{"id":18887,"date":"2021-09-07T13:14:45","date_gmt":"2021-09-07T16:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18887"},"modified":"2021-09-07T13:14:45","modified_gmt":"2021-09-07T16:14:45","slug":"e-maluco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/09\/e-maluco\/","title":{"rendered":"\u00c9 maluco!"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o somos chegados a comemorar datas, mas hoje vou abrir uma exce\u00e7\u00e3o: estamos no chamado \u201cSetembro Amarelo\u201d, m\u00eas de conscientiza\u00e7\u00e3o e combate ao suic\u00eddio \u2013 e acreditamos que o assunto est\u00e1 sendo abordado pela \u00f3tica errada.<!--more--><\/p>\n<p>S\u00e3o registrados mais de 13 mil suic\u00eddios todos os anos no Brasil e mais de 1 milh\u00e3o no mundo. Mas, existe um dado que preocupa mais do que isso: cerca de 96,8% dos casos de suic\u00eddio que ocorrem est\u00e3o relacionados a transtornos mentais. Ent\u00e3o, para atuar no problema, \u00e9 preciso falar n\u00e3o sobre o suic\u00eddio em si, e sim sobre transtornos mentais. Do mais leve ao mais grave.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 uma pessoa com uma doen\u00e7a terminal, incur\u00e1vel e que provoca in\u00fameras mazelas decidir que n\u00e3o quer passar por esse caminho tortuoso para chegar a uma morte inevit\u00e1vel. Neste caso, n\u00e3o vemos suic\u00eddio como um problema a ser resolvido. E um recurso, ao nosso ver, v\u00e1lido. <\/p>\n<p>Outra coisa bem diferente \u00e9 uma pessoa tirar a pr\u00f3pria vida por n\u00e3o conseguir perceber que essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma de fazer o sofrimento cessar, com a mente turvada por uma doen\u00e7a mental, impedida de procurar ajuda por uma s\u00e9rie de constru\u00e7\u00f5es sociais erradas que, ou desacreditam a doen\u00e7a, ou desacreditam o tratamento.<\/p>\n<p>Quase 100% dos casos de suic\u00eddio s\u00e3o de pessoas com transtornos mentais. Ser\u00e1 que quem sofre com algum transtorno mental est\u00e1 recebendo o tratamento, reconhecimento e acolhimento que deveria na sociedade? J\u00e1 se perguntou como voc\u00ea olha, interage ou o que pensa de quem tem uma doen\u00e7a mental?<\/p>\n<p>O desfavor come\u00e7a pela turminha que banaliza doen\u00e7a mental e fica dizendo, quase que com orgulho, que tem TOC, que \u00e9 bipolar&#8230; Se voc\u00ea fosse bipolar, garanto, n\u00e3o falaria disso com leveza, nem rindo, sem de forma casual. Doen\u00e7a mental n\u00e3o \u00e9 uma mania, n\u00e3o \u00e9 um jeitinho de ser, n\u00e3o \u00e9 uma brincadeira. \u00c9 s\u00e9rio, pode ser muito sofrido e assustador. Banalizar n\u00e3o ajuda em nada.<\/p>\n<p>Mas, talvez o maior dos problemas seja a ignor\u00e2ncia generalizada, muitas vezes vinda at\u00e9 mesmo de profissionais da \u00e1rea. No Brasil, quem tem uma doen\u00e7a mental n\u00e3o incapacitante \u00e9 \u201cfresco\u201d e quem tem uma doen\u00e7a mental de alguma forma incapacitante \u00e9 basicamente \u201cmaluco\u201d. <\/p>\n<p>\u201cMaluco\u201d \u00e9 um termo pejorativo que define basicamente qualquer doen\u00e7a da mente no Brasil. \u201cMaluco\u201d, a quem interessar possa, n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, \u00e9 adjetivo, mas o termo continua sendo utilizado de forma errada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m escolhe ter uma doen\u00e7a mental. Entretanto, tratamos pior, julgamos mais e sentimos menos compaix\u00e3o por quem tem uma doen\u00e7a mental do que por quem tem uma doen\u00e7a f\u00edsica \u2013 sendo que a doen\u00e7a f\u00edsica muitas vezes \u00e9 sim fruto de escolha. <\/p>\n<p>Qual \u00e9 o nosso olhar para uma pessoa que fumou durante 30 anos de sua vida e agora est\u00e1 com c\u00e2ncer