{"id":18862,"date":"2021-09-01T11:18:25","date_gmt":"2021-09-01T14:18:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18862"},"modified":"2021-09-01T11:18:25","modified_gmt":"2021-09-01T14:18:25","slug":"viagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/09\/viagens\/","title":{"rendered":"Viagens."},"content":{"rendered":"<p>Dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio se encontram em alt\u00edssima velocidade no n\u00facleo do Sol. Estavam por l\u00e1 h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, debatendo-se uns contra os outros o tempo todo, mas nunca com for\u00e7a suficiente para o encontro ser inescap\u00e1vel. Dessa vez \u00e9. O impacto \u00e9 t\u00e3o poderoso e preciso que seus n\u00facleos se fundem, ambos se tornam um \u00e1tomo de h\u00e9lio. Mas nem toda a energia que carregavam se mant\u00e9m ali. Uma parte \u00e9 expelida na forma de um f\u00f3ton.<!--more--><\/p>\n<p>Esse f\u00f3ton corre na \u00fanica velocidade que conhece: a velocidade da luz. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado das for\u00e7as presentes na colis\u00e3o dos dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio. Mas no n\u00facleo de uma estrela, \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o ser interrompido: com uma quantidade imensa de mat\u00e9ria comprimida num espa\u00e7o relativamente pequeno (para as medidas do universo), o f\u00f3ton n\u00e3o consegue se mover um cent\u00edmetro que seja sem bater em alguma coisa.<\/p>\n<p>Mesmo sem ter massa, o f\u00f3ton ainda interage com muita coisa: \u00e9 uma part\u00edcula fundamental do campo eletromagn\u00e9tico. Qualquer coisa dentro desse campo pode interagir com ele. E tudo o que conhecemos responde a essa defini\u00e7\u00e3o. S\u00f3 chamamos o resto de \u201cescuro\u201d, como em mat\u00e9ria e energia escuras, porque nem mesmo a luz \u00e9 capaz de toc\u00e1-los. E dentro do Sol, n\u00e3o falta mat\u00e9ria mais tradicional.<\/p>\n<p>Por muitos mil\u00eanios, esse f\u00f3ton quica por entre os incont\u00e1veis \u00e1tomos do n\u00facleo solar, at\u00e9 que finalmente, num golpe de sorte, sua trajet\u00f3ria o leva para uma \u00e1rea menos densa da estrela. Cada rebatida em outras part\u00edculas demora mais e mais para acontecer. E nesse meio tempo, o f\u00f3ton vai se aproximando mais e mais da fronteira entre estrela e espa\u00e7o. Mas n\u00e3o \u00e9 um caminho simples: longe disso. O Sol \u00e9 turbulento e seu campo magn\u00e9tico \u00e9 imprevis\u00edvel. Os caminhos que providencia podem levar a qualquer lugar.<\/p>\n<p>O f\u00f3ton segue o fluxo de eje\u00e7\u00e3o coron\u00e1ria, expelindo uma quantidade imensa de mat\u00e9ria no espa\u00e7o frio ao redor. Finalmente, ele pode disparar sem impedimentos. Nada al\u00e9m do v\u00e1cuo espacial no caminho. V\u00e1cuo em termos, \u00e9 claro, alguma coisa sempre tem em cada cantinho do espa\u00e7o, mas s\u00e3o elementos t\u00e3o separados uns dos outros que a chance do f\u00f3ton bater em alguma coisa \u00e9 quase nula.<\/p>\n<p>Quase. Sua trajet\u00f3ria o levaria para fora do Sistema Solar, e seriam apenas algumas horas para percorrer essa dist\u00e2ncia gigantesca. Desimpedido, o f\u00f3ton demoraria umas 14 horas para percorrer 100 vezes a dist\u00e2ncia entre Terra e Sol, alcan\u00e7ando o fim da influ\u00eancia solar e entrando para o ambiente gal\u00e1ctico. Mas logo na \u00f3rbita de Merc\u00fario, um encontro quase imposs\u00edvel acontece: o f\u00f3ton se choca com uma rara mol\u00e9cula de \u00e1gua expelida pelo planeta h\u00e1 sabe-se l\u00e1 quantos milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Merc\u00fario ainda tem um pouco de \u00e1gua, mesmo sendo bombardeado pela radia\u00e7\u00e3o solar, provavelmente restos de cometas que se chocaram com ele em algum momento de sua hist\u00f3ria. Qualquer dessas mol\u00e9culas que se aventure para fora de uma das crateras eternamente escondidas da luz solar \u00e9 rapidamente expulsa do planeta pelo vento solar, composto de in\u00fameras part\u00edculas expelidas pela estrela pr\u00f3xima. Uma delas calhou de estar bem no caminho do f\u00f3ton. A colis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 violenta ao ponto de alterar as caracter\u00edsticas de nenhum dos dois, mas \u00e9 o suficiente para mudar a trajet\u00f3ria do f\u00f3ton. A luz muda de dire\u00e7\u00e3o na \u00e1gua, mesmo que seja apenas uma mol\u00e9cula.<\/p>\n<p>E a nova trajet\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais para fora do Sistema Solar. O f\u00f3ton agora tem um encontro marcado com Saturno. Em menos de uma hora, ele j\u00e1 est\u00e1 atravessando os an\u00e9is do distante planeta, evitando cada uma das part\u00edculas de poeira e pequenos objetos que comp\u00f5em a forma\u00e7\u00e3o ao redor do gigante gasoso. Por mais que os an\u00e9is pare\u00e7am densos, na verdade voc\u00ea provavelmente veria mais espa\u00e7o vazio do que qualquer outra coisa se estivesse entre eles. S\u00f3 mesmo com muita sorte (ou azar) para acertar alguma coisa ali.