{"id":18477,"date":"2021-05-26T12:39:54","date_gmt":"2021-05-26T15:39:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18477"},"modified":"2021-05-26T12:39:54","modified_gmt":"2021-05-26T15:39:54","slug":"nao-binariedade-binaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/05\/nao-binariedade-binaria\/","title":{"rendered":"N\u00e3o-binariedade bin\u00e1ria."},"content":{"rendered":"<p>Hoje apareceu uma mat\u00e9ria no UOL ensinando a usar linguagem neutra de g\u00eanero para acolher pessoas que se identificam como n\u00e3o-bin\u00e1rias. Aquela hist\u00f3ria de \u201ctodes\u201d, \u201celus\u201d e outras coisas que j\u00e1 comentamos antes. N\u00e3o vou voltar exatamente no assunto da linguagem neutra, mas sim fazer uma pergunta&#8230; vamos mesmo ter que fingir que pessoas que se dizem n\u00e3o-bin\u00e1rias s\u00e3o claramente bin\u00e1rias?<!--more--><\/p>\n<p>Para esclarecer: bin\u00e1rio significa uma divis\u00e3o entre dois estados claramente definidos. O que \u00e9 bin\u00e1rio tem duas op\u00e7\u00f5es. Nessa nova onda de sexualidades livres, a \u201cluta\u201d \u00e9 contra a obrigatoriedade de ser masculino ou feminino, pleiteando a possibilidade de existir fora dessa dualidade. A pessoa n\u00e3o quer ser definida como homem ou mulher pelos outros, quer ter o poder de estar em qualquer ponto entre as duas coisas quando quiser, ou at\u00e9 mesmo fora dessa categoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ok, eu n\u00e3o sou uma pessoa burra, eu consigo lidar com conceitos mais abstratos. O \u201cem tese\u201d de n\u00e3o ser bin\u00e1rio entra na minha cabe\u00e7a. Posso at\u00e9 n\u00e3o ter o sentimento, mas o racional aceita a possibilidade. O problema \u00e9 que todo meu sistema de defini\u00e7\u00e3o de significados atrav\u00e9s de imagens espera algo que a realidade dos n\u00e3o-bin\u00e1rios simplesmente n\u00e3o consegue entregar.<\/p>\n<p>Parece complicado, mas n\u00e3o \u00e9: imagine que temos, lado a lado, um quadrado e um c\u00edrculo. Sua mente identifica as linhas do quadrado e do c\u00edrculo como elementos diferentes. Se te pedirem para imaginar algo diferente desses dois elementos, voc\u00ea pode pensar num tri\u00e2ngulo, num losango, numa estrela&#8230; se te disserem para pensar num meio termo entre as duas formas, voc\u00ea talvez pense num quadrado com os cantos arredondados. O c\u00e9rebro tem essa capacidade de enxergar al\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando se fala em pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, o c\u00e9rebro espera uma mistura entre homem e mulher, ou algo completamente diferente. Mas na pr\u00e1tica, \u00e9 realmente dif\u00edcil que uma pessoa consiga se parecer com algo alheio \u00e0 dualidade masculina-feminina. N\u00e3o sei quanto a voc\u00eas, mas eu sempre vejo um g\u00eanero disfar\u00e7ado de outro.<\/p>\n<p>Como se tivessem desenhado um quadrado dentro do c\u00edrculo, ou um c\u00edrculo dentro do quadrado. Eu acho que \u00e9 politicamente incorreto dizer isso hoje em dia, mas&#8230; na maioria absoluta das vezes, \u00e9 muito f\u00e1cil saber qual o sexo original da pessoa. Mas muito f\u00e1cil mesmo. Eu fico me perguntando se quem \u00e9 transsexual ou n\u00e3o-bin\u00e1rio tem no\u00e7\u00e3o disso. Que salvo alguns casos extraordin\u00e1rios, todo mundo sabe qual \u00e9 a especifica\u00e7\u00e3o de f\u00e1brica da pessoa.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 um talento meu, \u00e9 coisa que at\u00e9 crian\u00e7a faz sem pensar meia vez. O ser humano tem uma no\u00e7\u00e3o clar\u00edssima de que existem dois tipos de corpos bem definidos. Pode ensinar pra crian\u00e7a que um \u00e9 \u201cGlargh\u201d e outro \u00e9 \u201cGlurgh\u201d se quiser, mas ela vai ver duas coisas obviamente diferentes. Voc\u00ea est\u00e1 vendo que \u00e9 uma mulher de cabelo curto e roupas largas, \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 um homem com cabelos longos e implantes. Sua vis\u00e3o n\u00e3o corrobora com a ideia abstrata de g\u00eanero fluido. Voc\u00ea sempre v\u00ea um ou v\u00ea outro, mesmo em casos de androginia, voc\u00ea define mentalmente como homem andr\u00f3gino ou mulher andr\u00f3gina.