{"id":18695,"date":"2021-07-23T13:31:28","date_gmt":"2021-07-23T16:31:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18695"},"modified":"2021-07-23T13:31:28","modified_gmt":"2021-07-23T16:31:28","slug":"o-embaixador-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/07\/o-embaixador-parte-2\/","title":{"rendered":"O Embaixador \u2013 Parte 2"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/07\/o-embaixador-parte-1\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">Parte 1<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>A pequena criatura peluda expele o que parecem ser litros de um l\u00edquido viscoso verde. Eduardo, ainda preso, tem que enfrentar a torrente virando o rosto para o lado, fechando com for\u00e7a olhos e boca. Infelizmente, o nariz n\u00e3o \u00e9 capaz de se fechar sozinho. O cheiro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o horr\u00edvel quanto o esperado, mas de forma alguma pode ser considerado agrad\u00e1vel: um aroma herbal ardido que toma conta do ambiente imediatamente.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cMmmmgh!\u201d \u2013 Eduardo protesta sem abrir a boca.<\/p>\n<p>\u201cShianti, que horror!\u201d \u2013 Bronco adentra a sala, express\u00e3o de nojo.<\/p>\n<p>\u201cMe&#8230; tira daqui&#8230; argh!\u201d \u2013 Ao abrir a boca, Eduardo sente um gosto horr\u00edvel, \u00e1cido.<\/p>\n<p>Bronco se aproxima lentamente, tentando evitar o l\u00edquido verde que escorre da cama para o ch\u00e3o da nave. Glau est\u00e1 desmaiado sobre a barriga do humano, cabe\u00e7a reduzida como uma bexiga rec\u00e9m esvaziada. Vacilante, o ser su\u00edno vai tirando as amarras de Eduardo, que prontamente se joga no ch\u00e3o e vai engatinhando at\u00e9 uma das paredes, colocando o m\u00e1ximo de dist\u00e2ncia entre ele e seus companheiros de viagem.<\/p>\n<p>\u201cUm deles fez isso no meu bra\u00e7o l\u00e1 no planeta deles. Arde um pouco mas passa.\u201d \u2013 Bronco arremessa uma toalha branca na dire\u00e7\u00e3o de Eduardo.<\/p>\n<p>\u201cO que&#8230; pfft&#8230; o que est\u00e1 acontecendo?\u201d<\/p>\n<p>Eduardo vai se limpando na medida do poss\u00edvel, ainda agachado num canto.<\/p>\n<p>\u201cEu achei que voc\u00ea ia acordar assustado e atacar o Glau. Eu preciso de voc\u00eas dois vivos quando chegarmos l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 entendendo, eu n\u00e3o sei nada sobre ser embaixador, eu n\u00e3o sei&#8230; nada.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 humano, n\u00edvel 2, ningu\u00e9m espera muito de voc\u00ea.\u201d \u2013 Bronco sorri.<\/p>\n<p>\u201cTinha tanta gente melhor para voc\u00ea pegar&#8230;\u201d \u2013 Eduardo cospe um pouco da gosma verde que se alojou no nariz e fez o caminho at\u00e9 a boca.<\/p>\n<p>\u201cMas eu j\u00e1 peguei. E se souberem que voc\u00ea n\u00e3o quer estar ali como embaixador da Terra, rronc&#8230; acho que v\u00e3o te congelar por alguns mil\u00eanios ou te usar para experimentos. \u00c9 bem importante que voc\u00ea diga que est\u00e1 de acordo, viu? Meu emprego e sua vida dependem disso.\u201d \u2013 Bronco diz enquanto levanta Glau do ch\u00e3o e o coloca na maca.<\/p>\n<p>Eduardo se levanta, mente um pouco mais tolerante com a situa\u00e7\u00e3o na qual se encontra. O cheiro j\u00e1 incomoda menos, o ardor na pele acalma. Ele se aproxima de Bronco, que est\u00e1 injetando alguma coisa no corpo murcho de Glau.<\/p>\n<p>\u201cEle vai ficar bem?