<\/p>\n<p>Passando pelos an\u00e9is, s\u00e3o apenas segundos para chegar \u00e0 atmosfera saturniana. Assim como J\u00fapiter, Saturno \u00e9 basicamente hidrog\u00eanio com alguns tra\u00e7os de outras subst\u00e2ncias. Na verdade, os gigantes gasosos s\u00e3o gigantes por esse motivo: foram os primeiros a ter capacidade de absorver a maior parte da mat\u00e9ria que o Sol deixou de fazer no come\u00e7o do Sistema Solar. No universo, basicamente tudo \u00e9 hidrog\u00eanio ou h\u00e9lio, o resto nem seria estatisticamente relevante n\u00e3o fossem as formas de vida para categoriz\u00e1-las como algo importante.<\/p>\n<p>O f\u00f3ton atravessa milhares de quil\u00f4metros na atmosfera de Saturno antes de encontrar um cen\u00e1rio parecido com o da estrela da qual se originou: os \u00e1tomos de hidrog\u00eanio e h\u00e9lio come\u00e7am a ficar cada vez mais pr\u00f3ximos uns dos outros na medida que se aproximam do centro do planeta. Na verdade, at\u00e9 mudam de estado: come\u00e7am a agir mais como l\u00edquido do que como g\u00e1s. Talvez l\u00e1 na parte interna mesmo de Saturno, estejam em estado s\u00f3lido. Mas esse f\u00f3ton n\u00e3o vai saber essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo no primeiro quil\u00f4metro de hidrog\u00eanio l\u00edquido, mais um encontro, dessa vez direto. Um \u00e1tomo do elemento mais abundante reflete o f\u00f3ton de volta para onde veio. E com a mesma pressa que chegou, ele vai embora. S\u00e3o poucos segundos de novo at\u00e9 Saturno come\u00e7ar a ficar pequeno no retrovisor. E pouco mais de uma hora at\u00e9 o f\u00f3ton ter outra coisa no caminho: um planeta azulado.<\/p>\n<p>Isso \u00e9, parte dele. A outra \u00e9 quase t\u00e3o escura quanto o resto do universo, apenas com algumas luzes em pontos espec\u00edficos. O planeta Terra gira, mas o \u00e2ngulo de aproxima\u00e7\u00e3o do f\u00f3ton garante que onde quer que caia, vai cair de noite. Novamente, s\u00e3o poucos segundos de viagem entre o limite da influ\u00eancia gravitacional do planeta e sua superf\u00edcie. Mal d\u00e1 tempo de notar como a atmosfera fica densa ou como o campo magn\u00e9tico tenta desviar seu caminho. Apenas uma colis\u00e3o de \u201crasp\u00e3o\u201d nesse meio tempo. Uma mol\u00e9cula de oz\u00f4nio. Mil\u00e9simos de segundo depois, ela \u00e9 destru\u00edda por uma part\u00edcula altamente energ\u00e9tica que pode ter vindo do Sol ou qualquer outra estrela.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para pensar nisso. O f\u00f3ton n\u00e3o demora mais que uma fra\u00e7\u00e3o de segundo para acertar em cheio o espelho de um telesc\u00f3pio amador numa pequena cidade. Ele \u00e9 guiado para uma \u00e1rea limitada, junto com in\u00fameros outros f\u00f3tons vindos mais ou menos da mesma dire\u00e7\u00e3o. Unidos por uma lente, o f\u00f3ton e seus colegas fundamentais rebatem mais uma vez num espelho e adentram o olho direito de um astr\u00f4nomo amador. L\u00e1, encontram mais uma lente, mas essa \u00e9 org\u00e2nica. O f\u00f3ton \u00e9 enviado at\u00e9 o fundo do \u00f3rg\u00e3o, onde tem um encontro de meros instantes com uma c\u00e9lula sens\u00edvel \u00e0 luz. Dali ele \u00e9 refletido de volta, saindo do olho com a mesma velocidade que entrou. Para onde ele vai agora n\u00e3o sabemos.<\/p>\n<p>Mas a c\u00e9lula fotossens\u00edvel registrou sua passagem. O sinal \u00e9 transmitido para o c\u00e9rebro do astr\u00f4nomo, que analisa as caracter\u00edsticas do impacto recebido e forma uma imagem compreens\u00edvel para seu dono. Importante: a imagem \u00e9 invertida, porque chega \u201cao contr\u00e1rio\u201d no olho. A mente do ser humano interpreta livremente aquele fen\u00f4meno natural para dar significados compreens\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cQuerida, vem ver, as nuvens passaram e d\u00e1 pra ver Saturno!\u201d.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que nada faz esse assunto n\u00e3o ser chato, para dizer que eu estou po\u00e9tico hoje, ou mesmo para dizer que esse texto \u00e9 ofensivo para cegos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio se encontram em alt\u00edssima velocidade no n\u00facleo do Sol. Estavam por l\u00e1 h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, debatendo-se uns contra os outros o tempo todo, mas nunca com for\u00e7a suficiente para o encontro ser inescap\u00e1vel. Dessa vez \u00e9. 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