conex\u00e3o de gente abandonada. Vamos ter pessoas horr\u00edveis em todas elas. Tem gente t\u00f3xica nas chans, tem gente t\u00f3xica no Instagram. Quando voc\u00ea tem suporte dos pais ou de adultos respons\u00e1veis, essa gente parece menos interessante, porque voc\u00ea tem um vis\u00e3o de futuro m\u00ednima que te controla. Quando voc\u00ea est\u00e1 largado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, n\u00e3o faz tanta diferen\u00e7a assim.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil dizer que videogame e internet causam viol\u00eancia, mas na pr\u00e1tica, \u00e9 o ser humano que est\u00e1 por tr\u00e1s disso tudo. Como sempre esteve. E seres humanos s\u00e3o complicados&#8230; especialmente se voc\u00ea n\u00e3o estiver prestando aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que a culpa \u00e9 dos outros, para dizer que antes da internet o mundo era maravilhoso, ou mesmo para dizer que o jovem tem que acabar: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta semana, tivemos um terr\u00edvel caso de assassinato: um adolescente matou uma garota a facadas, filmou o corpo e publicou na internet. O rapaz confessou o crime e j\u00e1 est\u00e1 preso. Nos v\u00eddeos da abordagem policial, ele n\u00e3o demonstrou remorso algum. 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