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe um estado de apar\u00eancia humana que seja n\u00e3o-bin\u00e1rio. Ali\u00e1s, sinto dizer, n\u00e3o existe sequer a possibilidade de se tornar visualmente indiferenci\u00e1vel do g\u00eanero oposto, por mais que alguns transsexuais cheguem muito perto. N\u00e3o com a tecnologia dispon\u00edvel atualmente. O sistema de compreens\u00e3o da realidade dentro do seu c\u00e9rebro n\u00e3o consegue evitar de definir um dos dois estados poss\u00edveis de g\u00eanero humano.<\/p>\n<p>E n\u00e3o existem exemplos visuais do que seria uma mistura perfeita ou mesmo algo fora dessa dualidade. \u00c9 mais ou menos como imaginar uma cor nova: eu consigo conceber a ideia de uma cor que nunca vi antes, mas n\u00e3o tem nada na minha mem\u00f3ria ou capacidade de imagina\u00e7\u00e3o que consiga dar conta disso. \u00c9 puramente abstrato. Eu n\u00e3o consigo demonstrar para outra pessoa como seria essa cor, e n\u00e3o consigo tomar decis\u00f5es baseadas nela.<\/p>\n<p>O \u201cespectro de cores\u201d da sexualidade humana vai de homem at\u00e9 mulher. N\u00e3o estamos equipados para perceber algo al\u00e9m disso. No m\u00e1ximo tons m\u00e9dios entre as duas cores. S\u00f3 que ao contr\u00e1rio das cores, n\u00e3o existe um estado m\u00e9dio perfeito entre homem e mulher como o roxo existe entre vermelho e azul. O ser andr\u00f3gino nunca est\u00e1 exatamente no meio, sempre parece mais vermelho ou mais azul do que propriamente roxo.<\/p>\n<p>Talvez com mais tecnologia, avan\u00e7os em gen\u00e9tica e cirurgias pl\u00e1sticas, consigamos criar esse h\u00edbrido perfeito e dar um nome, mas no final das contas, s\u00f3 vamos ter um caso de sistema trin\u00e1rio. Ainda vamos ter nomes para cada uma das etapas. Vai existir o exemplo esperado de meio termo e vamos pensar em homem, \u201cGlergh\u201d e mulher. E a\u00ed, vamos ter pessoas n\u00e3o-trin\u00e1rias?<\/p>\n<p>Estou falando tudo isso para passar a mensagem escrota deste texto: por mais que eu queira que as pessoas sejam livres e felizes, quando me pedem para lidar com a n\u00e3o-binariedade na vida real, est\u00e3o fazendo um pedido muito mais complicado do que simplesmente usar vogais mais inclusivas. Est\u00e3o pedindo para que eu traia o mecanismo de funcionamento de um c\u00e9rebro baseado em reconhecimento de padr\u00f5es. Coisa que eu at\u00e9 gostaria de ter o poder de fazer, mas infelizmente n\u00e3o tenho.<\/p>\n<p>Eu estou vendo uma mulher disfar\u00e7ada de homem ou um homem disfar\u00e7ado de mulher. At\u00e9 aqui, pod\u00edamos usar palavras como transsexuais para definir o que nossos olhos estavam vendo, mas quando se coloca nesse pacote pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, a sua percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde mais \u00e0 realidade. Voc\u00ea n\u00e3o tem d\u00favida alguma sobre qual o g\u00eanero da pessoa, mas deve suspender essa percep\u00e7\u00e3o at\u00e9 que ela comunique para voc\u00ea como quer ser tratada.<\/p>\n<p>O que muitas vezes pode \u201cesticar a corda\u201d do que estamos dispostos a fazer. Um homem barbudo dizendo que se sente mulher no momento tem o direito, mas n\u00e3o cumpre os elementos b\u00e1sicos do acordo social humano sobre ser uma mulher. N\u00e3o quero que ela seja infeliz, mas se for uma forma obviamente masculina pra mim, \u00e9 evidente que eu n\u00e3o vou conseguir adaptar todo o meu c\u00e9rebro para enxergar uma mulher ali. Eu jogo junto se a pessoa souber que existem limites.