{"id":18560,"date":"2021-06-18T15:00:11","date_gmt":"2021-06-18T18:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18560"},"modified":"2021-06-18T15:00:11","modified_gmt":"2021-06-18T18:00:11","slug":"cativeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/06\/cativeiro\/","title":{"rendered":"Cativeiro."},"content":{"rendered":"<p>Uma mulher est\u00e1 amarrada sobre o que imagina ser um colchonete, o lugar cheira mofo e suor, por isso a leve brisa que vem de uma das paredes do pequeno c\u00f4modo onde se encontra \u00e9 de grande al\u00edvio. Ela se lembra de ser abordada por alguns homens encapuzados na noite anterior, quando voltava do trabalho. O som de passos antecede a abertura da porta.<!--more--><\/p>\n<p><b>SEQUESTRADOR:<\/b> Voc\u00ea est\u00e1 com sede?<br \/>\n<b>SEQUESTRADA:<\/b> Sim&#8230;<br \/>\n<b>SEQUESTRADOR:<\/b> Aqui, um copo d\u2019\u00e1gua, levanta a m\u00e3o&#8230; isso.<br \/>\n<b>SEQUESTRADA:<\/b> Obrigada.<\/p>\n<p>A mulher leva as m\u00e3os amarradas \u00e0 boca, segurando firmemente o copo. Ela alinha a borda com os l\u00e1bios cuidadosamente, pois a venda em seus olhos a impede de fazer um movimento mais natural. Depois de um longo gole, ela estica os bra\u00e7os, oferecendo o copo de volta.<\/p>\n<p><b>SEQUESTRADOR:<\/b> Peguei.<br \/>\n<b>SEQUESTRADA:<\/b> \u00c9&#8230; mo\u00e7o&#8230; como eu te chamo?<br \/>\n<b>SEQUESTRADOR:<\/b> Pode me chamar de&#8230; de&#8230; Max.<br \/>\n<b>SEQUESTRADA:<\/b> Max&#8230; bom, voc\u00ea sabe meu nome, n\u00e9?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Sim, Ta\u00eds.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Claro, voc\u00ea me sequestrou.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Eu s\u00f3 estou cuidando de voc\u00ea.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Max, eu preciso&#8230; \u00e9&#8230; eu preciso ir no banheiro.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Pode se levantar devagar.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eu n\u00e3o vou ter que fazer aqui, n\u00e9?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> N\u00e3o, segura minha m\u00e3o e eu te levo.<\/p>\n<p>Os dois seguem por um corredor, Ta\u00eds tenta contar os passos para ter uma no\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia. Oito. Talvez uns seis dele. \u00c9 uma porta \u00e0 esquerda. O ch\u00e3o frio sob seus p\u00e9s descal\u00e7os sugere que ela est\u00e1 no lugar certo.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Eu vou deixar a porta encostada. A privada est\u00e1 logo atr\u00e1s de voc\u00ea.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Voc\u00ea pode soltar minhas m\u00e3os?<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Eu n\u00e3o consigo nem abaixar a cal\u00e7a com as m\u00e3os amarradas, quanto mais me limpar.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Ok. Mas se eu escutar qualquer barulho estranho, eu entro.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Tudo bem.<\/p>\n<p>Ta\u00eds sente suas m\u00e3os livres pela primeira vez desde a noite anterior. Ela instintivamente busca pelo rosto, se aproximando da venda.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> N\u00e3o tira a venda!<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Desculpa&#8230;<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Tudo o que voc\u00ea precisa fazer consegue fazer at\u00e9 no escuro. Quando acabar, \u00e9 s\u00f3 me chamar.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Tudo bem.<\/p>\n<p>Ela fica parada por alguns instantes, escuta passos.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Voc\u00ea j\u00e1 saiu?<\/p>\n<p>A voz de Max vem mais abafada e distante.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Sim.<\/p>\n<p>Ta\u00eds levanta a venda, apenas o suficiente para observar o ch\u00e3o. Como n\u00e3o v\u00ea sinais de companhia, levanta o resto. Quase prefere n\u00e3o ter feito isso, pois percebe como o banheiro \u00e9 imundo. A \u00fanica janela \u00e9 pequena demais para qualquer esperan\u00e7a de fuga.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Est\u00e1 tudo bem a\u00ed?<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Sim! Me d\u00e1 mais um tempo.<\/p>\n<p>Ela se senta no vaso depois de colocar alguns pap\u00e9is higi\u00eanicos de prote\u00e7\u00e3o. Enquanto se alivia, observa o banheiro em busca de algo que possa usar como arma, ou mesmo para cortar as cordas quando estiver sozinha. Em cima da pia, um pacote com alguns sabonetes, escovas de dente e tubos de pasta. Ao lado, um alicate de cortar unhas reflete a luz do sol e chama sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Vai demorar muito a\u00ed?<\/p>\n<p>Ta\u00eds come\u00e7a a pensar.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Estou entrando!<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> N\u00e3o! Espera! Eu estou&#8230; eu estou fazendo mais coisa.