{"id":18538,"date":"2021-06-11T13:21:45","date_gmt":"2021-06-11T16:21:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18538"},"modified":"2021-06-11T13:21:45","modified_gmt":"2021-06-11T16:21:45","slug":"guerra-nas-estrelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/06\/guerra-nas-estrelas\/","title":{"rendered":"Guerra nas estrelas."},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 viu algum filme ou s\u00e9rie sobre batalhas no espa\u00e7o, com lutas entre naves, lasers e ca\u00e7as atirando freneticamente uns contra os outros. Embora crie conte\u00fado divertido de se ver, a imagina\u00e7\u00e3o da maioria dos autores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica passa longe de levar em considera\u00e7\u00e3o como civiliza\u00e7\u00f5es capazes de viagens interplanet\u00e1rias ou interestelares realmente lutariam. Ou, como t\u00edtulo alternativo para este texto: n\u00e3o fa\u00e7a inimigos em outros planetas.<!--more--><\/p>\n<p>Quase todo nosso conjunto de ideias sobre guerras espaciais \u00e9 baseado em batalhas navais. Faz sentido escrever fic\u00e7\u00e3o assim: \u00e9 algo que a maioria das pessoas entende, de alguma forma. Os nomes mais comuns para naves espaciais (fragatas, destroieres, naves de batalha) s\u00e3o simplesmente nomes de categorias de navios militares. Pegamos as lutas no mar e colocamos em \u00f3rbita.<\/p>\n<p>Isso ajuda a dar um senso de escala para as lutas, com naves maiores e menores tendo fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, e \u00e9 claro, exacerbando o papel humano nos rumos de uma guerra: as tripula\u00e7\u00f5es e os pilotos t\u00eam destaque maior se as coisas forem contadas dessa forma. Mas, na pr\u00e1tica, n\u00e3o passa de uma ferramenta para roteiristas trazerem mais emo\u00e7\u00e3o para as hist\u00f3rias que contam.<\/p>\n<p>A capacidade de construir naves capazes de viajar de um planeta ao outro presume um alto desenvolvimento tecnol\u00f3gico, se a nave conseguir ir para outra estrela ent\u00e3o&#8230; estamos falando de seres capazes de feitos de engenharia espetaculares. Se alien\u00edgenas vierem de outra estrela at\u00e9 a Terra, s\u00f3 podemos torcer para eles estarem bem-intencionados, porque n\u00e3o \u00e9 nem o equivalente aos europeus encontrando os nativos americanos, a compara\u00e7\u00e3o mais realista seria o ex\u00e9rcito americano moderno invadindo uma tribo da idade da pedra.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o precisa sair na m\u00e3o com o advers\u00e1rio, basta jogar uma bomba e vencer a batalha em segundos. Ou, se n\u00e3o quiser estragar os recursos naturais da regi\u00e3o, s\u00f3 atirar de longe antes que os selvagens tenham qualquer chance de perceber o que est\u00e1 acontecendo. Batalhas como as descritas em virtualmente todas as obras de fic\u00e7\u00e3o espacial presumem que o soldado moderno correria em dire\u00e7\u00e3o ao homem das cavernas de peito aberto e tentaria dar coronhadas nele at\u00e9 vencer.<\/p>\n<p>O que \u00e9 rid\u00edculo. Estamos vendo h\u00e1 mil\u00eanios a humanidade evoluir nas suas t\u00e1ticas militares, e todos os avan\u00e7os s\u00e3o no sentido de reduzir o risco dos seus soldados e decidir batalhas o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 motivo algum para acreditar que os humanos do futuro (ou outras esp\u00e9cies alien\u00edgenas) n\u00e3o seguiriam pelo mesmo caminho.