{"id":18814,"date":"2021-08-20T15:02:43","date_gmt":"2021-08-20T18:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18814"},"modified":"2021-08-20T15:02:43","modified_gmt":"2021-08-20T18:02:43","slug":"descontinuidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/08\/descontinuidade\/","title":{"rendered":"Descontinuidade."},"content":{"rendered":"<p>Gustavo olhava fixamente para os carros em alta velocidade, buscando um espa\u00e7o para atravessar. A pr\u00f3xima faixa de pedestres estava h\u00e1 algumas centenas de metros de dist\u00e2ncia, e o pr\u00e9dio que ele queria visitar estava diante dele, separado apenas por quatro faixas de asfalto e uma cal\u00e7ada.<!--more--><\/p>\n<p>Os retardat\u00e1rios do pen\u00faltimo sinal verde andam devagar o suficiente para que os apressados do \u00faltimo os alcancem, criando um fluxo intermin\u00e1vel naquele ponto. Ele considera por alguns instantes se render ao caminho mais longo pela faixa, mas percebe a abertura que esperava.<\/p>\n<p>O \u00faltimo carro da fila, um Fusca azul, vem em baixa velocidade, mas logo vai ser alcan\u00e7ado pelos carros mais modernos. Gustavo calcula rapidamente e acredita que \u00e9 sua chance. Ele dispara para chegar do outro lado. Infelizmente, Gustavo calcula mal: n\u00e3o dava tempo, e agora o Fusca est\u00e1 chegando muito perto. Se ele parar, corre o risco de ser pego pelos carros que vem atr\u00e1s, se ele continuar, o risco de atropelamento \u00e9 muito alto tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ele s\u00f3 deseja que o Fusca ande um pouco mais devagar. E funciona: \u00e9 clara a desacelera\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo, o motorista deve ter percebido ele. Gustavo faz for\u00e7a nas pernas para dar a acelerada final, mas n\u00e3o percebe a diferen\u00e7a. \u00c9 como se estivesse debaixo d\u2019\u00e1gua, movimentos impedidos por uma for\u00e7a muito maior que o de costume. O carro fica ainda mais lento, e a resist\u00eancia exercida pelo seu corpo igualmente.<\/p>\n<p>Antes mesmo que possa fazer senso da situa\u00e7\u00e3o, tudo parece est\u00e1tico. O Fusca parado no asfalto, motorista com os olhos esbugalhados e os bra\u00e7os como se estivessem for\u00e7ando um desvio. Atr\u00e1s dele, os outros carros da rua igualmente parados no tempo. Gustavo tenta virar o rosto para ver o que est\u00e1 acontecendo ao seu redor, mas os m\u00fasculos n\u00e3o respondem. Ele tamb\u00e9m est\u00e1 impedido de se movimentar, campo de vis\u00e3o fixado na rua.<\/p>\n<p>Sua mente, por\u00e9m, continua funcionando na velocidade normal. O terror que come\u00e7ava a tomar conta ao perceber que poderia ser atropelado vai passando. Na verdade, nem consegue sentir seu corpo, quanto mais ter algum controle sobre ele. O sil\u00eancio \u00e9 absoluto, o que se torna em paz depois de alguns minutos. Ele tenta encontrar explica\u00e7\u00f5es, mas s\u00f3 se lembra de cenas de filmes de super-her\u00f3is. S\u00f3 que mesmo nelas, as coisas n\u00e3o paravam de vez&#8230; o que acontecia com ela era diferente.<\/p>\n<p>Por algum tempo, tentou formular teorias sobre sua situa\u00e7\u00e3o, o que o manteve ocupado por algum tempo. Sem referencial, j\u00e1 tinha perdido a no\u00e7\u00e3o de tempo, n\u00e3o sabia se estava assim h\u00e1 poucos ou muitos minutos. Ele pensou e pensou, at\u00e9 finalmente ficar entediado. Mesmo sem uma contagem precisa, ele percebe que se passam horas nessa condi\u00e7\u00e3o. O t\u00e9dio vai dando lugar \u00e0 ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Nada se move. Nenhum som. A mesma imagem dos carros parados em sua vista, e nenhum sinal de mudan\u00e7a. Gustavo at\u00e9 considera se as outras pessoas est\u00e3o assim tamb\u00e9m, se foi algo generalizado, ou se foi s\u00f3 com ele. Vai notando mais e mais figuras no horizonte. Uma mulher de pele morena e cabelos negros observando a tela do celular, com um vestido azul de motivos florais. Andando em dire\u00e7\u00e3o a ele, um senhor idoso, levantando a boina enquanto olha para o acidente prestes a acontecer. Num bar na esquina, apenas uma mesa ocupada por um homem muito gordo, banhas contidas pela cadeira de pl\u00e1stico amarela.<\/p>\n<p>O tempo passa. Gustavo decora cada elemento da cena diante de seus olhos, conta quantos pontos de ferrugem tem na lataria do fusca, as pedrinhas soltas no asfalto. Relembra escala\u00e7\u00f5es do seu time desde que nasceu, pensa nas suas comidas prediletas, lembra da primeira namorada&#8230;<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 consciente?\u201d<\/p>\n<p>Uma voz vem de dire\u00e7\u00e3o desconhecida, mas \u00e9 o primeiro som que ouve sabe-se l\u00e1 em quanto tempo, o que desperta uma rea\u00e7\u00e3o desesperada de Gustavo:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o consegue falar. Nada que dependa do corpo est\u00e1 dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cPensa no que gostaria de falar, com calma. Eu s\u00f3 estou ouvindo gritos da sua mente agora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu&#8230; sou&#8230; Gustavo&#8230; eu estou vivo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cOl\u00e1, Gustavo. Meu nome \u00e9 Chronos. Eu sou o agente respons\u00e1vel pela continuidade nessa realidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO deus grego do tempo?\u201d \u2013 Gustavo come\u00e7a a pegar o jeito de falar com a mente.