{"id":18669,"date":"2021-07-16T14:31:13","date_gmt":"2021-07-16T17:31:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18669"},"modified":"2021-07-16T14:31:13","modified_gmt":"2021-07-16T17:31:13","slug":"efeito-colateral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/07\/efeito-colateral\/","title":{"rendered":"Efeito colateral."},"content":{"rendered":"<p>A minha cena preferida da s\u00e9rie Mad Men, uma sobre publicit\u00e1rios dos anos 50 e 60, \u00e9 uma onde o personagem principal tem que vender uma nova campanha para a fabricante de cigarros Lucky Strike. A empresa, preocupada com as recentes d\u00favidas sobre a seguran\u00e7a de seu produto surgindo na sociedade, queria algo novo. O publicit\u00e1rio sugere que eles comecem a dizer que o tabaco do cigarro deles \u00e9 tostado. O respons\u00e1vel pela empresa responde que todos os cigarros t\u00eam o tabaco tostado. O publicit\u00e1rio diz que n\u00e3o tem problema, afinal, ningu\u00e9m mais tinha falado disso at\u00e9 ent\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>A cena \u00e9 baseada num caso real, obviamente dramatizada para a TV, mas realmente a Lucky Strike passou muito tempo fazendo essa propaganda, divulgando algo que todos seus concorrentes faziam como se fosse um diferencial dela. Como ningu\u00e9m sabia disso, o primeiro a falar ganhou a presun\u00e7\u00e3o de ser \u00fanico, e se outras fabricantes usassem o mesmo argumento, passariam a impress\u00e3o de estar copiando a Lucky Strike, refor\u00e7ando a suposta vantagem de seu produto.<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 cheio de informa\u00e7\u00f5es que a maioria das pessoas desconhece. \u00c9 poss\u00edvel se embrenhar em um caminho imenso de complexidade para praticamente qualquer detalhe da nossa vida cotidiana. Cada pequeno objeto ao seu redor depende de conhecimento muito espec\u00edfico para ser produzido, provavelmente o \u00e1pice de d\u00e9cadas, s\u00e9culos ou mil\u00eanios de aperfei\u00e7oamento at\u00e9 chegar na forma como conhecemos.<\/p>\n<p>E desse longo caminho, s\u00f3 conhecemos algumas partes. Pudera, n\u00e3o h\u00e1 c\u00e9rebro que d\u00ea conta de acumular todo o conhecimento da humanidade at\u00e9 aqui. Muitas vezes para escrever textos do Desfavor, Sally e eu nos aprofundamos em temas aparentemente banais, mas que nos surpreendem com a quantidade de informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para sua compreens\u00e3o. Simplicidade \u00e9 uma ilus\u00e3o causada pela ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E por que eu come\u00e7o o texto falando disso? Tendo em mente que virtualmente qualquer tema que se explore tem uma quantidade avassaladora de informa\u00e7\u00f5es praticamente desconhecidas pelo cidad\u00e3o m\u00e9dio, \u00e9 relativamente f\u00e1cil pin\u00e7ar uma delas e impressionar os outros. Quando a Sally tenta destrinchar detalhes sobre o v\u00edrus e as vacinas, est\u00e1 tentando compartilhar dados que considera importantes para os leitores (eu inclu\u00eddo) tomarem melhores decis\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de usar essa complexidade para informar. Lembrem-se: estamos falando de informa\u00e7\u00f5es que a maioria das pessoas nunca teve contato. Informa\u00e7\u00f5es que normalmente s\u00e3o precedidas e seguidas por outras informa\u00e7\u00f5es igualmente desconhecidas. Voc\u00ea pode simplesmente escolher qual delas vai colocar em destaque. E como no exemplo com o qual eu abro este texto, informa\u00e7\u00f5es sem contexto podem causar impress\u00f5es erradas.