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o \u00e9 grande, inconcebivelmente grande. E muito escuro. A maioria dos objetos soltos por essa imensid\u00e3o toda n\u00e3o emitem luz ou radia\u00e7\u00e3o suficiente para serem detectados. Mesmo com toda a tecnologia que j\u00e1 temos, s\u00f3 conseguimos ver mesmo objetos absurdamente grandes ou que reflitam bem a luz solar. S\u00f3 come\u00e7amos a perceber alguns planetas em outras estrelas bem recentemente. E mesmo assim, s\u00f3 atrav\u00e9s de perturba\u00e7\u00f5es na luz que as estrelas mandam em nossa dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe foto de nada menor que uma estrela fora do nosso sistema solar. Precisamos mandar uma sonda que viajou por anos para finalmente tirar uma foto decente de Plut\u00e3o, e ela s\u00f3 foi feita poucos anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Falo sobre isso porque o campo de batalha espacial \u00e9 t\u00e3o imenso e escuro que n\u00e3o faz sentido fazer qualquer outra coisa sen\u00e3o atirar de longe. Sua nave ou m\u00edssil v\u00e3o demorar basicamente o mesmo tempo para chegar no alvo. Mandar sua nave pode entregar sua posi\u00e7\u00e3o, mandar um tiro muito menos. Vamos presumir que o planeta A quer atacar o planeta B: o A dispara um m\u00edssil que vai demorar 20 anos para chegar no B. O m\u00edssil \u00e9 pequeno em compara\u00e7\u00e3o com uma nave, \u00e9 feito para n\u00e3o refletir luz e ficar desligado a maior parte do tempo para n\u00e3o ser diferenci\u00e1vel de uma rocha qualquer.<\/p>\n<p>Mesmo que o planeta B detecte o m\u00edssil quando estiver se aproximando e consiga presumir a trajet\u00f3ria dele, n\u00e3o vai saber quando essa trajet\u00f3ria come\u00e7ou, e se por um milagre conseguir essa informa\u00e7\u00e3o, quem atirou teve 20 anos para se movimentar desde o disparo. Imposs\u00edvel retaliar quem te atacou. Na melhor das hip\u00f3teses voc\u00ea presume quem tentou o ataque e ataca de volta na dire\u00e7\u00e3o de algo com a posi\u00e7\u00e3o definida, como um planeta.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel presumir que numa guerra se atire apenas um m\u00edssil, ainda mais se voc\u00ea tem estrutura para travar uma guerra espacial. A coisa mais l\u00f3gica \u00e9 espalhar suas naves e atirar tudo o que puder contra o advers\u00e1rio, de milhares (ou milh\u00f5es) de pontos diferentes, de forma a complicar demais a detec\u00e7\u00e3o de todos ao mesmo tempo. Se uma civiliza\u00e7\u00e3o alien\u00edgena quiser acabar com um planeta, provavelmente o alvo n\u00e3o tem chance alguma de escapar. Estar num planeta \u00e9 uma desvantagem imensa nesse sentido. Voc\u00ea \u00e9 um alvo eterno.<\/p>\n<p>Se hoje em dia os soldados s\u00e3o treinados para n\u00e3o ficar parados esperando tomar um tiro, \u00e9 de se presumir que qualquer for\u00e7a invasora n\u00e3o vai fazer que nem em filme de invas\u00e3o alien\u00edgena e estacionar \u00e0 plena vista do advers\u00e1rio, n\u00e3o? Como eu disse antes, o espa\u00e7o \u00e9 muito grande. Mesmo uma for\u00e7a invasora com milh\u00f5es de naves pode se espalhar de forma a tornar virtualmente imposs\u00edvel sua detec\u00e7\u00e3o. As forma\u00e7\u00f5es de batalha que vemos em filmes, s\u00e9ries e livros s\u00e3o completamente insanas do ponto de vista militar. Se o seu advers\u00e1rio est\u00e1 te vendo, voc\u00ea est\u00e1 fazendo tudo errado.