de pulm\u00e3o? Provavelmente emp\u00e1tico, compassivo, ao v\u00ea-la sem cabelos por causa de uma quimioterapia, com dificuldade para respirar. Coitada, ela \u00e9 v\u00edtima de um c\u00e2ncer. Esse \u00e9 o termo que as pessoas usam para doen\u00e7as f\u00edsicas: \u201cela \u00e9 v\u00edtima de\u201d. Ela \u00e9 v\u00edtima de um c\u00e2ncer, ele foi v\u00edtima de um infarto e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o nosso olhar para uma pessoa com uma doen\u00e7a mental s\u00e9ria? \u201cAh, \u00e9 maluco\u201d. Interna. Camisa de for\u00e7a. \u00c0s vezes sentimos medo da pessoa. \u00c0s vezes preferimos nem ver, nem ter contato. \u00c9 inc\u00f4modo, \u00e9 desagrad\u00e1vel, \u00e9 perturbador ver algu\u00e9m que n\u00e3o v\u00ea a mesma \u201crealidade\u201d que n\u00f3s vemos. Jogamos a pessoa fora, internando-a em uma institui\u00e7\u00e3o e a damos como perdida. <\/p>\n<p>Mesmo quem visita, mesmo quem ama, mesmo quem sente falta da pessoa, a d\u00e1 como perdida. \u00c9 maluco, e ponto final, como um defeito de f\u00e1brica, como uma pe\u00e7a a ser descartada. Elas n\u00e3o s\u00e3o \u201cv\u00edtima de\u201d. \u00c9 maluco, \u00e9 um caso perdido. Medica, dopa a\u00ed, vai que machuca algu\u00e9m. Isola do conv\u00edvio social, maluco tem que ficar trancado.<\/p>\n<p>Nesse contexto, n\u00e3o me espanta que em pa\u00edses como o Brasil as pessoas relutem tanto em cogitar, aceitar ou compartilhar que elas ou algu\u00e9m do seu conv\u00edvio pr\u00f3ximo sofra de alguma doen\u00e7a mental. Ningu\u00e9m quer ser v\u00edtima do carimbo de \u201c\u00c9 maluco\u201d na testa. E, no Brasil, qualquer grau de doen\u00e7a mental vira rapidamente \u201c\u00e9 maluco\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que a pessoa n\u00e3o seja disfuncional, ela vai ganhar essa presun\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 maluco, uma hora vai surtar\u201d. N\u00e3o tem nuances, n\u00e3o tem tratamento, n\u00e3o tem a t\u00e3o famosa inclus\u00e3o, pleiteada para as mais diversas categorias de pessoas. \u00c9 maluco e ponto. \u00c9 uma amea\u00e7a, \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio, \u00e9 um barril de p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Assim, diante desse estigma tatuado a sangue, ningu\u00e9m quer assumir que tem uma doen\u00e7a mental. Parece que se assumir isso, aceita o r\u00f3tulo de pessoa defeituosa, inferior, de uma amea\u00e7a que significa problemas, atuais ou potenciais. Faz parecer que a pessoa que tem uma doen\u00e7a mental \u00e9 \u201cmenos\u201d do que o resto da sociedade \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Por isso, se preciso for, a pessoa vive em um sofrimento indescrit\u00edvel, fazendo esfor\u00e7os inimagin\u00e1veis para apenas estar funcional, s\u00f3 para n\u00e3o correr o risco de ganhar um \u201c\u00e9 maluco\u201d depois do seu nome. <\/p>\n<p>Depress\u00e3o, S\u00edndrome do P\u00e2nico, Agorafobia, TOC, Esquizofrenia e tantas outras doen\u00e7as da mente (s\u00e3o muitas, mas muitas mesmo) s\u00e3o a lepra moderna: se voc\u00ea tiver, muita gente vai se afastar de voc\u00ea e ela vai te deixar marcas para o resto da vida se n\u00e3o for tratada.<\/p>\n<p>De fato, houve um tempo, n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, onde os problemas mentais eram todos jogados no mesmo saco, o saco do \u201c\u00c9 maluco\u201d, e essas pessoas eram afastadas do conv\u00edvio social, marginalizadas e tratadas como irrecuper\u00e1veis. Viviam em condi\u00e7\u00f5es deplor\u00e1veis, muitas vezes dopadas ou imobilizadas, isso quando n\u00e3o lhes era atribu\u00eddo algo ainda mais irracional, como uma possess\u00e3o demon\u00edaca ou coisa do tipo.