{"id":18129,"date":"2021-03-05T14:03:19","date_gmt":"2021-03-05T17:03:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18129"},"modified":"2021-03-05T14:03:19","modified_gmt":"2021-03-05T17:03:19","slug":"copo-meio-vazio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/03\/copo-meio-vazio\/","title":{"rendered":"Copo meio vazio."},"content":{"rendered":"<p>Jurandir j\u00e1 sentia dificuldade em alinhar a m\u00e3o com o copo de cerveja na sua frente. O movimento precisava de toda sua aten\u00e7\u00e3o, ainda mais com a luz baixa e o som alto do bar ao seu redor. Feito o contato, ele toma mais um gole, muito embora j\u00e1 n\u00e3o sinta que tem muito mais de consci\u00eancia para entorpecer depois de algumas horas de bebedeira.<!--more--><\/p>\n<p>Misturadas \u00e0 m\u00fasica ambiente, v\u00e1rias vozes, risos e gritos formam uma cacofonia cada vez mais indecifr\u00e1vel. De tempos em tempos alguma palavra se forma, seja da can\u00e7\u00e3o brega estourando nos alto-falantes ou das animadas mesas ao seu redor, o suficiente para captar sua aten\u00e7\u00e3o. Normalmente nada que o fa\u00e7a esquecer o motivo pelo qual viera at\u00e9 ali afogar suas m\u00e1goas.<\/p>\n<p>Mas dessa vez, o som da palavra \u00e9 acompanhado por uma altera\u00e7\u00e3o no seu campo visual. Uma mulher praticamente se materializa na cadeira ao lado, Jurandir incapaz de se lembrar se ela estava l\u00e1 ou n\u00e3o alguns segundos atr\u00e1s. Suas fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o permanecem fixas por muito tempo. Ela parece estar dizendo alguma coisa.<\/p>\n<p>\u201ctriste&#8230; companhia&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Jurandir estica o pesco\u00e7o em sua dire\u00e7\u00e3o, olhos esbugalhados em busca de uma confirma\u00e7\u00e3o visual. Ela tem a pele bem morena, cabelos levemente encaracolados, negros como a noite. Seus olhos s\u00e3o grandes, cor de mel. A boca se destaca com um tom muito vermelho, e quando se mexe, deixa escapar dentes manchados de batom. Ela sorri e estica a m\u00e3o em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele usa toda sua experi\u00eancia recente em acertar a posi\u00e7\u00e3o do copo de cerveja para retribuir o gesto. Suas m\u00e3os se tocam. A m\u00e3o dela \u00e9 quente, o contato \u00e9 agrad\u00e1vel, depois de tantas horas de sofrimento solit\u00e1rio. O encontro das m\u00e3os \u00e9 sinal para que ela se aproxime, arrastando a cadeira de pl\u00e1stico para seu lado. Um movimento s\u00fabito que termina com o rosto dela colado ao seu, com sua voz extremamente pr\u00f3xima dos ouvidos.<\/p>\n<p>\u201cCem reais, meu amor. Tenho um quartinho aqui perto.\u201d<\/p>\n<p>Ele perde o olhar no horizonte. As luzes do lugar est\u00e3o fora de foco e n\u00e3o param no lugar, como bolhas se formando na sua cerveja. Espera alguma resposta da pr\u00f3pria mente, mas ela n\u00e3o vem. Ele se volta para a mulher, e na falta de algo melhor para dizer, apenas acena com a cabe\u00e7a. Ela se levanta da mesa, e numa sequ\u00eancia de eventos que mal registram em sua mente, ele conversa com o gar\u00e7om, paga a conta e sai do bar acompanhado.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o do bar n\u00e3o era das melhores, mas a rua n\u00e3o era muito melhor. O dia havia sido chuvoso, o ch\u00e3o ainda com algumas po\u00e7as das quais se desviava com a ajuda de sua companheira. O c\u00e9u ainda nublado escondia o pouco de luz vindo da Lua. Apesar disso, ainda conseguia ver o sorriso dela, que segurava seu bra\u00e7o, aparentemente se divertindo com seu estado lastim\u00e1vel de embriaguez.