<\/p>\n<p>\u201cQuase isso. E o Chronos da mitologia grega n\u00e3o era um deus. Era uma manifesta\u00e7\u00e3o do conceito de tempo.\u201d \u2013 a voz \u00e9 poderosa, mas transmite seguran\u00e7a. As palavras s\u00e3o ditas de forma met\u00f3dica e assertiva, como se fossem a leitura de um texto sagrado.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o consigo te ver, voc\u00ea pode vir para a minha frente? Eu n\u00e3o posso mexer a cabe\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu estou na sua frente. A imagem que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 a \u00faltima que seu c\u00e9rebro capturou, e por falta de continuidade, \u00e9 a que ele continua te mostrando.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO que aconteceu?\u201d<\/p>\n<p>\u201cPelo o que eu percebo da sua mente, voc\u00ea trabalha com computadores. Ent\u00e3o, numa analogia que creio que voc\u00ea v\u00e1 entender, o tempo est\u00e1 parado para uma manuten\u00e7\u00e3o programada.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea parou o tempo para consertar alguma coisa, \u00e9 isso?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem nada quebrado, Gustavo. \u00c9 parte do meu trabalho garantir isso.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE quando isso vai acabar?\u201d<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 era para ter acabado, mas eu notei uma pequena consci\u00eancia num pequeno planeta&#8230; uma consci\u00eancia escalando um time de futebol.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu fiquei entediado&#8230; mas&#8230; pera\u00ed, isso quer dizer que s\u00f3 eu estou vendo isso acontecer?\u201d \u2013 a voz mental de Gustavo come\u00e7a a ficar mais empolgada.<\/p>\n<p>\u201cSim, a chance de uma desconex\u00e3o dessas \u00e9 pequena, mas acontece. Terr\u00e1queos parecem especialmente suscet\u00edveis. Sinto muito pelo tempo que voc\u00ea ficou preso aqui. Pode ficar tranquilo que logo voc\u00ea volta \u00e0 sua vida.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o precisa, voc\u00ea acabou me salvando.\u201d<\/p>\n<p>\u201cComo assim?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu estava pensando em segurar o passo para deixar o Fusca passar. Mas se eu fizesse isso, o Corsa atr\u00e1s dele, que est\u00e1 vindo para a esquerda ultrapassar&#8230; t\u00e1 vendo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVerdade, o Corsa parece que vai te acertar mesmo. Infelizmente, voc\u00ea n\u00e3o pode voltar com a mem\u00f3ria dessa conversa.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEspera&#8230; eu posso morrer! Pera\u00ed&#8230; voc\u00ea sabe se eu vou morrer, n\u00e9? Voc\u00ea \u00e9 o dono do tempo!\u201d<\/p>\n<p>\u201cO meu trabalho \u00e9 n\u00e3o saber o futuro. Eu mantenho a flecha do tempo andando na dire\u00e7\u00e3o certa. Os humanos n\u00e3o me d\u00e3o trabalho, mas outras civiliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o mexendo com tecnologia problem\u00e1tica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea vai me deixar morrer?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sei se voc\u00ea vai morrer.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas voc\u00ea sabe que o risco \u00e9 enorme!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o fui eu que atravessei fora da faixa, n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cE a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 a morte?\u201d \u2013 Gustavo diz desesperado.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o estou te punindo. Ali\u00e1s, j\u00e1 estou me arrependendo de ter vindo me desculpar.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acredito que voc\u00ea vai fazer isso comigo, por favor&#8230; me deixa lembrar pelo menos de acelerar o passo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu tenho que parar de ficar ajudando voc\u00eas, sabe? Um dia eu ainda vou me meter em problemas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Dias depois, num bar, Gustavo bate papo com os amigos:<\/p>\n<p>\u201cPois \u00e9&#8230; eu estava atravessando a rua, estava vindo um Fusca velho, eu achei que dava para chegar antes, mas na hora n\u00e3o sei se o carro acelerou, eu achei que n\u00e3o ia dar mais&#8230; eu quase parei antes dele e deixei passar. Mas n\u00e3o sei o que deu na minha cabe\u00e7a, eu resolvi arriscar do mesmo jeito&#8230; se eu tivesse parado, o carro que vinha atr\u00e1s teria me pegado!\u201d<\/p>\n<p>Ele d\u00e1 um gole na cerveja e continua:<\/p>\n<p>\u201cA mente funciona de forma misteriosa&#8230;\u201d<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que perdeu seu tempo, para dizer que o servi\u00e7o \u00e9 sempre uma porcaria, ou mesmo para dizer que aceitava uma falha dessas para descansar: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo olhava fixamente para os carros em alta velocidade, buscando um espa\u00e7o para atravessar. A pr\u00f3xima faixa de pedestres estava h\u00e1 algumas centenas de metros de dist\u00e2ncia, e o pr\u00e9dio que ele queria visitar estava diante dele, separado apenas por quatro faixas de asfalto e uma cal\u00e7ada.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":18815,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-18814","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18814\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}