{"id":18870,"date":"2021-09-03T14:41:30","date_gmt":"2021-09-03T17:41:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18870"},"modified":"2021-09-03T14:41:30","modified_gmt":"2021-09-03T17:41:30","slug":"controle-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/09\/controle-da-vida\/","title":{"rendered":"Controle da vida."},"content":{"rendered":"<p>O Texas, estado dos EUA, <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2021\/09\/01\/1033202132\/texas-abortion-ban-what-happens-next\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">passou uma lei restringindo o direito ao aborto<\/a>. Embora a legisla\u00e7\u00e3o nacional ainda preveja a possibilidade, os estados t\u00eam muita liberdade para criar dificuldades para quem quer (ou precisa) realizar o procedimento. A legisla\u00e7\u00e3o texana n\u00e3o s\u00f3 cria um per\u00edodo muito reduzido para aceitar o aborto (6 semanas) como ainda permite que qualquer pessoa abra um processo contra a cl\u00ednica de aborto, e se ganhar, um pr\u00eamio de 10 mil d\u00f3lares. Ser\u00e1 que adianta alguma coisa?<!--more--><\/p>\n<p>Vejam bem, onde tem dinheiro tem vontade. Da noite para o dia cria-se uma ind\u00fastria de processos contra as cl\u00ednicas de aborto: o reclamante n\u00e3o precisa ter nenhuma conex\u00e3o com a pessoa que fez o aborto. Em tese os altos custos de entrar com uma a\u00e7\u00e3o nos EUA deveriam controlar a situa\u00e7\u00e3o, mas quem quer reprimir o aborto em geral pode se organizar para pagar pelas custas, muitos advogados v\u00e3o trabalhar de gra\u00e7a por quest\u00f5es religiosas, e considerando o pr\u00eamio, pode at\u00e9 se tornar algo lucrativo.<\/p>\n<p>J\u00e1 se tem not\u00edcias de cl\u00ednicas de aborto interrompendo seus servi\u00e7os prevendo que n\u00e3o v\u00e3o ter como aguentar os custos dos processos que fatalmente ir\u00e3o levar a partir de agora. Sim, provavelmente advogados v\u00e3o se juntar para defender essas cl\u00ednicas e criar alguma forma de equil\u00edbrio, mas convenhamos que quem era contra o aborto j\u00e1 estava muito mais organizado nos EUA, quem \u00e9 a favor no Texas vai ter que come\u00e7ar a se organizar agora.<\/p>\n<p>Trump criou uma Suprema Corte muito mais conservadora com suas indica\u00e7\u00f5es, o que coloca em xeque o prospecto de derrubar a lei texana. \u00c9 prov\u00e1vel que salvo uma troca de partido no poder do estado historicamente dominado pelos republicados, a lei continue em vigor por muito tempo. Para quem \u00e9 contr\u00e1rio ao direito do aborto, \u00e9 uma grande vit\u00f3ria. Vai criar complica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias num dos estados mais ricos e populosos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 pr\u00e1tica acredita que um ser humano est\u00e1 sendo literalmente assassinado. Por mais que eu n\u00e3o concorde com essa conclus\u00e3o, eu sou capaz de me colocar na pele de uma dessas pessoas e entender o grau de ofensa que o aborto pode gerar. Se voc\u00ea achasse que um grupo de pessoas est\u00e1 matando beb\u00eas, provavelmente tamb\u00e9m acharia que s\u00e3o pessoas muito ruins. Entendo essa parte, sou um misantropo casual, odeio pessoas quando elas fazem algo que considero ruim.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o de dif\u00edcil resolu\u00e7\u00e3o aqui: o in\u00edcio da vida. N\u00e3o que seja uma imensa complica\u00e7\u00e3o do ponto de vista cient\u00edfico, mas infelizmente a sociedade humana vai muito al\u00e9m dos fatos. Cientificamente, voc\u00ea pode definir v\u00e1rios par\u00e2metros b\u00e1sicos para considerar um ser humano vivo e ir tra\u00e7ando as linhas de corte. Socialmente, o buraco \u00e9 mais embaixo: a pessoa est\u00e1 viva a partir do momento em que algu\u00e9m a considera viva. Em linhas gerais, um embri\u00e3o pode n\u00e3o ser muito mais humano que as bact\u00e9rias do seu est\u00f4mago, mas para a pessoa que considera aquilo como uma vida humana, \u00e9 uma vida humana.