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Mais coisa?<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Coc\u00f4!<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Ah&#8230;<\/p>\n<p>Sil\u00eancio novamente. Ta\u00eds avan\u00e7a na ponta dos p\u00e9s at\u00e9 a pia, olhando pela fresta da porta em busca de seu sequestrador. Nem sinal. Ela pega o alicate e coloca dentro da calcinha.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Ta\u00eds?<\/p>\n<p>Ela percebe a porta se mexendo.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Espera&#8230; eu n\u00e3o acabei.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Isso est\u00e1 estranho!<\/p>\n<p>O som de algo caindo na \u00e1gua interrompe o movimento na porta. Ta\u00eds joga alguns dos sabonetes na privada, enquanto grunhe como se estivesse fazendo for\u00e7a. Ela escuta um som de hesita\u00e7\u00e3o na voz de Max, e a porta n\u00e3o se move mais.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Eu comi muito ontem&#8230;<br \/>\n<b>MAX:<\/b> N\u00e3o precisa me contar.<\/p>\n<p>Os pequenos sabonetes parecem daqueles encontrados em hot\u00e9is. Ela joga mais alguns, espera um momento e d\u00e1 a descarga.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Vai logo!<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> J\u00e1 estou indo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua come\u00e7a a subir na privada. A express\u00e3o de Ta\u00eds vai se transformando em desespero. Aquele banheiro velho n\u00e3o ia dar conta de se livrar dos sabonetes. Ela aguarda mais alguns segundos, na v\u00e3 esperan\u00e7a da descarga finalmente ter fim. A \u00e1gua come\u00e7a a transbordar. Ela pega uma toalha pendurada na parede e coloca embaixo do vaso, para abafar o som da \u00e1gua transbordando.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> S\u00f3 mais um pouquinho.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Eu vou contar at\u00e9 dez e entrar.<\/p>\n<p>Ta\u00eds est\u00e1 inclinada sobre a privada, tentando pegar os sabonetes que est\u00e3o boiando prestes a cair no ch\u00e3o. Ela consegue segurar os tr\u00eas primeiros, mas logo um escapa e come\u00e7a a navegar na \u00e1gua que se espalha pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Oito&#8230;<\/p>\n<p>Ta\u00eds abaixa as cal\u00e7as novamente e tenta com toda for\u00e7a produzir algo que prove sua mentira inicial.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Nove&#8230;<\/p>\n<p>As veias da testa come\u00e7am a saltar, seu rosto fica vermelho.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Dez. Vou entrar!<\/p>\n<p>Ta\u00eds corre para a porta e enfia a cara entre o v\u00e3o, ficando frente a frente com Max. O homem se espanta e faz men\u00e7\u00e3o de buscar uma arma na cintura.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> A privada entupiu. Eu estou tentando limpar, por favor, n\u00e3o entra. Eu estou morrendo de vergonha.<\/p>\n<p>Max vacila por alguns segundos. Ele \u00e9 um homem bem moreno, com barba por fazer e pequenos olhos negros. N\u00e3o \u00e9 muito maior do que ela. Logo ele parece realizar alguma coisa e arregala os olhos.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Voc\u00ea tirou a venda!<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eu&#8230; eu&#8230; olha&#8230; se voc\u00ea quiser procurar os coc\u00f4s que est\u00e3o nadando no ch\u00e3o, tudo bem.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> N\u00e3o&#8230; n\u00e3o. Pode&#8230; pode continuar.<\/p>\n<p>Max olha para baixo, a mulher ainda est\u00e1 com as cal\u00e7as arriadas. Ele vira o olhar por um instante. Ta\u00eds aproveita o momento para fechar a porta de vez. N\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o de tentar abrir novamente. Tempo ganho, ela volta a pensar no que fazer. Ela havia visto Max, ela sabia disso, ele sabia disso. Mas, havia algo no comportamento dele que sugeria que ele talvez n\u00e3o fosse um assassino tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Traz um pano pra mim? Vai come\u00e7ar a escorrer para fora da porta.<\/p>\n<p>Alguns instantes de sil\u00eancio do outro lado, e ela pode ouvir alguns passos, progressivamente mais baixos. Pelo menos uns doze, talvez o dobro da dist\u00e2ncia do seu cativeiro para o banheiro. Ela se aproxima da porta, abre uma pequena fresta, o suficiente para passar a cabe\u00e7a. Olha para os dois lados do corredor, nem sinal de Max.<\/p>\n<p>Ela se vira para a direita e anda o mais r\u00e1pido que pode sem fazer barulho at\u00e9 o quarto onde acreditava estar esse tempo todo. Como imaginara, h\u00e1 uma janela de tamanho decente na parede. Ela parece estar fechada apenas com um trinco interno. Com todo o cuidado, ela abre a janela. A luz do sol \u00e9 um alento para olhos cansados da escurid\u00e3o. Do lado de fora, um terreno baldio no que parece ser um bairro muito pobre.