<\/p>\n<p>Todos os cigarros usavam tabaco tostado, mas a Lucky Strike se apropriou disso para passar a impress\u00e3o que esse era um diferencial do seu produto. Ningu\u00e9m disse com todas as letras que os outros cigarros eram feitos de forma diferente, apenas contaram com a pessoa lendo aquela informa\u00e7\u00e3o preenchendo os buracos na sua compreens\u00e3o do tema. Talvez pela minha inclina\u00e7\u00e3o profissional, eu fico fascinado com essa ideia de manipular pessoas dizendo a verdade e deixando elas criarem uma mentira na cabe\u00e7a por conta pr\u00f3pria. Pode-se fazer isso com mentiras diretas, \u00e9 claro, mas isso nunca vai ter o mesmo potencial.<\/p>\n<p>Mentiras podem ser destru\u00eddas, verdades n\u00e3o. A \u201cm\u00e1gica\u201d da coisa est\u00e1 em deixar a pessoa impactada pela sua informa\u00e7\u00e3o criar sua pr\u00f3pria vis\u00e3o das coisas em concord\u00e2ncia com seu objetivo inicial, mas n\u00e3o colocar nenhuma informa\u00e7\u00e3o que pode ser derrubada dentro da cabe\u00e7a dela. Se algu\u00e9m tentar te dizer que todos os tabacos s\u00e3o tostados, isso n\u00e3o quebra a informa\u00e7\u00e3o inicial que Lucky Strike \u00e9 tostado.<\/p>\n<p>Cria um contexto diferente, \u00e9 claro, mas em nenhum momento voc\u00ea fica com a sensa\u00e7\u00e3o que foi enganado. O estado mental de confian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 tra\u00eddo, e \u00e9 muito comum que a pessoa ache alguma forma de reorganizar suas ideias para manter uma vis\u00e3o de mundo parecida com a que j\u00e1 tinha. Se voc\u00ea n\u00e3o ficar no p\u00e9 dela adicionando mais informa\u00e7\u00f5es ao ponto dela se tornar uma especialista em tabaco, \u00e9 quase certeza que ela se reposiciona mentalmente achando que o Lucky Strike \u00e9 mais tostado, ou \u00e9 tostado de uma forma que d\u00e1 mais sabor&#8230; alguma coisa ela arranja para n\u00e3o quebrar a ideia original. Afinal, n\u00e3o tinha uma mentira ali para causar uma rea\u00e7\u00e3o emocional.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea tem boa mem\u00f3ria, est\u00e1 se perguntando o que o t\u00edtulo do texto, \u201cEfeito colateral\u201d, tem a ver com o que eu estou falando. Bom, estamos vivendo uma pandemia para a qual j\u00e1 existe vacina, e muita gente est\u00e1 receosa com essa espetacular ferramenta de prote\u00e7\u00e3o coletiva por causa de efeitos colaterais. O que n\u00e3o \u00e9 exatamente novidade, afinal, em tempos de Revolta da Vacina, jornais publicavam charges dizendo que as pessoas que tomassem a vacina contra a var\u00edola virariam vacas. S\u00f3 que no s\u00e9culo XXI, era de se esperar um pouco mais de conhecimento sobre o tema, diminuindo a chance de rea\u00e7\u00f5es t\u00e3o negativas de uma parte consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. Poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o seguras como vacinas na medicina moderna.<\/p>\n<p>Bom, \u00e9 aqui que os temas se cruzam: dizer que vacinas tem efeitos colaterais \u00e9 dizer que o Lucky Strike \u00e9 tostado. Uma verdade utilizada para criar uma mentira dentro da cabe\u00e7a das pessoas. Tudo tem efeito colateral. Efeito colateral \u00e9 um resultado inesperado, normalmente negativo, de qualquer subst\u00e2ncia adicionada ao corpo humano. Todos os rem\u00e9dios t\u00eam efeitos colaterais. Todos os alimentos de origem vegetal ou animal tem efeitos colaterais. Todos os elementos que podem entrar em contato com o corpo humano t\u00eam efeitos colaterais.