<\/p>\n<p>Mas a sociedade evoluiu. Muito. Por\u00e9m, parece haver uma resist\u00eancia na evolu\u00e7\u00e3o no trato das doen\u00e7as mentais: ainda olhamos para pessoas com determinados problemas mentais como \u201cIh&#8230; \u00e9 maluco\u201d. Ponto. Reparem que estou constantemente falando no plural (\u201ctemos\u201d) pois eu me incluo nisso. \u00c9 algo que preciso melhorar, corrigir, rever.<\/p>\n<p>Somos mesquinhos ao formar a nossa opini\u00e3o sobre pessoas que sofrem de alguma doen\u00e7a mental. Se entrar dentro de um determinado estereotipo, \u201c\u00e9 maluco\u201d e os evitamos, os tememos, os isolamos. Mas, dependendo das nossas cren\u00e7as, das circunst\u00e2ncias e de outros fatores, passa rapidamente para o lado oposto: n\u00e3o \u00e9 maluco, \u00e9 m\u00e9dium, \u00e9 um iluminado, \u00e9 um guru. A\u00ed os admiramos. Tudo depende das alegorias que a nossa cabecinha veja neles.<\/p>\n<p>Dependendo da cren\u00e7a de quem escuta, pode ser \u201cmaluco\u201d ou pode ser uma pessoa especial. Um perigo que loucura seja t\u00e3o subjetiva, n\u00e3o? Diga a um uf\u00f3logo que viu um ET, diga a um esp\u00edrita que viu sua av\u00f3 falecida, diga a algu\u00e9m do Candombl\u00e9 que viu um Orix\u00e1. Provavelmente voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 taxado de maluco. Agora misture essas falas e diga a alegoria errada para a pessoa errada, e talvez voc\u00ea vire maluco.<\/p>\n<p>A coisa fica ainda pior: se a pessoa tiver os sintomas que convencionamos chamar de \u201cmaluco\u201d, mas, ainda assim, conseguir ganhar dinheiro, ou seja, conseguir ser uma engrenagem do sistema institu\u00eddo, sua condi\u00e7\u00e3o pode ser socialmente atenuada. Se gerar lucro ou conseguir status, essa pode ser promovida \u00e0 categoria de \u201cexc\u00eantrico\u201d. <\/p>\n<p>Tesla, Edison, Einstein, Steve Jobs, todos tinham vis\u00f5es, ouviam vozes e outros sintomas que, dependendo do seu status social poderiam facilmente ser jogados no saco do \u201c\u00e9 maluco\u201d. Mas, como conseguiam ser funcionais e ter sucesso, foram promovidos apenas a \u201cexc\u00eantricos\u201d. Isso nos faz bastante hip\u00f3critas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio termo \u201cdoente mental\u201d \u00e9 pejorativo. Quantas vezes eu mesma n\u00e3o disse \u201cOlha o que esse imbecil fez, \u00e9 um doente mental\u201d para alguma estupidez cometida. N\u00e3o me admira que as pessoas tenham tanta resist\u00eancia em procurar psic\u00f3logos, psicanalistas ou psiquiatras quando est\u00e3o se afogando em suas pr\u00f3prias vidas, quando est\u00e3o em extremo sofrimento. Ningu\u00e9m quer se vincular a algo pejorativo. Ter uma gastrite? Ok, procura um m\u00e9dico. Ter uma apendicite? Tudo bem tamb\u00e9m. Mas doen\u00e7a mental&#8230; resolve sozinho, se n\u00e3o v\u00e3o achar que voc\u00ea \u00e9 maluco!<\/p>\n<p>A pessoa n\u00e3o procura um m\u00e9dico pois ela pensa \u201cEu n\u00e3o sou maluco\u201d. Gra\u00e7as a esse estere\u00f3tipo que criamos, que o doente mental \u00e9 maluco, nasceu um conceito errado de que doen\u00e7a mental \u00e9 quase que um karma, uma desgra\u00e7a que se aparece e arru\u00edna a vida das pessoas. Repito: maluco n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, \u00e9 adjetivo. Hora de parar de usar a palavra como sin\u00f4nimo de doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Pessoas que possuem doen\u00e7as mentais s\u00e3o apenas pessoas que precisam de uma ajuda em algum aspecto de suas vidas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que para procurar um psic\u00f3logo, um psicanalista ou um psiquiatra a pessoa precise se reconhecer como \u201cmaluca\u201d, condenada, disfuncional e irrecuper\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 isso que a sociedade continua propagando. Certamente muitos de voc\u00eas j\u00e1 ouviram da boca de algu\u00e9m que a pessoa n\u00e3o vai a um psic\u00f3logo\/psicanalista\/psiquiatra pois \u201cn\u00e3o sou maluco\u201d. Tem um transtorno mental n\u00e3o \u00e9 ser maluco. \u00c9 ter uma doen\u00e7a. \u201cSer maluco\u201d n\u00e3o existe, \u00e9 um estigma errado de s\u00e9culos passados que infelizmente se arrastou at\u00e9 aqui, mas merece cair em desuso.