\u201d<\/p>\n<p>\u201cRrrronc&#8230; eu acho que eles fazem isso para eliminar toxinas&#8230; ou para se reproduzir. Os glaus s\u00e3o n\u00edvel 1, tem pouca informa\u00e7\u00e3o sobre eles.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe reproduzir?\u201d \u2013 Eduardo fica ainda mais horrorizado com a gosma verde que ainda est\u00e1 sobre sua roupa.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 dar um pouco de l\u00edquido e eles voltam ao normal. Rrronc. Fica aqui olhando ele, que teve uma supernova no caminho e eu preciso desviar. J\u00e1 volto.\u201d<\/p>\n<p>Bronco vai se afastando, indo em dire\u00e7\u00e3o a um corredor. Eduardo interpela:<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 que voc\u00ea fala portugu\u00eas?\u201d<\/p>\n<p>\u201cTinha um chip na minha cabe\u00e7a fazendo a tradu\u00e7\u00e3o para as l\u00ednguas humanas. Foi um saco pra conseguir, s\u00f3 os tarados dos Cinzas que tinham um&#8230; detesto fazer neg\u00f3cio com eles.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE como eu entendia o Glau?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh, eu coloquei um chip na sua cabe\u00e7a tamb\u00e9m. Se voc\u00ea perder o movimento de algum membro, me avisa que eu ajusto, ok?\u201d<\/p>\n<p>Bronco sai da sala. Eduardo volta sua aten\u00e7\u00e3o para Glau. Uma pequena mangueira se conecta ao corpo do ser, e j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel como ele est\u00e1 inflando de volta ao tamanho original. Ele encontra uma cadeira e se senta, os olhos come\u00e7am a pesar, e antes mesmo de fazer senso da sua situa\u00e7\u00e3o, cai no sono ali mesmo.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>\u201cEduardo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEDUARDO!\u201d<\/p>\n<p>Bronco est\u00e1 diante de seus olhos, express\u00e3o compenetrada.<\/p>\n<p>\u201cChegamos. Repete&#8230; rronc&#8230; pra mim o que a gente combinou que voc\u00ea ia falar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu sou o embaixador mais condecorado da Terra.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, e que voc\u00ea se voluntariou para o cargo! Sen\u00e3o, brrr&#8230;\u201d \u2013 Bronco faz um gesto de frio cruzando os bra\u00e7os sobre o peito.<\/p>\n<p>\u201cEu vou poder voltar depois?\u201d \u2013 Eduardo pergunta.<\/p>\n<p>\u201cClaro&#8230;\u201d \u2013 Apesar das diferen\u00e7as de fisiologia entre Bronco e um ser humano, Eduardo desconfia que a express\u00e3o do su\u00edno n\u00e3o transmite muita confian\u00e7a na resposta.<\/p>\n<p>\u201cE o Glau, como ficou?\u201d<\/p>\n<p>\u201cDeve acordar logo. Voc\u00ea pode carregar ele? Eu tenho que levar um monte de coisas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Glau est\u00e1 sobre a maca, j\u00e1 com a imensa cabe\u00e7a peluda do tamanho original, olhos fechados e l\u00edngua escorrendo para fora da imensa boca aberta. Desmaiado, o ser parece at\u00e9&#8230; fofo. Eduardo se aproxima tentando encontrar a melhor forma de pegar na criatura, decidindo-se por carrega-lo sobre o peito, como se carregasse um beb\u00ea da sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Bronco pega duas grandes malas met\u00e1licas, que ao chacoalhar fazem o som de vidro batendo.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 isso?\u201d<\/p>\n<p>\u201cRrronc&#8230; \u00e9&#8230; material de&#8230; pesquisa&#8230; n\u00e3o se preocupa e me segue.