<\/p>\n<p>Jurandir, talvez por instinto, resolve tomar a iniciativa de um beijo ali mesmo. Ela n\u00e3o oferece muita resist\u00eancia inicial, mas come\u00e7a a guiar seus bra\u00e7os para longe de seu corpo, ainda sorridente.<\/p>\n<p>\u201cA gente j\u00e1 est\u00e1 chegando, meu amor.\u201d<\/p>\n<p>Ele ri, talvez pela primeira vez no dia. Ela acompanha, mesmo que um tanto surpresa. A risada dele continua, cada vez mais alta.<\/p>\n<p>\u201cO que aconteceu?\u201d<\/p>\n<p>Ele demora mais alguns segundos para terminar o riso, e sem dizer uma palavra, busca um ma\u00e7o de cigarros surrado no bolso. Com dificuldade, pesca um deles, dobrado e amassado, e oferece para a mulher. Ela se nega, mas puxa uma caixa de f\u00f3sforos da pequena bolsa que carregava. Com uma habilidade que Jurandir com certeza n\u00e3o tinha mais naquele momento, risca um e acende o cigarro que ele segurava na boca com dificuldade. Os dois seguem seu caminho.<\/p>\n<p>A rua termina numa avenida, mas pouco antes uma viela oferece um caminho alternativo. Os dois seguem por ela, descendo alguns degraus at\u00e9 encontrarem uma rua ainda mais isolada, margeada por um c\u00f3rrego e muito mato. O movimento, no entanto, era bem maior que na rua anterior: diversos pequenos bares se apresentavam em sequ\u00eancia, com v\u00e1rias mulheres em diferentes graus de vestimenta ocupando suas entradas.<\/p>\n<p>A mulher o guia at\u00e9 um sobrado, algumas casas depois do \u00faltimo dos bares. O lugar \u00e9 escuro e o cheiro \u00e9 indecifr\u00e1vel, um misto de perfume barato, mofo e suor que s\u00f3 aumenta quanto mais se aprofundam nos corredores. O som de gemidos, gritos e risadas ocupa seus ouvidos, misturado com as dire\u00e7\u00f5es dadas pela sua companheira.<\/p>\n<p>Apenas quando entram num dos quartos e ela fecha a porta que ele consegue se concentrar novamente na voz dela.<\/p>\n<p>\u201cEu s\u00f3 fa\u00e7o com camisinha, e tem que ser das minhas. O dinheiro voc\u00ea coloca a\u00ed.\u201d<\/p>\n<p>Ele olha ao seu redor, o quarto tem apenas uma cama, de solteiro, ao seu lado um criado-mudo e na parede oposta, apenas uma cadeira pl\u00e1stica de um dos bares locais. As paredes est\u00e3o descascadas de uma pintura bege, exibindo mofo verde no cimento exposto. Uma pequena l\u00e2mpada ilumina o local, piscando de tempos em tempos. Jurandir acena com a cabe\u00e7a em concord\u00e2ncia com os termos da prostituta, e logo se senta na cama.<\/p>\n<p>Sem cerim\u00f4nia, ela levanta o vestido que usava num movimento s\u00f3, ficando apenas de calcinha. Ele finalmente presta aten\u00e7\u00e3o em seu corpo, mais atraente at\u00e9 do que estaria disposto a aceitar numa situa\u00e7\u00e3o dessas. Ela come\u00e7a a tirar os brincos e um colar dourado. Da bolsa, retira uma camisinha, que segura entre os dentes enquanto prende o cabelo num rabo-de-cavalo.<\/p>\n<p>Jurandir abre a carteira, coloca quatro notas de vinte e quatro de cinco no criado mudo. Logo come\u00e7a a tirar os sapatos. Ap\u00f3s o segundo, para e suspira, cabisbaixo.<\/p>\n<p>\u201cQuer que eu te ajude a tirar a roupa, amor?\u201d<\/p>\n<p>Ele levanta a cabe\u00e7a lentamente, fazendo contato visual. Seus olhos est\u00e3o marejados. Ela se aproxima, sentando-se ao seu lado na cama.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea quiser conversar um pouco, tudo bem&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ele sente um n\u00f3 na garganta, que se desfaz em choro rapidamente. Ele se deixa cair na cama, costas plantadas sobre o len\u00e7ol rosado. Ela se posiciona ao seu lado, de forma a segurar uma de suas m\u00e3os. Ele vira o rosto na dire\u00e7\u00e3o dela, e fala pela primeira vez:<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o queria ir embora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea vai ter que sair da cidade?