<\/p>\n<p>Tem gente que acha que cachorro \u00e9 filho, tem gente que casa com boneca de silicone&#8230; o ser humano tem esse poder e maldi\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo: consegue humanizar o que bem entender. Na verdade, podemos at\u00e9 ir mais longe: conseguimos humanizar at\u00e9 mesmo ideias. A ideia de que fomos criados com um prop\u00f3sito e n\u00e3o estamos sozinhos acaba virando uma entidade m\u00e1gica humanizada. Religi\u00f5es criam representa\u00e7\u00f5es humanas de conceitos abstratos.<\/p>\n<p>E considerando que boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial acredita em pelo menos uma dessas personifica\u00e7\u00f5es de ideias, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que muita gente atribua humanidade a um punhado de c\u00e9lulas estacionadas num \u00fatero. De uma certa forma, \u00e9 vivo o que queremos que seja vivo. Ent\u00e3o, \u00e9 basicamente imposs\u00edvel usar argumentos cient\u00edficos contra os detratores do aborto. N\u00e3o \u00e9 como se eles definissem suas cren\u00e7as com essa base.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 at\u00e9 o pior caminho, porque tira da pessoa um poder imenso: o de atribuir humanidade ao que quiser. A pessoa antiaborto cria vidas com um mero pensamento. Isso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 a base da sua ideia do que configura ser humano, como tamb\u00e9m \u00e9 a raiz da sua cren\u00e7a em algo sobrenatural. Se ela n\u00e3o pode tornar vivo e humano aquele embri\u00e3o, come\u00e7a a ficar bem dif\u00edcil de defender a transforma\u00e7\u00e3o de uma ideia em uma divindade, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Deixar a \u201cci\u00eancia ganhar\u201d nesse caso pode ter consequ\u00eancias grav\u00edssimas dentro da mente da pessoa. Algo que dificilmente sua mente consciente sabe, mas \u00e9 prov\u00e1vel que esteja ao alcance do subconsciente. A rea\u00e7\u00e3o primal contra o suposto assassinato de beb\u00eas provavelmente tem ra\u00edzes bem mais ego\u00edstas. O aborto joga luz sobre uma quest\u00e3o filos\u00f3fica profunda, a qual boa parte das pessoas n\u00e3o parece capacitada para lidar.<\/p>\n<p>E isso gera um ciclo vicioso: a pessoa tem medo de se aprofundar e descobrir algo desagrad\u00e1vel, por isso fica mais e mais focada em elementos superficiais da hist\u00f3ria, o que vai gerando rea\u00e7\u00f5es cada vez mais raivosas e dif\u00edceis de se defender intelectualmente com o passar do tempo. E \u00e9 aqui que eu volto para a pergunta do par\u00e1grafo inicial: ser\u00e1 que medidas desse tipo contra o aborto realmente mudam alguma coisa?<\/p>\n<p>Sem querer generalizar, mas j\u00e1 generalizando, o p\u00fablico antiaborto normalmente n\u00e3o concorda com educa\u00e7\u00e3o sexual e medidas contraceptivas amplamente dispon\u00edveis para jovens. S\u00e3o ideias que n\u00e3o batem com as cren\u00e7as religiosas e o conceito de moral que julgam corretos para a sociedade. Voc\u00ea pode at\u00e9 achar que ser antiaborto \u00e9 ser pr\u00f3 responsabilidade, mas \u00e9 muito mais simples: \u00e9 literalmente a ideia de que pessoas est\u00e3o matando beb\u00eas. N\u00e3o importa o que vem antes e n\u00e3o importa o que acontece com o beb\u00ea depois; \u00e9 sobre aquele momento e s\u00f3 sobre ele.<\/p>\n<p>Nos EUA, muitas entidades religiosas colocam ativistas nos arredores das cl\u00ednicas de aborto, e at\u00e9 mesmo criam falsas cl\u00ednicas para tentar pegar as m\u00e3es antes delas fazerem o ato. Mas n\u00e3o est\u00e3o distribuindo camisinhas ou oferecendo outras formas de contracep\u00e7\u00e3o para as mulheres, essa parte fica intocada, porque a doutrina oficial \u00e9 n\u00e3o fazer sexo se n\u00e3o quiser ter filho. O foco \u00e9 total na mulher que est\u00e1 gr\u00e1vida e na manuten\u00e7\u00e3o daquela gesta\u00e7\u00e3o \u201cem risco\u201d.