<\/p>\n<p>E nem precisa montar uma estrutura muito avan\u00e7ada para causar problemas para o inimigo: no espa\u00e7o, n\u00e3o existe atrito com o ar para te atrapalhar, n\u00e3o s\u00f3 voc\u00ea pode fazer uma nave que \u00e9 90% armadura, como pode usar peda\u00e7os de metal ou rocha como armas. O efeito de qualquer acelera\u00e7\u00e3o num objeto resistente por milh\u00f5es de quil\u00f4metros \u00e9 sempre devastador. Voc\u00ea pode usar um foguete para acelerar uma barra de metal (tungst\u00eanio, por exemplo) a uma fra\u00e7\u00e3o da velocidade da luz, separar o foguete no meio do caminho, ainda fora de qualquer chance de detec\u00e7\u00e3o do inimigo, e deixar ele continuar at\u00e9 bater no alvo.<\/p>\n<p>Salvo uma tecnologia m\u00e1gica ainda n\u00e3o descoberta, \u00e9 imposs\u00edvel detectar algo pequeno que n\u00e3o emite luz, radia\u00e7\u00e3o ou calor. Sem atrito, a barra nem vai esquentar enquanto voa a uma velocidade absurda. E quando ela finalmente chegar perto o suficiente para ser detectada, provavelmente n\u00e3o vai dar tempo de impedi-la. O impacto de qualquer objeto acelerado a velocidades imensas \u00e9 gigantesco. Uma barra de tungst\u00eanio de algumas toneladas pode vaporizar uma cidade inteira se chegar no planeta a 20% da velocidade da luz, por exemplo. Energia \u00e9 igual massa vezes velocidade da luz ao quadrado, j\u00e1 dizia Einstein.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa de lasers e \u201craios da morte\u201d, embora com certeza seja uma tecnologia dominada por quem est\u00e1 lutando uma guerra espacial, lasers n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o invenc\u00edveis assim: precisa de uma quantidade de energia imensa para mant\u00ea-lo focado o suficiente para atravessar grandes dist\u00e2ncias. Ou voc\u00ea faz algo realmente insano como concentrar a energia de uma estrela num raio para atravessar anos-luz, ou chega perto o suficiente para o laser n\u00e3o ficar difuso demais na hora do impacto. E chegar perto o suficiente provavelmente vai ser a \u00faltima coisa que qualquer civiliza\u00e7\u00e3o do futuro vai querer fazer numa batalha. Se o seu laser \u00e9 eficiente contra eles, o laser deles vai ser eficiente contra voc\u00ea. E eles tem um planeta inteiro para gerar energia para o deles&#8230; n\u00e3o \u00e9 uma briga que voc\u00ea quer comprar.<\/p>\n<p>De uma forma curiosa, batalhas do futuro provavelmente v\u00e3o ser travadas entre dois lados arremessando objetos um contra o outro e se escondendo depois. Qualquer outra t\u00e1tica e voc\u00ea vai ser esmagado feito um inseto. Quer dizer, praticamente qualquer outra t\u00e1tica: como vemos na tecnologia de guerra humana atual, drones s\u00e3o ferramentas muito interessantes. Se voc\u00ea n\u00e3o vai perder uma vida no ataque, a sua margem de manobra \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p>Dependendo do grau de tecnologia das civiliza\u00e7\u00f5es envolvidas, \u00e9 bem prov\u00e1vel que pelo menos os primeiros ataques mais pr\u00f3ximos do advers\u00e1rio sejam feitos por intelig\u00eancias artificiais. Dificilmente com naves guiadas por controle remoto, afinal, mesmo com comunica\u00e7\u00e3o na velocidade da luz, pode demorar demais para chegar o sinal na m\u00e1quina que voc\u00ea est\u00e1 controlando. Ex\u00e9rcitos inteligentes v\u00e3o manter seres vivos a anos-luz de dist\u00e2ncia do campo de batalha. Por isso, \u00e9 bom que exista alguma forma de digitaliza\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia ou capacidade do rob\u00f4 pensar sozinho.