\u201d \u2013 a mulher pergunta com uma express\u00e3o genu\u00edna de empatia.<\/p>\n<p>\u201cBem mais do que isso. Eu vou ter que ir embora desse mundo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDoen\u00e7a?\u201d \u2013 ela parece mais preocupada.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o. Trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Ela cerra os olhos, express\u00e3o confusa. Ele olha para o teto, a luz ainda piscando, e continua:<\/p>\n<p>\u201cEu vim de muito longe, meu trabalho \u00e9 analisar voc\u00eas. Eles me deram um corpo e uma vida para seguir. Vida dif\u00edcil, ao redor das pessoas mais pobres, era a forma que eles disseram ser mais eficiente para entender a&#8230; condi\u00e7\u00e3o humana.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAi mo\u00e7o, n\u00e3o fala essas coisas que eu fico assustada&#8230;\u201d \u2013 ela afasta as m\u00e3os dele para se cobrir com o len\u00e7ol, mas n\u00e3o sai da cama.<\/p>\n<p>\u201cSe eles quisessem fazer mal para voc\u00eas, j\u00e1 teriam feito. Eu sou s\u00f3 um pesquisador. O que n\u00e3o me disseram \u00e9 que eu teria todos os sentimentos de um nativo. Eu fiz uma vida aqui. Eu tinha uma mulher, eu tinha duas filhas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO que aconteceu com elas?\u201d<\/p>\n<p>\u201cElas sabiam demais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMo\u00e7o&#8230;\u201d \u2013 a prostituta come\u00e7a a se afastar.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o matei elas. Eu fiz elas acreditarem que eu tinha morrido alguns dias atr\u00e1s, achei menos cruel do que simplesmente sumir. Ningu\u00e9m me disse que acabava assim&#8230; aposto que era para n\u00e3o me fazer ter medo de formar rela\u00e7\u00f5es aqui. Mas e agora? O que eu fa\u00e7o? Eu vou deixar elas aqui neste planeta, neste planeta perigoso, cheio de problemas&#8230; e n\u00e3o vou poder mais proteg\u00ea-las!\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu posso dar uma olhada nelas se voc\u00ea quiser. Meu primo \u00e9 do partido, sabe? Eu digo que \u00e9 para n\u00e3o mexerem com elas.\u201d \u2013 a mulher j\u00e1 parece ter vencido o estranhamento inicial pela conversa.<\/p>\n<p>\u201cEu agrade\u00e7o, mas eu tenho certeza que daqui a algumas horas voc\u00ea s\u00f3 vai se lembrar de um cliente b\u00eabado que n\u00e3o conseguiu transar e foi embora sem dizer uma palavra. Eles v\u00e3o conseguir ver com quem eu falei e apagar as mem\u00f3rias de acordo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu vou esquecer de tudo isso?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuem s\u00e3o eles?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas que me contrataram para vir at\u00e9 aqui. Existia a lenda de um s\u00f3 planeta de onde todos n\u00f3s viemos. Uma religi\u00e3o imensa, maior que a gal\u00e1xia, apostava todas as fichas na m\u00edtica Terra. A gente encontrou uma, n\u00e3o \u00e9 a nossa, mas essa \u00e9 a realidade mais parecida que descobrimos at\u00e9 aqui. Eu sou a \u00fanica conex\u00e3o entre essas realidades. Mas meu tempo est\u00e1 acabando. A pr\u00f3xima oportunidade s\u00f3 acontece daqui h\u00e1 mil e duzentos anos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles s\u00e3o tipo pastor de igreja?