<\/p>\n<p>Se a crian\u00e7a vai virar outra pessoa que vai procurar uma cl\u00ednica de aborto quinze ou vinte anos depois, tanto faz. A miss\u00e3o era simples: evitar o aborto. Isso j\u00e1 parece marcar os \u201cpontos com Deus\u201d que tanto procuram. O resto \u00e9 resto. Eu n\u00e3o estou dizendo que acho horr\u00edveis as pessoas que s\u00e3o contra o aborto, eu tamb\u00e9m gostaria que nunca acontecesse, parece uma experi\u00eancia traum\u00e1tica para todos os envolvidos.<\/p>\n<p>Mas, tem uma diferen\u00e7a absurda entre impedir um aborto e diminuir o n\u00famero de abortos. A lei texana foi pensada por gente que quer a primeira coisa. N\u00e3o importam as consequ\u00eancias, querem impedir qualquer aborto. Ignora que antes da mulher chegar na cl\u00ednica, muita coisa aconteceu. Provavelmente muitos erros facilmente corrig\u00edveis com um pouco mais de educa\u00e7\u00e3o e estrutura. E, curiosamente, com menos mentalidade antiaborto: quando sexo se torna algo proibido e perigoso, a pessoa tende a baixar o grau de prote\u00e7\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1 muito pressionada por outros elementos sociais para pensar em coisas b\u00e1sicas como camisinha e outros anticoncepcionais.<\/p>\n<p>E, se n\u00e3o consegue ou \u00e9 demovida de fazer o aborto, a mulher corre um s\u00e9rio risco de passar essas escolhas ruins para frente. Proibi\u00e7\u00e3o de aborto tende a manter ou elevar o n\u00famero de pessoas querendo fazer aborto. Libera\u00e7\u00e3o tem a possibilidade (se unida com pol\u00edticas decentes) de reduzir o n\u00famero de pessoas que acabam naquelas cl\u00ednicas. Ou se cuidaram melhor, ou tem muito menos press\u00e3o social e vergonha daquilo para poder tomar uma decis\u00e3o mais serena. Muita mulher que abortou poderia ter sido convencida a manter a crian\u00e7a se soubesse que teria ajuda depois. Uma rede de prote\u00e7\u00e3o social decente pode reduzir bastante o n\u00famero de abortos. Mas, \u00e9 claro, o religioso moderno acha tudo isso coisa de comunista&#8230;<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o \u00e9 e nem nunca foi sobre reduzir o n\u00famero de pessoas que querem fazer abortos, \u00e9 sobre impedir que as que querem consigam. E pode ser uma ou mil mulheres, desde que a pr\u00e1tica seja proibida, para eles d\u00e1 no mesmo. Ningu\u00e9m pode desafiar sua cria\u00e7\u00e3o de vida no \u00fatero alheio, e por tabela, ningu\u00e9m pode tirar deles o poder de escolher quando o outro \u00e9 humano ou n\u00e3o. O que, convenhamos, sempre foi algo muito \u00fatil para quem tem ou almeja o poder: deixar na m\u00e3o da ci\u00eancia a defini\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 vivo e quem \u00e9 humano \u00e9 tirar muito poder das elites.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o precisem do poder de dizer quem merece viver ou morrer agora, mas se um dia precisarem, \u00e9 bom que as pessoas continuem acreditando que s\u00e3o eles que podem tomar a decis\u00e3o. O aborto tira da m\u00e3o de figuras de autoridade pol\u00edticas e especialmente religiosas a capacidade de nos dizer quem salvar e quem matar. N\u00e3o \u00e9 sobre crian\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 sobre moral, \u00e9 sobre poder.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que \u00e9 sempre sobre poder, para dizer que isso n\u00e3o chega no Brasil porque estamos atrasados demais, ou mesmo para dizer que a vida come\u00e7a quando se paga impostos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Texas, estado dos EUA, passou uma lei restringindo o direito ao aborto. Embora a legisla\u00e7\u00e3o nacional ainda preveja a possibilidade, os estados t\u00eam muita liberdade para criar dificuldades para quem quer (ou precisa) realizar o procedimento. 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