\u201d<\/p>\n<p>Bronco avan\u00e7a pelo corredor, Eduardo o segue. No final dele, duas portas, em dire\u00e7\u00f5es opostas. Bronco aperta alguns bot\u00f5es do lado de uma delas, e ela se abre, deixando entrar uma luz muito mais forte que a de dentro da nave. Bronco passa pela porta, e com um sinal da cabe\u00e7a, chama Eduardo para o acompanhar.<\/p>\n<p>Passando pela porta, Eduardo demora alguns segundos para se adaptar \u00e0 luz. Quando a vista se acomoda, percebe uma cena de filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: um c\u00e9u amarelado acomoda dois pontos luminosos, um maior, outro menor, como se fossem dois s\u00f3is iluminando o planeta. V\u00e1rios pontos escuros atravessam o horizonte, apressados como formigas, em longas filas seguindo em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. Os mais pr\u00f3ximos s\u00e3o reconhec\u00edveis como naves dos mais diferentes formatos, serpenteando os imensos arranha-c\u00e9us que se espalham por onde a vista alcan\u00e7a. Cada um num formato diferente, um conflito sem fim de estilos arquitet\u00f4nicos e cores.<\/p>\n<p>Ele se percebe numa pequena plataforma suspensa no ar. Ela se conecta com um colossal edif\u00edcio de formas arredondadas que quase desaparece entre as nuvens. A percep\u00e7\u00e3o da altura na qual se encontra retesa seus m\u00fasculos, instintivamente segurando Glau com mais for\u00e7a. Bronco percebe a rea\u00e7\u00e3o assustada de Eduardo:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem como cair, olha!\u201d \u2013 Bronco toca numa superf\u00edcie invis\u00edvel como se fosse uma parede de vidro, o ponto de contato de seu dedo brilha por alguns instantes. Eduardo repete o gesto com a m\u00e3o livre, e ao sentir a resist\u00eancia, acalma-se o suficiente para seguir os passos de seu guia.<\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e9 a sede do Conselho. S\u00e3o mais de mil esp\u00e9cies com representantes aqui. Algumas n\u00e3o respiram oxig\u00eanio, cuidado em qual porta vai entrar.\u201d<\/p>\n<p>Na parte interna do edif\u00edcio, Eduardo v\u00ea um grande sal\u00e3o, teto dezenas de metros separado do ch\u00e3o. Ele segue por um corredor isolado pelas paredes invis\u00edveis, e ao seu redor, uma infinidade de seres se movimentam, aparentemente muito ocupados. Embora v\u00e1rios deles tenham caracter\u00edsticas reconhec\u00edveis como bra\u00e7os, pernas e cabe\u00e7as, uma boa quantidade est\u00e1 mais para um monstro de filme de terror do que para humanoide. Ele fita o olhar longamente num ser cheio de tent\u00e1culos, sem nenhuma defini\u00e7\u00e3o clara de como se move ou se comunica. Mesmo assim, faz ambos enquanto aparentemente conversa com bela mulher, n\u00e3o muito diferente de uma humana sen\u00e3o pela pele azulada e um chifre no meio da testa.<\/p>\n<p>\u201cEduardo, se mexe! Sen\u00e3o&#8230; rrrronc&#8230; a alf\u00e2ndega vai desconfiar da gente!\u201d \u2013 Bronco apressa o passo e chama Eduardo com um movimento de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cAlf\u00e2ndega? Tem isso aqui?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstamos em Jaivo, a capital da gal\u00e1xia! S\u00e3o bilh\u00f5es de visitantes todos os dias&#8230; e isso aqui&#8230; \u00e9 tipo a ONU do seu mundo. N\u00e3o \u00e9 qualquer coisa que pode entrar, entende?\u201d<\/p>\n<p>\u201cTudo bem&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsso aqui \u00e9 muito s\u00e9rio, n\u00e3o faz nenhuma brincadeira. Uma vez um travoxiliano brincou que estava com um agente neurol\u00f3gico classe D na bagagem e foi vaporizado antes de terminar a frase. N\u00e3o se brinca com a alf\u00e2ndega do Conselho!