\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1&#8230; sim, tipo pastor de igreja. E minha volta vai ser vista por trilh\u00f5es de pessoas! Eu tenho que estar num campo aberto ao nascer do sol, eles v\u00e3o conseguir finalmente mostrar a Terra para os fi\u00e9is. Mesmo que n\u00e3o seja exatamente a Terra que eles dizem&#8230; isso aqui \u00e9 muito diferente do que eles dizem, sabe? As pessoas daqui s\u00e3o do mesmo jeito que no tempo que eu vivo, mas eles adoram falar sobre como o povo original era puro, inocente&#8230; eu tenho certeza que v\u00e3o apagar minha mem\u00f3ria quando voltar, para s\u00f3 contar as partes que interessam.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, voc\u00ea tem menos de uma hora antes de sumir?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim. J\u00e1 deveria ter sa\u00eddo, mas me fez bem conversar um pouco antes, ter minha \u00faltima dose de humanidade verdadeira antes do show de falsidade que vou ter que fazer para eles&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cE se eles n\u00e3o te tiraram daqui nessa hora, vai demorar mil anos para poderem tentar de novo?\u201d \u2013 a mulher se aproxima novamente, como se um plano se formasse na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEu pensei nisso. Mas meu corpo pode ser desligado a qualquer momento. Se eu n\u00e3o estiver l\u00e1 na hora certa, eu simplesmente deixo de existir em todas as realidades&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cMeu pai era pastor, mo\u00e7o. Linha dura na frente da congrega\u00e7\u00e3o, mas um mentiroso em casa. Vivia enganando minha m\u00e3e e mexendo comigo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu sinto muito.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu tamb\u00e9m, mas quando eu entrei para essa vida, eu me livrei dele.\u201d<\/p>\n<p>\u201cValeu a pena?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei. S\u00f3 sei que de ficar longe dele eu nunca me arrependi.\u201d<\/p>\n<p>\u201cBom, obrigado pela conversa que voc\u00ea vai ser obrigada a esquecer. Est\u00e1 na minha hora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEspera&#8230;\u201d \u2013 a mulher se levanta da cama e pega o seu vestido da cadeira. \u201cEu vou junto.\u201d<\/p>\n<p>Alguns minutos mais tarde, no final de uma estrada de terra que terminava num pasto n\u00e3o muito longe da casa onde ambos estavam, Jurandir espera sentado no ponto mais alto do terreno, os primeiros raios do sol iluminando seu rosto num tom alaranjado. As nuvens da noite anterior se desfazem lentamente, exibindo um c\u00e9u cada vez mais claro.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7a a perceber alguns pontos de luz em forma\u00e7\u00e3o no horizonte, eles se movem em alta velocidade, cada vez mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>\u201cCastir Ezequiel Terceiro, voc\u00ea est\u00e1 sendo contatado pela Igreja da Alma Original. A sua hora do retorno se aproxima. Tr\u00eas gal\u00e1xias acompanham seus momentos finais na Terra.\u201d<\/p>\n<p>Jurandir suspira, pensando na mulher e nas filhas, que ainda devem estar chorando sua morte poucos quil\u00f4metros dali. Ele olha ao redor, observando a natureza praticamente intocada da Terra, antes de milh\u00f5es de muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas criadas em laborat\u00f3rio como as que se acostumara no mundo para o qual estava prestes a voltar.<\/p>\n<p>\u201cLevante-se, Castir! Levante-se e transfira sua consci\u00eancia de volta para esta realidade decadente, e com suas palavras e ensinamentos da Terra original, ilumine o futuro!