<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 pararam para pensar no que \u00e9, tecnicamente, um \u201cmaluco\u201d? \u00c9 uma pessoa com um desequil\u00edbrio bioqu\u00edmico, com um \u00f3rg\u00e3o (o c\u00e9rebro) que talvez n\u00e3o esteja funcionando bem. Voc\u00ea julgaria um diab\u00e9tico por n\u00e3o conseguir produzir insulina? O isolaria do contato social por isso? Voc\u00ea julgaria algu\u00e9m cujo cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 batendo direito, por isso infarta? Em ess\u00eancia, s\u00e3o todas doen\u00e7as. <\/p>\n<p>Mas somos arrogantes: sabemos que n\u00e3o controlamos nosso cora\u00e7\u00e3o ou pulm\u00e3o, mas temos a ilus\u00e3o de que controlamos nossa mente ou c\u00e9rebro, ent\u00e3o, uma pessoa com uma doen\u00e7a mental \u201cfalhou\u201d em algo que ela deveria controlar. O que n\u00e3o \u00e9 verdade. Ningu\u00e9m aqui controla seu c\u00e9rebro ou sua mente. Todo mundo aqui est\u00e1 sujeito a, em algum momento da vida, ter um transtorno mental.<\/p>\n<p>Mas, Deus nos livre de pensar nisso. Deus nos livre de ter uma doen\u00e7a onde voc\u00ea n\u00e3o tem o precioso comportamento social de acordo com o esperado. A\u00ed, meus amigos, a\u00ed \u00e9 pior do que o inferno, pois nem no inferno nos \u00e9 negada companhia. <\/p>\n<p>Mexeu com as apar\u00eancias, mexeu com o pacto social de seguir certos padr\u00f5es, n\u00e3o tem perd\u00e3o: \u00e9 maluco. Tranca. Isola. Dopa. Isso, vindo de uma sociedade doente, que \u00e9 uma m\u00e1quina de fazer infelicidade, mas que insiste em que todos continuem se comportando de acordo com suas regras.<\/p>\n<p>Assim agimos, dessa forma desumana, desumanizando o \u201cmaluco\u201d. \u201c\u00c9 maluco\u201d parece querer dizer que a pessoa est\u00e1 totalmente fora da realidade e n\u00e3o sofre. \u00c9 uma entidade, \u00e9 quase que um objeto sem alma, sem consci\u00eancia, que n\u00e3o sabe quem \u00e9 nem onde est\u00e1 e n\u00e3o sente nada. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>Sofre sim, o mais \u201cmaluco dos malucos\u201d, sofre. Compartilho uma frase que escutei de uma pessoa que falava com conhecimento de causa: \u00e9 como um carro, \u00e0s vezes voc\u00ea est\u00e1 no volante dirigindo e tem controle, \u00e0s vezes, voc\u00ea \u00e9 jogado para o banco do carona e n\u00e3o controla mais. Mas voc\u00ea est\u00e1 sempre l\u00e1, vendo o que est\u00e1 acontecendo, e sente medo, dor e sofre. <\/p>\n<p>Pensem nisso quando interagirem com qualquer pessoa com um transtorno mental severo: mesmo que n\u00e3o pare\u00e7a, tem um ser humano ali, no banco do carona, vendo o que voc\u00ea faz, escutando o que voc\u00ea diz. Ent\u00e3o, mesmo que voc\u00ea ache que a pessoa n\u00e3o est\u00e1 ali, n\u00e3o est\u00e1 entendendo o que se passa, saiba que ela est\u00e1, ainda que no banco do carona. E est\u00e1 sofrendo. E assustada. E merece ser tratada como um ser humano.