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea olhar a bula da aspirina, vai ver que existe uma chance min\u00fascula dela te matar. Se voc\u00ea prestar aten\u00e7\u00e3o na embalagem de muitos alimentos, vai ver um aviso sobre poss\u00edveis tra\u00e7os de alimentos que causam alergia em algumas pessoas. Tem gente que n\u00e3o pode com alguns tecidos porque ficam com a pele em carne viva! Efeitos colaterais s\u00e3o um fato da vida. Voc\u00ea provavelmente vai escapar de 99,99% deles, mas uma hora ou outra algum elemento externo n\u00e3o vai dar certo com a sua biologia e gerar rea\u00e7\u00f5es adversas. Eu, por exemplo, costumo encarar qualquer rem\u00e9dio ou alimento sem problemas, mas tenho uma pele escrota que empipoca por qualquer porcaria. Quando crian\u00e7a, fui parar no hospital por causa de um cobertor de l\u00e3 natural!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m \u00e9 imune a efeitos colaterais causados por fontes externas. Todos os tabacos s\u00e3o tostados! Mas, como muita gente parece n\u00e3o ter essa informa\u00e7\u00e3o bem estabelecida na cabe\u00e7a, o uso de efeitos colaterais funcionou muito bem para empurrar narrativas como a do perigo das vacinas (e at\u00e9 mesmo charlatanismos como homeopatia e tratamento precoce de Covid). Quem quer colocar na sua cabe\u00e7a a ideia de que existem agentes externos tentando te envenenar s\u00f3 precisa jogar essa informa\u00e7\u00e3o sobre efeitos colaterais no ar e te deixar preencher as lacunas sozinho.<\/p>\n<p>O corpo humano \u00e9 absurdamente complexo. Um amontoado de c\u00e9lulas variadas com incont\u00e1veis intera\u00e7\u00f5es que podem ser diferentes para cada pessoa. A medicina \u00e9 basicamente uma forma de tentar colocar alguma ordem nesse caos. Mas \u00e9 evidente que controle total sobre as fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas de um ser humano \u00e9 um objetivo imposs\u00edvel. Pelo menos com a tecnologia atual. Conseguimos avan\u00e7os impressionantes em pouco mais de dois s\u00e9culos de medicina moderna, mas o caminho \u00e9 longo, muito longo.<\/p>\n<p>O que me deixa em d\u00favida aqui, e talvez voc\u00eas possam me ajudar (sei que temos v\u00e1rios profissionais de sa\u00fade entre os impopulares) \u00e9 entender qual \u00e9 o fato mais importante na rela\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o m\u00e9dio com a medicina: se \u00e9 a total falta de conhecimento sobre o que m\u00e9dicos fazem ou se \u00e9 uma escolha consciente de fingir que ela \u00e9 m\u00e1gica e infal\u00edvel. As duas coisas explicam o ponto fraco explorado por negadores da ci\u00eancia tocando o terror sobre vacinas.<\/p>\n<p>Por um lado, \u00e9 f\u00e1cil colocar na cabe\u00e7a da pessoa uma informa\u00e7\u00e3o que ela nunca parou para pensar, como \u201cvacinas tem efeitos colaterais\u201d; por outro, talvez as pessoas at\u00e9 tenham no\u00e7\u00e3o disso, mas a sua rela\u00e7\u00e3o com a medicina \u00e9 quase que espiritual: para n\u00e3o lidar com o medo de ter algum problema que n\u00e3o pode ser resolvido, acham que m\u00e9dico e rem\u00e9dio tem que funcionar 100% das vezes sem erro nenhum, sen\u00e3o tem algo errado e tem algu\u00e9m fazendo coisa errada e\/ou armando contra elas.<\/p>\n<p>Como eu j\u00e1 tenho mais informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sei exatamente como funciona o processo em quem n\u00e3o tem. Resta-me teorizar um misto dos dois: muita gente realmente entra em choque com a realiza\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o tem tratamento m\u00e1gico e sempre vai ter uma chance das coisas darem muito errado, mas ao mesmo tempo, isso bate numa defesa mental baseada no fato de que a coisa ruim n\u00e3o pode acontecer com ela. Com essa segunda parte eu consigo me identificar bastante: tem uma parte da mente que sempre diz que que com a gente nunca vai acontecer. Talvez a parte que nos permita assumir mais riscos e permita que a humanidade continue avan\u00e7ando mesmo diante dos perigos do universo.