\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o queria iluminar ningu\u00e9m. Queria mesmo era estar em casa ouvindo sua esposa reclamar da dificuldade de pagar as contas, lidando com a bagun\u00e7a que sua ca\u00e7ula sempre fazia quando brincava na sala e com a teimosia pr\u00e9-adolescente da outra filha, que parecia cirurgicamente atrelada ao seu celular. Trocaria todas as tecnologias do futuro por mais alguns momentos com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o havia escolha. Se quisesse alguma chance de voltar no futuro, precisava se manter vivo. E para manter a consci\u00eancia viva, n\u00e3o podia se recusar a voltar. Ele come\u00e7a a sentir a mente ficando leve, o processo de transfer\u00eancia de consci\u00eancia se iniciando antes de um laser vaporizar seu corpo sem deixar registros. Faltava pouco.<\/p>\n<p>\u201cESSE MUNDO \u00c9 DO CAPETA!\u201d<\/p>\n<p>Uma voz feminina invade o ambiente, era a prostituta, totalmente nua, correndo em dire\u00e7\u00e3o a Jurandir. Ele sabia que ela assistiria a transfer\u00eancia, e sabia que sua mem\u00f3ria seria apagada antes do final do processo. Mas n\u00e3o sabia que ela faria isso.<\/p>\n<p>A mulher chega rapidamente at\u00e9 ele, e do jeito como veio ao mundo, se joga no seu colo. Ela come\u00e7a a berrar e fazer movimentos absolutamente teatrais de sexo, Jurandir fica em choque. Especialmente depois que ela come\u00e7a a dizer baixarias imensas olhando bem nos seus olhos. Seus gemidos s\u00e3o muito altos.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a de Jurandir passa. Os pontos de luz desaparecem do c\u00e9u e tudo fica em sil\u00eancio. A mulher ainda continua fazendo seu teatro sexual, olhando ao redor.<\/p>\n<p>\u201cFuncionou? Ai! Isso! Mais forte!\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu acho que sim.\u201d<\/p>\n<p>Ela come\u00e7a a rir. Ele arregala os olhos.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sinto mais a conex\u00e3o. Fechou a janela de contato!\u201d<\/p>\n<p>\u201cMeu pai perdia completamente a pose quando eu entrava na igreja dele vestida que nem puta. Ele n\u00e3o conseguia nem ficar bravo, a vergonha era muito grande na hora. Quem depende de fingimento n\u00e3o sabe lidar com sentimento de verdade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles n\u00e3o conseguiram me destruir&#8230; o desespero de ver essa cena&#8230; nem apagaram nossas mem\u00f3rias&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cBom, agora voc\u00ea tem mil anos para pensar numa desculpa.\u201d<\/p>\n<p>Jurandir abra\u00e7a a mulher com for\u00e7a, felicidade correndo por suas veias depois de tantos dias de sofrimento. Ela olha bem em seus olhos e diz com a maior seriedade: <\/p>\n<p>\u201cEu vou cobrar mais uma hora.\u201d<\/p>\n<p>Os dois caem na gargalhada.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que terminou muito melhor que a m\u00e9dia dos contos, para dizer que pessoas normais perguntam o nome das outras, ou mesmo para dizer que bebida e prostitutas resolvem tudo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jurandir j\u00e1 sentia dificuldade em alinhar a m\u00e3o com o copo de cerveja na sua frente. O movimento precisava de toda sua aten\u00e7\u00e3o, ainda mais com a luz baixa e o som alto do bar ao seu redor. Feito o contato, ele toma mais um gole, muito embora j\u00e1 n\u00e3o sinta que tem muito mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":18130,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-18129","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18129","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18129\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18130"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}