<\/p>\n<p>Mas quando a conversa avan\u00e7a para \u201ceducar as pessoas\u201d a usar linguagem neutra como se fosse o m\u00ednimo esperado para ser educado, eu come\u00e7o a duvidar se as pessoas que defendem isso entendem esses limites. Se viver numa bolha de aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o pifou alguma coisa na cabe\u00e7a delas e elas realmente acham que n\u00e3o estamos vendo o g\u00eanero de nascen\u00e7a delas. Pessoas podem se iludir se acabarem convivendo apenas com quem fa\u00e7a suas vontades.<\/p>\n<p>Eu sei que g\u00eanero a pessoa \u00e9, eu sei o que isso implica em elementos como for\u00e7a f\u00edsica&#8230; me adapto aos desejos dos outros como sempre fiz na vida, afinal, ningu\u00e9m \u00e9 uma ilha, mas simplesmente n\u00e3o d\u00e1 para ignorar a realidade. Ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o bom assim em misturar elementos masculinos e femininos para criar algo realmente diferente das duas coisas. Todo mundo est\u00e1 vendo. Todo mundo sabe nos primeiros mil\u00e9simos de segundo a qual dos lados do sistema bin\u00e1rio de g\u00eanero a pessoa pertence.<\/p>\n<p>Posso FINGIR que n\u00e3o estou vendo se isso deixa a pessoa feliz. Mas que fique clar\u00edssimo: \u00e9 fingimento. \u00c9 linguagem social. Como a gente n\u00e3o tem medo de cancelamento aqui (vai cancelar o qu\u00ea? S\u00f3 gastamos dinheiro com o Desfavor) podemos falar essas coisas, mas cada vez mais fica dif\u00edcil dar esse choque de realidade em pessoas que n\u00e3o se identificam com o g\u00eanero gen\u00e9tico delas. Se ser transsexual ou n\u00e3o-bin\u00e1rio te faz feliz, seja! Mas existe um limite pr\u00e1tico de quanto eu consigo partilhar dessa ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 disse v\u00e1rias vezes aqui: a for\u00e7a dessa onda conservadora \u00e9 diretamente proporcional ao grau de escape da realidade que muitos progressistas entraram nessa quest\u00e3o sexual. De uma certa forma, pessoas com a mente mais aberta tentaram compensar s\u00e9culos de repress\u00e3o \u201cmimando\u201d as pessoas que n\u00e3o se sentiam confort\u00e1veis com o pr\u00f3prio g\u00eanero. Sim, eu tamb\u00e9m quero dar sorvete e brinquedos para quem foi maltratado por gente est\u00fapida, mas n\u00e3o podemos esquecer que existe um mundo dif\u00edcil fora da bolha.<\/p>\n<p>E nesse mundo dif\u00edcil, coisas como linguagem neutra n\u00e3o se criam. O cidad\u00e3o m\u00e9dio vai continuar olhando para a pessoa como ela realmente se parece, e vai ficar puto da vida com a obriga\u00e7\u00e3o de fingir que est\u00e1 vendo algo que n\u00e3o existe. O fingimento deles est\u00e1 do lado da religi\u00e3o, e j\u00e1 deve ser bem cansativo. Porque se eu estou vendo claramente, mesmo tentando manter a mente muito aberta, eles com certeza est\u00e3o vendo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Transsexual e n\u00e3o-bin\u00e1rio s\u00e3o conceitos abstratos que n\u00e3o refletem um objeto da vida real. \u00c9 homem disfar\u00e7ado de mulher ou mulher disfar\u00e7ada de homem, \u00e9 quase imposs\u00edvel criar o caminho neural que leve a pessoa a n\u00e3o categorizar dentro da mente. Se j\u00e1 \u00e9 pedir muito de algu\u00e9m que quer ter a mente aberta, imagina de quem sequer conseguiria ler esse texto?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu sou transf\u00f3bico, para dizer que n\u00e3o concordar 100% \u00e9 o mesmo que ser do Estado Isl\u00e2mico, ou mesmo para dizer que \u00e9 tudo para n\u00e3o ter que ficar digitando as palavras no celular tudo de novo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje apareceu uma mat\u00e9ria no UOL ensinando a usar linguagem neutra de g\u00eanero para acolher pessoas que se identificam como n\u00e3o-bin\u00e1rias. Aquela hist\u00f3ria de \u201ctodes\u201d, \u201celus\u201d e outras coisas que j\u00e1 comentamos antes. 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