<\/p>\n<p>Seja como for, \u00e9 um ponto fraco explorado por propagandas. Propaganda de gente que quer te deixar em d\u00favida sobre o sistema no qual voc\u00ea vive. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que quase sempre quem duvida de vacinas tamb\u00e9m enxerga conspira\u00e7\u00f5es comunistas e\/ou judias em todos os cantos. A hist\u00f3ria do efeito colateral n\u00e3o \u00e9 mentira, mas ela \u00e9 usada para criar uma narrativa dentro da cabe\u00e7a de quem a ouve: que n\u00e3o est\u00e3o te contando \u201ctoda a verdade\u201d.<\/p>\n<p>E isso \u00e9 excelente para quem quer colocar em d\u00favida um sistema democr\u00e1tico baseado em fatos cient\u00edficos bem estudados. Existe uma linha t\u00eanue na mente do cidad\u00e3o m\u00e9dio entre informa\u00e7\u00e3o que ele nunca teve contato e informa\u00e7\u00e3o que foi escondida dele. Existe uma presun\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de que se algo \u00e9 importante, algu\u00e9m teria avisado, n\u00e3o? O engra\u00e7ado \u00e9 que toda essa hist\u00f3ria de efeitos colaterais foi avisada, mas como nunca foi um ponto interessante de vendas, sempre esteve nas margens de informa\u00e7\u00f5es mais atraentes, como a capacidade de resolver problemas.<\/p>\n<p>Por motivos que s\u00e3o \u00f3bvios do ponto de vista publicit\u00e1rio, efeitos colaterais s\u00e3o letrinhas min\u00fasculas no final do comercial. Sempre estiveram l\u00e1, mas quem tinha a informa\u00e7\u00e3o preferia mant\u00ea-la mais discreta, e quem deveria conhecer a informa\u00e7\u00e3o preferia tamb\u00e9m n\u00e3o ficar pensando nisso. Quando a turma das conspira\u00e7\u00f5es de redes sociais pega os efeitos colaterais e finalmente coloca uma lupa nelas, o cidad\u00e3o m\u00e9dio \u00e9 obrigado a lidar com uma realidade muito menos confort\u00e1vel do que a que se acostumou.<\/p>\n<p>Realidade que estava debaixo de ignor\u00e2ncia, estimulada por agentes externos e por desejos internos. Todos os tabacos s\u00e3o tostados, mas ningu\u00e9m colocou isso na propaganda antes da Lucky Strike. Tudo tem efeitos colaterais, mas ningu\u00e9m chamou aten\u00e7\u00e3o para isso antes dos conspiradores. Assim como os concorrentes do cigarro americano n\u00e3o tinham muito o que fazer para expor a \u201ctecnicalidade\u201d do argumento da propaganda, os especialistas em qu\u00edmica, biologia e medicina que lidam com os antivacinas tamb\u00e9m ficam amarrados nessa mentira que tecnicamente&#8230; \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Existem riscos sim. Riscos s\u00e3o inevit\u00e1veis. Boa parte da nossa experi\u00eancia nessa vida \u00e9 escolher quais voc\u00ea quer correr, e para isso, informa\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. N\u00e3o s\u00f3 para fazer boas escolhas, como para se proteger de t\u00e1ticas testadas e aprovadas do mundo da propaganda.<\/p>\n<p>Todos s\u00e3o tostados.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu enfiei pandemia at\u00e9 nessa coluna, para dizer que o exemplo do cigarro joga contra, ou mesmo para dizer tem o direito de escolher o que \u00e9 verdade: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha cena preferida da s\u00e9rie Mad Men, uma sobre publicit\u00e1rios dos anos 50 e 60, \u00e9 uma onde o personagem principal tem que vender uma nova campanha para a fabricante de cigarros Lucky Strike. A empresa, preocupada com as recentes d\u00favidas sobre a seguran\u00e7a de seu produto surgindo na sociedade, queria algo novo. 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