<\/p>\n<p>Voc\u00ea trava a parte mais perigosa da guerra com m\u00e1quinas, especialmente se voc\u00ea tiver capacidade de replica\u00e7\u00e3o automatizada das suas ferramentas e armas (o que provavelmente voc\u00ea vai ter se est\u00e1 lutando uma guerra espacial). Voc\u00ea pode ocupar um asteroide ou lua do sistema estelar do advers\u00e1rio e produzir seus equipamentos l\u00e1 mesmo, para ganhar a guerra na log\u00edstica. Se o seu advers\u00e1rio n\u00e3o for uma pot\u00eancia de utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos do sistema estelar dele, n\u00e3o vai ser uma batalha muito parelha.<\/p>\n<p>E nem estamos falando de guerra biol\u00f3gica, qu\u00edmica ou mesmo de nanorob\u00f4s: coisas que podem ser enviadas com anteced\u00eancia para causar o caos no planeta inimigo antes mesmo de voc\u00ea dar um tiro. Voc\u00ea pode criar milh\u00f5es de v\u00edrus diferentes e mandar todos ao mesmo tempo, se uma fra\u00e7\u00e3o der certo, j\u00e1 n\u00e3o vai mais ter muita resist\u00eancia quando voc\u00ea mandar seus rob\u00f4s fazerem o primeiro ataque. Seres vivos podem s\u00f3 chegar d\u00e9cadas, s\u00e9culos ou mil\u00eanios depois.<\/p>\n<p>Porque tem isso: se voc\u00ea est\u00e1 viajando entre as estrelas e tem capacidade de lutar guerras contra planetas inteiros, alguma tecnologia de extens\u00e3o de vida voc\u00ea j\u00e1 desenvolveu. Algo que sempre \u00e9 esquecido em obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seres que vivem v\u00e1rios s\u00e9culos, mil\u00eanios, ou mesmo s\u00e3o imortais depois de digitalizar suas consci\u00eancias v\u00e3o ter prazos de atua\u00e7\u00e3o muito diferentes do que temos aqui na Terra hoje em dia.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea vive mil anos, um plano de duzentos anos para controlar um planeta advers\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o absurdo. Talvez demore um s\u00e9culo s\u00f3 para ter a informa\u00e7\u00e3o se o seu tiro pegou no advers\u00e1rio. A gente n\u00e3o consegue pensar nessas escalas, mas quem tem vidas muito mais longas consegue at\u00e9 mesmo desenvolver uma estrat\u00e9gia de desmoraliza\u00e7\u00e3o do inimigo por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es at\u00e9 eles aceitarem sua invas\u00e3o de bra\u00e7os abertos.<\/p>\n<p>Jogar pedras e barras de metal \u00e9 eficiente, mas se voc\u00ea n\u00e3o estiver com pressa alguma ou se quiser usar o planeta (e sua popula\u00e7\u00e3o) depois, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio assim. O principal erro da fic\u00e7\u00e3o ao falar desse tipo de batalha \u00e9 achar que as coisas precisam acontecer em uma cena ou uma p\u00e1gina. Se aqui no planeta Terra guerras duram anos e muitas vezes nada de importante acontece por meses e meses, imagine s\u00f3 se seres imortais quiserem lutar a anos-luz de dist\u00e2ncia?<\/p>\n<p>As guerras do futuro, mesmo que a humanidade esteja sozinha no universo mesmo, ser\u00e3o travadas entre intelig\u00eancias que n\u00e3o est\u00e3o ligando para divers\u00e3o, e sim para resultados. Eu poderia apostar que nunca vai existir uma batalha espacial como as imaginamos atualmente: elas n\u00e3o fazem sentido, e francamente, s\u00f3 atrapalham os dois lados.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que estava com saudade de nerdice por nerdice, para dizer que j\u00e1 estamos sendo atacados, ou mesmo para dizer que sua imagina\u00e7\u00e3o acaba de ser estragada: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 viu algum filme ou s\u00e9rie sobre batalhas no espa\u00e7o, com lutas entre naves, lasers e ca\u00e7as atirando freneticamente uns contra os outros. 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