\u201d<\/p>\n<p>\u201cOk, tenho que ser muito s\u00e9rio. Entendido!\u201d<\/p>\n<p>Diante deles, se aproxima uma grande estrutura met\u00e1lica, formando um t\u00fanel pelo qual alguns seres passam. Eduardo reconhece como uma esp\u00e9cie de detector de metais. Um grupo de cinco ou seis seres que pode jurar serem rob\u00f4s revistam e conversam com os que tentam atravessar a estrutura. Ele pode perceber que num dos bra\u00e7os esses rob\u00f4s t\u00eam dedos, no outro algo que se parece com uma arma.<\/p>\n<p>Na frente de Eduardo, Glau e Bronco, apenas mais um ser para passar pelo detector. Um ser humanoide de mais ou menos dois metros de altura, pele bege cheia de manchas escuras, membros finos saindo de uma t\u00fanica pl\u00e1stica avermelhada. Ele carrega uma mala met\u00e1lica parecida com as de Bronco.<\/p>\n<p>O ser \u00e9 chamado por um dos rob\u00f4s, e d\u00e1 um passo a frente. Os olhos do rob\u00f4 brilham por um momento, enquanto ele olha o esqu\u00e1lido alien\u00edgena de cima a baixo.<\/p>\n<p>\u201cStajkao In Horo, 8FV99TG4446GV, voc\u00ea declara sua bagagem em concord\u00e2ncia com o C\u00f3digo Alfandeg\u00e1rio do Conselho?\u201d \u2013 a voz, rob\u00f3tica, pode ser ouvida.<\/p>\n<p>\u201cSim\u201d.<\/p>\n<p>O ser avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao t\u00fanel, mala nas m\u00e3os. Em poucos passos, o t\u00fanel se ilumina em vermelho e os rob\u00f4s correm para fechar ambas as sa\u00eddas. O som de v\u00e1rios estampidos ecoa pelo t\u00fanel, que logo fica todo escuro.<\/p>\n<p>\u201cContrabando! N\u00e3o sei porque contratam esses amadores&#8230;\u201d \u2013 Bronco diz para Eduardo com uma express\u00e3o de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cEles mataram ele?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, contrabando \u00e9 mais leve. Devem ter apenas explodido os membros. Esse vai ficar congelado por uns dois ciclos&#8230;\u201d \u2013 Bronco responde com naturalidade.<\/p>\n<p>Os rob\u00f4s saem do t\u00fanel e voltam \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es originais. Dois pequenos rob\u00f4s de limpeza v\u00eam rodando at\u00e9 o t\u00fanel, para retirar o l\u00edquido azulado que se acumulou no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPr\u00f3ximo!\u201d \u2013 o rob\u00f4 de seguran\u00e7a chama Bronco.<\/p>\n<p>\u201cDiz que as malas s\u00e3o suas, t\u00e1 bom? N\u00e3o vai dar nada errado.\u201d \u2013 Bronco larga as duas malas no ch\u00e3o e segue sem nada at\u00e9 o rob\u00f4.<\/p>\n<p>\u201cEspera!\u201d<\/p>\n<p>Bronco j\u00e1 est\u00e1 atravessando o t\u00fanel. Nenhuma altera\u00e7\u00e3o na ilumina\u00e7\u00e3o. O porco olha pelo outro lado para Eduardo e faz um sinal de j\u00f3ia com a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p><em>Continua&#8230;<\/em><\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que essa vai longe mesmo, para dizer que se n\u00e3o tiver espa\u00e7o e fluidos corporais n\u00e3o \u00e9 texto meu, ou mesmo para dizer que s\u00f3 quer saber se o Glau ficou bem: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte 1 A pequena criatura peluda expele o que parecem ser litros de um l\u00edquido viscoso verde. Eduardo, ainda preso, tem que enfrentar a torrente virando o rosto para o lado, fechando com for\u00e7a olhos e boca. Infelizmente, o nariz n\u00e3o \u00e9 capaz de se fechar sozinho. 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