<\/p>\n<p>Como tratamos quem est\u00e1 l\u00e1, sentindo medo, dor e sofrendo? \u201c\u00c9 maluco\u201d. Segregando. Isolando. Fugindo do contato. Fingindo que n\u00e3o existe. Nos convencendo que n\u00e3o tem um ser humano ali, que a mente da pessoa est\u00e1 em modo avi\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1. <\/p>\n<p>Talvez ela n\u00e3o possa pedir ajuda, mas ela est\u00e1 l\u00e1, vivenciando, sentindo, sofrendo. Como viver quando tudo \u00e9 dif\u00edcil, quando tudo \u00e9 um esfor\u00e7o, quando n\u00e3o se pode compartilhar isso com algu\u00e9m ou pedir ajuda, quando nem ao menos se est\u00e1 ao volante? \u00c9 compreens\u00edvel que uma pessoa queira que esse sofrimento t\u00e3o desesperan\u00e7oso cesse, qualquer que seja o meio para isso.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que algum dia poderemos perceber que o doente mental \u00e9, em ess\u00eancia, uma pessoa com uma doen\u00e7a como outra qualquer, cujo sintoma aparece na parte comportamental? Ser\u00e1 que um dia vamos entender que o fato de precisar tomar um rem\u00e9dio para uma doen\u00e7a mental se equipara a tomar um rem\u00e9dio para colesterol ou press\u00e3o? Algo n\u00e3o funciona bem e precisa ser manejado. Por qual motivo isso seria motivo de vergonha ou fraqueza quando quem n\u00e3o funciona bem \u00e9 a mente?<\/p>\n<p>Claro, vale a ressalva, j\u00e1 que eu mesma fiz v\u00e1rios textos criticando o uso de rem\u00e9dios como muletas: se agarrar num tarja preta por uma briga com o namoradinho \u00e9 sim digno de cr\u00edticas. Faz parte da vida neste mundo eventuais sofrimentos e passar por eles nos ensina, nos fortalece, nos molda. Tomar rem\u00e9dio para fugir de qualquer sofrimento \u00e9 digno de cr\u00edticas. Tomar rem\u00e9dio por uma doen\u00e7a mental n\u00e3o. E tem um mundo de diferen\u00e7a entre eles. Um serve para anestesiar, o outro, para tratar.<\/p>\n<p>\u00c9 bem f\u00e1cil de entender a diferen\u00e7a quando pensamos friamente na doen\u00e7a mental: \u00e9 uma doen\u00e7a, e, como qualquer doen\u00e7a, precisa ser tratada para desaparecer. N\u00e3o depende de for\u00e7a de vontade, esfor\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o da pessoa. \u00c9 uma doen\u00e7a real, como qualquer outra. <\/p>\n<p>Voc\u00ea pediria a uma pessoa com apendicite que fa\u00e7a um esfor\u00e7o, que tenha for\u00e7a de vontade para curar seu ap\u00eandice? N\u00e3o, pois est\u00e1 socialmente estabelecido como uma doen\u00e7a \u201cleg\u00edtima\u201d, \u201cverdadeira\u201d, \u00e9 palp\u00e1vel, \u00e9 tang\u00edvel, tem algo f\u00edsico para atestar a doen\u00e7a: um ap\u00eandice inflamado \u00e9 visto, toc\u00e1vel, remov\u00edvel.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a mental n\u00e3o tem algo palp\u00e1vel, tang\u00edvel, salvo que seja causada por um c\u00e2ncer no c\u00e9rebro, e a\u00ed, todo mundo respeita e eventuais comportamentos estranhos s\u00e3o justificados. Mas se n\u00e3o houver algo palp\u00e1vel, tang\u00edvel, como um tumor cerebral, parece que a doen\u00e7a menta n\u00e3o tem direito ao status de \u201cdoen\u00e7a real\u201d.<\/p>\n<p>Se for uma doen\u00e7a mental, provavelmente a pessoa vai ser jogada em um dos dois extremos: 1) est\u00e1 nervosa, est\u00e1 querendo chamar a aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 car\u00eancia, \u00e9 hist\u00e9rica, isso \u00e9 coisa da sua cabe\u00e7a, \u00e9 s\u00f3 fazer um esfor\u00e7o que melhora ou 2) \u00e9 maluco. Ou seja, \u201cduvido que seja real pois n\u00e3o tenho evid\u00eancias palp\u00e1veis da doen\u00e7a\u201d, mas, \u201cse for real, \u00e9 maluco, \u00e9 um caso perdido\u201d.