<\/p>\n<p>Mas talvez a pior vis\u00e3o seja a das grades. No condom\u00ednio onde cresceu nunca viu janelas assim.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> N\u00e3o tem pra onde ir, madame.<\/p>\n<p>Ta\u00eds se vira assustada, apontando o alicate de unha para seu sequestrador. Ele sorri e aponta para a cintura, onde um volume sugere que h\u00e1 uma arma debaixo da camisa.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Isso n\u00e3o funciona contra uma arma.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Se voc\u00ea me matar, n\u00e3o vai ganhar dinheiro.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Mo\u00e7a, eu j\u00e1 fui pago.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Como assim? Ent\u00e3o me solta!<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Eu fui pago para te prender aqui&#8230; por mais doze horas.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> H\u00e3?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Quando der dez da noite, eu vou te soltar num lugar longe da cidade.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> N\u00e3o tem resgate?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Que eu saiba, n\u00e3o.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Quem te mandou fazer isso?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Essa gente n\u00e3o d\u00e1 cart\u00e3o, mo\u00e7a. S\u00f3 sei que eram todos bacanas, chegaram num carr\u00e3o vestindo terno e gravata.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eu n\u00e3o estou entendendo nada&#8230;<\/p>\n<p>Ta\u00eds abaixa o alicate de unha, Max se aproxima pedindo para que ela levante os bra\u00e7os em sua dire\u00e7\u00e3o, o que a mulher faz sem protestar. Quando est\u00e1 com os bra\u00e7os devidamente amarrados, ela \u00e9 ajudada a se sentar no colchonete novamente.<\/p>\n<p><b>MAX:<\/b> Eu tamb\u00e9m n\u00e3o entendi nada, mo\u00e7a. Eu perguntei se voc\u00ea tinha feito alguma coisa pra eles e se queriam que desse um susto&#8230; mas disseram que n\u00e3o, que era s\u00f3 te segurar aqui.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eles disseram mais alguma coisa?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> N\u00e3o. Quer dizer&#8230; um deles falou uma coisa estranha&#8230; que voc\u00ea n\u00e3o tinha feito nada pra eles&#8230; ainda.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Ainda?<\/p>\n<p>Max faz uma express\u00e3o confusa, d\u00e1 de ombros e sai do quarto. Ta\u00eds pode escutar a porta sendo trancada. As horas se passam, e no final da tarde, ele a venda novamente e a coloca num carro. Eles andam por v\u00e1rios minutos. Max retira o cobertor que est\u00e1 sobre ela no banco traseiro e ajuda a se levantar e sair do carro.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Onde eu estou?<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Segue a estrada naquela dire\u00e7\u00e3o, tem um posto onde voc\u00ea pode ligar pra casa.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Obrigada&#8230;<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Eu n\u00e3o gosto de fazer isso n\u00e3o, mo\u00e7a. Mas eu preciso pagar as contas, e ningu\u00e9m contrata quem j\u00e1 foi preso, entende?<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eu n\u00e3o vou falar sobre voc\u00ea. Vou dizer que estava vendada o tempo todo.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Obrigado. E se te alivia um pouco, eles disseram que se eu te matasse, morreria junto. N\u00e3o que eu fosse fazer isso, mas sei l\u00e1, se eu fosse voc\u00ea eu dormiria melhor sabendo.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Eu n\u00e3o sei se me sinto melhor.<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Boa sorte, mo\u00e7a. E&#8230; aquela de jogar os sabonetes na privada foi muito esperto!<\/p>\n<p>Ta\u00eds d\u00e1 um sorriso encabulado.<\/p>\n<p><b>TA\u00cdS:<\/b> Obrigada. Foi muito vergonhoso&#8230;<br \/>\n<b>MAX:<\/b> Mas foi engenhoso. Se a janela n\u00e3o tivesse grades, voc\u00ea teria me enganado direitinho. Agora eu sei porque tinham medo do seu filho.<br \/>\n<b>TA\u00cdS:<\/b> Mas eu n\u00e3o tenho filho.<\/p>\n<p>Max fica em sil\u00eancio por alguns momentos, e entra no carro rapidamente.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o entendeu nada, para dizer que esse roteiro seria bem mais barato de filmar, ou mesmo para dizer que eu estou obcecado com fun\u00e7\u00f5es excretoras: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma mulher est\u00e1 amarrada sobre o que imagina ser um colchonete, o lugar cheira mofo e suor, por isso a leve brisa que vem de uma das paredes do pequeno c\u00f4modo onde se encontra \u00e9 de grande al\u00edvio. Ela se lembra de ser abordada por alguns homens encapuzados na noite anterior, quando voltava do trabalho. 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