<\/p>\n<p>E se cair no \u201c\u00e9 maluco\u201d, cai na vala de pessoas disfuncionais e irrecuper\u00e1veis. Maluco n\u00e3o serve para nada, maluco sempre vai ser maluco, maluco \u00e9 perigoso. Tem que ter medo, tem que isolar, tem que dopar. Maluco \u00e9 senten\u00e7a perp\u00e9tua no Brasil, em uma \u00e9poca em que problemas mentais tem tratamento e pessoas podem viver com qualidade de vida se fizerem uso dos recursos que est\u00e3o \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, quando voc\u00ea cresce sob o mantra do \u201c\u00e9 maluco\u201d, muitas vezes nem imagina que existam op\u00e7\u00f5es, que existam tratamentos, que exista esperan\u00e7a. Sua escolha passa a ser: viver nesse sofrimento miser\u00e1vel que est\u00e1 sentindo ou se matar. A pessoa sente que aquele problema mental a define: \u201csou maluco\u201d. E \u00e9 uma senten\u00e7a eterna: vai ser maluco para sempre. \u00c9 pegar ou largar. E muitos largam, sem saber que essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois bem, hoje eu estou aqui para te dizer que n\u00e3o \u00e9 pegar ou largar. Para dizer que ningu\u00e9m \u201c\u00e9 maluco\u201d, muito menos portador de transtorno mental como uma senten\u00e7a. A pessoa n\u00e3o \u00c9 isso, a pessoa tem uma doen\u00e7a que causa alguns sintomas, que nem de longe definem o que ela \u00e9. E estes sintomas podem ser manejados, tratados, amenizados com in\u00fameros recursos, mesmo que, para quem os sente, pare\u00e7a que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se eu pudesse resumir, diria que vim aqui para te dizer tr\u00eas coisas hoje: <\/p>\n<p>1) sua dor\/sofrimento\/doen\u00e7a n\u00e3o define quem voc\u00ea \u00e9, em ess\u00eancia. Voc\u00ea sente isso, mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 isso. Por\u00e9m, se voc\u00ea sentir isso por tempo demais ou em intensidade demais, pode acreditar que \u00e9 isso. N\u00c3O \u00c9.<\/p>\n<p>2) Existem diferentes formas de obter ajuda, de se sentir melhor, por mais que voc\u00ea ache que n\u00e3o seja poss\u00edvel. \u00c9 POSS\u00cdVEL. <\/p>\n<p>3) dificilmente voc\u00ea vai encontrar a pessoa certa para te ajudar de primeira, pois, em mat\u00e9ria de cuidados mentais, o Brasil est\u00e1 engatinhando. Voc\u00ea vai ter que insistir, procurar, at\u00e9 encontrar bons profissionais que te ajudem. O fato deles demorarem a aparecer n\u00e3o significa que eles n\u00e3o existam. <\/p>\n<p>Eu tinha planejado ir al\u00e9m neste texto e entrar pelo caminho de: ser\u00e1 que n\u00e3o tem uma dose de arrog\u00e2ncia nossa em taxar de maluco uma pessoa que tem uma percep\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mental ou sensorial diferente da que n\u00f3s temos? Ser\u00e1 que diferentes camadas de percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma doen\u00e7a? S\u00e3o motivo para decretar que \u201c\u00e9 maluco\u201d e isolar do conv\u00edvio social? Ser\u00e1 que sempre, invariavelmente, em 100% dos casos, quem tem uma percep\u00e7\u00e3o diferente da nossa tem uma doen\u00e7a? Mas, infelizmente j\u00e1 se passaram as quatro p\u00e1ginas que comp\u00f5e este texto, meu espa\u00e7o acabou. Fica pra pr\u00f3xima.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu sou maluca, para dizer que era mais simples quando qualquer pessoa diferente era maluca e pronto ou ainda para dizer que quando \u00e9 nos outros \u00e9 maluco, mas quando \u00e9 no seu filho \u00e9 doen\u00e7a mental: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o somos chegados a comemorar datas, mas hoje vou abrir uma exce\u00e7\u00e3o: estamos no chamado \u201cSetembro Amarelo\u201d, m\u00eas de conscientiza\u00e7\u00e3o e combate ao suic\u00eddio \u2013 e acreditamos que o assunto est\u00e1 sendo abordado pela \u00f3tica errada.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-18887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-flertando-desastre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18887"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18887\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}